Um mendigo morador de rua me abordou tentando me vender uma pulseira supostamente de ouro que ele teria encontrado pelo chão por apenas R$ 5,00. Eu paguei R$ 25,00, a pulseira era só uma bijuteria de cobre e eu acho que fiz um ótimo negócio, tanto que a estou usando até hoje. Ele jogou fora a melhor oportunidade da vida dele. 

Oportunidade
O absurdo dos absurdos é que esta história está me incomodando há semanas, não por eu ter pago muito mais do que a pulseirinha valia, mas porque eu sei que o coitado deve ter se achado muito esperto por me tirar R$ 20,00 a mais do que imaginava possível, enquanto eu estava disposto a oferecer a ele uma casa para morar com o mesmo conforto que eu, segurança alimentar e a oportunidade de se reerguer na vida de modo honesto, digno e seguro.

Fábio Roberto (nome verdadeiro) aproximou-se da janela de meu carro pedindo licença e fazendo uso de um vocabulário refinado e de boa articulação verbal: “não pense o senhor que eu seja uma pessoa de má conduta”. Aquilo chamou minha atenção. Ali estava uma pessoa que era um pouco mais do que parecia. Mas eu estava passeando com meus amigos, fazendo uma despedida, porque me mudaria de cidade na semana seguinte. Não era um momento em que eu estivesse disposto a ouvir uma conversa fiada cujo objetivo, estava óbvio, era me tomar dinheiro. E não deu noutra.

“Eu achei essa pulseirinha no chão lá na Calçada da Fama (local de Porto Alegre freqüentado por um público de alto poder aquisitivo) e queria só R$ 5,00 nela porque estou sem nenhum dinheiro.”

Para me livrar dele o mais rápido possível, resolvi comprar logo a porcaria do badulaque inútil que ele estava me oferecendo. Peguei R$ 5,00 do bolso, estendi para ele e coloquei a pulseirinha pendurada no retrovisor. Mas eu devo ter feito uma evidente cara de “O que eu faço para me livrar desse cara o mais rápido possível? Já sei! Compro a pulseirinha!”, porque ele percebeu e comentou, deixando perceber que havia se sentido humilhado por meu gesto. A bofetada me fez acordar e então eu dei atenção àquele mendigo de vocabulário refinado, boa articulação verbal e algum senso de dignidade.

Ele contou uma longa história, que eu ouvi com atenção e interesse genuínos e agora conto a você.

Fábio Roberto é natural de uma cidade do interior gaúcho, onde vivia com sua esposa, que havia sido sua primeira namorada, e os filhos do casal. Largou a escola e começou a trabalhar aos doze anos de idade, estimulado pelo pai, que lhe dizia que a escola da vida lhe ensinaria muito mais do que a escola dos livros. Proféticas palavras, mas não do modo como você está pensando agora.

Bem disposto e dedicado, o jovem aprendiz foi trabalhar no ramo da construção e manutenção de casas, tornando-se um profissional gabaritado em instalações elétricas, hidráulicas, colocação de azulejos e acabamentos em geral, com mais de 35 anos de experiência na área. Saiu da pobreza e construiu um padrão de vida de classe média para sua família com esta atividade. Tinha prazeres simples: futebol, cerveja e uma sinuquinha com os amigos. Era dedicado à família e diz que sempre foi 100% fiel à esposa. Mas um dia descobriu que havia contraído o HIV.

Duvido que exista maneira mais cruel de descobrir uma traição: através de um laudo laboratorial positivo para uma doença sem cura que você, sendo 100% fiel a sua parceira, só pode ter contraído por via sexual. Dela. Que também só tinha tido você como namorado.

A esta altura da narrativa fiquei realmente impressionado com a decisão que ele tomou: saiu de casa, com medo de que tivesse uma crise de raiva e fizesse alguma besteira da qual pudesse se arrepender. Foi para a casa do irmão esfriar a cabeça.

Na casa do irmão, o segundo choque: a cunhada, desinformada e preconceituosa, com medo de contrair o HIV pelo simples convívio no mesmo ambiente, objeta sua permanência. E então ele se retira da casa do irmão, sai da cidade e se torna morador de rua.

Após três anos vivendo na rua, sob o sol, a chuva, o calor, o frio e muitas vezes tendo que revirar lixo para encontrar o que comer, Fábio Roberto se aproxima da janela do meu carro, me vende uma pulseirinha, me conta esta história triste e diz que só continua nesta situação porque ninguém lhe dá uma oportunidade. Diz que, quando descobrem que ele é morador de rua, não lhe dão emprego, e assim o condenam a ser morador de rua para sempre.

