Seis anos de blog

Hoje o Pensar Não Dói completa seis anos de atividade. Contando com esta, foram 795 postagens, mais três que foram excluídas, e há 380 rascunhos pendentes, dos quais provavelmente 10% ainda serão publicados. O blog já mudou de nome, voltou ao original, mudou de layout, mudou de plugins, mudou de objetivo e fez seu autor mudar também.

Darwinito

Seis anos de exposição pública não passam impunes. (Se contarmos também o tempo de Orkut e Facebook, são dez anos.) Muito embora eu seja um cabeça-dura, é impossível não mudar de idéia sobre alguns temas quando se está aberto ao aprendizado e se interage com tanta gente. E, ao contrário do que dizem as pesquisas, que mostram que quanto mais alguém freqüenta as redes sociais, mais frustrado, infeliz e agressivo se torna, eu fui um ponto fora da curva e tive um grande sucesso em conhecer gente legal, fazer amizades e amadurecer. Por este lado, apesar de uma ou outra perda, o balanço foi muito positivo.

Por outro lado, o blog fracassou fragorosamente em um de seus objetivos: eu sempre quis organizar alguma atividade política a partir deste espaço. No início não estava claro qual seria, depois me decidi por tentar organizar um partido iluminista, então percebi que o interesse nisso é ínfimo e finalmente decidi não ficar dando murro em ponta de faca. Infelizmente, isso me desanimou bastante para escrever.

Muito embora eu tenha decidido manter o blog – afinal, eu sou um cabeça-dura – eu ainda não sei bem em que direção desenvolvê-lo. Eu tinha a intenção de definir isso neste artigo, pensei alguns dias nisso, mas percebi que era desnecessário e seria precipitado. O que eu tenho certeza é que pretendo manter o blog ativo, embora ainda não possa me comprometer com uma maior freqüência de postagens. 

Por enquanto, meu mais sincero muito obrigado a todos que me fizeram e me fazem companhia neste espaço. Tem sido um privilégio inestimável receber as curtidas, os comentários e as pedradas de todos os que leram algum artigo e voltaram em outro dia para ler mais um. Sempre que alguém volta e torna a comentar eu fico imensamente feliz por ter criado este espaço.

Feliz Aniversário para o Darwinito e para todos nós.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/06/2015 

Atualização no mesmo dia:

HAHAHAHAHAHAHA!!! Descobri uma coincidência incrível! 

Vejam que outro blog também faz aniversário em 24 de junho! 😛 

Informação trazida pelo Gerson B. 

Fórmula Humpf

Existe coisa mais chata que assistir um campeonato de Fórmula 1 que antes mesmo de começar já tinha o campeão (Hamilton), o vice-campeão (Rosberg) e o terceiro colocado (Vettel) definidos? Se a F-1 não mudar logo, vai perder muito público e ainda mais dinheiro. 

Emerson-Fittipaldi-Lotus-1972
Este é o Emerson Fittipaldi em sua very old fashioned Lotus de 1972. Coloquei essa foto aqui só porque ela fica bonita na chamada do artigo no Facebook. 🙂

Eu não sou um grande fã da Fórmula 1, mas sou um nerd de personalidade competitiva, então sempre curti o desenvolvimento tecnológico e gosto de assistir disputas francas e emocionantes. Nenhuma destas coisas está presente na F-1 de hoje. Os sites e blogs especializados em F-1 apontam as mais variadas causas para isso, mas a minha explicação predileta diz respeito à origem de Jean Todd, o chefão da FIA: o cara é um ex-co-piloto de rally

Se você não sacou qual a importância de o chefão da FIA ser um ex-co-piloto de rally, vou explicar isso com dois exemplos simples: as regras sobre o fluxo de combustíveis e a qualidade dos pneus. 

A regra do fluxo de combustíveis é a seguinte: em um determinado sensor cuja instalação foi tornada obrigatória, não pode passar mais de uma determinada quantidade de combustível em um determinado período de tempo, a qualquer momento da corrida. Os valores em si são irrelevantes. 

A regra da qualidade dos pneus é a seguinte: há tipos de pneus diferentes, cada equipe é obrigada a usar pelo menos dois tipos diferentes em cada corrida e a qualidade de todos os tipos é previamente determinada, fazendo com que as equipes tenham que lidar com diversos pneus que se esfarelam facilmente. 

Aí eu pergunto: o que o fã de Fórmula 1 quer? 

Quer gritar ASSSULÉÉÉRA AÍÍÍRTONNN?

Ou quer gritar ECONOMIZA SETE VÍRGULA QUATRO MILILITROS DE GASOLINA, ROSBEEERG? 

