Desde que eu escrevi o artigo “uma pequena mudança no blog“, eu escrevi e reescrevi cinco vezes o artigo com o qual eu iria inaugurar a nova fase. Não é que o assunto fosse difícil de tratar. O problema foi que, em todas as tentativas, eu infringi a decisão tomada no artigo “iluminismo versus embrutecimento“, algo que eu não quero fazer a não ser que seja muito necessário, por mais que eu esteja no terreno mais alto. 

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Algo que eu não quero fazer a não ser que seja muito necessário, por mais que eu esteja no terreno mais alto.

No tempo do Orkut, devido aos meu interesses da época, eu criei uma comunidade chamada Religião, Ciência e Política. Relendo o artigo “iluminismo versus embrutecimento“, eu me lembrei da descrição daquela comunidade e decidi resgatá-la do Orkut. Acho que você vai sacar o motivo quando ler a descrição dela: 

Religião, Ciência e Política 

A Religião explica o mundo pela fé. 
A Ciência explica o mundo pela razão. 
A Política controla o mundo. 

Se você quiser convencer o outro que sua religião é verdadeira, precisa viver de maneira tão absolutamente santificada, irradiar tanta paz, felicidade e contentamento, que os outros venham lhe perguntar como alcançou este patamar; somente então deve explicar como obteve tal Graça. 

Se você quiser convencer o outro que sua afirmação é verdadeira, precisa argumentar de modo tão lógico, coerente e baseado em dados cientificamente válidos, que os outros venham lhe perguntar quais os fundamentos de seus argumentos; somente então deve explicar como obteve tal Conhecimento. 

Se você quiser influir positivamente no destino da sociedade e do planeta, precisa participar na vida social e política de modo tão estimulante, construtivo e agregador, que os outros venham lhe perguntar como contribuir; somente então deve explicar como obteve tal Habilidade. 

Hoje eu acrescentaria um parágrafo sobre a economia:

Economia

Se você quiser produzir segurança material e conforto para a sociedade, precisa produzir abundância de modo tão eficaz, socialmente benéfico e ecologicamente sustentável, que os outros venham lhe perguntar como produziu tanta riqueza; somente então deve explicar como obteve tal Capacidade. 

O fator fundamental nesta análise, entretanto, é a lógica de somente oferecer algo para quem já está interessado naquilo. Nada de bater na porta das pessoas na manhã de domingo perguntando se elas têm um tempo para conhecer Jesus. Nada de discutir biologia evolutiva com quem acha que a Terra tem cerca de seis mil anos e que não reconhece que não passa de um macaco falante. Nada de explicar a importância da organização e da mobilização em torno de um ideal para quem só se interessa por futebol e novela. Nada de oferecer lanche grátis para quem não demonstra interesse em se qualificar para obter melhor qualidade de vida. E nada de escrever para quem não está interessado na visão de mundo ou nos argumentos do autor. 

Eu sou um iluminista, um radical de centro, um vanguardista. Porém, quando eu comecei a escrever aquele artigo pela sexta vez, eu percebi que não estava escrevendo para iluministas, centristas e vanguardistas. No fundo eu estava escrevendo focado inconscientemente em ser lido ou pelos inimigos destas posições, para tentar incomodá-los, ou pelos que a desconhecem, para tentar convencê-los, conforme a versão do artigo. É muito difícil evitar isso, pelo mesmo motivo que torna muito difícil debater um assunto com quem concorda plenamente conosco.

Talvez eu deva me concentrar mais apenas em me manter no terreno mais alto. O resto será conseqüência. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 11/07/2015 

 

12 thoughts on “As coisas simples nem sempre são fáceis

  1. Por um lado, concordo que dar conselho que ninguém pediu pode ser chato. Mas se você acabar criando uma comunidade de gente que concorda com você, talvez deixe de afetar justamente quem mais poderia se beneficiar do que tem a dizer. Nós somos a espécie em que se um médico passa 5 MINUTOS falando para alcólatras que seria bom eles tentarem reduzir o consumo de álcool, isso já ajuda as pessoas a beberem menos. Mesmo que seus textos não inspirem todos a se erguerem e provocarem o impeachment do PT, e a te colocarem no poder como Ditador Benevolente Por Toda A Vida Do Brasil, você está fazendo as pessoas que discordam de você pensarem mais. Claro, você pode só estar reforçando a convicção de quem discorda, via inoculação.

    Também acho que não é legal praticar proselitismo agressivo. Se isso não desse certo, os grupos que praticam isso iam se extinguir naturalmente. Mas acho que esses grupos não devem ser modelos para alguém que professa a racionalidade. Esses métodos podem atrair membros, mas membros de baixa qualidade, por assim dizer.

