Só para variar, houve quem pervertesse completamente o que eu disse no meu artigo anterior, Tragédia na França: a culpa é da própria Europa. OK, voltemos ao tema. Eu tratei basicamente de duas coisas: primeira, que a civilização ocidental – da qual a Europa é o berço e um dos dois melhores exemplos, o outro sendo a América do Norte – está pagando um preço altíssimo por perverter os conceitos que a sustentam; segunda, a estupidez do desarmamento da população honesta e a cultura de coitadismo da qual decorre esta aberração.

Vida de centrista

São valores básicos da civilização ocidental a democracia, a liberdade individual, o progresso científico-tecnológico, a primazia dos Direitos Humanos e a justiça social, entre outros. As duas forças embrutecedoras da política pós-Revolução Francesa – a direita e a esquerda – detestaram o artigo porque nele eu bato em uma ferida de cada uma.

A direita não gostou porque eu disse que a culpa pelo embrutecimento terrorista é da falta de compaixão e solidariedade pelo sofrimento de grandes populações deixadas à própria sorte e à mercê de “governos” opressores que massacram “seus” povos. A direita odeia ser cobrada por compaixão e solidariedade, valores de que ela desdenha alegando algo que é bem representado pelo ditado “quem não tem competência não se estabeleça” – ou “cada um que se vire”.

A esquerda não gostou porque eu disse que o empoderamento do indivíduo, inclusive para o uso de força letal para garantir sua segurança, é uma necessidade urgente e uma condição sine qua non para o convívio pacífico e harmônico em sociedade – paz e harmonia essas baseadas na capacidade de defesa do cidadão, não no Estado-papai que “protege” e domina o cidadão em todas as esferas de sua vida, o que a esquerda indubitavelmente sempre deseja fazer.

Mas a verdade é que não se constrói um mundo pacífico sem compaixão, solidariedade e capacidade de retaliação letal contra bandidos amplamente distribuída entre a população. E entre estes bandidos se incluem criminosos comuns, terroristas e qualquer governo que abuse de suas prerrogativas. Aliás, é por isso que o governo não tem que saber quem tem armas e quem não tem, nem quantas. Só o que o governo tem que saber é quem está habilitado a portá-las em via pública, pelo mesmo motivo que precisa saber quem está habilitado a dirigir um veículo automotor.

Todavia, de um modo nefasto, direita e esquerda se aliam para provocar o embrutecimento da política e o afastamento do cidadão médio da cuidadosa avaliação destes imperativos e da ponderação na política.

Eu disse com todas as letras que a culpa pelos ataques terroristas na França é da própria Europa. E eu sustento esta afirmação. Foi a falta de compaixão e solidariedade pelos povos que estavam sob domínio de ditaduras laicas ou religiosas e a fuga à responsabilidade pela sorte de milhões de inocentes massacrados que permitiu a expansão e a exportação de ideologias autoritárias e do terrorismo. Nenhum regime que submete inocentes à força é confiável. Alguns deles, ao se fortalecerem, se tornarão expansionistas. Aí estão a história do nazismo, do comunismo, do cristianismo e do islamismo para provar, cada um dos quatro com seu próprio deus único. Em um momento ou em outro, de um modo ou de outro, todos eles se tornaram expansionistas e massacraram muita gente.

Eu disse com todas as letras que o desarmamento da população honesta é uma estupidez coitadista que faz parte de um sistema de (des)educação que pretende emascular, acovardar e incapacitar o indivíduo a fazer uso de força – inclusive de força letal – para defender sua própria vida, sua família e sua propriedade. Aí está a história de todos os massacres em universidades americanas e de atentados terroristas na Europa para provar, cada um dos dois tipos de ataque com seu próprio método de explorar a incapacidade de reação da população honesta desarmada e a incapacidade do Estado de proteger seus cidadãos, seja com serviços de inteligência, seja com policiamento ostensivo, seja com que método for.

E eu também disse que não se pode sequer sonhar com uma sociedade livre de criminosos, fanáticos, intolerantes e insegurança. É algo com que teremos de conviver enquanto formos macacos falantes. Mas podemos minimizar muito os danos e construir uma sociedade agradável e segura de viver se – e somente se – deixarmos de dar ouvidos às ideologias pervertidas que sustentam o descaso para com o sofrimento do próximo, independentemente de fronteiras artificiais, e o mimimi coitadista e covarde de quem quer lavar as mãos e terceirizar a garantia de sua segurança para outros macacos falantes, uma expectativa irreal que mais uma vez foi demonstrada como tal.