Quer assistir uma disputa acirrada, com ultrapassagens ousadas e muita perícia?

Ou quer assistir seu piloto predileto ganhar ou perder posições porque os carros estão com os pneus se desmanchando e uma equipe ou outra fez um “emocionante” cálculo para determinar o melhor momento para trocar o pneu médio pelo macio? 

Pois é. 

Para quem teve sua formação no automobilismo como co-piloto de rally, modular o estilo de pilotagem para respeitar o limite da taxa de consumo de combustível provavelmente seja emocionante. Ou talvez calcular a melhor estratégia de troca de pneus seja emocionante. Sério, eu sou um nerd, eu reconheço que isso deve ser muito emocionante para algumas pessoas – mas não para o público da Fórmula 1.

Se o Jean Todd não sabe, eu conto a real para ele: o público da Fórmula 1 quer ver velocidade, ultrapassagens ousadas e perícia nas manobras. Se quisesse ver economia de recursos e cálculos, assistiria rally, não F-1. 

Dito isso, creio que é fácil dar umas sugestõezinhas para evitar que a Fórmula 1 acabe com menos audiência que o campeonato de carrinho de rolimã do meu bairro. Eis aqui três delas: 

1) Desregulamentar quase tudo. Nada de determinar qual será a potência do motor, o número de cilindros, os detalhes aerodinâmicos, os tipos de pneus, o limite de fluxo de combustível e a estrutura da rebimboca da parafuseta. Determinem a volumetria do tanque em cerca de dois terços do necessário para completar a corrida e equalizem o peso dos pilotos. Ponto. 

OBS: “Equalizar o peso dos pilotos” é o seguinte: todos os pilotos devem pesar, digamos, 100 kg. Como nenhum deles pesa tudo isso, deve-se acrescentar peso complementar sob o assento de cada piloto de modo a completar 100 kg. Afinal, queremos ver disputa de habilidade, não de magreza ou de nanismo. 

No início haveria uma grande confusão, o que seria divertido, mas em duas ou três temporadas provavelmente todas as equipes convergiriam para um motor V-10 com uma cilindrada de cerca de 3.0 e um carro com excelente aerodinâmica, que é o que já se demonstrou ser o melhor e mais emocionante. A partir daí, teríamos novamente uma disputa franca, em alto nível, sem o atual fedor de bode na sala. 

2) Proibir a recuperação de potência. Não porque não seja uma boa idéia desenvolver mecanismos de recuperação de potência, mas porque a Fórmula 1 não é o ambiente adequado para fazer isso. Palavra de nerd que manja um pouco de Teoria do Caos

A relação entre os inúmeros componentes responsáveis pela produção de potência, pela recuperação de potência e pelo reaproveitamento de potência é tão complexa, mas tão complexa, mas tão complexa, que obter o melhor ajuste deixa de ser uma questão de capacitação técnica e passa a ser uma questão de sorte. Eu não consigo imaginar um fator mais frustrante e desestimulante do que esse. Isso é péssimo para qualquer esporte e ainda pior para um esporte tão caro. 

3) Parar de mudar o regulamento toda hora e de introduzir gambiarras desastrosas como controle de fluxo de combustível, redução da qualidade dos pneus e limitações aerodinâmicas para “evitar hegemonias”.

Não é a hegemonia que estraga o esporte, mas a ausência de disputa. O melhor piloto e a melhor equipe devem vencer tantas vezes quantas conseguirem vencer. Mas a disputa pode ser aumentada sem a indecente introdução de obstáculos planejados para frustrar especificamente a equipe que melhor fez exatamente aquilo que deveria fazer.

Ao invés de inventar gambiarras para quebrar artificialmente a hegemonia de um piloto ou de uma equipe específica, basta e é muito mais ético introduzir uma regra de achatamento de vantagens que seja sempre igual para todos. Você vai entender isso direitinho com o exemplo a seguir. 

Imagine que, a cada ponto conquistado no campeonato, seja acrescentado um peso de 150 g no carro. 

Tabela de pontos e pesos acrescidos

Perceba que essa regra é igual para todos, não altera nenhum componente ou vantagem específica de qualquer piloto, carro ou equipe, mas achata as vantagens obtidas ao longo do campeonato, dificultando que uma equipe dispare de modo inalcançável na tabela. Tão logo outra equipe se aproxime na tabela, entretanto, ela também vê seu avanço dificultado pela mesma regra, restabelecendo a diferença. Isso aumenta a disputa sem interferir no resultado final. 

