Em O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan, consta a citação de um trecho traduzido de The ethics of belief, de William K. Clifford, que reproduzo (com algumas correções) logo abaixo. Leia com atenção. Depois eu volto. 

carl-sagan-o-mundo-assombrado-pelos-demonios

Um proprietário de navios estava prestes a mandar para o mar um navio de emigrantes. Ele sabia que o navio estava velho, e nem fora muito bem construído; que vira muitos mares e climas, e com frequência necessitara de reparos. Dúvidas de que possivelmente não estivesse em condiıes de navegar lhe haviam sido sugeridas. Essas dúvidas lhe oprimiam a mente e o deixavam infeliz. Ele chegou a pensar que o navio talvez tivesse de ser totalmente examinado e reequipado, ainda que isso lhe custasse grandes despesas.

No entanto, antes que a embarcação partisse, ele conseguiu superar essas reflexões melancólicas. Disse para si mesmo que o navio passara por muitas viagens e resistira a muitas tempestades em segurança, que era infundado supor que não voltaria a salvo também dessa viagem. Ele confiaria na Providência, que não podia deixar de proteger todas essas famílias infelizes que estavam abandonando a sua terra natal em busca de dias melhores em outro lugar. Tiraria de sua cabeça todas as suspeitas mesquinhas sobre a honestidade dos construtores e empreiteiros.

Dessa forma, ele adquiriu uma convicção sincera e confortável de que o seu navio era totalmente seguro e capaz de resistir às intempéries; assistiu sua partida de coração leve e cheio de votos bondosos para o sucesso dos exilados naquele que seria o seu estranho novo lar; e embolsou o dinheiro do seguro, quando o navio afundou no meio do oceano, sem contar histórias a ninguém.

O que devemos dizer desse homem? Sem dúvida, o seguinte: que ele foi de fato culpado da morte desses homens. Admite-se que ele acreditava sinceramente nas boas condições de seu navio; mas a sinceridade de sua convicção não o ajuda de modo algum, porque ele não tinha o direito de não acreditar na evidência que estava diante de si. Não adquirira a sua opinião conquistando-a honestamente pela investigação paciente, mas reprimindo as suas dúvidas…

William K. Clifford, The ethics of belief (1874)

AGL

Voltei.

Pergunto: o que se pode dizer de um profissional da saúde que tem em mãos o mesmo tipo de responsabilidade e poder de decisão que o dono do navio da história acima? Se houver a menor chance de que suas convicções estejam equivocadas – por exemplo, se houver alguém que alegue ter evidências de alto nível que provem que suas convicções estão equivocadas – terá o profissional da saúde o direito de não examinar as novas evidências ou de não acreditar nelas? Ou, agindo assim, ele se tornará de fato culpado por todo o sofrimento e por todo o desfecho negativo que vier a sofrer qualquer um de seus pacientes, por mais que ele confie sinceramente que está fazendo o melhor que pode? 

Respondo: pelos mesmos motivos pelos quais o dono daquele navio não tinha o direito de lançá-lo ao mar sem uma profunda e adequada verificação de seu estado, especialmente no caso de alguém o haver informado de um possível defeito ou mau funcionamento, eu penso que um profissional da saúde não tem o direito de não fazer constantemente uma verificação profunda e adequada na mais recente e qualificada informação publicada sobre seu ramo de atuação e muito menos de ignorar as evidências científicas de mais alto nível disponíveis. 

Dito isso… 

Eu afirmo que há evidências fortes de que as orientações nutricionais tradicionais, baseadas na pirâmide alimentar, estão erradas e causam malefícios à saúde humana. 

Eu afirmo que há evidências fortes de que uma dieta paleolítica de baixíssimo carboidrato é a orientação nutricional mais adequada para o tratamento da síndrome metabólica, da obesidade, da diabetes, da hipertensão, do risco cardíaco e de outras enfermidades como o TDAH, a depressão e o mal de Alzheimer, além de diversas outras condições crônico-degenerativas. 

Eu afirmo que as evidências que citei são de alta qualidade, que muitas delas estão amplamente disponíveis a custo zero e que eu estou disposto a ajudar qualquer profissional da saúde e qualquer leigo interessado em cuidar melhor de sua saúde a localizar, avaliar e debater algumas destas evidências. 

Assim sendo, convido todos os leitores, especialmente os profissionais da saúde, a divulgar este artigo nas redes sociais, a ler e avaliar com atenção e profundidade as evidências científicas sobre a dieta paleolítica e sobre as dietas de baixo carboidrato e a participar deste debate aqui na caixa de comentários do Pensar Não Dói (não nas redes sociais, porque lá os tópicos “afundam” e se tornam inacessíveis muito rapidamente). 

