Li em um veículo da mídia impressa que semana passada houve um “ataque racista” à atriz Thaís Araújo, poucas semanas depois de um episódio semelhante em relação à apresentadora Maria Júlia Coutinho, ambos pela internet. Um “ataque racista” pela internet? Sério? As palavras “frescura” e “perversão” me vieram à mente.

mimimi people

Um “ataque racista” foi o que aconteceu entre os Tutsis e os Hutus. Chamar ofensas de ataques é uma imensa frescura. E modificar o direito para proteger a frescura é uma inominável perversão e uma completa inversão de valores. Mas é isso que propunha o tal veículo de imprensa: “leis devem ser aprimoradas” – para tornar a proteção à frescura mais eficaz, é claro.

Os coitadistas estão vencendo uma guerra cultural. Estão tornando a vida em sociedade irrespirável, cerceando a liberdade de expressão de seus desafetos para supostamente proteger os coitadinhos incapazes de lidar com as críticas e mesmo as ofensas de quem não gosta deles. Coitadinhos dos negros, sofreram séculos de opressão racista, mimimi, precisam de leis especiais que os protejam. Coitadinhas das mulheres, sofreram séculos de opressão machista, mimimi, precisam de leis especiais que as protejam. Coitadinhos dos gays, sofreram séculos de opressão homofóbica, mimimi, precisam de leis especiais que os protejam. Coitadinhos.

Para proteger os coitadinhos, os coitadistas querem calar os “opressores históricos”. Coitadinhos são feitos de açúcar e derretem se forem ofendidos. As palavras “macaco”, “piranha” e “veado” precisam ser criminalizadas. Os opressores históricos precisam ser perseguidos, processados e punidos para deixarem de ser malvados e pararem de ofender os coitadinhos. Porque, afinal, como todo mundo sabe, a melhor maneira de educar alguém é calar essa pessoa à força, ameaçá-la com cadeia e tomar-lhe direitos.

Como eu sou a fonte de todos os males do mundo – pois sou Homem, branco e heterossexual – eu não tenho sensibilidade suficiente para compreender o terrível trauma humilhante e desestruturante que é para um coitadinho ouvir meia dúzia de palavras.

Ou talvez eu não compreenda porque eu não sou um coitadinho.

Quando alguém tenta me ofender com palavras simplesmente não consegue, porque eu tenho uma coisa que me protege disso: auto-estima. Eu não derreti quando estava muito acima do peso e alguém me chamou de gordo. Eu não derreti quando passei em três vestibulares e um concurso público por meus próprios méritos, sem cotas, e alguém me chamou de filhinho-de-papai e coxinha. Eu não preciso e não quero que a lei me proteja de ofensas, porque eu não sou feito de açúcar.

Se o preço para entender o terrível mal que meia dúzia de ofensas traz para a frágil psiquê de um coitadinho é perder a auto-estima a ponto de derreter perante meras palavras e precisar de amparo legal para não ter que ouvir o que me desestrutura – como a avestruz da fábula, que mete a cabeça num buraco para não ver o que não quer e assim se sente protegida – então eu prefiro continuar não entendendo isso.

E mais: os meus filhos também não vão entender isso. Porque, mesmo que eu tenha um filho mulato, ou do sexo feminino, ou homossexual, ele ou ela não será um coitadinho, será um ser humano com auto-estima, capaz, com uma casca grossa o suficiente para não derreter perante uma simples ofensa verbal. Porque ser um coitadinho não tem nada a ver com raça, sexo ou orientação sexual, e sim com a postura perante a vida.

O que eu mais lamento é que, enquanto eu criarei meus filhos para serem seres humanos completos, com auto-estima e capacidade, os coitadistas estão criando uma geração de verdadeiros coitadinhos. Gente que, ao invés de ter sua auto-estima elevada e suas capacidades aprimoradas, será moralmente pervertida pelo mimimi coitadista e passará sua existência inteira pedindo penico, exigindo dos outros um respeito que não tem por si mesmo e culpando os outros por sua baixa auto-estima e sua incapacidade de se tornar alguém na vida – ao invés de se tornar um cidadão ou cidadã honesto, proativo, produtivo e orgulhoso de si mesmo, que vai atrás dos seus objetivos e de sua felicidade sem se abalar com ofensas e sem se permitir humilhar por uma “proteção” tão vergonhosa quanto a de criminalizar quem fala algo que lhe é desagradável.

Essa é a ironia maior e o grande mal do coitadismo: ao invés de gerar cidadãos autônomos, capazes, produtivos e orgulhosos de si, gera cada vez mais gente mimimizenta, incapaz, dependente, intolerante e autoritária.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 11/11/2015

7 thoughts on “A perversão coitadista

  1. Sou branco, homem e gay. Concordo em partes com seu texto, principalmente que devemos construir pessoas confiantes e autônomas. Sou a favor de que todos sejam tratados como seres humanos e que a justiça sirva aos interesses de quem se sentir lesado. Nunca me senti ofendido por ser chamado de viado, veado, bicha, bichinha, frutinha (é, talvez na adolescência!), mas hoje encaro tudo de boa. Sei o meu valor e não preciso de piedade do estado e das pessoas. Mas acho que não deve desconsiderado a questão das oportunidades, principalmente no caso do negros e dos pobres. São excluídos de acesso e se não há leis para ajudá-los sua situação será perpetuada (como já o é!).

    1. A melhor coisa para que haja oportunidades boas e em abundância é uma eocnomia forte e um sistema de securidade social não-coitadista. Quem equacionou muito bem este binômio foi a Alemanha, que com a adoção do Ordoliberalismo e da Economia Social de Mercado saiu dos escombros de duas guerras e em menos de meio século se tornou novamente a maior potência européia e o quarto maior PIB do mundo. Vou falar muito sobre isso em um novo blog.

  2. Como assim heterossexual? Vc não é gaúcho?

    1. Tu passas séculos sumido e reapareces para dizer isso? 😛

  3. Se um adulto não consegue conversar sem xingar o amiguinho ele deveria voltar para a pré-escola.

    1. E se o amiguinho vem encher o saco só porque foi chamado de bobo, tem que ir junto para o castigo.

  4. Arthur, concordo com muitas das coisas pontuadas por vc no texto, mas senti falta em sua argumentação de algo essencial a qualquer ser humano; um sentimento sem o qual todos nós nos tornamos donos da verdade absoluta e das soluções mágicas para todo e qualquer problema. Faltou empatia. Sem isso, jamais poderemos saber a dor de ser mulher, a dor de ser negro, a dor de ser gay, ou de pertencer a outra minoria qualquer discriminada numa sociedade comandada por homens brancos, héteros, bem nascidos e cuja auto-estima sempre foi devidamente cultivada já pelo próprio meio em que tiveram a sorte de nascer.

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