A BBC Brasil publicou em 20/05/2014 a reportagem “A estrutura do cérebro determina nossa visão política?”, cujo texto reproduzo e analiso abaixo. Mas adianto a resposta: sim, é claro que sim. E muito. Mas vou além: nossa biologia também determina quais são os sistemas políticos, econômicos e sociais adequados e inadequados para nossa espécie. 

Cérebro - biologia e política

Vejamos primeiro o texto da BBC, depois eu volto. 

A estrutura do cérebro determina nossa visão política?

Timandra Harkness

Neurocientistas e psicólogos dos Estados Unidos e Grã-Bretanha estão pesquisando como atitudes políticas podem estar ligadas ao cérebro.

“Ao analisar como o cérebro processa os fenômenos políticos, podemos entender um pouco melhor porque tomamos certas decisões sobre este assunto”, disse Darren Schreiber, da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha.

O cientista analisou padrões de atividade no cérebro por meio de exames de ressonância magnética funcional enquanto era feita a tomada de decisões, especialmente aquelas que envolvem riscos.

Schreiber observou variações nas partes do cérebro que ficaram mais ativas entre aqueles que se declaravam conservadores e aqueles que se descreviam como liberais, apesar das decisões tomadas por eles nem sempre serem diferentes.

Segundo o cientista, o estudo sugere que perspectivas políticas refletem divergências profundas na forma como compreendemos o mundo.

Ceticismo

O neurocientista Read Montague, do University College de Londres e da Virginia Tech, dos Estados Unidos, recebeu com ceticismo um pedido para ajudar cientistas políticos em suas pesquisas.

Mas, quando John Hibbing e sua equipe da Universidade de Nebraska mostraram a Montague os dados que já tinham levantado, ele mudou de opinião.

Estudos realizados por Hibbing entre gêmeos sugere que a opinião política pode ser, em parte, genética.

Este pode não ser um traço tão forte como a altura, por exemplo, mas é o bastante para sugerir que algumas pessoas realmente podem ser conservadoras graças ao DNA.

A questão é como exatamente as diferenças genéticas podem ser expressas como diferenças políticas no mundo real.

Hibbing e Montague queriam descobrir se estas predisposições inatas poderiam ser observadas no cérebro.

Então, eles testaram as respostas instintivas a imagens que visavam provocar nojo (como, por exemplo, alguém comendo vermes ou larvas) e medo e descobriram uma ligação entre a força da resposta a estas imagens e o quanto as opiniões de uma pessoa podem ser conservadoras em termos sociais.

“Precisamos deixar clara a distinção entre conservadorismo econônomico e conservadorismo social”, disse Hibbing.

“Pessoas que têm atitudes mais protetoras em relação a assuntos como imigração, que estão mais dispostas a punir criminosos, pessoas que são contra o aborto… estes são indivíduos que parecem ter uma reação muito mais forte a imagens repugnantes.”

Estas reações são medidas em termos biológicos, então, os estudos ligam as opiniões explícitas e conscientes a respostas subconscientes.

Na pesquisa realizada até o momento, as atitudes em relação ao risco, nojo e medo mostram ter ligações mais fortes com as opiniões políticas.

Mudança de região para região

As dificuldades começam quando os cientistas tentam aplicar estas percepções em uma situação ou local específico.
Nenhum dos pesquisadores envolvidos nesta pesquisa alega que nossas opiniões políticas são completamente inatas.

Americanos socialmente conservadores são a favor de um Estado menos abrangente e um mercado mais livre.

Em países que faziam parte do antigo bloco comunista, na Europa Oriental, o conservadorismo social pode levar ao desejo pelos velhos tempos do comunismo.

O economista comportamental Liam Delaney está estudando a psicologia envolvida na campanha do referendo pela independência da Escócia e alerta que não é possível dizer que nossos instintos subconscientes podem servir de guia para o debate.

“Determinismo biológico é um pouco complicado nestas situações, pois há muita variação nos diferentes sistemas políticos. Então, acho que você pode simplificar as coisas ao falar que existe algo fixo que determina o resultado”, disse.

Schreiber afirma que a política humana é “extraordinariamente complexa”. “Não está reduzida apenas ao cérebro, e quero deixar muito claro que não sou um determinista biológico”, acrescentou Schreiber.

Experiência e implicações

O cérebro humano muda durante a vida, então, os neurocientistas tomam muito cuidado ao afirmar que nossas experiências, assim como nossos genes, moldaram o cérebro que eles estão examinando.

John Hibbing acredita que nossos ímpetos subconscientes, que evoluíram em resposta a riscos físicos urgentes, comandam nossas mentes políticas mais do que pensamos.

“As pessoas acreditam que suas crenças políticas são racionais, uma resposta sensata ao mundo que as cerca. Então, não gostam quando dizemos que talvez existam predisposições que são não totalmente conscientes”, disse.

O cientista compara nossas tendências ideológicas inatas com a mão que preferimos usar. Pensava-se que isto era um hábito que poderia ser mudado, mas hoje sabe-se que é algo “profundamente incorporado à biologia”.

Isto pode ter implicações profundas na vida política.

Se alguém ser de esquerda é algo tão inato quanto ser canhoto, não poderíamos apenas fazer um exame no cérebro de todos e deduzir o que as pessoas pensarão sempre e simplesmente parar de tentar mudar sua opinião?

Hibbing não concorda.

“Não acho que as pessoas deveriam aceitar que alguns são simplesmente diferentes, mas deveríamos entender que é muito difícil mudar a opinião de algumas pessoas e que gritar com não contribui para nada”, disse.

AGL

Voltei.

Ando com a impressão que há grandes problemas de vocabulário envolvidos nesta questão. Vejamos:

Em primeiro lugar, o que significa ser “conservador”?

