Breve divagação sobre a confiabilidade do conhecimento no discurso não acadêmico

Se para toda afirmação tivéssemos que trazer citações revisadas por pares da academia, mal sobraria 0,001% da blogosfera e de todas as conversações imagináveis. Esse não é o nível de rigor padrão, esse é o nível de rigor da academia, que tem propósitos bem específicos e que representa (ou deveria representar) a vanguarda do conhecimento válido. 

Jesus Cristo citação

Uma vez que o conhecimento de vanguarda tenha sido validado, ele é assimilado pelo senso comum, em cascata, das classes intelectualmente mais refinadas para baixo, eventualmente sofrendo distorções pelo caminho. Por isso a confiabilidade do conhecimento no discurso – e não somente a clareza – costuma ter uma forte correlação com a articulação do interlocutor, desde que haja honestidade intelectual. 

Em um círculo de interlocutores com um bom grau de articulação, a confiabilidade do conhecimento costuma ser aferida diagonalmente, através da avaliação da coerência do discurso, sendo eventualmente reforçada com citações quando a coerência do discurso não é percebida como suficiente para a confirmação do conteúdo, o que ocorre com freqüência quando alguém apresenta alegações estranhas ao senso comum daquele círculo de interlocutores. Este processo costuma funcionar bem, dado que em geral existe uma grande intersecção entre os conhecimentos de diversos interlocutores que compartilham de uma cultura comum. Repetindo: desde que haja honestidade intelectual. 

Normalmente está disponível um passo anterior à busca de citações que resolve a maioria das divergências conceituais: o próprio diálogo sobre os conceitos, ou o estabelecimento de uma fonte fiável para ambos os interlocutores para sincronizar os conceitos – papel em geral muito bem exercido pelos dicionários melhor conceituados, ou, no mundo da internet, eventualmente pela Wikipédia, por um site de universidade famosa ou por um site de um portal de notícias de grande porte. Na maioria das vezes isso é suficiente. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 04/10/2014

10 thoughts on “Breve divagação sobre a confiabilidade do conhecimento no discurso não acadêmico

  1. Divago ergo sum. Cogito.

  2. Duas frase:
    1. A navalha de Occam funciona.
    2. A navalha de Occam vai funcionar até o final de 2014, e depois parar de funcionar.
    Você tem algum sentimento sobre qual delas é (mais) correta?

    1. Sim, claro. A primeira é correta, a segunda é errada. Por quê?

    2. Como você justificaria essa escolha?

    3. Ué, não há nenhum indicativo, nenhuma evidência, nenhuma razão válida para acreditar que a estrutura do universo vai se alterar na virada do ano. É uma previsão do estilo Calendário Maia.

      Qual é o ponto aqui?

    4. E por que você assume a priori que o universo não vai mudar?

      O ponto é o seguinte: é muito fácil, por desatenção, dar uma justificação circular (nesse problema).

      Em outras palavras: as regras do jogo dos argumentos não te permitem responder essa pergunta com “porque essa é a explicação mais simples”.

    5. Elvis, acho que tu estás cometendo um erro muito comum entre os filósofos: a desconsideração das conseqüências dos Teoremas da Incompletitude de Gödel.

      Teorema 1: “Qualquer teoria axiomática recursivamente enumerável e capaz de expressar algumas verdades básicas de aritmética não pode ser, ao mesmo tempo, completa e consistente. Ou seja, sempre há em uma teoria consistente proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas nem negadas.”

      Teorema 2: “Uma teoria, recursivamente enumerável e capaz de expressar verdades básicas da aritmética e alguns enunciados da teoria da prova, pode provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente.”

      Ou seja, a melhor maneira de pseudo-provar que o interlocutor é “incoerente” é perguntar o porquê de cada afirmação e exigir que a resposta seja justificada verbalmente. Isso é impossível.

      Dito de outra maneira: a filosofia não é capaz de lidar com o universo de modo completo e consistente.

      Mas a ciência é.

      Isso acontece porque a ciência não tenta violar os Teoremas da Incompletitude. Ela aceita certas coisas como “é assim porque é assim”, bastando-lhe ter a certeza de que é realmente assim através da observação de evidências e de testes. Por exemplo: por que a velocidade da luz é exatamente aquela? Impossível saber. Mas o que importa é que se sabe exatamente o quanto é.

      Por que o universo não vai mudar no final de 2014? Já falei: não há nenhum indicativo, nenhuma evidência, nenhuma razão válida para acreditar que a estrutura do universo vai se alterar na virada do ano. É uma previsão do estilo Calendário Maia. E isso não é circular. Nós dois sabemos que a realidade é assim. Se dá ou se não dá para explicar isso em última instância de acordo com as regras da filosofia, pouco me importa, Graças a Gödel.

    6. Admito de pronto minha ignorância a respeito dessa área da lógica, acho interessante o que você diz, e estou curioso para, durante os próximos anos, estudar lógica matemática e entender melhor as implicações desses teoremas.

      Mas vou revelar meu objetivo. Não quero dizer que esse princípio não seja válido, de navalha de Occam. Quero só dar uma motivação para a ideia de formalizar o princípio. Uma formalização famosa http://en.wikipedia.org/wiki/Solomonoff's_theory_of_inductive_inference

      E só estou falando isso porque acho interessante e queria compartilhar contigo 🙂

    7. Opa! 🙂 Que legal! 🙂 Valeu! Vou conferir!

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