O assunto do momento é o “Brexit”, abreviatura de Britanic exit, a saída do Reino Unido da União Européia. Eu não havia tocado neste assunto antes porque jamais imaginei que a Inglaterra cometesse uma burrice deste tamanho. Gibraltar, Escócia, Irlanda do Norte e a região de Londres votaram pela permanência. O resto da Inglaterra e o País de Gales votaram pela saída e deflagraram uma crise que poderá modificar radicalmente tanto a União Européia quanto o próprio Reino Unido.

Brexit

A primeira-ministra da Escócia já deixou claro que, com 62% de votos pela permanência na União Européia, “a Escócia se vê como parte da União Européia e não aceita ser retirada do bloco contra sua vontade”. Um plebiscito sobre a independência da Escócia perante o Reino Unido já está sendo pensado. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein, antigamente conhecido como o braço político do IRA, anunciou que pretende lançar um plebiscito de reunificação das duas Irlandas! Quanto a Gibraltar, nada menos que 95% da população votou pela permanência. O quadro geral é de uma possível desagregação do próprio Reino Unido, algo impensável até anteontem.

Os mercados deixaram sua posição inequívoca: a libra esterlina despencou perante o dólar, as bolsas de valores do mundo inteiro fecharam em queda e os operadores das bolsas deram declarações dizendo que felizmente é sexta-feira, porque as quedas seriam muito maiores se fosse um início de semana. Os mercados futuros caíram no mundo inteiro, da Ásia às Américas.

O Japão está extremamente preocupado com as conseqüências econômicas do Brexit, pois muitas empresas japonesas têm a Inglaterra como porta de entrada para o mercado europeu e a saída da Inglaterra da União Européia significará uma alteração significativa nas tarifas sobre os produtos japoneses na Europa. É provável que indústrias japonesas migrem para outros países da Europa. A Ucrânia já anunciou que o Brexit alterará suas relações com a União Européia e possivelmente a isenção dos vistos será adiada. A Espanha já propôs uma partilha de soberania sobre Gibraltar, para que a península não seja praticamente transformada em uma ilha. A Itália já anunciou que quer sediar a Agência Européia de Medicamentos, atualmente sediada em Londres. E até as Ilhas Malvinas, ou Falklands, serão afetadas com o aumento das tarifas de suas exportações para a União Européia.

Mas estas estão longe de ser as piores conseqüências.

O pior de tudo é o precedente político. Os britânicos, que nunca se integraram completamente à União Européia, tendo mantido moeda própria e ficado de fora do Espaço Shengen, provocaram agora o início de uma onda de questionamento da União Européia que pode resultar em diversos plebiscitos do mesmo tipo, na saída de outros membros e na completa descaracterização do bloco, talvez sua inviabilidade, justamente no momento em que uma crise de refugiados do Oriente Médio, entre os quais se calcula haver mais de cinco mil terroristas infiltrados, traz os maiores desafios para a segurança dos cidadãos e para a economia de todo o continente Europeu. O dano político que o processo agora iniciado pode trazer para o que chamamos de Ocidente tem potencial para ser o maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Para quem ainda não entendeu: pode ser que sim, pode ser que não, mas este episódio tem o potencial de ser o marco inicial da redefinição de tudo o que conhecemos em termos de geopolítica e talvez até mesmo da própria identidade da civilização ocidental. Nunca desde o século XVIII o mundo precisou tanto de Enlightenment (Esclarecimento, Iluminismo).

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/06/2016

Atualização a 25/06/2016:

Eu não acho que esta tenha sido uma batalha entre direita e esquerda. Esta foi uma batalha entre os dois times do embrutecimento (a direita e a esquerda) e o time da sensibilidade e da razoabilidade (o centro iluminista).

A esquerda queria ficar pelos motivos errados. A direita queria sair pelos motivos errados. E a atitude certa a tomar, que é a revisão dos problemas que estão levando os membros da União Européia a querer abandonar o acordo – porque estão descontentes – não está sendo nem sequer cogitada.

Isso é ridículo: a União Européia foi um acordo negociado longamente e com muito diálogo… E agora tudo o que está sendo proposto é “aderir ou sair”, sem negociação e sem diálogo para resolver os problemas do bloco…

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/06/2016

4 thoughts on “O Ocidente após o Brexit

  1. Pior foi saber via Twitter que uma boa quantidade de macacos falantes no Reino Unido passou o dia procurando no Google What is/means EU . Há estúpidos votando em tudo quanto é canto, mesmo.

  2. O Brexit certamente trará diversas implicações ao Reino Unido, tanto no futuro próximo quanto nas próximas décadas, e serve de alerta quanto ao atual estado da União Europeia, que talvez não esteja tão bem quanto pareça ou seja tão benéfica assim a ponto de justificar a permanência no bloco. Para jogar mais lenha na fogueira, segue um vídeo do youtuber Black Pigeon Speaks sobre o Brexit, que apesar de polêmico, é bastante instigante: https://www.youtube.com/watch?v=Tv47NxXKoEM

    1. Vais adorar este aqui, então: https://www.youtube.com/watch?v=QbjYi1QrTWY&feature=youtu.be

      O que eu acho engraçadíssimo é que eles colocam TUDO sob a perspectiva do comércio, deixando bem claro – para quem sabe ver – quais são seus reais interesses.

      E é incrível como os caras fazem o diagnóstico de um problema (burocracia, falta de transparência e excesso de regulamentação) e dão como solução outro problema (dificultar a vida dos indivíduos que hoje circulam tão livremente quanto eles querem que as mercadorias circulem) ao invés de exigir a solução do verdadeiro problema (desburocratizar e aumentar a transparência).

      É uma estratégia meio óbvia… Quem quer liberdade só para o comércio e não se importa com a liberdade individual que será destruída no processo precisa criar um espantalho terrível – porque a maior parte das pessoas não vai votar pela reorganização burocrática de uma instituição que elas nem conhecem.

      A real é que o problema foi criado pelos arautos da super-regulamentação e do protecionismo e os caras do livre comércio não oferecem a cada pessoa a segurança da prosperidade que dizem ser possível construir.

      Quem votaria por um mundo melhor na qual ele próprio tem maior chance de se ferrar? Para ele, isso seria um mundo melhor? Não. Então, as pessoas tendem a ser conservadoras no que diz respeito a regulamentações – porque sabem que é melhor ter a certeza de ganhar pouco e ter proteção social do que ter a possibilidade de ganhar muito mas na verdade se ferrarem sem nenhuma proteção.

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