Não há uma guerra entre civilizações. Por definição, duas civilizações nunca entram em guerra. Simplesmente não se pode usar a palavra “civilização” para fazer referência à ideologia de fanáticos intolerantes que consideram censura ou ataques terroristas caminhos legítimos para fazer valer seus pontos de vista. 

Je suis Charlie

Em uma sociedade civilizada, ninguém tem o direito de não ser ofendido, nem jamais pode ter. Aqueles que buscam tal direito, para si ou para outrem, seja qual for a justificativa, religiosa ou laica, na verdade buscam o direito à tirania, porque quem busca tal direito – e principalmente seus auto-proclamados representantes – nunca exige que este seja um direito universal e igualitário. 

Muito antes pelo contrário, quem busca tal direito sempre alega que os supostos oprimidos devem obtê-lo, mas os supostos opressores não. Uma vez que tal aberração é produzida, invariavelmente aqueles que são apontados como opressores são ofendidos e demonizados e seus protestos quanto à violação de seus direitos são ridicularizados. A busca do direito de não ser ofendido não é, portanto, uma luta por dignidade, é uma luta por dominação. 

Eu considero o periódico “cômico” Charlie Hebdo um completo lixo. Não me agrada seu estilo de humor, não me agrada sua visão política, não me agrada o tipo de sociedade que eles gostariam de implantar, não me agrada a falta de respeito contumaz que ele estampa em suas páginas e não me agrada seu tom ofensivo. Mas eu defendo radicalmente a liberdade de expressão. Então, eu defendo que aquela porcaria de mau gosto tenha todo o direito de existir e de se expressar como bem entender. Sempre. 

Quando alguém censura ou de qualquer modo ataca a liberdade de expressão de quem quer que seja, incluindo um lixo como o Charlie Hebdo, com o qual eu não concordo e que eu gostaria de ver falir por falta de leitores, é a liberdade de expressão no mundo em que eu vivo que está sendo atacada, são os valores que eu defendo que estão sendo atacados, é o estilo de vida que eu defendo que está sendo atacado, sou eu quem está sendo atacado. 

Em defesa da civilização, em defesa dos Direitos Humanos iguais e inalienáveis de todo membro da família humana, em defesa da liberdade de expressão e contra qualquer forma de tutela de consciência, EU SOU CHARLIE. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 13/01/2014 

16 thoughts on “Je suis Charlie

  1. Me lembrei de uma vez que você comentou sobre essa imagem no facebook:

    http://i.imgur.com/8p5agul.jpg

    1. Sim, eu entrei em contato com o autor e o critiquei porque a imagem é ofensiva. Mas ele continua respirando e caminhando normalmente. Aliás, ele postou a imagem ofensiva, eu procurei o diálogo e ele me bloqueou. Quem é o intolerante? 😉

  2. Só não curto a forma como a mídia lançou a campanha, como se os cartunistas desse jornaleco fossem heróis, mártires da liberdade de expressão. Não eram, eram só uns manés que gostavam de provocar e ironizar a todos com quem não concordavam. MASSS… pra além disso, sim, defendo até a morte o direito deles de propalarem tal lixo.

  3. Paulo Moura

    14/01/2015 — 11:46

    Uma coisa é poder e outra bem diferente é dever. A maioria da coisas posso, mas não devo! A liberdade de expressão nem se quiséssemos poderia ser proibida, se alguém quiser vai sempre transpor o limite, pois ele pode, mesmo que não deva. A questão deveria ser em torno dos efeitos, quais as consequências a quem extrapola o direito à liberdade de expressão! Ou será que posso manifestar-se sobre o que quiser, do jeito que quiser e não sofrer nenhuma reprimenda por isto?!

    1. Se a reprimenda for feita através do exercício da mesmíssima liberdade de expressão, tudo bem. Quando a reprimenda ultrapassa este nível, vira fascismo.

  4. Não poderíamos estender essa lógica de que “ninguém tem o direito de não ser ofendido” para algo como “ninguém tem o direito de não ser fisicamente agredido”?

    1. Não, porque a ofensa é algo subjetivo. Uma agressão física é algo objetivo.

      Alguem pode ser ofendido por ser chamado de mulato. Outro pode ser ofendido por NÃO ser chamado de mulato. Sempre alguem pode achar motivo pra reclamar de algo que foi dito, mesmo que seja inocente. O resultado é que as pessoas ficam com medo de falar qualquer coisa. E no fim se cria um povo de receosos, fácil de se dominar.

    2. Pode ser um pouco mais subjetiva, mas ainda dá para diferenciar bem o que é uma ofensa gritante (macaco, crioulo, semente de bucha) de uma ofensa subjetiva (mulato, pessoa de cor). A questão não é impedir as pessoas de falarem, mas evitar as grosserias gratuitas, coisa que todo ser humano deveria aprender na primeira infância.