Não foi só isso que ele falou, é claro. Rolou também um papo filosófico sobre ele sempre ter feito tudo certo e ter acontecido tudo aquilo com ele. Segundo seu próprio relato, ele sempre demonstrou estoicismo e firmeza de princípios. Realmente parecia uma pessoa que, apesar de ter passado por grandes injustiças, tinha seus valores e não se deixava contaminar.

Minha amiga, que estava no carro ouvindo a conversa e que precisa fazer uma reforma em casa, perguntou se ele toparia fazer o serviço, mas que isso só poderia ser feito dali a um mês ou dois. Até lá ela não teria condições de ajudar, mas ela achava que ele merecia a chance – e ela é do tipo que conhece bem as pessoas.

Eu, que me preparava para viajar de mudança para outra cidade, pensando em aprender justamente o tipo de trabalho no qual ele se dizia gabaritado, tendo em vista a impressão geral que tive dele após uma longa conversa com muitos detalhes dos quais a maioria eu hoje certamente já esqueci, pensei o seguinte: “Eu posso alugar uma casa que tenha outra nos fundos, ou uma edícula, dar um teto para esse sujeito, segurança alimentar e um emprego. Aprendo com ele o que quero, deixo o cara bem encaminhado, deixo para ele a empresa com toda a clientela e me mando para a Europa.”

Percebendo que a avaliação de minha amiga e a minha eram semelhantes quanto ao sujeito, eu tomei coragem e fiz mesmo a proposta: “Tchê, eu vou me mudar de cidade. Se tu topares ir para onde vou, eu te dou a oportunidade que tu dizes estar procurando. Eu te dou um lugar para morar, um emprego com carteira assinada e depois que aprender teu ofício eu te deixo de graça a empresa com toda a clientela e vou embora. Topas?”

No início ele não acreditou. Custou para aceitar que minha amiga e eu estávamos falando sério. Mas acabou se convencendo e parece que percebeu que estava com uma oportunidade real em mãos pela primeira vez em muitos anos. Topou, é claro.

Ficamos conversando mais um pouco e ele perguntou onde podia comprar um cachorro-quente-morte-lenta qualquer naquele horário. Aí eu tirei mais R$ 20,00 do bolso, dei para ele e disse: “na quadra aqui ao lado tu encontras uma refeição muito melhor, vai lá, come o que tu quiseres e volta aqui para a gente continuar conversando e combinar os detalhes de nosso acordo”.

Ele saiu todo sorridente e entusiasmado, dizendo que ia comer carne, arroz e feijão, que estava muito feliz e que logo voltaria para dar início a uma vida nova.

Mas nunca voltou.

Nem naquele dia, nem nos dias seguintes, nem nunca mais. E ele sabia onde e como nos encontrar nos dias seguintes se quisesse.

Quando ele estava se afastando, porém, eu peguei a pulseirinha que ele havia me vendido, coloquei no pulso e falei para meus amigos: “Esta correntinha vai servir para eu me lembrar da lição que eu vou aprender hoje. Vamos ver o que o Fábio Roberto vai me ensinar.”

E o que o Fábio Roberto me ensinou é que ele não está naquela situação porque ninguém dá uma oportunidade para ele, mas porque ele ou não pôde aproveitar a oportunidade porque mentiu sobre suas habilidades, ou não teve coragem de sair de sua zona de conforto. É um perdedor consolidado.

A correntinha está no meu pulso até hoje. Tem sido uma lembrança constante para eu ficar atento às oportunidades, ser sincero para comigo mesmo quanto a minhas habilidades e ter coragem para sair de minha zona de conforto quando um projeto parece valer a pena. E também tem sido uma lembrança para observar muito mais as atitudes que as palavras das pessoas, porque é isso que mostra o que cada uma é de fato e o que se pode realmente esperar delas. Valeu cada centavo daqueles R$ 25,00.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 28/07/2015 (publicado em 14/08/2015)

12 thoughts on “Oportunidades e atitudes

  1. Roberto Tramarim

    14/08/2015 — 22:16

    Certa vez, assistindo um filme, um chefão mafioso(ou algo assim) ve um guri tendo um piti no bairro que ele dominava. Indagado pelo figura sobre o motivo da raiva ele diz:
    -Emprestei 30 dólares a um amigo e ele não pagou e ainda fica fugindo de mim.
    Ao ouvir tal explicação, o mafioso não se conteve:
    -Você se livrou de um canalha por apenas 30 dólares e ainda reclama?
    Pois é, o Arthur foi ainda mais feliz que o guri do filme na barganha.

