Pessoas boas naturalmente fazem coisas boas. Pessoas más naturalmente fazem coisas más. Mas para que pessoas boas façam coisas más, normalmente é necessário alguma crença irracional e estúpida. O texto no quadro abaixo é de um amigo meu no Facebook em resposta ao artigo Pergunta ao leitor: casamento gay. Os grifos são meus. 

Fanáticos são inimigos da cidadania

Gente, estou deixando de resharear automaticamente os posts do Pensar Não Dói.

Embora eu seja amigo do autor, que considero uma pessoa razoavelmente inteligente e competente para muitas coisas, para outras ele apresenta uma visão preconceituosa e tacanha a que eu não tenho sempre tempo de oferecer o devido contraponto aqui (e, por óbvio, também não posso deixar a timeline servir de palanque para causas incivilizatórias). 

O motivo próximo para a decisão foi o post a respeito do casamento gay, onde o querido Arthur Golgo Lucas, com o jeito debochado que lhe é peculiar, repete os mais rasteiros lugares-comuns do lobby homossexual. É até indigno de uma pessoa alfabetizada como ele escrever um post naqueles termos, com quatro linhas fanfarrônicas, mas enfim… Como eu nem sempre tenho condições de comprar todas as polêmicas fúteis que se me aparecem nas redes sociais, prefiro me resguardar e deixar a meu alvitre escolher as em que vou me bater – ao invés de deixar ao NetworkedBlogs o papel de fazer isso automaticamente por mim. 

Quem sentir falta dos textos, não deixe de seguir diretamente o seu autor na página citada acima. 

Segundo meu amigo, sou ao mesmo tempo inteligente e tacanho. Segundo meu amigo, eu, que defendo intransigentemente os Direitos Humanos nos moldes originais, conforme a DUDH, defendo causas incivilizatórias. Segundo meu amigo, eu, que sou competente para muitas coisas, escrevi um texto indigno de uma pessoa alfabetizada. Segundo meu amigo, o texto que o incomodou tanto que ele deixou de compartilhar os artigos do Pensar Não Dói é uma polêmica fútil. 

Observe duas coisas, leitor: primeira, que o texto do meu amigo é bem esquizofrênico; segunda, que em nenhum momento meu amigo responde a pergunta feita no artigo original, limitando-se à adjetivação vazia. Eu acho isso lamentável, mas não estranho. É isso que eu quero analisar aqui.

Em primeiro lugar, ele disse que a minha visão é preconceituosa e tacanha, mas a posição que eu assumi implicitamente no artigo anterior e explicitamente neste artigo é a defesa da cidadania plena para todas as pessoas, independentemente de orientação sexual – ou de qualquer outro fator. Vamos deixar isso bem claro e bem definido: eu defendo a cidadania plena para todos mesmo, o que inclui os gays, lésbicas, transgêneros, o meu amigo, os bandidos, os criminosos, os estupradores, os torturadores, os assassinos, a Madre Teresa de Calcutá, Adolf Hitler, Mahatma Gandhi, Pinochet, Stálin, Stroessner, os Castro, o papa, o traficante da esquina, o raio que o parta, sem preconceito de espécie alguma, sem distinção de espécie alguma. Enquanto um indivíduo não violar algum direito de terceiros, nenhuma limitação a sua cidadania pode ser imposta e não deveria ser nem sequer sugerida, porque isso é a base da civilização. Julgue o leitor se minha visão é preconceituosa e tacanha.

Em segundo lugar, ele disse que a causa que eu defendi é incivilizatória, mas, como eu afirmei no parágrafo acima, minha posição é fundamentada e balizada em um modelo civilizatório em que ninguém tem direitos limitados ou tolhidos de qualquer modo a não ser que viole direitos de terceiros. E, no caso de alguém violar direitos de terceiros, eu defendo que o modo como devemos tratar estes indivíduos seja exatamente o modo como cada um de nós gostaria de ser tratado caso fosse acusado de modo injusto ou falso de ter violado algum direito de terceiros. Mais profundamente, devemos considerar a hipótese de recebermos uma condenação injusta – que é algo que infelizmente às vezes acontece mesmo nos mais perfeitos sistemas judiciários – e estabelecer para todos os tratamentos que gostaríamos de receber caso nos encontrássemos pessoalmente nesta situação. Por exemplo, se você for falsamente acusado de ser um torturador homicida e injustamente condenado, você não quer pena de morte, você não quer prisão perpétua, você não quer maus tratos, você quer uma pena de privação de liberdade em que você tem a oportunidade de trabalhar, de estudar e de provar ao Poder Judiciário o mais rápido possível que já está em condições de retornar ao convívio social. Julgue o leitor se eu defendo causas incivilizatórias.