Sugiro em primeiro lugar a leitura do artigo Meta-análise comprova: dieta paleolítica é a mais saudável

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/08/2015 

24 thoughts on “Chamamento aos profissionais da saúde para um debate

  1. Incrível, você citou exatamente o livro que estou lendo atualmente.

    1. Carl Sagan é ótimo, não é mesmo, Gelson? 🙂

    2. Não tem a opção de Reply para os seus comentários hahaha.

      Eu estou achando fantástico até o momento, ele me deu uma perspectiva completamente diferente dos danos que a pseudociência e a ignorância científica trazem a nós.

    3. Cada comentário principal gera uma linha de identação única. Deixei assim para evitar confusão, mas talvez devesse ter deixado todos os comentários sem reply, assim todo mundo teria que citar a quem está respondendo e não haveria confusão… Ou haveria mais ainda, vai saber. 😛

      A pseudociência e a superstição são extremamente daninhos. Por exemplo: dietas baseadas na pirâmide alimentar, que são baseadas em má ciência, *pioram* todas as condições clínicas que se propõem a resolver. Isso significa que elas estão aumentando a mortalidade. Não é exagero algum chamá-las de dietas assassinas. Imagina quando nem sequer ciência de má qualidade existe, somente mentiras.

  2. Os médicos pararam de receitar sangrias porque os médicos que faziam isso morreram e não porque foram convencidos de que isso era ruim para os pacientes. Foque na próxima geração.

    1. E assisto tranquilamente milhares de pessoas padecerem de obesidade, hipertensão, diabetes, demências diversas e inúmeras outras doenças crônico-degenerativas e seus horríveis desfechos – ataques cardíacos, AVCs, cegueira, amputações, perda da memória, da cognição, da sanidade mental e da própria identidade, perda de capacidade para o trabalho, sofrimento pessoal e familiar, idas e vindas constantes aos hospitais, mortes prematuras, mais os custos elevadíssimos disso tudo para o sistema de saúde e para a previdência social – resignado enquanto assisto médicos, nutricionistas e educadores físicos oferecerem orientações já descartadas pela ciência por pioram a saúde de quem confia nestes profissionais?

      Sério que eu é que preciso mudar de idéia? 😮

    2. Você não tem que assistir tranquilamente parado. Pode agir tranquilamente avisando. Se as pessoas não escutarem a culpa não será sua. Faça sua parte, mas não se desgaste.

      O que aconteceu no grupo do Facebook deveria servir de aprendizado, gauchela!

    3. No Facebook eu fui expulso por imbecis que não sabem a diferença entre um artigo científico e um artigo do Joselito Müller. Entre os profissionais da saúde eu estou lidando com gente com curso superior e alguma noção de que existe alguma coisa chamada “ciência” e que não serve para dar risada e encher o saco da esquerda. Acho. Espero. Torço.

      Mas eu tive algumas pequenas vitórias recentemente que poderão se tornar significativas com o tempo. Só não posso abrir o bico.

  3. Arthur! Acredito que o André sintetizou o empecilho à cruzada que você tem compulsiva e obsessivamente abraçado (Independentemente da relevância, justeza, utilidade ou precisão, que reconheço!). Médicos não fazem pesquisa. Médicos estudam 18 a 20 anos para exercer uma prática que lhes foi apresentada como comprovada ATÉ AQUELE MOMENTO. Na próxima geração, quando a prática for reformulada, a pesquisa atual entrará para o rol da constatação, até que uma nova visão a derrube. Não que aquilo que você diz esteja errado ou porque aquilo que eles dizem está certo, mas pelos mesmos motivos que não há membros do estado islâmico convertidos para a igreja metodista, ou não há homofóbicos vivendo felizes casamentos gays: Preconceito! Para mudar no quengo dos velhos (entre os quais me incluo) todo o foco de uma vida requer um esvaziamento conceitual tão radical que necessitaria uma amnésia ou uma desconstrução mental por lobotomia. Com jovens já é outro papo. Estão abertos. Estão vazios. Estão prontos para algo novo. E podem ser moldados até que venha o neto do Arthur e prove por a mais b que um troço novíssimo, ou ressuscitado do cretáceo, é o certo, e não essa balela do avô 🙂

    1. Sim, eu sei que (em geral) médicos e nutricionistas e educadores físicos não fazem pesquisa. Mas alguns fazem. E entre estes muitos fazem pesquisas com diversos problemas de recursos e de metodologia e alguns poucos fazem pesquisas de alta qualidade e alto nível de evidência. Estes últimos descobriram que seus colegas estão oferecendo orientações ultrapassadas para seus pacientes/clientes, orientações estas que estão causando o efeito oposto ao pretendido. Ao invés de melhorar a saúde das pessoas que atendem, eles estão piorando a saúde destas pessoas. Será que isso não faz nenhum deles questionar “Mas péra lá, por que é mesmo que eu me formei nesta profissão? Qual é meu objetivo?”.

