Milhões de pessoas foram e estão sendo massacradas na África e no Oriente Médio nas últimas décadas. O que a Europa fez para evitar estes massacres? Muito pouco ou quase nada. “Não é com a gente.” Centenas de pessoas foram mortas ou feridas por um punhado de terroristas. Quantas podiam se defender? Nenhuma. Estavam todas desarmadas, confiando no papai Estado para protegê-las. Descaso e coitadismo paralisante, eis as causas da tragédia.

Massacre na França

Ouvimos por tempo demais os pervertidos que dizem que intervir e derrubar ditaduras sanguinárias é uma violação ao princípio da autodeterminação dos povos. Levamos longe demais a mentira de que cidadãos honestos e bem educados se tornam criminosos apenas pelo fato de terem uma arma nas mãos. Produzimos uma civilização de avestruzes que metem a cabeça em um buraco quando seres humanos são massacrados no país ou na favela ao lado e de covardes omissos que querem pagar para que outros coloquem suas vidas em risco para protegê-los.

Uma civilização que não defende toda e qualquer vida inocente acima de qualquer alegação pervertida sobre “soberania” é uma civilização doente. Quem precisa de proteção não são os governos sanguinários, são as pessoas inocentes que eles dominam e massacram. Onde estava a Europa quando milhões de pessoas estavam sendo submetidas a atrocidades na Síria, na Líbia, no Sudão, na Somália? O que fizeram os países do berço da civilização para socorrer seus irmãos miseráveis, humilhados, submetidos, torturados e mortos além de votar moções na ONU e manter comércio com os ditadores que os oprimiam?

Agora a barbárie que nunca combateram adequadamente ataca dentro de sua própria casa.

A Europa não é uma vítima inocente da sexta-feira 13 sangrenta, assim como os Estados Unidos da América não são uma vítima inocente do onze de setembro – um ataque promovido por terroristas que os EUA mesmos armaram e treinaram. Não se lava as mãos perante a injustiça, porque as mãos continuam sujas e um dia a injustiça cresce de tal modo que atinge “quem importa”. Que se dane se a Al Qaeda está subjugando e massacrando inocentes, porque está sendo conveniente para os interesses do Tio Sam? O onze de setembro é a conseqüência. Que se dane se os sírios estão sendo massacrados, porque não é o nosso povo? Os ataques da sexta-feira 13 sangrenta na França são a conseqüência. O descaso para com o sofrimento dos outros fortalece os promotores do sofrimento e universaliza a barbárie.

E o que dizer dos mortos na casa de shows Bataclan? Três ou quatro terroristas mataram mais de setenta pessoas. Passaram quinze longos minutos matando as vítimas uma a uma. Recarregaram as armas pelo menos três vezes. Que as primeiras quatro ou cinco pessoas tenham sido mortas sem conseguirem se defender é absolutamente compreensível, mas o que fez com que mais de seis dezenas de pessoas ficassem passivas à espera da morte senão uma educação emasculante, acovardante e incapacitante que faz com que ninguém reaja nem mesmo perante a morte certa? Se todos os presentes partissem para cima dos assassinos nem que fosse a socos e pontapés, muito menos gente teria morrido e muito menos ataques desse tipo aconteceriam no futuro.

Não se trata de um conflito entre a barbárie e a civilização, mas de um conflito entre duas barbáries. De um lado a barbárie da intolerância, do outro lado a barbárie do descaso e do coitadismo paralisante. Enquanto isso continuar, ninguém viverá em paz, ninguém estará em segurança, ninguém terá liberdade.

Precisamos abandonar o discurso canalha de que o sofrimento de inocentes para além de uma fronteira convencionada não é problema nosso. Sabemos que há ditaduras sanguinárias que massacram povos inteiros e promovem atrocidades monstruosas – como na Coréia do Norte – e nada fazemos além de votar moções ou impor barreiras comerciais. Há quem chegue à extrema perversão de afirmar que é necessário “diálogo e diplomacia” para lidar com terroristas bárbaros que degolam inocentes à faca em frente às câmeras de TV para fazer propaganda de suas ideologias insanas para conquistar adeptos. Isso não pode ser tolerado. Quem oprime ou massacra pessoas inocentes é criminoso e quem tolera ou justifica isso é pervertido e monstruoso. Nada disso é condizente com o que deveria se chamar “civilização”.

Precisamos abandonar o discurso covarde de que pagamos impostos para que as instituições nos defendam. Sabemos que as instituições são compostas tão somente por outras pessoas e estas não são mais interessadas em salvar as nossas vidas do que nós mesmos, nem são capazes de fazer isso – como ficou absolutamente evidente nesta tragédia acontecida na França. A inteligência anti-terrorismo não foi capaz de prever os atentados e a polícia não foi capaz de proteger ninguém quando eles ocorreram. Mas o que é pior é que as pessoas chacinadas pelos terroristas não somente não estavam armadas para se defenderem como também não estavam mentalmente capacitadas a se defenderem – tanto é que foram chacinadas mesmo estando em muitíssimo maior número. Se educássemos nossos cidadãos para radicalmente não tolerar a intolerância, a maioria destas pessoas estaria viva.

Precisamos parar de arar e adubar o solo para os intolerantes plantarem suas ideologias. A miséria é a água parada para o mosquito do extremismo político ou religioso. Gente que estuda, trabalha, tem casa própria, carro próprio, passa o verão no litoral, tem um bom nível cultural e vê sentido para a vida dificilmente se torna extremista. Gente cuja maior preocupação é regar o jardim dificilmente amarra explosivos na cintura e massacra dezenas de inocentes.

Criminosos sempre houve e sempre haverá. Fanáticos sempre houve e sempre haverá. Intolerantes sempre houve e sempre haverá. Insegurança sempre houve e sempre haverá. Mas nós podemos parar de produzir estas coisas corrigindo a rota do desenvolvimento da civilização ocidental. Podemos reduzir imensamente o sofrimento, os conflitos e as injustiças se assim o decidirmos, mas isso só será possível se a civilização ocidental assumir uma identidade coerente e vigorosa. Se deixar de de dar ouvidos aos pervertidos. Se deixar de engolir ideologias de descaso e de dependência. Se investir em seus cidadãos para que se tornem metatolerantes e autônomos. Se investir também na metatolerância e na autonomia para além de suas fronteiras.

Não há garantias. Mas há necessidade de coragem e determinação.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 14/11/2015

7 thoughts on “Tragédia na França: a culpa é da própria Europa

  1. “Produzimos uma civilização de avestruzes que metem a cabeça em um buraco”

    “Avestruz enfia a cabeça no buraco, mas bota o rabo pra cima e oferece”

    1. Digamos que o nível de análise que eu prefiro não é bem esse…

  2. O ocidente poderia começar não implantando ou apoiando ditaduras ou seitas radicais.

    1. Mas para isso tem que constituir definitivamente uma identidade laica e metatolerante.

  3. Quer dizer que todos deveriam partir pra cima dos terroristas? hahahahahahaha
    Como é facil ser corajoso na frente do teclado.

    Claro que queremos pagar outras pessoas para nos proteger! O que te faz pensar que todas as pessoas tem vocação para o combate e para a violência?

    E olha que sou contra o desarmamento!

    Voce fala muita besteira, cara.

  4. caso tenha recebido dois comentários meus anteriores, favor desconsiderar e apagar o primeiro, o segundo está revisado. obrigado

  5. suponho q não estejam aparecendo devido ao tamanho

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