Eu não digo que a Fórmula 1 deva adotar essa regra específica, que pode ou não cair no agrado dos fãs, mas que a linha de pensamento deveria ser a seguinte: primeiro, competir pelos critérios corretos, respeitando a vocação do esporte; segundo, ao invés de intervir de modo casuísta e oportunista, mudando as regras com o objetivo de alterar artificialmente os resultados, violando a meritocracia e a própria razão de ser do investimento no esporte, deveria ser procurado um modo negociado e ético de valorizar o espetáculo e aumentar a disputa – para que nenhum fã fique decepcionado, nenhum piloto frustrado, nenhuma equipe desmotivada e nenhum investidor ressabiado.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 14/06/2015

Resposta do leitor: casamento gay

Pessoas boas naturalmente fazem coisas boas. Pessoas más naturalmente fazem coisas más. Mas para que pessoas boas façam coisas más, normalmente é necessário alguma crença irracional e estúpida. O texto no quadro abaixo é de um amigo meu no Facebook em resposta ao artigo Pergunta ao leitor: casamento gay. Os grifos são meus. 

Fanáticos são inimigos da cidadania

Gente, estou deixando de resharear automaticamente os posts do Pensar Não Dói.

Embora eu seja amigo do autor, que considero uma pessoa razoavelmente inteligente e competente para muitas coisas, para outras ele apresenta uma visão preconceituosa e tacanha a que eu não tenho sempre tempo de oferecer o devido contraponto aqui (e, por óbvio, também não posso deixar a timeline servir de palanque para causas incivilizatórias). 

O motivo próximo para a decisão foi o post a respeito do casamento gay, onde o querido Arthur Golgo Lucas, com o jeito debochado que lhe é peculiar, repete os mais rasteiros lugares-comuns do lobby homossexual. É até indigno de uma pessoa alfabetizada como ele escrever um post naqueles termos, com quatro linhas fanfarrônicas, mas enfim… Como eu nem sempre tenho condições de comprar todas as polêmicas fúteis que se me aparecem nas redes sociais, prefiro me resguardar e deixar a meu alvitre escolher as em que vou me bater – ao invés de deixar ao NetworkedBlogs o papel de fazer isso automaticamente por mim. 

Quem sentir falta dos textos, não deixe de seguir diretamente o seu autor na página citada acima. 

Segundo meu amigo, sou ao mesmo tempo inteligente e tacanho. Segundo meu amigo, eu, que defendo intransigentemente os Direitos Humanos nos moldes originais, conforme a DUDH, defendo causas incivilizatórias. Segundo meu amigo, eu, que sou competente para muitas coisas, escrevi um texto indigno de uma pessoa alfabetizada. Segundo meu amigo, o texto que o incomodou tanto que ele deixou de compartilhar os artigos do Pensar Não Dói é uma polêmica fútil. 

Observe duas coisas, leitor: primeira, que o texto do meu amigo é bem esquizofrênico; segunda, que em nenhum momento meu amigo responde a pergunta feita no artigo original, limitando-se à adjetivação vazia. Eu acho isso lamentável, mas não estranho. É isso que eu quero analisar aqui.

Em primeiro lugar, ele disse que a minha visão é preconceituosa e tacanha, mas a posição que eu assumi implicitamente no artigo anterior e explicitamente neste artigo é a defesa da cidadania plena para todas as pessoas, independentemente de orientação sexual – ou de qualquer outro fator. Vamos deixar isso bem claro e bem definido: eu defendo a cidadania plena para todos mesmo, o que inclui os gays, lésbicas, transgêneros, o meu amigo, os bandidos, os criminosos, os estupradores, os torturadores, os assassinos, a Madre Teresa de Calcutá, Adolf Hitler, Mahatma Gandhi, Pinochet, Stálin, Stroessner, os Castro, o papa, o traficante da esquina, o raio que o parta, sem preconceito de espécie alguma, sem distinção de espécie alguma. Enquanto um indivíduo não violar algum direito de terceiros, nenhuma limitação a sua cidadania pode ser imposta e não deveria ser nem sequer sugerida, porque isso é a base da civilização. Julgue o leitor se minha visão é preconceituosa e tacanha.