  4. concordo com o Ronaldo. Mudanças conceituais são lentas, mas coloco na situação mais um item: a indústria farmacêutica, principal financiadora das pesquisas no mundo, e que direciona estas pesquisas aos seus interesses. Fazer preponderar os próprios interesses é comum à massa crítica da população em cada fase evolutiva da humanidade. Quanta coisa boa é sufocada por preconceito e interesses escusos. Quando a condição humana responder pelo interesse mais amplo pelo bem e não pelo bolso, melhorias ou aparentes melhorias, não serão impostas de cima para baixo, ou de fora para dentro. Por enquanto, quem domina e tem interesse encontra respaldo fácil em quem compra, e mudanças a este quadro acontecerão com malucos lutando quase sozinhos e quebrando a cara, e sendo taxados de malucos que só vão quebrar a cara.
    Talvez seja interessante vc mudar o foco e diminuir a amplitude. Pense se pode ajudar o cara que tá sentado do teu lado, o vizinho, o parente… aos poucos. A primeira árvore plantada no deserto vai ser mais raquítica do que a que crescerá na sua sombra.

    1. Pois é, eu sou um desses malucos absolutamente obstinados que vão quebrar a cara insistentemente contra o muro de ignorância e interesses inconfessáveis em busca da divulgação da boa ciência e da proteção da saúde das pessoas. Paciência. Eu tenho uma responsabilidade e um senso de honra que não me deixam desistir. Já desanimei muito, mas recuperar a saúde com a dieta paleolítica de baixíssimo carboidrato me deu novo gás.

      Bora insistir.

  5. (Lá vou eu de novo!)
    O processo existe e é discutido nos meios acadêmicos, essa discussão está ganhando massa crítica, o Arthur é (sabidamente) uma pessoa inteligente e bem instruída, e (presumivelmente) bem intencionada…

    Interessados!
    Aproximem-se do guru e ouçam!

    A teoria diz que se você jogar sementes ao seu redor (digamos, num raio de 2 metros) e tiver a paciência de esperar a germinação (uma das qualidades que você necessita cultivar para poder conviver com a imensa, e lenta, e estúpida, e desinteressada, e reacionária massa), essa sementeira se propagará numa progressão geométrica em todas as direções.

    Ser pai é assim, embora alguns mais apressados prefiram o método dos bancos de doação de esperma! 😀

    1. Adorei essa metáfora. 🙂

      Mas, pôxa, eu não sou o guru, eu sou o mensageiro do guru. O guru é a ciência de mais alto nível disponível. Se eu tivesse inventado uma hipótese ou teoria nova, eu estaria numa posição bem mais frágil, com certeza. Mas tudo o que eu estou fazendo é divulgar a melhor ciência produzida no planeta, segundo critérios sólidos e muito bem aceitos pela comunidade científica internacional, e pedindo para os profissionais de saúde: “pessoal, aproveitem a oportunidade, está tudo mastigadinho aqui, isso vai tornar o trabalho de vocês mais fácil e mais eficaz e vai ajudar imensamente os pacientes/clientes que precisam de vocês”.

      Mas tenho mais uma consideração a fazer… Vou postá-la em resposta a teu outro comentário, logo abaixo.

  6. Encontrei por aí…

    Note a expressão “…que os outros venham lhe perguntar…” que o autor, tão sabiamente, repetiu nos três parágrafos, como se só a partir daquele ponto fosse possível explicar tanto a Graça, como o Conhecimento, ou ainda a Habilidade.

    😉

    “Se você quiser convencer o outro que sua religião é verdadeira, precisa viver de maneira tão absolutamente santificada, irradiar tanta paz, felicidade e contentamento, que os outros venham lhe perguntar como alcançou este patamar; somente então deve explicar como obteve tal Graça.

    Se você quiser convencer o outro que sua afirmação é verdadeira, precisa argumentar de modo tão lógico, coerente e baseado em dados cientificamente válidos, que os outros venham lhe perguntar quais os fundamentos de seus argumentos; somente então deve explicar como obteve tal Conhecimento.