    Mas quero ver como você vai escrever sem tentar provocar nem convencer. Nunca vi você fazendo isso publicamente :p

  2. Entender isso intelectualmente é um coisa. Vamos ver se você consegue aceitar isso plenamente, Arthur. É difícil não querer agir de forma mais direta, vendo o caos do mundo e como a humanidade caminha pro abismo.

    1. Como a humanidade caminha pro abismo? Muitas coisas têm melhorado. Consigo pensar em um motivo pra dizer que a humanidade caminha pro abismo. Corremos risco de extinção por problemas climáticos. Mas acho que não é o que você tem em mente.

    2. Gerson:

      Não é fácil. Não será fácil. Mas vamos escalando…

    3. Elvis:

      HAHAHAHAHA!!! Olha o que diz PDF que eu achei com o resumo da obra:

      Why should literacy matter?

      The Enlightenment:

      Knowledge replaced superstition and ignorance.

      “Jews poison wells, heretics go to hell, witches cause crop failures, children are possessed, Africans are brutish…”

      Voltaire: “Those who can make you believe absurdities can make you commit atrocities.”

      Cosmopolitanism:

      – Reading fiction, history, journalism
      – Inhabit other peoples minds
      – More empathy, less cruelty

      Se o cara acha que o Iluminismo é a solução, ele começou a andar na direção certa. 🙂

      Infelizmente, a obra tem um insuperável fedor de politicamente correto… O que me dá absoluta certeza de que contém erros de análise monstruosos. Por exemplo, ele cita como prova de que estamos no caminho de “um mundo melhor” o aumento exponencial do comércio internacional, o que é altamente questionável exceto como indicador de ausência de guerra; o número de países que favorecem minorias étnicas, o que é apenas uma forma de dominação e violência com o sinal invertido; a redução de estados americanos com “punições corporais”, o que pode ser positivo ou negativo dependendo da definição de “punição corporal”; a redução de brigas na escola, o que pode implicar o agravamento das brigas fora da escola; o declínio da caça, o que pode ter um efeito psicológico, social, econômico e sanitário catastrófico; o aumento do vegetarianismo, que para mim é um reconhecimento do aumento da superstição, da ignorância e do fanatismo.

      Quando ele cita o macho alfa como “motivo para violência”, então, eu tive que dar risada. 😛 Ó, céus! O que ele pensa ser razoável fazer a respeito do macho alfa? Castrá-lo, não através de cirurgia, mas de legislação e repressão, como tem sido feito em larga escala pelo politicamente correto? Bem… Eis um dos motivos pelos quais diversas curvas de criminalidade e violência apresentam uma inflexão positiva desde a segunda metade do século XX. E eis também um bom motivo para duvidar da democracia como regime razoável ou mesmo alternativo à plutocracia ou à autocracia. Quando a emasculação dos bons cidadãos é vista como algo bom, sobram não-emasculados somente os piores, aqueles que menos tiveram acesso à educação ou que mais tem capacidade de cometer manipulação política e econômica, estelionato e fraude eleitoral, malversação de recursos públicos e diversas formas de corrupção, etc…

      Não por acaso, nas modernas democracias, justamente aquelas em que está ocorrendo uma inflexão positiva da curva de violência no último meio século, os quatro “melhores anjos” que ele mesmo cita sofrem a cada dia maior difamação e rejeição como coisas arcaicas, obsoletas, demodês, caretas, autoritárias e retrógradas: auto-controle, empatia, senso moral e razão. São coisas “muito escoteiras”, e escotismo é uma reprodução dos valores puritanos e imperialistas ocidentais, blá-blá-blá.

      O comércio no mundo capitalista, por sua vez, provavelmente tem um efeito na violência que seria bem representado por uma parábola em um gráfico: primeiro começa a fazê-la diminuir, depois atinge um mínimo, depois começa a fazê-la aumentar novamente, devido à intrínseca geração de desigualdades do capitalismo. Mas vamos deixar registrado: obviamente a solução não é socialismo/comunismo, que é uma escolha ainda pior. Ainda estamos por criar um sistema econômico razoável.

      E há coisas ainda mais preocupantes no livro. Ele apresenta a violência como algo a ser evitado. Isso é um erro gravíssimo. É absolutamente impossível eliminar a violência, a não ser talvez com uma ditadura que a monopolize completamente… Deixando-nos sem nenhuma defesa contra qualquer que seja a entidade que exercer este monopólio. É uma ilusão ridícula acreditar que alguém ou alguma instituição humana que detenha completamente o monopólio da força e da violência irá respeitar alguma regra que não as que bem entender, seja ela o Estado, o Mercado, o balanço entre os dois ou qualquer outra. Existe solução para isso, tanto no nível individual, quanto nacional, quanto internacional, mas não é meu propósito discutir isso agora. (Dica: a solução passa por equalização de forças, tornando a violência anti-econômica e anti-estratégica para o agressor injusto.)