    1. Imaginei que lembrarias disso. 🙂 Mas lamento pelo coitado. Ele foi seu próprio pior inimigo.

  2. Texto matador. Nota 1000. Simplesmente perfeito.

    1. Valeu, Robson! 🙂

  3. Nossa Arthur que texto sensacional!!!Vou até guardar nos favoritos, tem coisas nele que refletem na minha vida.

    1. Na vida de todos nós, Max. 😉

  4. “Conheço” o cara!… e, infelizmente, vou continuar conhecendo! Parabéns!

    1. Hein? Faltou neurônio aqui pra entender o “infelizmente”.

  5. Fátima dos Santos

    16/08/2015 — 21:53

    Então Arthur você vai notar que esta é a primeira vez que eu posto um comentário neste blog,antes de tudo gostaria já de antemão pedir desculpas pelos possíveis erros gramaticais e de concordânca,deixe eu me apresentar,sou possivelmente uma improvável leitora do Pensar não dói ,afirmo isto por ser transexual,com algumas tendências de esquerda ,feminista(me julgue) e com pouca instrução formal,você sabe a 15 anos atrás a maioria das pessoas não conhecia termos como transfobia,transexualidade e outras coisas muito em voga hoje em dia,então pessoas como eu eram gentilmente #SQN convidadas a se retirar da escola para acabar eu alguma esquina da vida fazendo você sabe bem o que ,então ,sem vitimismos ou pieguice ,fui tocando minha vida assim até hoje e de uma maneira meio torta busquei um pouco de conhecimento sozinha.Bem você deve estar se perguntando como descobri teu blog,na verdade eu estava pesquisando sobre H.P Lovecraft,cai no blog do Carlos Orsi que foi paixão a primeira vista,depois fui entrando em outros links no blog dele,até que acabei aqui,bem as vezes não concordo com alguns argumentos teus,mas gosto como você expõem teus argumentos,principalmente quando eles confrontam o que eu considero como certo.E por que eu fui postar logo hoje?Na minha adolescência ,quando eu sai de casa ,acabei indo morar nas ruas ,isto porque eu não queria me prostituir,então sem dinheiro ,acabei adotando as ruas como lar,depois me revoltei acabei encarando a prostituição como forma de sobreviver, mas voltando ao tempo de morar na rua : com 16 anos fui parar em Porto Alegre,isso foi no começo dos anos 2000 o crack estava começando a se espalhar pelas ruas da cidade e não sei como ,passei ilesa ,sem nunca ter experimentado esta droga na vida,aliás ,nunca fui de usar droga nenhuma,ninguém acredita nisso,mas eu sei o que passou ou não na minha vida ,então não me importa muita o o que os outros pensem sobre mim.Agora vou entar na parte do Sr Fábio Roberto,morando na rua aprendi a enxergar,está parcela da população de forma ,digamos assim,particular,vivendo naquele inferno,descobri como o ser humano,pode ser cruel,mesquinho,como ele consegue refinar seus níveis de sordidez,por experiência própria acabei concluindo,que as piores pessoas com a qual cruzei na vida não foram skinheads,poliiais violentos,pitboys ouqualquer grupo dito opressor ,mas sim pessoas igual a mim ,moradores de rua ,travestis ,negros,pessoas com com poucas oportunidades ,sim ,foram sempre os chamados oprimidos que me espancaram,estupraram,esfaquearam ,que tentaram me passar a perna,notei por vivência própria que quanto mais as pessoas descem na escala social,mais elas perdem a empatia,o respeito ao próximo e noção de viver em sociedade,muitas vezes estas mesmas pessoas sempre vinham embaladas com uma embalagem de coitadinho,de vítima social,sempre com histórias tristes para desculpar seus erros e falta de caráter,dissimulados ,sempre com histórias tristíssimas,que até em parte poderiam ser verdadeiras,mas sempre ocultando o outro lado da história,que muitas e muitas vezes esta história ganha ângulos bem menos nobres,pensei examente nisso quando comecei a ler a história do senhor Fábio.Ah desculpa o texto longo e agradeço os posts que me ajudam a ver o mundo de outra forma.

    1. Fátima, eu já tive conhecimento de outros depoimentos como o teu, na linha de “os chamados oprimidos são eles próprios opressores quando podem”. Também já vi isso acontecer. Mas é muito difícil convencer as pessoas que não convivem com essa realidade de que isso ocorre, porque elas pensam (ou apenas alegam) que ser oprimido confere grandeza moral às vítimas. Temos um longo caminho pela frente até que essa ilusão seja desmascarada.

      Seja bem-vinda ao Pensar Não Dói.

  6. Ou a história toda que ele contou era mentira

    1. Sim, como eu disse no penúltimo parágrafo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *