Eu estudei em uma escola cujo lema era LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE. Eu fiz alguma grande porcaria na vida? Nada. Por quê? Porque eu levei aquilo a sério. Se eu não posso arcar com a responsabilidade, eu não abuso da liberdade. Hoje em dia, entretanto, é “careta” exigir responsabilidade, honra, compromisso, na verdade é “abusivo” exigir qualquer coisa. 

excalibur

Todo mundo quer a liberdade de não responder pelos próprios atos (daí o aborto, daí as cotas, daí o Bolsa-Família, daí o coitadismo institucional). E ao mesmo tempo quase todos querem um Big Brother orwelliano dizendo o que podem e o que não podem fazer para não terem que pensar por si mesmos, para não terem que arcar com a responsabilidade e as conseqüências de suas decisões. Quem pensa assim está mais para verme do que para ser humano.

E quem – mesmo com as melhores intenções – resolve atender essas demandas invariavelmente desanda para o fascismo, consciente ou inconscientemente, e assim coloca toda a civilização no rumo do obscurantismo. 

É por causa disso que eu não posso dirigir com bom senso, eu tenho que me arrastar a uma velocidade estúpida arbitrada por um burocrata sem-noção (e muitas vezes mal intencionado, com o puro objetivo de arrecadar dinheiro).

É por causa disso que eu não posso comprar álcool líquido, como se eu fosse um retardado que não pode comer com garfo sem furar o olho ou acender uma chama sem incendiar a casa. 

É por causa disso que eu tenho que pagar para alguém me autorizar a comprar um antibiótico (ou a substância recreativa de minha livre escolha) para mim mesmo com meu próprio dinheiro, mesmo que eu saiba o que comprar, a quantidade e o esquema de tomada.

O mundo está se tornando cada vez mais fascista porque espertalhões de uma lado e estúpidos ou ingênuos bem intencionados de outro lado não confiam na capacidade do ser humano. Não compreendem ou não adotam com a devida radicalidade o lema iluminista – Sapere aude! – e com isso vão induzindo o ser humano a se tornar cada vez mais incapaz e a cada vez mais precisar do mesmo veneno (tutela de consciência) para não furar o olho enquanto come com garfo. 

“O iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem.

É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem.

Sapere aude! – Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do iluminismo.”

Não se desenvolve maturidade sem o exercício da liberdade. Não se ensina uma criança a andar com aulas teóricas, nem com vídeo explicativos, nem com bons exemplos. Ela tem que tentar caminhar com suas próprias pernas, tem que cair, levantar e tentar de novo, ou nunca caminhará. 

Do mesmo modo, não se pode “esperar a sociedade atingir uma certa maturidade para ter determinados direitos e liberdades”. Não é assim que funciona. A maturidade vem com o exercício da liberdade. 

Eu sou um iluminista. Eu não aceito a tutela de minha consciência. Eu não confiro a ninguém o direito de dizer o que eu posso ou o que eu não posso fazer, e com quem, e quando, e onde, e como, a não ser que se trate de uma norma sensata que me ajude a não prejudicar ninguém no processo.

Eu sou um iluminista. Eu não tutelo a consciência alheia. Eu não aceito a responsabilidade sobre a estupidez alheia, sobre as decisões alheias, nem sobre os atos alheios, a não ser que eu tenha contribuído materialmente ou induzido alguém a erro.

Eu sou um iluminista. Eu vivo por e para os valores iluministas. Coragem para fazer uso da própria razão, liberdade e responsabilidade são valores inegociáveis. Estes valores não têm preço. Estes valores não podem ser tocados por segurança, nem por conveniência. Estes valores são a essência da dignidade e o alicerce da civilização. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/01/2014 

14 thoughts on “Liberdade com Responsabilidade

  1. Não concordo, na íntegra, com o primeiro parágrafo! Afinal, em consequência, ou apesar, de sua escola, uma mente iluminista foi gerada, ou alimentada, ou parida, ou provocada, ou…

    1. Sim… Mas hoje em dia não é mais assim. Nossa educação não gera mais ilu8ministas, gera coitadistas: gente que aprende a exibir como “mérito” de direitos a sua mediocridade como bandeira. Eu sou da raça oprimida, do sexo oprimido, da orientação sexual oprimida, da classe econômica oprimida, da religiosidade (ou falta de) oprimida, etc., logo eu tenho que ter direitos especiais para equilibrar o jogo sem que eu tenha que me tornar melhor. Isso é uma vergonha, uma indecência, um asco.

    2. Eu diria que aquela escola plantou uma boa semente. Um pouco por boa intenção, um pouco por acaso, mas plantou.

  2. Os coitadismos imperam num mundo sem mérito.
    É o cara se afogando que não quer ser salvo, mas se agarrar ao maior numero de nadadores para que afundem com ele.

    1. Eu acho que ele até quer ser salvo… Mas não quer aprender a nadar. Ele quer que haja um salva-vidas em cada esquina do mundo para tirá-lo de qualquer poça d’água em que ele pise. De graça, óbvio.

    2. Estamos esquecendo de q somos responsáveis por tudo o q nos acontece, mesmo q sob a tutela amoral de governos, família, guetos, etc.
      Podemos nos anestesiar momentaneamente, mas as consequências sempre chegam, mais cedo ou mais a frente, mas ninguém escapa da prestação de contas de seus atos. Podem acreditar!

    3. Prestação de contas é diferente de responsabilidade.

  3. Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança. (Benjamin Franklin)
    E esses hoje são a esmagadora maioria.

    1. Pois é. E faz tempo que Benjamin Franklin disse isso.

  4. Isso é uma vergonha, uma indecência, um asco.

  5. É uma pena que hoje continuam a ser falado de temas

  6. Totalmente de acuerdo. Hay que saber entender los límites.

  7. Muito bom este.

    Hay que se compreender o medo da liberdade.

    1. As pessoas deviam assinar um contrato no qual elas escolhem ser livres ou andar na coleira…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *