Eu sou servidor público estadual do poder executivo no Rio Grande do Sul. Assim como todos os demais colegas, fiquei muito preocupado com a notícia de que nosso salário será novamente pago de modo parcelado, desta vez trazendo incertezas ainda maiores que as do mês passado. Isso me trará imensas dificuldades. Mesmo assim, eu não vou fazer greve. Parar de trabalhar neste momento só vai piorar a nossa situação.

Greve a vista

Eu acabo de sair de um período de dois anos de “licença para tratamento de interesses particulares”, que, como todos os colegas sabem, é uma licença não remunerada. Tirei esta licença por motivo de saúde – eu estava tão doente e tão estressado que não tinha mais condições emocionais nem sequer para enfrentar um processo administrativo para tirar uma licença-saúde.

Voltei ao trabalho ainda doente e atolado em dívidas. Passei por uma mudança para outro município. Precisei gastar muito com a saúde e com a mudança e não consegui me reequilibrar financeiramente ainda, embora esteja vivendo de modo espartano.

Para piorar a situação, a pessoa que ia me alugar uma casa não cumpriu sua palavra, eu estou morando provisoriamente em uma pousada cujos preços vão disparar no verão e não disponho de reservas para a caução de um aluguel. Se eu não receber meu salário integral, dentro de dois meses eu estarei em um município onde não conheço ninguém e não terei nem onde morar, nem onde colocar meus pertences. Portanto, eu sei muito bem o que representa contar com um dinheiro que deveria ser certo e não recebê-lo.

Apesar de todas as dificuldades por que vou passar se meu salário atrasar, eu não vou parar de trabalhar nem para protestar contra a lambança financeira que está me prejudicando, nem para pressionar por sua solução. E o motivo é muito simples: parar de trabalhar neste momento só vai piorar a nossa situação.

Pense um pouco.

Você acha que o governador Ivo Sartori não está a par da situação dos funcionários do executivo gaúcho? Ele está muito bem informado, você sabe. Ele não precisa ser informado novamente. Uma greve não servirá para este propósito.

Você acha que o governador não está tentando resolver esta situação? Ele está tentando, você sabe. Ele não precisa ser pressionado novamente. A cada dia que passa, a popularidade do governador desce e o descontentamento dos gaúchos sobe. Ele é um político, alguém que sabe que seu maior capital é sua popularidade. Ele já está lutando com todas as forças para tirar a corda do pescoço. Uma greve não fará com que ele se empenhe ainda mais em resolver o problema.

Você acha que o governador não tem consciência de que a última alternativa de que ele deveria lançar mão seria o parcelamento dos salários dos servidores? Ele tem consciência disso, você sabe. O funcionalismo representa um poder político-eleitoral de grande importância. O governador e o funcionalismo sabem que o governador e o funcionalismo sabem disso. Uma greve não fará com que surjam novas alternativas.

Então, para que serviria uma greve neste momento?

Só para duas coisas: prejudicar a população, reduzindo o acesso a serviços de que ela necessita tanto mais quanto maior a crise econômica, e piorar ainda mais a situação financeira do estado, tornando cada vem menos provável que nossos salários voltem a ser pagos em dia.

Protestemos. Vamos às ruas. Mostremos nosso descontentamento e nossa indignação com a situação do estado e do país. Cobremos do governo estadual o máximo empenho para manter nossos salários em dia. Cobremos do governo federal o não bloqueio de recursos do Rio Grande do Sul neste momento de crise. Mas sejamos conscientes e não prejudiquemos a população com paralisações e com a consequente imposição de dificuldades ainda maiores do que as que já teremos que enfrentar devido à crise política e econômica.

Que cada um de nós seja uma parte da solução, não do problema. Isso é cidadania.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 29/08/2015

4 thoughts on “Aos servidores públicos estaduais do Rio Grande do Sul

  1. Sou professor da Unesp. Ano passado houve uma longa greve pedindo aumento de salários. Inicialmente a reitoria estava intransigente porque a USP estava quebrada e não podia pagar o aumento (as universidades estaduais paulistas decidem questões salariais em conjunto). Passado um tempo a USP cedeu então a Unesp alegou que também não podia dar o aumento. Após a divulgação de milhares de tabelas e gráficos demonstrando a impossibilidade de dar o aumento a reitoria deu o aumento. Qual a mensagem que a reitoria passou? Que não é séria e que os sindicatos tem mais é que radicalizar. Como ter qualquer conversa racional quando todo mundo mente e trapaceia?

    1. Neste caso a chance do Sartori estar mentindo é ínfima. Nenhum governador comete suicídio político parcelando os salários de todo o poder executivo, causando os imensos transtornos que isso acarreta e arriscando enfrentar a ira dos sindicatos raivosos que só ficam pianinhos quando um certo partido está no poder. Depois dessa o Sartori não se reelege. Ele não teria feito isso se tivesse outra alternativa.

    2. Na atual conjuntura eu não teria tanta certeza. Funcionários públicos são vistos vagabundos e sumidouro de dinheiro dos “pagadores de impostos”, dar porrada em sindicalista nunca foi considerado algo muito feio, o Alckmin fez coisa muito pior (para a população) e foi reeleito em primeiro turno. Quem souber surfar nessa onda que vem desde 2013 vai se dar bem.

    3. Bem, agora não vou entrar no mérito da produtividade média do funcionário público comparada com a produtividade média do funcionário privado de uma empresa privada de sucesso. Este é um tema instigante, porém desviaria completamente o foco deste artigo – que aliás teve repercussão próxima de zero, embora eu saiba que foi muito acessado. Fico pensando por que será que muita gente leu e não quis comentar…

      Quanto ao Sartori estar mentindo sobre o caixa do estado para promover privatizações, duvido. O custo político de um parcelamento de salários é altíssimo. Mas sou obrigado a concordar que frequentemente a população não fiscaliza, não reage, esquece e ainda reelege quem detona com ela. Teve mais gente fazendo manifestação em Pelotas por causa do sujeito que amarrou uma cadela no pára-choque do carro e saiu rodando até estraçalhar a coitada do que em São Paulo devido ao racionamento de água não declarado que atinge a população há mais de um ano.

      Um povo merece os governos que elege.

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