Em terceiro lugar, ele disse que meu artigo anterior é indigno de uma pessoa alfabetizada, mas naquelas quatro linhas “fanfarrônicas” eu explicitei uma problemática de modo claro e preciso, que ele entendeu muito bem e no entanto não foi capaz de rebater senão com adjetivações vazias, sem apresentar um único argumento em contrário à posição que eu defendi. Sim, ele disse que não o fez porque não quis, porque tem o direito de escolher as causas pelas quais se bate. É uma meia verdade. A outra metade é que, para contra-argumentar, ele precisaria fundamentar seus argumentos – e ele não tem como fazer isso sem deixar claro que sua posição é baseada em uma crença irracional e estúpida. Para ser preciso, a crença de que um ser onisciente, onipotente e bondoso, capaz de criar um universo com a complexidade do nosso, engravidou de si mesmo uma virgem, sacrificou seu avatar humano a si mesmo para aplacar sua própria ira e exaltar sua própria glória, deixou instruções universais e atemporais codificadas por alguns safados que exploravam a fé de povos ignorantes no meio de um deserto há dois mil anos atrás e que uma destas instruções era que ninguém pode se relacionar com alguém do mesmo sexo ou será ressuscitado para ser torturado por queimaduras intoleráveis por toda a eternidade em nome do amor deste ser onisciente, onipotente e bondoso. Julgue o leitor se sou eu quem precisa de alfabetização e um pouquinho de aula de ciências.

Em quarto lugar, ele disse que não respondeu porque esta é uma polêmica fútil, mas se incomodou tanto com a polêmica fútil que decidiu parar de compartilhar os artigos do meu blog. Não estou reclamando que ele deixou de compartilhar os artigos, que fique bem claro, pois isso é direito dele e ele recomendou a seus amigos que sigam o Pensar Não Dói diretamente, indicando o link para fazê-lo. Julgue o leitor se a questão que eu propus é realmente uma polêmica fútil. 

Meu amigo, que eu conheço há uma década, desde o segundo ano de existência do Orkut, sempre me pareceu ser uma pessoa inteligente e decente. De fato, eu acredito que esta seja a essência da personalidade dele. Infelizmente, devido à doutrinação em uma crença irracional e estúpida, uma pessoa que de outra forma provavelmente seria um iluminista, capaz de raciocinar por conta própria e de defender posições sensatas e bondosas, tornou-se um intolerante, uma força do mal, um inimigo da cidadania, cuja atuação no mundo visa impor restrições aos direitos de pessoas inocentes cuja sexualidade ele se julga no direito de não aprovar, como se ele tivesse legitimidade para agir como legislador, promotor de justiça, juiz, júri e carrasco em nome de Deus. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/06/2015 

16 thoughts on “Resposta do leitor: casamento gay

  1. excelente o comentário do Romacof…

  2. Interpreto esse acontecimento assim. Nossa cultura influencia muito nossas atitudes. E a cultura evolui devagar, a força das ideias racionais é pouca contra sua inércia. Casamento gay é um tema espinhoso para as pessoas. Eu sei que não tem boas razões para ser contra (pessoalmente, gostaria de ver muito mais homens de mãos dadas na rua). Mas as pessoas são só pessoas. Elas não são um homo economicus bayesiano.

    Achei que ele foi razoavelmente delicado. Ele acha que a agenda pró-gay promove argumentos errados, e que existem bons motivos para ser contra gays. Ele não quis apresentar esses bons motivos, só se reservou o direito de deixar de te compartilhar. E disse que acha impressionante alguém tão culto (o que eu entendi que ele quis dizer com a palavra alfabetizado) como você se deixar persuadir pela agenda gay.

    Eu acho que ser contra casamento gay é um anacronismo que vai ser ultrapassado pelo motor da história, a luta de classes. Mas se eu achasse que não, que o casamento gay é uma ideia errada, e que a discussão pública sobre isso é infectada por militância enganosa, eu acho que uma das melhores formas que eu poderia usar para expressar isso foi aquela que seu amigo escolheu.

    1. Ele escreveu dois parágrafos de uma adjetivação bem agressiva, sem nenhum argumento em relação ao tema abordado no artigo que o levou a tomar a decisão que tomou. Não tem problema algum ele ter deixado de compartilhar os artigos, era um favor que ele me fazia graciosamente e não uma obrigação. Mas tem um problema grave ele ser meu amigo e ter me adjetivado daquele modo sem nenhuma fundamentação só porque eu defendo a cidadania plena e igualitária sem qualquer discriminação.

      Que a cultura evolui devagar eu sei. É ridículo de trezentos anos após o Século das Luzes ainda haja quem ataque ativamente a cidadania de terceiros porque acredita que o psicopata cósmico bíblico existe de fato e é um Deus “amoroso” que manda fritar vivo por toda eternidade quem tem um pingo de personalidade e ousa não se submeter a seus caprichos narcisistas.

    2. “um Deus “amoroso” que manda fritar vivo por toda eternidade quem tem um pingo de personalidade e ousa não se submeter a seus caprichos narcisistas” Adorei essa definição do Deus bíblico!