    3. É uma boa norma de educação. Mas não deveria se tornar um direito legal, exceto talvez para crianças.

      E não é “um pouco mais” subjetiva. É subjetiva. Uma porrada na cara é objetiva.

      Entendo a sua distinção entre uma ofensa gritante, com intenção de agredir, e uma ofensa subjetiva, mas pra muitos juízes essa diferença não vale. Mesmo uma ofensa gritante deveria ser respondida no mesmo plano. Já li sobre uma mulher que foi condenada por chamar um cara de “bunda-mole”. Mas o pior é que se se deixa uma brecha, qualquer coisa pode ser interpretada como “tendo intenção de agredir”.

    4. Mesmo as agressões físicas não são tão objetivas e podem variar com a sensibilidade das pessoas. Desde pequenos e grandes esbarrões até um linchamento com porretes feito por um bando, passando por troca de empurrões, as agressões físicas também vão carregar alguma dose de subjetividade.
      E não sei se concordo que as respostas devem ser dadas no mesmo plano, se um lutador de MMA vier pra cima de mim e eu estivesse armado eu não iria enfrentá-lo no braço. Não estou dizendo que as charges devem ser respondidas com tiros, mas penso que a capacidade de reagir na mesma moeda ou a possibilidade de reparo pleno a posteriori nunca serão alcançadas.
      Quanto ao que os juízes costumam interpretar eu prefiro me abster de comentar para não infringir o Art. 140 do CP.

    5. As agressões físicas não carregam “alguma dose de subjetividade”. Elas variam em intensidade e dano. Mas podem ser avaliadas e ter efeitos mensurados.

      E quando eu disse que “as respostas devem ser dadas no mesmo plano” significa que uma agressão subjetiva merece uma resposta subjetiva. Pode até ser legal (calúnia, por exemplo), isso não está descartado. E que uma agressão física requer uma resposta física. Até armada, se necessário. Mesmo plano não significa mesma intensidade.

      No caso, citado a arma serviria como compensação para a diferença de nível entre os lutadores.

    6. Mesmo os danos físicos não podem ser mensurados de forma completamente objetiva, basta ver as diferenças observadas em laudos de médicos trabalhistas diferentes. Mas além desses danos, sequelas psicológicas decorrentes do sentimento de pânico ou de impotência frente à agressão podem complicar bastante a equação.
      Essa classificação dos planos diferentes pode ser bem complexa, mas a princípio brigas mano a mano e desinteligências envolvendo armas de fogo estão em planos diferentes. Mas a questão nem é essa, porque eu penso que o que interessa é o dano causado, uma troca de empurrões pode causar menos dano que uma campanha maliciosa feita por um jornalista bandido, por exemplo.

    7. Para uma campanha feita por um jornalista existem direitos de resposta e reparação. Que devem ser garantidos a não ser que o jornalista tenha provas do que afirma.

    8. O STF acabou com o direito de resposta. E as indenizações normalmente não reparam o dano causado. Mas o ponto principal não é esse, especificidades devem ser determinadas em leis bem feitas. O que eu questionei é o conceito norteador de que “ninguém tem o direito de não ser ofendido”, eu acho que como princípio geral todo mundo tem o direito de não ser ofendido, casos particulares como pessoas que se ofendem por ninharia (o que demanda um longo debate para se determinar o que é ninharia) devem ser tratados como exceção.

    9. Gente…

      Eu chamo alguém de babebibobu, que é a pior ofensa que existe. O cara me chama de babebibobu também. Pode haver uma escalada de ofensas:

      – Seu babebibobu ao quadrado!

      – Seu babebibobu ao cubo!

      – Na quarta potência!

      – Na quinta potência!

      – Na sexta!

      – No sábado! 😛

      E tiramos o domingo para ou descansar, ou para escrever um artigo xingando ainda mais o outro idiota, ou para rever nossos conceitos e pensar se não estamos sendo ambos uns babebibobus idiotas por sustentar essa babebibobagem ridícula que não leva a nada.

      Mas o primeiro que der um peteleco na orelha do outro muda tudo. O peteleco será respondido com um tapa, que será respondido com um soco, que será respondido com um pontapé, que será respondido com uma paulada, que será respondida com uma facada, que será respondido com um tiro, que será respondido com uma rajada de metralhadora, que será respondido com um lança-mísseis, que será respondido com uma bomba atômica, isso se no meio do caminho não acontecer de alguém eleger a esquerda e os politicamente corretos e acabar com o mundo antes.

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