    Se você quiser influir positivamente no destino da sociedade e do planeta, precisa participar na vida social e política de modo tão estimulante, construtivo e agregador, que os outros venham lhe perguntar como contribuir; somente então deve explicar como obteve tal Habilidade.”

    1. Bem… HAHAHAHAHA!!!!, tá certo, eu mereci isso! 😛

      O problema é que há uma diferença crucial entre alguém se interessar em algo para si (um método novo e mais eficaz para resolver um problema que lhe aflige) e alguém se interessar em algo para outrem (um método novo que vai exigir todo um trabalho de atualização para cuidar da saúde de terceiros sem que o profissional ganhe um centavo a mais por isso).

      Eu já convenci diversas pessoas usando o método certo. Vou contar um exemplo.

      Aqui perto da pousada onde estou morando provisoriamente tem uma farmácia. Eu fui ali comprar uma escova de dentes e vi que o balconista estava “ligeiramente” acima do peso – com 1,70 m e uns 130 ou 140 kg. Ele estava atendendo um cliente. Olhei em volta, vi uma balança e fui me pesar. Quando o outro cliente foi embora, eu cumprimentei o balconista de modo esfuziante e falei que estava muito feliz, pois havia emagrecido mais 3 kg desde a última vez que havia me pesado, num total de quase 20 kg já emagrecidos, sem passar fome, sem fazer exercícios, cada vez mais saudável e me sentindo cada vez melhor graças a uma dieta que realmente funciona, com base científica de verdade, não estas picaretagens que andam por aí. Qual foi a primeira pergunta que ele fez? Isso mesmo: “que dieta é essa?” 🙂

      Então eu dei o nome da dieta para ele, “dieta paleolítica de muito baixo carboidrato”, expliquei para ele os principais itens da dieta (cortar os carboidratos, principalmente qualquer coisa feita com farinha de trigo, não ter medo da gordura animal, eliminar os grãos e os óleos vegetais exceto oliva, coco e dendê, cozinhar com banha de porco e manteiga e fugir da margarina e dos embutidos, salgadinhos, doces e alimentos processados) e dei o endereço do blog do José Carlos Souto para ele. O cara anotou tudo e disse que ia procurar o blog. Quando saí de lá, ele estava com a maior cara de contente.

      Porém…

      Quando eu falei com médicos, nutricionistas e educadores físicos, apresentar os “argumentos lógicos, coerentes e baseados em dados cientificamente válidos” que eu tenho em mãos simplesmente não os atraiu nem um pouco, pelo contrário, só provocou rejeição. As evidências me mostram que, neste caso, meu conselho estava errado. Precisarei voltar à prancheta.

      Será que, para que eu possa atraí-los para ouvir e aplicar o que estou dizendo, vou precisar mostrar médicos, nutricionistas e educadores físicos que estão ganhando rios de dinheiro porque o boca-a-boca dos pacientes e clientes satisfeitos deles está enchendo seus consultórios, spas e academias graças aos excelentes resultados da dieta paleolítica de muito baixo carboidrato?

      Que inferno se eu tiver que descer a este nível para ajudar gente inocente e necessitada. 🙁

  7. Fotografe e faça o perfil laboratorial do balconista agora e em alguns meses…
    Imprima e distribua nas esquinas, comunicando o endereço de sua “banca”…
    Fique rico, seja processado, escreva um livro e entre para a história…
    Daqui uns anos vão dizer: “Lembra do Arthur? O profeta da low carb diet?”

    1. O profeta da low carb paleo no Brasil é o José Carlos Souto. Mas escrever um livro eu posso. Vou falar com o Mauro para ver se ele me orienta um pouco.

  8. Fábio Rocha

    25/08/2015 — 14:12

    Arthur, pude presenciar essa arrogância médica em um blog de corrida, nutrição e tudo que se fala em área esportiva, pois sou adepto da corrida e sempre fui interessado em assuntos ligados na área….

    Quando o blogueiro postou uma matéria para fugirmos de nutricionistas e dando dados que a pirâmide alimentar não funciona e pode agravar a situação de um paciente…… O que veio de nutricionistas ofendendo e xingando esse blogueiro e pude reparar que nossa classe médica é prepotente e mal educada (claro que não generalizando) e não estão dispostos a debates construtivos….. Chegaram a acionar o CRN para processar o blogueiro, mas o blogueiro sabia que estava falando e tinha argumentos que os comprovavam, fui “engolindo” médicos, nutricionistas, etc, etc e em dados de seus estudos que estava argumentando era muito sério e tinha uma base……. Todos se retiraram sem argumentos…..
    Esse blogueiro vem questionando a bastante tempo a pirâmide alimentar e afins na área e nutrição, com base em pesquisa internacionais…….
    Se estiver interessado em aprofundar seus estudos, segue o link o blog abaixo:
    http://blogrecorrido.com/?s=nutri%C3%A7%C3%A3o

