Eu moro a 15 km do local de trabalho, pelo Google Maps. Demoro cerca de quarenta e cinco minutos para chegar lá, porque o trânsito é pesado. Aí um espertinho pode fazer os cálculos e dizer: “você anda a 20 km/h, um maratonista corre a 18 km/h, uma bicicleta faz tranquilo entre 20 km/h e 25 km/h – você chegaria antes de bicicleta”.

Bicicleta em aclive

Esta é a hora em que eu começaria a rir ou chamaria o sujeito de imbecil, conforme o meu humor no dia.

Eu vou para o trabalho seguro e dentro de um veículo climatizado. Se chover, ligo o limpador de pára-brisa e o ar-condicionado e chego sequinho. Se fizer um calor dos infernos, ligo o ar-condicionado e chego sequinho e confortável. Em qualquer dos casos, chego descansado e sequinho.

Se eu fosse de bicicleta, eu estaria exposto à chuva e ao sol. Se chovesse, eu chegaria encharcado de chuva. Se fizesse sol, eu chegaria encharcado de suor. Em qualquer dos casos, eu chegaria molhado, fedorento e cansado.

No caminho de casa para o trabalho eu enfrento diversas subidas e descidas bastante íngremes. Com o carro eu apenas troco de marcha e aperto um pouco mais o pedal. Com a bicicleta, além de trocar de marcha, eu teria que fazer muito mais força e pedalar muito mais. Além disso, os aclives e declives são praticamente irrelevantes para o tempo do trajeto com o automóvel. Com a bicicleta, qualquer aclive ou declive muda muito não apenas o esforço, como o tempo e a segurança do percurso.

Com o automóvel, eu carrego um estepe, um galão de água, uma muda de roupa e uma bolsinha com meus documentos, alguns medicamentos de emergência (não saio de casa sem ter um anti-alérgico na mão) e os cacarecos que eu bem entender. E volta e meia dou uma carona para algum amigo.

Com uma bicicleta, eu não tenho como carregar um estepe, nem o galão de água, e teria que andar com uma mochila pesada nas costas para carregar metade das coisas que carrego no carro, o que aumentaria o peso a carregar, a dificuldade de enfrentar os trajetos, o esforço necessário e a agilidade necessária para tentar escapar de algum imprevisto. Além disso, não poderia dar carona para ninguém.

E ainda há o fato de que o automóvel tem pára-choques e uma boa quantidade de metal entre eu e qualquer coisa lá fora. O pára-choque da bicicleta é a cara do ciclista e qualquer cachorro vadio pode representar um risco ou ferimento grave.

Isso quer dizer que eu jamais teria uma bicicleta? Claro que não! Ando pensando em comprar uma, inclusive. Mas não sou louco para usar uma bicicleta em um trânsito maluco, poluído, perigoso, sob as intempéries, com grande esforço físico e perda de tempo, além de diversos outros problemas, para bancar o salvador do mundo, achando que daqui a vinte anos não haverá carros nas ruas e todos serão ciclistas saudáveis e contentes.

Um pouquinho de bom senso não faz mal a ninguém. Bicicleta é bom para passear no parque, para fazer exercício, para pequenos deslocamentos próximos à residência ou para aventuras com os amigos (tipo ir de uma cidade a outra de bicicleta) nas férias. Para as necessidades do cotidiano em uma região urbana, é o automóvel que melhor satisfaz as minhas necessidades – e as da maioria das pessoas, como muito bem vemos pela proporção entre automóveis e bicicletas transitando nas ruas desde sempre.

Quem quiser que eu deixe o meu carro na garagem que implemente um excelente sistema de transporte coletivo, onde eu viaje sentado, com ar condicionado, a qualquer momento do dia ou da noite, com segurança, que me pegue e me deixe a não mais de 400 m de casa. E que custe menos do que andar de carro.

Espinafrar o automóvel particular virou modinha de eco-chato. Mas resolver o problema do transporte de modo razoável, confortável, prático e barato, isso ninguém faz. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 31/03/2015 

15 thoughts on “Automóveis versus bicicletas

    1. Acho ótimo… Mas olha a informação que consta no texto: “The famously flat Dutch terrain, combined with densely-populated areas, mean that most journeys are of short duration and not too difficult to complete.” Isso contrasta fortemente com a realidade que eu encontrei em todos os bairros de todas as cidades em que eu morei.

