Se você tem febre, a primeira medicação que usa normalmente é um antitérmico. Se a febre sumir e não voltar, é porque foi só “uma coisinha passageira”. Mas e se a febre não sumir? Ou se ela sumir e voltar? Você vai usar mais antitérmico? 

Torneira pingando no balde

Se você insistir em usar mais antitérmico para combater uma febre que não sumiu, ou que sumiu e voltou, você até pode se sentir melhor por algum tempo… Mas a causa da febre não terá sido combatida.

Se for uma infecção, ela vai continuar crescendo mesmo durante o período em que você estiver se sentindo melhor porque o antitérmico ainda estará fazendo efeito.

O problema é que, com uma infecção piorando sem tratamento adequado, dirigido às causas da infecção, logo vai chegar uma hora em que o antitérmico não ajudará mais.

Isso é exatamente o que está sendo feito em relação às alterações climáticas que o ser humano está provocando.

As presentes alterações climáticas são causadas principalmente pelo consumo de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, que por sua vez são constantemente ampliados pela expansão de uma economia insustentável baseada em combustíveis não renováveis e pelo aumento da população humana. 

Ao invés de fazer o que tem que ser feito – atacar as causas ao invés de apenas combater os sintomas – a humanidade está se comportando em relação ao aquecimento global do mesmo modo que alguém que, estando com febre, insiste em tomar antitérmicos, sem combater a infecção subjacente.

E os resultados serão os mesmos.

Eu assisti em um telejornal uma razoável explicação sobre os motivos da seca em São Paulo e outras regiões do Brasil. Muito adequadamente foram citados o aquecimento global – que eu prefiro chamar de desestabilização climática, porque é disso que realmente se trata – e o desmatamento na amazônia. Além, é claro, no caso específico das cidades, do efeito dramático da substituição de vegetação por concreto. 

Ao final da edição do tal telejornal, todavia, a apresentadora disse que na edição do dia seguinte seriam apresentadas as obras que estão sendo planejadas para lidar com o problema, que afeta principalmente os setores da energia, que no Brasil depende principalmente de hidrelétricas, e da agricultura, que obviamente sempre depende de água. E na mesma edição já mostraram plantas derivadas de engenharia genética com maior resistência à seca. 

Mas peraí. 

Eles não tinham acabado de dizer que as causas do problema eram o aquecimento global, o desmatamento da amazônia e a substituição da vegetação por concreto? 

Como então as soluções poderiam ser mais obras e engenharia genética? 

Isso é antitérmico planetário, só adia e piora o problema. Para acabar com a infecção é necessário combater suas causas: parar de produzir e de consumir combustíveis fósseis, parar com o desmatamento e recuperar áreas já desmatadas na amazônia e desconverter uma boa parte do concreto urbano transformando-as em áreas vegetadas, inclusive com – mas não se limitando à – tecnologia de telhados verdes. 

Se a torneira que enche um balde começa a fechar, depositando cada vez menos água, não adianta aumentar o tamanho do balde para reter mais água, nem colocar o balde na sombra para evaporar menos água, nem as duas coisas juntas. Estas medidas são paliativas e no máximo podem ajudar por um curto intervalo de tempo até que a torneira volte a depositar a mesma quantidade de água de sempre. Se o problema que afeta a torneira não for corrigido, em breve o balde vai secar, pouco importa o quanto sua eficácia e eficiência em guardar água sejam aprimoradas. 

Sim, devem ser construídas novas barragens para estocar mais alguns bilhões de litros de água. É bom ter um balde maior para o caso de a torneira entupir de vez em quando. Mas não há tamanho de balde que resolva o problema se a torneira secar. E as alternativas para buscar água para o abastecimento urbano, para a produção de energia e para a produção agrícola são sempre cada vez mais caras, mais difíceis, mais poluentes e mais perigosas. 

Prevenir é melhor do que remediar. 

E remediar do jeito certo é melhor do que se iludir com paliativos. 

A menos, é claro, que não nos importemos de fato com o paciente. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/11/2014 

9 thoughts on “Antitérmicos para a febre planetária

  1. Se não controlar o crescimento populacional ja era. Quero ver sao paulo como vai ficar daqui uns 15 anos, aumenta 20% a população, como vão ficar sem cagar, tomar banho ou sem construir. E estamos longe, muito longe de controlar o crescimento. Se um pais la pelos lados do norte diminui a taxa, outros 10 ficam mais que satisfeitos em cobrir 3 vezes esse declinio.

    1. Ué, mudaste de monstrinho! Cadê aquele verde? Volta pro e-mail original!

      Mas é isso mesmo: já era. O Brasil deve começar a reduzir sua população por volta de 2050, devido à transição demográfica já ocorrida, mas o planeta não.

    2. Quero ver como vai ficar essa tal de previdencia. Mas o negocio é ir estocando o que puder. É um processo sem volta, so podemos fazer a nossa parte para atrasar um pouco, mas nao vale a pena fazer grandes sacrificios mais. Para quem tem abaixo de 30 40 acredito ainda ser ate possivel viver para ver a proxima grande catastrofe ambiental.

    3. Eu nao lembro mais qual era o email.

    4. E tenho uma lista adivinha com quantos emails. Mais de 400.

    5. Não que seja algo tão importante, mas se quiseres eu posso te passar o e-mail que usavas antes para esse que estás usando agora. 🙂

      E, poxa… Mais de 400? Eu me viro bem com apenas quatro! Um para uso geral na internet, outro para cadastro em sites importantes, um para o trabalho e um extra que a Google me enfiou boca abaixo quando comprou o iG.

      Mas, voltando ao tema, nós já estamos assistindo a próxima grande catástrofe ambiental. Tolinho quem disser que o que está acontecendo em São Paulo não tem nada a ver com o processo de desestabilização climática. O desmatamento na Amazônia, a substituição de vegetação por urbe e o aquecimento global já estão provocando mudanças locais.

      Daqui pra diante a coisa só agrava, até porque ninguém está fazendo nada a respeito ainda. Vamos ter que esperar um racionamento dramático de água no principal centro econômico do país, ou um racionamento de energia com elevação drástica do preço do kilowatt-hora, com uma grande revolta popular, para começar a fazer alguma coisa a respeito.

      E eu aposto meu pescoço como no início vão fazer as coisas mais idiotas e erradas possíveis, buscando apenas soluções de curto prazo para o desabastecimento de água e energia ao invés de atacar as verdadeiras causas do problema. Sem medo nenhum de errar.

    6. Não é necessario mas obrigado.

  2. Há bons antitérmicos na forma de supositórios! As cabeças que determinam as regras do jogo deveriam experimentar!

    1. Os atuais precisam do modelo XXGG.

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