Em um país civilizado

Em um país civilizado, você não entra em pânico quando sua filhinha de dois anos de idade se perde na multidão na beira da praia. Você caminha tranquilamente até a frente da casinha do salva-vidas e encontra alguém construindo um castelo de areia com sua filha esperando que você apareça.

Brincando com as crianças na praia

Em um país civilizado, você não tem prejuízo quando seu carro aparece amassado no estacionamento do supermercado. Você encontra sob o limpador de pára-brisas um bilhete dizendo o seguinte:

“Amigo, desculpe pelo incômodo. Eu estava com pressa para comprar uns copos descartáveis extras para a festa de aniversário de meu filho, hoje à noite, e fui imprudente ao manobrar. Por favor, telefone-me assim que puder para que eu possa mandar consertar a porta do seu carro: (99) 9999-9999. Atenciosamente, Fulano.”

Em um país civilizado, a pessoa que bateu em seu carro também não vai se incomodar com uma atitude destemperada da sua parte. Isso porque você vai mandar a seguinte mensagem para o celular que ele deixou no bilhete:

“Fulano, aqui é o dono do carro do pequeno acidente ocorrido hoje no supermercado. Agradeço sua gentileza. Aproveite a festa de seu filho, amanhã telefonarei para conversarmos. Parabéns ao garoto. Atenciosamente, Beltrano.”

Em um país civilizado, uma pessoa completamente desconhecida bate em sua porta, diz que é uma emergência, pede para usar o banheiro e você não somente não tem medo como convida a pessoa para entrar e informa: “pois não, é naquele corredor, primeira porta à direita”.

Em um país civilizado, um grupo de garotos com 12 a 14 anos passa a pé pela frente de sua casa portando pistolas e rifles de verdade e uma sacola de munição, você reconhece o filho do vizinho entre eles, acena para ele e ele acena de volta e faz um convite:

“Olá, Sra. Sicrana! Hoje é dia de prática de tiro na escola. As aulas são abertas para a comunidade. A senhora gostaria de vir praticar conosco?”

Em um país civilizado, você saca a sua Magnum .357 cor de rosa da cintura, mostra para eles e responde:

“Obrigado, garotos, mas eu já passei a noite de ontem praticando no clube de tiro.”

Em um país civilizado, você entra na farmácia para comprar um antibiótico sem receita – afinal, você não é um debilóide e aprendeu na escola quando e como se usa um antibiótico – e encontra o farmacêutico jogando fora alguns pacotes de medicamento. Você fica curioso, pergunta o que ele está jogando fora e ele responde:

“Cocaína. Passou do prazo de validade.”

Em um país civilizado, você percebe que dormiu um pouco demais no dormitório climatizado que toda empresa provê para os funcionários sestearem após o almoço, se levanta com pressa e pede desculpas ao gerente pelo atraso. Mas ele responde o seguinte:

“O mais importante é a sua saúde. Se houvesse muita necessidade nós teríamos chamado você. Não se preocupe, volte ao trabalho descansado.”

Em um país civilizado, você não se preocupa com quanto tempo o seu carro biocombustível vai ter que ficar na oficina mecânica para fazer a retífica do motor. Você simplesmente abre um aplicativo no seu smartphone pedindo transporte do lugar x ao lugar y às z horas e sempre aparece alguém que tem o mesmo aplicativo e se oferece para levar você por pouca coisa mais que o preço do combustível gasto no trajeto.

Em um país civilizado, se você quiser aprender a fazer qualquer coisa, de consertar encanamentos a neurocirurgia, de fazer malabarismo sobre pernas de pau a construir um guindaste elétrico com um torno mecânico e peças reaproveitadas de um carro acidentado, tudo que você precisa fazer é ligar para a universidade mais próxima, programar um curso que atenda às suas necessidades e agendar um horário de aulas conveniente.

Em um país civilizado, se você estiver nua pegando um sol no seu intervalo de almoço na praça pública toda florida que fica em frente à empresa e o entregador de sushi chegar, você simplesmente agradece a entrega, come o sushi e volta a deitar nua em sua esteira para aproveitar mais uns dez minutos de sol assistindo duas crianças jogarem uma partida de xadrez.

Em um país civilizado, se você deixa o último pacote de fraldas descartáveis cair dentro da banheirinha às 3h da madrugada, você liga 911, ou 190, e acontece o seguinte diálogo:

O atendente pergunta: “qual é a sua emergência?”.

Você responde “eu deixei cair o último pacote de fraldas descartáveis dentro da banheirinha”.