      E olha o nível de civilidade: “In many cities the paths are completely segregated from motorised traffic. Sometimes, where space is scant and both must share, you can see signs showing an image of a cyclist with a car behind accompanied by the words ‘Bike Street: Cars are guests’.” Imaginas a idéia de “rua de ciclistas – carros são convidados” funcionando no Brasil? Tem cara de que daria certo com a cultura do povo brasileiro?

      E mais um detalhe “matador” contra a razoabilidade de dar preferência às ciclovias no Brasil: “There are dangers on the roads, but very rarely do they involve heavy goods vehicles, poorly designed junctions or dangerous drivers.” Põe o sistema de lá aqui, sem trocar o povo brasileiro pelo povo holandês, e teremos uma chacina diária no trânsito.

      Se eu for morar na Holanda, vou virar um ciclista-modelo e muito entusiasta. Aqui eu não abro mão do meu monstro de metal de uma tonelada de jeito nenhum.

  1. E esse vídeo se enquadra no caso também: https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt-br

    O fato é que eu gostaria de poder vir de bike para o trabalho. E de mandar meus filhos de bike pra escola…. No meu trabalho tem chuveiros onde poderia tomar uma ducha e armários para guardar minhas coisas – então o suor não seria um problema. Tempo e clima sim, mas poderia conviver com isso.

    O que me impede, além da atual banha e preguiça (sendo resolvidos), é o risco de vida mesmo….

    1. Que pena… Não estou podendo ver vídeos… Estou com uma franquiazinha mixuruca de internet. 😛

      Mas se seguires a dieta low carb paleo a banha vai embora rapidinho. E com ela vai uma boa parte da preguiça também. A falta de vontade de fazer exercícios é causada pelo excesso de peso, não o contrário. 😉

  2. E o AGA?

    1. Que AGA? (Tenho até medo de fazer esse tipo de pergunta…)

    2. Aquecimento Global.

  3. Bonito?
    Talvez – se você pensar que isso é parte de um país em que a bicicleta se encaixa num modelo cultural.
    Provavelmente não veremos o holandês fazendo compras de mês, ou estoques em casa (até porque são minúsculas, não tem depósito assim).
    Não veremos um holandês precisando de carro para se locomover, já que ele pega sua bike e vai até o lugar mais próximo para pegar o coletivo – ou, então, vai morar perto do trabalho (não sabemos quantos em Amsterdã tem casa própria, que fixa o indivíduo em um local e o força a ter um veículo próprio para ir a qualquer lugar distante).
    Não veremos um holandês agindo com sua bike como se fosse um veículo superior aos demais, até porque ter bicicleta num lugar desses é como ter uma moto – um veículo que tem regras a cumprir, e que ele, como ciclista, também deve respeitar.
    Como disse a matéria: “não somos ciclistas, somos holandeses”. Ao contrário dos cicloativistas brasileiros, mais ativistas do que ciclistas de verdade.

  4. Interessante reflexão. Vou à pé para minha obrigação diária, mas moro a uns cinco minutos do local.

  5. Boa noticia para os ecos chatos

    drone é capaz de plantar 1 bilhão de árvores em 1 ano

    http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/este-drone-e-capaz-de-plantar-1-bilhao-de-arvores

    🙂

    1. Muito bom! Coloquei tambem noutro tópico, Caio.

  6. Autoritário

    16/04/2015 — 15:43

    Voceis do direitos dos manos tem que morre tudo, bando de defensores de vagabundo. Bandido bom é bandido torturado no pau de arara e levando choqe como na ditadura militar. Naquele tempo sim tinha orde no pais.

    1. kkkkkkkkkk!

  7. Autoritário

    20/04/2015 — 13:41

    PROVA DE QUE DIREITOS HUMANOS É COMUNISTA

    https://www.youtube.com/watch?v=NHFYvEY4Hgc

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