Em segundo lugar, ele disse que a causa que eu defendi é incivilizatória, mas, como eu afirmei no parágrafo acima, minha posição é fundamentada e balizada em um modelo civilizatório em que ninguém tem direitos limitados ou tolhidos de qualquer modo a não ser que viole direitos de terceiros. E, no caso de alguém violar direitos de terceiros, eu defendo que o modo como devemos tratar estes indivíduos seja exatamente o modo como cada um de nós gostaria de ser tratado caso fosse acusado de modo injusto ou falso de ter violado algum direito de terceiros. Mais profundamente, devemos considerar a hipótese de recebermos uma condenação injusta – que é algo que infelizmente às vezes acontece mesmo nos mais perfeitos sistemas judiciários – e estabelecer para todos os tratamentos que gostaríamos de receber caso nos encontrássemos pessoalmente nesta situação. Por exemplo, se você for falsamente acusado de ser um torturador homicida e injustamente condenado, você não quer pena de morte, você não quer prisão perpétua, você não quer maus tratos, você quer uma pena de privação de liberdade em que você tem a oportunidade de trabalhar, de estudar e de provar ao Poder Judiciário o mais rápido possível que já está em condições de retornar ao convívio social. Julgue o leitor se eu defendo causas incivilizatórias.

Em terceiro lugar, ele disse que meu artigo anterior é indigno de uma pessoa alfabetizada, mas naquelas quatro linhas “fanfarrônicas” eu explicitei uma problemática de modo claro e preciso, que ele entendeu muito bem e no entanto não foi capaz de rebater senão com adjetivações vazias, sem apresentar um único argumento em contrário à posição que eu defendi. Sim, ele disse que não o fez porque não quis, porque tem o direito de escolher as causas pelas quais se bate. É uma meia verdade. A outra metade é que, para contra-argumentar, ele precisaria fundamentar seus argumentos – e ele não tem como fazer isso sem deixar claro que sua posição é baseada em uma crença irracional e estúpida. Para ser preciso, a crença de que um ser onisciente, onipotente e bondoso, capaz de criar um universo com a complexidade do nosso, engravidou de si mesmo uma virgem, sacrificou seu avatar humano a si mesmo para aplacar sua própria ira e exaltar sua própria glória, deixou instruções universais e atemporais codificadas por alguns safados que exploravam a fé de povos ignorantes no meio de um deserto há dois mil anos atrás e que uma destas instruções era que ninguém pode se relacionar com alguém do mesmo sexo ou será ressuscitado para ser torturado por queimaduras intoleráveis por toda a eternidade em nome do amor deste ser onisciente, onipotente e bondoso. Julgue o leitor se sou eu quem precisa de alfabetização e um pouquinho de aula de ciências.

Em quarto lugar, ele disse que não respondeu porque esta é uma polêmica fútil, mas se incomodou tanto com a polêmica fútil que decidiu parar de compartilhar os artigos do meu blog. Não estou reclamando que ele deixou de compartilhar os artigos, que fique bem claro, pois isso é direito dele e ele recomendou a seus amigos que sigam o Pensar Não Dói diretamente, indicando o link para fazê-lo. Julgue o leitor se a questão que eu propus é realmente uma polêmica fútil. 

Meu amigo, que eu conheço há uma década, desde o segundo ano de existência do Orkut, sempre me pareceu ser uma pessoa inteligente e decente. De fato, eu acredito que esta seja a essência da personalidade dele. Infelizmente, devido à doutrinação em uma crença irracional e estúpida, uma pessoa que de outra forma provavelmente seria um iluminista, capaz de raciocinar por conta própria e de defender posições sensatas e bondosas, tornou-se um intolerante, uma força do mal, um inimigo da cidadania, cuja atuação no mundo visa impor restrições aos direitos de pessoas inocentes cuja sexualidade ele se julga no direito de não aprovar, como se ele tivesse legitimidade para agir como legislador, promotor de justiça, juiz, júri e carrasco em nome de Deus. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/06/2015 

Pergunta ao leitor: casamento gay

Por favor, alguém me explique: como é que o casamento gay ameaça a família? Se o Estado reconhecer a união do meu vizinho gay com o namorado dele, eles vão comemorar esfaqueando a minha esposa e meus filhos, é isso? Ou talvez os gays só possam se casar se assinarem os documentos com sangue removido da hipófise de heterossexuais abatidos com balas de prata? Não sei, não estou entendendo isso. 

Bolo de casamento gay

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/06/2015 

Por que eu decidi continuar escrevendo

Por dois motivos: primeiro, porque eu fiz amigos escrevendo e novas amizades são sempre bem vindas; segundo, porque sempre existe a possibilidade de alguém que decida pensar a sério sobre o que eu escrevo abra os olhos, concordando ou discordando de mim. 

Brinde entre amigos 525x350

Eu já tive ambições bem maiores. Já pensei em usar o blog para articular um movimento social, para construir um partido iluminista, para lançar livros a partir dos debates aqui desenvolvidos… Mas só muito recentemente eu me dei conta do quão profunda é a realidade de viver no Planeta dos Macacos. Eu preciso de um tempo para pensar e repensar em alguma macaquice mais realista à qual dedicar meus esforços. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 02/06/2015