O atendente pergunta “qual o número da fralda? A senhora quer fralda para menino, para menina ou modelo unissex?”

Você responde: “quatro a seis meses, modelo unissex está ótimo, três pacotes”.

O atendente informa: “pois não, senhora. Três pacotes de fraldas descartáveis, tamanho de quatro a seis meses, modelo unissex. O valor será descontado na sua próxima fatura telefônica, com um acréscimo de $ 0.87 para cobrir os custos de deslocamento da viatura, já calculados pelo GPS. Dentro de 15 a 20 minutos estará em sua porta. Boa noite”.

Em um país civilizado, a expressão “fila da emergência” é incompreensível.

Em um país civilizado, se o seu filho de 12 anos quiser levar a AK-47 dele municiada para a sala de aula, ele será orientado a manter a arma travada, não apontar a arma para os coleguinhas e para os professores e só metralhar terroristas que invadam a sala atirando se o professor não conseguir eliminar a ameaça com sua própria arma.

Em um país civilizado, não existem buracos nas ruas. Nunca.

Em um país civilizado, você pode comprar álcool líquido 92,8° no supermercado. E também pode comprar dinamite, mas nesse caso é necessário apresentar a identidade. A carteira de motorista serve.

Em um país civilizado, ninguém cede seu assento para outra pessoa no transporte público. Não é necessário. Sempre há assentos vagos, em todos os horários.

Em um país civilizado, não existem cotas. De nenhum tipo. Todas as pessoas têm 100% de seus direitos garantidos. E sobram oportunidades de realização pessoal e profissional. 

Em um país civilizado, as pessoas são responsáveis e fortes entusiastas de uma atitude proativa em prol de uma vida melhor, mais segura, mais confortável, mais solidária e mais agradável – com exceção dos casos patológicos, que são tratados com muita compaixão porém muita firmeza.

Em um país civilizado, não é necessário fazer comentários sobre a qualidade dos políticos, empresários, líderes comunitários e formadores de opinião. Afinal, em qualquer país eles sempre refletem a cultura e o caráter do povo.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/01/2015 

Liberdade com Responsabilidade

Eu estudei em uma escola cujo lema era LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE. Eu fiz alguma grande porcaria na vida? Nada. Por quê? Porque eu levei aquilo a sério. Se eu não posso arcar com a responsabilidade, eu não abuso da liberdade. Hoje em dia, entretanto, é “careta” exigir responsabilidade, honra, compromisso, na verdade é “abusivo” exigir qualquer coisa. 

excalibur

Todo mundo quer a liberdade de não responder pelos próprios atos (daí o aborto, daí as cotas, daí o Bolsa-Família, daí o coitadismo institucional). E ao mesmo tempo quase todos querem um Big Brother orwelliano dizendo o que podem e o que não podem fazer para não terem que pensar por si mesmos, para não terem que arcar com a responsabilidade e as conseqüências de suas decisões. Quem pensa assim está mais para verme do que para ser humano.

E quem – mesmo com as melhores intenções – resolve atender essas demandas invariavelmente desanda para o fascismo, consciente ou inconscientemente, e assim coloca toda a civilização no rumo do obscurantismo. 

É por causa disso que eu não posso dirigir com bom senso, eu tenho que me arrastar a uma velocidade estúpida arbitrada por um burocrata sem-noção (e muitas vezes mal intencionado, com o puro objetivo de arrecadar dinheiro).

É por causa disso que eu não posso comprar álcool líquido, como se eu fosse um retardado que não pode comer com garfo sem furar o olho ou acender uma chama sem incendiar a casa. 

É por causa disso que eu tenho que pagar para alguém me autorizar a comprar um antibiótico (ou a substância recreativa de minha livre escolha) para mim mesmo com meu próprio dinheiro, mesmo que eu saiba o que comprar, a quantidade e o esquema de tomada.

O mundo está se tornando cada vez mais fascista porque espertalhões de uma lado e estúpidos ou ingênuos bem intencionados de outro lado não confiam na capacidade do ser humano. Não compreendem ou não adotam com a devida radicalidade o lema iluminista – Sapere aude! – e com isso vão induzindo o ser humano a se tornar cada vez mais incapaz e a cada vez mais precisar do mesmo veneno (tutela de consciência) para não furar o olho enquanto come com garfo. 

“O iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem.

É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem.

Sapere aude! – Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do iluminismo.”

Não se desenvolve maturidade sem o exercício da liberdade. Não se ensina uma criança a andar com aulas teóricas, nem com vídeo explicativos, nem com bons exemplos. Ela tem que tentar caminhar com suas próprias pernas, tem que cair, levantar e tentar de novo, ou nunca caminhará. 

Do mesmo modo, não se pode “esperar a sociedade atingir uma certa maturidade para ter determinados direitos e liberdades”. Não é assim que funciona. A maturidade vem com o exercício da liberdade. 

Eu sou um iluminista. Eu não aceito a tutela de minha consciência. Eu não confiro a ninguém o direito de dizer o que eu posso ou o que eu não posso fazer, e com quem, e quando, e onde, e como, a não ser que se trate de uma norma sensata que me ajude a não prejudicar ninguém no processo.

Eu sou um iluminista. Eu não tutelo a consciência alheia. Eu não aceito a responsabilidade sobre a estupidez alheia, sobre as decisões alheias, nem sobre os atos alheios, a não ser que eu tenha contribuído materialmente ou induzido alguém a erro.

Eu sou um iluminista. Eu vivo por e para os valores iluministas. Coragem para fazer uso da própria razão, liberdade e responsabilidade são valores inegociáveis. Estes valores não têm preço. Estes valores não podem ser tocados por segurança, nem por conveniência. Estes valores são a essência da dignidade e o alicerce da civilização. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/01/2014 

Je suis Charlie

Não há uma guerra entre civilizações. Por definição, duas civilizações nunca entram em guerra. Simplesmente não se pode usar a palavra “civilização” para fazer referência à ideologia de fanáticos intolerantes que consideram censura ou ataques terroristas caminhos legítimos para fazer valer seus pontos de vista. 

Je suis Charlie

Em uma sociedade civilizada, ninguém tem o direito de não ser ofendido, nem jamais pode ter. Aqueles que buscam tal direito, para si ou para outrem, seja qual for a justificativa, religiosa ou laica, na verdade buscam o direito à tirania, porque quem busca tal direito – e principalmente seus auto-proclamados representantes – nunca exige que este seja um direito universal e igualitário. 

Muito antes pelo contrário, quem busca tal direito sempre alega que os supostos oprimidos devem obtê-lo, mas os supostos opressores não. Uma vez que tal aberração é produzida, invariavelmente aqueles que são apontados como opressores são ofendidos e demonizados e seus protestos quanto à violação de seus direitos são ridicularizados. A busca do direito de não ser ofendido não é, portanto, uma luta por dignidade, é uma luta por dominação. 

Eu considero o periódico “cômico” Charlie Hebdo um completo lixo. Não me agrada seu estilo de humor, não me agrada sua visão política, não me agrada o tipo de sociedade que eles gostariam de implantar, não me agrada a falta de respeito contumaz que ele estampa em suas páginas e não me agrada seu tom ofensivo. Mas eu defendo radicalmente a liberdade de expressão. Então, eu defendo que aquela porcaria de mau gosto tenha todo o direito de existir e de se expressar como bem entender. Sempre. 

Quando alguém censura ou de qualquer modo ataca a liberdade de expressão de quem quer que seja, incluindo um lixo como o Charlie Hebdo, com o qual eu não concordo e que eu gostaria de ver falir por falta de leitores, é a liberdade de expressão no mundo em que eu vivo que está sendo atacada, são os valores que eu defendo que estão sendo atacados, é o estilo de vida que eu defendo que está sendo atacado, sou eu quem está sendo atacado. 

Em defesa da civilização, em defesa dos Direitos Humanos iguais e inalienáveis de todo membro da família humana, em defesa da liberdade de expressão e contra qualquer forma de tutela de consciência, EU SOU CHARLIE. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 13/01/2014 

Um RRR-2015 para você!

Um Resoluto, Realizador e Realista ano novo! Seu 2015 será feliz e próspero se – e somente se – você assumir as rédeas de seu destino com convicção (resoluto) e fizer o que tiver que ser feito (realizador) do jeito certo (realista) para construir a sua felicidade e a sua prosperidade. 

The-Real-R2D2
Este é o R2D2. O que tem ele a ver com o título desta postagem? Nada. É um papel de parede legal para o seu computador. 😉 (Clique na foto para abri-la em tamanho real em outra janela e fazer o download.)

Minhas resoluções de ano novo: 

Nunca mais me preocupar com as pessoas mais do que elas se preocupam consigo mesmas. 

Nunca mais tentar convencer quem quer que seja de coisa alguma. Não confia em mim? Problema seu. 

Nunca mais sacrificar minha saúde ou bem estar para não ser chato ou parecer radical. 

Ano novo, Arthur novo. A vida continua a mesma. Eu estou mudando. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 01/01/2015