O afastamento do centro na política é sempre embrutecedor. A terceirização obrigatória da segurança pessoal é sempre irrealista e inviável, por mais que seja útil contar com instituições que minimizem nossos riscos. Enquanto estas duas coisas não forem adequadamente compreendidas, não teremos paz, nem harmonia, nem segurança.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/11/2015

19 thoughts on “O embrutecimento político é a derrota da civilização

  1. Perfeito, adorei o texto.

    1. Obrigado, Max. 🙂

  2. “Nenhum regime que submete inocentes à força é confiável.”
    Um que cria fronteiras imaginárias e se apropria arbitrariamente de determinados territórios, ocupados ou não, e se arroga o direito de “governar” (e consequentemente taxar) as pessoas que ali residem em nome do “bem comum” é?

    1. Sabe, Victor, eu realmente queria que fizessem o experimento que tu queres em Liberland, para que entendas de uma vez por todas de que não é possível viver sem Estado e que onde quer que não haja um Estado acima de um nível tribal ou se forma um Estado ou se forma o caos.

    2. Sinceramente, não consigo mais enxergar a moralidade desse arranjo.

    3. Calma, só apontei uma contradição, rs.
      O surgimento de um estado, seja ele “civilizado” ou não, nada mais é do que do que uma agressão aos indivíduos desse determinado território que foram obrigados a assinar um contrato com o qual não necessariamente concordaram e sob o qual terão de viver eternamente inclusive seus filhos e netos. A existência desse modelo teve seu momento e foi importante para que se pudessem desenvolver ideias melhores. Hoje não é difícil perceber como a existência de um estado é um grande crime onde os únicos beneficiados são os seus agentes.

    4. o que quero dizer é que nos tempos idos é justificável que o estado tenha surgido em decorrência do processo histórico e da própria natureza humana. mas de onde nos encontramos e com os meios de comunicação que dispomos acho que poderíamos facilmente caminhar rumo a uma sociedade mais evoluída que tenda a 0% de presença estatal.

    5. Victor, a natureza humana não mudou nesses 50 anos de TI.

    6. não, andré, não mudou. e isso não justifica que se mantenham indivíduos escravos do estado em pleno século 21.

    7. “Escravos do Estado”? Então para você, qualquer pessoa que viva sob um Estado é um “escravo”? Mesmo que seja um Estado Democrático de Direito, garantidor do bem-estar social, das liberdades individuais e dos Direitos Humanos (como Noruega, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Suíça, etc)?

      Até eu queria ser um “escravo” assim…

    8. Fola, mesmo que esse estado fosse o paraíso e me oferecesse 72 virgens, se ele usa da força para manter uma pessoa nesse paraíso então essa pesoa não passa de um escravo de luxo, ainda assim escravo.

    9. Se o estado surgiu de uma necessidade de limitar a natureza humana e essa não mudou então a necessidade do estado ainda permanece. O que podemos e devemos é melhorar sempre essa criação humana. Mas deve ser uma melhora baseada na racionalidade, não em ideologias de qualquer espécie, liberais inclusive.

    10. andré, dizer que “a natureza humana não mudou” e afirmar que “o estado nasceu de uma necessidade de limitar a natureza humana” para concluir que o estado é necessário é uma falacia óbvia. resumir a função e a origem do estado em “limitar a natureza humana” não faz o menor sentido.

    11. Victor, você afirmou “o estado tenha surgido em decorrência do processo histórico e da própria natureza humana” e contrapôs a isso “os meios de comunicação que dispomos”. Aqui temos uma falácia óbvia.

    12. Ahn?

  3. É preciso que o cidadão dos países imperialistas se lembrem que seus países entraram em guerra, que essa guerra ainda não acabou e que o outro lado não é besta de se restringir à guerra convencional.

  4. Fola, mesmo que esse estado fosse o paraíso e me oferecesse 72 virgens, se ele usa da força para manter uma pessoa nesse paraíso então essa pesoa não passa de um escravo de luxo, ainda assim escravo.

    1. Arthur, mais uma vez errei aqui no reply, por favor apague esse daqui.

  5. Oi, tudo bem? Em breve ALINE irá publicar suas previsões para 2016, enquanto isso veja o que ela disse para 2015. https://youtu.be/zpBLhowwYcU – #previsões2016

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