Se o significado for “ter aversão a riscos”, então o estudo faz sentido e toda e qualquer posição política e econômica de baixo risco será preferida às de alto risco (sendo que o sujeito tem que ter capacidade de discernir o que representa risco – o mesmo conservadorismo pode levar à proteção ambiental porque alguém bem informado sabe que ameaçar o equilíbrio climático é um risco enorme e pode levar à destruição ambiental porque alguém mal informado acha que ameaçar o que ele chama de desenvolvimento econômico é que é um risco enorme).

Se o significado for “ser partidário da ideologia tal”, então podemos parar por aqui, porque isso é bobagem. O máximo que pode acontecer é que a genética leve os indivíduos a terem ou mais ou menos empatia (ou aversão a risco, ou combatividade, ou outra característica biológica) e que os indivíduos – levando em consideração aqui também a capacidade cognitiva e a educação recebida – considerem esta ou aquela ideologia mais atraente por lhe parecer mais empática ou menos empática (ou arriscada, ou combativa, ou alguma outra característica biológica).

Essa provavelmente é a razão pela qual muitos jovens ingênuos são atraídos por ideologias esquerdistas, que se apresentam como protetoras dos pobres e oprimidos, mas quando atingem mais maturidade e discernimento percebem que o diagnóstico da injustiça estava correto, mas a solução proposta é radicalmente errada – e ao assumir uma posição mais razoável passam a ser chamados de traidores da causa, retrógrados, coxinhas ou neoconservadores. 

Em segundo lugar, É ÓBVIO que a estrutura do cérebro determina nossa visão política, social e econômica.

Um destes exemplos expus logo acima, quando falei de empatia. E, como a estrutura do cérebro é determinada em parte pela genética, sim, é claro que uma parte da posição de cada um em qualquer um destes temas é parcialmente determinada pela genética. Mas não do jeito que a reportagem faz parecer, ou não haveria as diferenças de região para região que eles mesmos citam.

Em terceiro lugar, quem “não gosta da idéia de que existam predisposições inatas” ignora completamente o que é a biologia e se torna um iludido em psicologia, antropologia, sociologia, economia e política em geral.

Só pensamos como pensamos porque pertencemos à espécie que pertencemos. 

Fôssemos insetos sociais, como os cupins, pensaríamos de modo completamente diferente, teríamos valores completamente diferentes. Insetos sociais são regidos pela máxima de que o bem estar da colônia é prioridade em relação ao bem estar de qualquer indivíduo e que os indivíduos podem ser sacrificados pelo bem da colônia – exatamente a visão dos esquerdistas.

Fôssemos predadores solitários, como os leopardos, também pensaríamos de modo completamente diferente, teríamos valores completamente diferentes. Predadores solitários são regidos pela máxima de que o bem estar próprio e de sua prole é a única coisa que importa e não possuem responsabilidade alguma com mais ninguém – exatamente a visão dos direitistas.

Mas somos primatas caçadores-coletores, não cupins, nem leopardos. Por isso o tipo de política, de economia e de sociedade adequado para nós é, sim, biologicamente determinado – e não corresponde nem ao que prega a esquerda, nem ao que prega a direita.

Os iluministas originais não tinham este conhecimento a seu dispor, por isso não puderam depurar suas idéias da contaminação esquerdista ou direitista. Mas nós temos, e não devemos cometer os mesmos erros. Precisamos de uma política e de uma economia adequadas à realidade biológica do primata caçador-coletor tribal que o ser humano é. Ou melhor: precisamos da política e da economia mais adequadas à realidade biológica do primata caçador-coletor tribal que o ser humano é. Isso é a visão iluminista moderna. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 31/10/2014 

3 thoughts on “Nossa visão política é biologicamente determinada?

  1. Um documentário norueguês falando sobre as influências de hereditariedade e meio, dividido em partes (gênero, raça, orientação sexual etc). Quando é falado em norueguês é legendado em inglês:

    https://www.youtube.com/results?search_query=brainwashing+norway

    Acho que o de gênero tem legendado em brasilês.

  2. “Essa provavelmente é a razão pela qual muitos jovens ingênuos são atraídos por ideologias esquerdistas, que se apresentam como protetoras dos pobres e oprimidos,”

    O discurso esquerdista é o canto da sereia, olha jovem; se você não tem é por que outros tem mais, você é assim por causa das “desigualdades”, “da má distribuição de renda”, ensina os jovens que eles não precisão ter responsabilidade pessoal, a culpa são sempre de fatores externos, ai entra a vitimização, achando que podem fazer tudo, destruir patrimônio público, invadir terras, matar, roubar. Quando o país já é rico, o papo da pobreza já não cola mais, tem que apelar pros gays, feministas, e etc. Se pararmos para olha os chefes e ideólogos que manobram esses grupos, vai notar que a grande maioria não vem das camadas mais pobres.

  3. AGL! Interessantes as elucubrações que levam a pensar numa tendência-cupim e numa tendência-leopardo para a sociedade. Nessa hora, pensei: Com essas voltas, logo o Arthur acaba chegando ao iluminismo… Dito e feito! Lá estavam os “primatas caçadores-coletores, não cupins, nem leopardos.”

    O problema, nobre macaco, é que, assim como há primatas que querem a selva sem censuras, alheios ao fato de que o predador fragilizado um dia vira presa, muitos primatas gostam de serem acalentados num cupinzeiro e não acreditam (ou nem sabem!) que entre os sacrificados circunstancial podem estar eles mesmos.

    A pergunta que fica é: Será que, mesmo com a tendência biológica que o ser humano tem de se estrepar andando na beirinha da ponte, independente do lado que escolhe, não há um método que ensine que o meio da ponte é mais seguro?

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