    Segue abaixo o link que começou o debate, repare os comentários de profissionais da área….

    http://blogrecorrido.com/2015/02/10/dica-de-corrida-do-dia-jamais-va-a-um-nutricionista/

    Em tempo: O Blogueiro e formado em nutrição e educação física …. questiona também a eficacia de exercícios físicos para emagrecimento ………

    1. HAHAHAHA!!! Que legal que me tragas esta dica! Eu conheço o Balu e o Blog Recorrido! (Mas ele não me conhece.) O artigo dele sobre os nutricionistas foi um dos primeiros que eu li quando estava procurando informações sobre nutrição assim que descobri que tinha ficado diabético. Concordo com praticamente tudo que o Balu disse nesta série de artigos.

  9. Results: Four RCTs that involved 159 participants were included.
    Com um n minúsculo desses, você pode chamar de “debate entre amigos”, “mesa redonda”, “paper na Nature” ou “meta-análise de estudos pré-registrados”, e o resultado ainda não vai ser suficiente para mudar toda a prática médica. No máximo “precisamos de mais pesquisa, isso é muito promissor”.

    E, mais importante, quantas pessoas praticaram essa dieta por 30 anos, e foram avaliadas ao longo desse período?

    Além disso, se for para nos contentarmos com dietas com evidência desse porte e estudos de curto prazo, a dieta mediterrânea também parece se sair melhor que uma dieta convencional, com a vantagem de termos populações (os mediterrâneos) seguindo essa dieta por milênios, e vivendo mais que a média mundial, e tendo menos doenças cardiovasculares (a principal causa de morte no mundo desenvolvido). (Eu pessoalmente amo vegetais e peixe, e não curto muito carne vermelha, então a dieta mediterrânea agrada mais ao meu paladar. Mas sei que isso está bem longe de ser universal).

    1. Aliás, lembro de ter visto um estudo que durou anos da dieta mediterrânea. Esse seu que seria suficiente pra acusar toda a indústria da saúde de ser pilantra supostamente, durou seis meses.

    2. Elvis, uma coisa que eu vejo que ninguém entende – provavelmente devido à péssima base científica e ainda pior base em biologia evolutiva tanto de leigos quanto de profissionais da saúde – é que, se por um lado o RCT é o padrão ouro dos estudos em saúde, por outro lado a evolução biológica é o padrão diamante de todas as ciências biológicas, inclusive as ciências da saúde.

      O ônus da prova sobre a dieta paleolítica, como ficou conhecida a dieta que deveria ser chamada de dieta humana, está na mão de quem faz alegações contra ela, não em favor dela. Se eu trago aqui os primeiros resultados de estudos que comprovam o óbvio, isso não é porque eu considere que o ônus da prova está do meu lado, mas porque eu sei que a ignorância sobre ciência e evolução é tão avassaladora que decidi usar o argumento do padrão ouro apesar de ter em mãos o padrão diamante só para não me estressar tendo que ensinar o be-a-bá da evolução para ninguém. Já está difícil convencer os profissionais da saúde esfregando o padrão ouro no nariz deles, imagina se eu tiver que ensinar que existe algo ainda superior que entretanto eles ou desconhecem ou não reconhecem seu grau de relevância.

      A dieta paleolítica não tem um estudo com mais de trinta anos, ela tem uma corroboração universal de mais de três milhões de anos. Ela deveria ser sempre o grupo controle de qualquer outra dieta, porque qualquer outra dieta que não a paleolítica será sempre o desvio da norma, nunca a norma. O fato de quase o mundo inteiro atualmente estar cometendo uma estupidez monumental ao se desviar da dieta humana e se lançar como cobaia de dietas para as quais o organismo humano não está adaptado não torna a dieta paleolítica menos normativa, só revela a ignorância do macaco falante.

      A dieta mediterrânea é considerada a dieta mais saudável pelo simples fato de que é a que menos se afasta da paleolítica. Mas ainda assim ela se afasta mais do que deveria.

    3. Já sobre as dietas de baixo carboidrato existem pelo menos dezoito estudos nível 1-A, ou seja, insuperáveis. E eles são obviamente unânimes em afirmar que as dietas de baixo carboidrato são mais saudáveis que as dietas de baixa gordura. Ao menos neste assunto o padrão ouro já se aproximou do padrão diamante.

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