      Outro erro essencial: nem de longe a causa do declínio das famílias é a redução da violência. Isso ficaria imenso para explicar agora, mas basicamente se deve aos ambientes impessoais e às ideologias (tanto egoístas quanto coletivistas) que estimulam o egoísmo pessoal. (Ninguém caia na armadilha de usar a palavra “individualismo” neste contexto. Individualismo é a grande solução para o mundo moderno, porque permite valorizar cada indivíduo solidariamente em um contexto artificial não-tribal absurdo porém inescapável como os grandes Estados modernos.)

      Enfim, o livro tem vários acertos, mas diversos erros graves. Fico impressionado como tanta coisa nas “humanidades” ainda é produzida – ou cada vez mais é produzida – sobre um alicerce de areia, no qual a biologia humana é completamente ignorada. Não vejo estes autores jamais se referirem a coisas como biologia evoluitiva, seleção natural, as interferências culturais e tecnológicas na seleção, a base biológica, ecológica e evolutiva das características psicológicas, sociais, culturais e econômicas da humanidade, etc. É um mar de ignorância sustentando um edifício de areia. A humanidade não tem como dar certo enquanto não jogar todas as “humanidades” na lata do lixo, de Adam Smith a Marx, de Freud a Focauld, de Voltaire a Rosseau, e construir tudo de novo com o alicerce solidamente fundamentado em Darwin, Popper e Kant.

    4. Elvis, falando apenas de um ponto de vista Arthuriano, o mundo caminharia para uma catástrofe ecológica. Há muitos pontos de insustentabilidade, dos quais o aquecimento global é provavelmente o mais falado, mas não o único.

      já folheei esse interessante livro, mas não tive como analisar com o pouco que li. E é vasto demais. Pareceu ter coisas corretas, mas sou naturalmente desconfiado de teses otimistas. Vou aproveitar o link do Arthur ai pra ver mais.

    5. Temos aí a redução de biomassa necessária para o tamponamento climático, devida principalmente ao desflorestamento, e a mudança do pH e da química geral dos oceanos, devida à absorção de CO2 pelas águas. Só estes dois fenômenos já deixam qualquer biólogo consciente e bem informado torcendo para Marte ser colonizável. 😛

    6. Ah achei que era sobre fascismo, ou algo político assim.

      Essas suas opiniões, Arthur, sobre violência e etc não me agradam 🙁 To sem saco de ler mais (começando pela bibliografia do livro do Pinker, talvez?) sobre o assunto (e nem posso mesmo, no momento), então vou partir pro xingamento (se quiser usar um nome de falácia informal em latim, à vontade): bobão, promotor das drogas e das armas, mão de alface!

    7. HAHAHAHAHA!!! Mão de alface é nova para mim. Tradução, por favor!

      Porém, se minhas opiniões sobre violência não te agradam, lamento te informar, tu defendes um sistema mais violento que eu. Meu objetivo é reduzir a violência contra o inocente ao mínimo possível. Isso requer o conhecimento e a aceitação da realidade biológica, psicológica e sociológica de nossa espécie, a identificação da verdadeira modulação de resposta promovida por cada incentivo econômico e a correta calibração destes incentivos para que o objetivo seja alcançado. “Proibir a violência” simplesmente não funciona, aliás, é ridículo. E punir é um ato a posteriori, não impede de fato que a violência seja praticada. Só o que impede a violência contra o inocente é torná-la anti-econômica para o agressor injusto. E a melhor maneira de fazer isso é reagir a ela de modo imediato e decisivo. Muitas vezes isso requer necessariamente o uso de uma força ou violência igual ou muito superior à do agressor injusto.

      E, sobre as drogas, sabes muito bem que eu não defendo o uso, mas o direito à própria decisão. A ninguém podemos conferir o direito de decidir por nós. Se eu tivesse a obrigação de seguir as recomendações dos médicos e dos nutricionistas, eu estaria me evenenando cada vez mais, como a maior parte do povo está fazendo, e teria minha vida muito abreviada. É porque eu tenho a liberdade de decidir que eu estou saindo de quatro décadas e meia de intoxicação crônica e recuperando rapidamente minha saúde. E, se quem estiver errado for eu… Bem, eu sou um biólogo, eu acredito tanto em seleção natural que aposto minha própria vida. Mas só a minha.

  3. É muito difícil tentar manter o verniz quando a madeira quer apodrecer, mas gostei do artigo, parabéns, e pode contar com o amigo. Permita-me a liberdade de cutucá-lo quando perceber algum sinal de descascamento…

    1. É um favor que me fazes! 🙂

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