Um país civilizado deveria funcionar bem e oferecer segurança, conforto e praticidade para seus cidadãos, certo?. Por exemplo, não é uma exigência excessiva querer que um cidadão possa pagar uma simples conta no banco sem contratempos. 

Banco-do-Brasil

Saí de casa ontem por volta das 18h para pagar duas contas no Banco do Brasil. Junto comigo estava meu pai, que tinha que passar no mercado. As ruas estavam lotadas, o trânsito não fluía. Em uma esquina que deveria ter uma sinaleira (sinaleira é semáforo em portoalegrês), os motoristas têm que negociar um a um a passagem em três sentidos diferentes. Na seguinte também. E na seguinte. Para que ordenar o trânsito com semáforos (opa, desta vez saiu em português) se dá para deixar o motorista disputar a tapa a vez de passar, né? 

Entrei por uma viela toda esburacada e cheia de quebra-molas, como toda Ilha de Florianópolis tem, demonstrando que tem um povo tão selvagem que precisa ser contido com barreiras físicas para não se matar a mais de 40 km/h até mesmo nas grandes avenidas, e evitei umas três outras esquinas de negociação de quem passa até o mercado. Lá chegando, estacionei na rua em frente e fiquei dentro do carro esperando meu pai fazer as compras, para não ter que entrar no estacionamento, que é muito movimentado, apertado para manobrar e só tem um portão para entrada e saída. 

Feitas as compras, observei um motorista saindo do estacionamento do mercado e tentando dar a volta por trás de um ônibus que estava parado em frente ao portão de saída do estacionamento. Sim, há uma parada de ônibus na frente do portão de saída do mercado. 

Dali fomos ao Banco do Brasil. Estacionei em uma vaga milagrosamente disponível no prédio ao lado, pois o estacionamento em frente ao BB é pago. Desta vez foi meu pai quem ficou no carro enquanto eu ia pagar as minhas contas no BB. 

Primeira maravilha: meu cartão estava bloqueado. Por quê? Porque o BB decidiu me obrigar a substituir o meu cartão com fita magnética por um cartão com chip, que ele já enviou… Para meu antigo endereço em outra cidade a 550 km de distância. E, claro, eu tenho que resolver isso na minha agência, que também fica na cidade em que eu morava antes. 

Bem, havia uma opção para desbloquear o cartão – o que indica claramente que o bloqueio tinha mesmo o objetivo de me encher o saco para me forçar a trocar de cartão, não qualquer motivo de segurança – então desbloqueei o cartão e tentei pagar minhas contas. 

Segunda maravilha: só pude pagar uma das contas. Quando tentei pagar a minha segunda conta, com meu cartão, com meu dinheiro, o BB me informou que eu não poderia fazer isso naquele dia, pois eu havia excedido o valor autorizado para pagamentos naquele dia. 

Minhas contas. Meu cartão. Meu dinheiro. E o Banco do Brasil me impediu de pagar uma das minhas contas, usando meu cartão, com meu dinheiro. 

Hoje vou ter que enfrentar novamente a negociação nas esquinas sem sinaleiras, mais a dificuldade de estacionar, ou o custo do estacionamento pago, mais o maldito sistema do BB, só que dentro do horário bancário, porque a segunda conta, sozinha, é mais alta que o limite diário que o Banco do Brasil me permite dispor do meu próprio dinheiro. 

Como eu já sei em que lixo de país eu vivo, a conta não vencia ontem. Eu estava pagando com antecedência, prevendo alguma palhaçada. Qual palhaçada viria eu não sabia, mas eu sabia que alguma palhaçada viria. E veio. 

O Brasil é um país em que temos que partir do princípio de que alguma coisa sempre dará errado, porque alguma coisa sempre terá sido mal feita. Além disso, a solução provavelmente não estará disponível a tempo, ou custará caro, ou causará mais um problema, freqüentemente exigindo alguma gambiarra ou “jeitinho”. 

E seria tão fácil fazer as coisas bem feitas! 

Vejamos: 

O BB quer que eu troque de cartão por um cartão mais seguro. Certo, então por que, ao invés de bloquear meu cartão para me forçar a ir buscar outro, o BB não me possibilita, em qualquer lugar do país, usar meu cartão antigo com fita magnética e minha senha ou mesmo um dado biométrico para validar um cartão novo com chip imediatamente

O BB quer que eu tenha segurança nas operações fora do horário bancário. Certo, então por que, ao invés de inventar limites que constituem um estorvo, o BB não me fornece uma segunda senha, que funcione igualzinho à primeira, mas que ative um alarme silencioso e chame a segurança ou a polícia ou ambos imediatamente

Aliás, por que nem o Banco do Brasil, nem nenhum banco no Brasil faz isso? 

Não será pelo mesmo motivo que nos faz ter cruzamento sem sinaleiras, paradas de ônibus na frente das portas de estacionamentos movimentados e quebra-molas em ruelas esburacadas onde é impossível desenvolver 40 km/h?