    3. Ué, pensei que você fosse cristão Fola.

      Ok, talvez se eu estivesse no seu lugar, Arthur, me incomodasse mais.

      Assisti o filme The Imitation Game esses dias com um amigo, e descobri que em algumas décadas passamos de castrar quimicamente gays para permitir que se casem e adotem em vários lugares. As coisas estão melhorando. A militância não é em vão. Até me deparo com muita gente da geração dos meus pais se questionando se, afinal, não tem nada de errado com gostar de gente do mesmo sexo. Já vi uma senhora religiosa falando disso.

    4. Elvis, eu fui criado em uma família cristã e digo que sou cristão, porque admiro os ensinamentos de Jesus Cristo.

      Porém, o Deus em que eu acredito é um Deus amoroso e piedoso, bem diferente do psicopata vingativo descrito na Bíblia.

      Poderia-se dizer que eu vivo a minha própria vertente do cristianismo.

  3. kkkkkkkkkk. Só dou risada, que porra é essa? Bateu histeria no sujeito. Só pode ser isso. O problema não é a homossexualidade alheia e sim a própria sexualidade dele, logo a frase do Romacof faz é muito sentido. Deve estar preso na encruzilhada dos 24 anos.

  4. Me irrita quando dizem que Jesus escolheu morrer para me salvar. Do ponto de vista de quem acredita nas histórias, ele podia ter soltado bolas de fogo pela mão e matado todo mundo e fugido, eu sei. Mas na real mesmo, me parece que o cara não teve escolha. Era ele contra o poderoso império romano. Não estudo história e menos ainda coisas sobre cristianismo. Mas a impressão que eu tenho é que ele não teve escolha. Como falei, entendo que assumindo que o cara era deus ele podia ter usado seus super poderes. Mas eu assumo que ele não era deus. E ironicamente, o poderoso império ruiu faz tempo, mas a religião dos seus seguidores continua de pé até hoje.

    1. O que me leva a formular o seguinte “dilema de Jesus”: você as duas opções abaixo. Qual escolher?
      1. Nada acontece
      2. Você morre imediatamente, mas as pessoas vão estudar sua vida e suas ideias pelos próximos dois mil anos. Impérios poderosos vão promover a crença na sua divindade. Intelectuais de peso vão dedicar suas vidas a te estudar. Artistas populares vão entreter multidões falando de ti. Artistas eruditos vão criar obras que estarão entre as mais belas já criadas, sobre você e sua vida. Você vai ser rotineiramente considerado uma das pessoas mais importantes que já existiu, se não a mais importante. Nesse cenário, quando você morre, não tem deus nem vida após a morte nem nada disso. Acabou. Pra sempre. Mas se você acredita em vida após a morte, seus seguidores também vão acreditar. Se você acredita em deus, idem; etc.

      Esse é um experimento mental pra entreter amigos, nada mais. Ninguém me disse que preferiria se jesusificar. Eu pessoalmente acho tentadora a ideia de ser lembrado por milênios. Mas por outro lado, minha intuição me diz que os ~50 anos de vida que me restam são tudo que eu tenho.

      Curioso notar que meus amigos com quem discuti isso, assim como eu, só pensaram nas consequências para si da decisão. A ideia é mesmo discutir o que vale mais, ser grande entre os homens, ou poder respirar e sentir o cheiro de uma rosa. Mas essa decisão traria grandes consequências para a sociedade toda. Então, se formos minimamente morais, ao responder ao dilema, devemos considerar o impacto que nossas crenças terão na vida de bilhões de pessoas.

      Presumivelmente, como “não há nada mais bem distribuído que o bom senso”, muitos achariam que suas formas de pensar e interpretar o mundo são inerentemente boa. Mas acho também que tem gente com um grau de ceticismo com relação a si mesmo, que não se sente a altura da tarefa de influenciar bilhões de pessoas. Pessoalmente, tenho dificuldades de imaginar como seria uma sociedade com uma religião-Elvis. Se eu gostaria de viver em uma sociedade assim (assumindo que eu não fosse eu).

    2. Eu viveria sem problema algum – e bem contente – em uma sociedade arthurianista. 🙂

    3. Mas Jesus não deixou nada escrito. O que os cristãos de hoje seguem são as taras de Paulo. Você não tem como garantir quem vai escrever seu livro sagrado.

    4. A não ser que você mesmo o escreva. Mas parece que o próprio Deus encarnado ou não teve a idéia ou não teve a capacidade de fazer isso e preferiu deixar a tarefa para anjos e apóstolos de apóstolos, décadas depois, com a confiabilíssima transmissão oral de um povo muito culto e nada dado a superstições…

    5. Imagina se o novo Jesus fosse um desses “machos alfa” que só querem saber de “pegar mulher” (e, em alguns casos, academia) pra poder postar na internet depois.

      Meu deus (ironia), numa sociedade assim, o suicício não é só moral mas deveria ser encorajado.

    6. Ah, desses “alfas” aí tá cheio em qualquer lugar…

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