Quantos outros custos, em segurança, conforto e praticidade, nos impõe essa cultura de gambiarra e jeitinho e desprezo por fazer as coisas bem feitas? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/09/2014 

10 thoughts on “Os custos da cultura do Brasil

  1. Tenho conta em 3 bancos itau, santander e bb a uns 7 anos. BB ja bloqueou minha conta 2 vezes e me deu uma vez um prazo de quinze dias pra analisar a situação e demorou 6 meses, com meu dinheiro preso la. Depois da segunda vez, simplesmente tirei quase todo meu dinheiro de la, mandei para poupança do itau que ate hoje não de meu problema. BB vai ficar so para receber pagamentos porque muitos preferem BB. Um tempo depois de retirar, inventaram de não permitir transação pela internet, que eu fazia normalmente, ja tinha cartão, senha da internet, modulo bb no computador, agora queriam que eu cadastrasse celular, renovasse cartão, senão so pelo caixa. Não vou mais mecher com isso, se der dor de cabeça demais simplesmente fecho minha conta e eles tem que pagar meu dinheiro. Alias nem o santander que tanto falam mal, nunca me deu problema, so nao mandei meu dinheiro pra la por causa da fama do banco, porem uso o cartão de lá, e continuo fazendo transações normalmente, como sempre. Más BB sinceramente.

    1. Itaú e Santander já me deram muita dor de cabeça, nem que me paguem eu não volto para eles. E nos próximos dias vou fechar minha conta no Banco do Brasil também.

  2. Eu já vinha recebendo o aviso pra trocar de cartão no caixa eletrônico há um tempo, mas minha agência é na minha cidade de origem, a 300 km de onde moro. Ontem fui ao mercado comprar algumas coisas pra casa e descobri (já no caixa, depois de ter passado tudo) que a m3rd4 do meu cartão foi bloqueado. O pessoal do mercado me conhece então deixaram eu levar o dinheiro depois, mas e o carão?

    “cultura de gambiarra e jeitinho e desprezo por fazer as coisas bem feitas”, resolvêssemos esse problema do Brasil todos os outros se resolveriam facilmente.

    1. Isso mais valorizar a honestidade.

  3. Caro correntista! Nós da ouvido’ria do BB ficamos sensibilizados com sua veemente reclamação, embora improcedente, como logo demonstraremos!
    A instituição BB não pode ser responsabilizada por “sinaleiras” mal gerenciadas, pontos de ônibus mal colocados e ruelas mal aparelhadas. Sugerimos encaminhar essas reclamações aos destinatários que possam ser responsabilizados adequadamente.
    Não achamos aconselhável, ou até mesmo inteligente, locomover-se no horário de maior congestionamento para pagar as suas contas, tendo em vista que a realidade não poderá ser instantaneamente alterada para seu exclusivo bem estar e, aqui também, não cabe ao BB responsabilidades sobre essa questão.
    Em sua afirmativa em que se expressa da seguinte forma: “…MINHAS CONTAS. MEU CARTÃO. MEU DINHEIRO. E O BANCO DO BRASIL ME IMPEDIU DE PAGAR UMA DAS MINHAS CONTAS, USANDO MEU CARTÃO, COM MEU DINHEIRO…”, há uma série de inverdades sobre as quais nos sentimos na obrigação de esclarecê-lo! O cartão que o senhor usa é do BB e apenas está com o senhor como um empréstimo. Ele tem a finalidade adicional de limitar os saques fora do horário bancário para protege-lo. O dinheiro que o senhor afirma ser seu, uma vez depositado, como é de seu conhecimento, já não é mais realmente seu! Ele pertence ao governo e está em nossa instituição, em consignação, para que possamos melhor administrá-lo. É claro que esse trabalho gera custos, mas o gerente terá o maior prazer em orientá-lo sobre esses detalhes contábeis, quando o senhor tiver a oportunidade de se deslocar até sua agência.
    Logo, a rigor, apenas as suas contas são verdadeiramente suas…. assim como a obrigação de pagá-las!
    Certos de que contamos sua compreensão estaremos sempre a seu dispor. Ouvido’ria do BB.

    1. Não duvido que fosse assim mesmo uma carta da ouvidoria, só com um pouco mais de babaquice politicamente correta para amenizar a aparência da mensagem. A lógica não é ser decente, é não parecer indecente.

      E isso que eu não contei ainda o que aconteceu no dia seguinte, quando voltei lá para pagar a conta que faltava. Mas só de pensar naquilo me ferve o sangue, então vai ficar para daqui a algum tempo.

  4. O país vai muito mal, em todas as esferas, podridão de cima a baixo em todas esferas.

  5. Eu transformei minha vida bancária num pesadelo no momento em que precisei abrir a QUINTA conta. Tenho uma da Caixa, daquelas que nem precisa de comprovante de renda, que só não fechei porque a agência é nos cafundós do Judas. A poupança/ex-conta salário do Bradesco fica lá porque não pago taxa e meus pais mandam dinheiro pra mim ou recebem dinheiro de mim por lá (mas eu preciso atravessar a cidade pra pegar outro cartão, e o motivo é tão besta que é capaz de o Arthur ficar pasmo). Itaú, pra receber a maior parte dos meus freelas, nunca me deu trabalho, mas dei um passo em falso e agora recebo simpáticos e-mails de renegociação de dívida. Odeio o Banco do Brasil, só abri conta lá pra receber um auxílio da universidade, eles quadruplicaram o limite do cartão de crédito e agora eu tenho um problema multiplicado por quatro pra resolver. Por fim, o Santander… esse eu odeio também, mas por enquanto é o único que tá dando pra quebrar o galho porque ainda não inventaram nenhum abacaxi pra eu descascar na conta…

    Por sorte tem agência do Santander aqui perto, então dá pra sacar uma grana ou pagar conta enquanto não consigo outro cartão de segurança (que “sumiu” junto com o do Bradesco, meh).

    1. Eu vou fechar a conta no BB assim que me mudar de novo, o que deve acontecer ainda este mês. E de agora em diante só vou abrir conta em bancos internacionais em cujo país de origem e em cuja matriz não seja falado nenhum idioma neolatino!

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