Não há outro assunto no meu Facebook nos últimos dias, então eu resolvi escrever um segundo artigo sobre o Brexit, fazendo algumas constatações e algumas previsões. A primeira delas: não foi a luta pela liberdade que produziu o resultado do plebiscito do Brexit, foi predominantemente xenofobia

Vermes Polacos

A frase acima – algo como “vamos sair da União Européia – chega de vermes poloneses” – foi afixada próxima a uma escola em Cambridge. No mesmo dia, cartazes com a inscrição “go home polish scum” (voltem para casa, escumalha polonesa) foram afixados na fachada de um centro cultural polonês. E esse tipo de coisa tem acontecido em diversos locais pelo Reino Unido nos últimos dias, demonstrando claramente que a xenofobia foi um dos principais fatores que levou ao resultado do plebiscito do Brexit, provavelmente o principal.

Isso está claro para todo mundo, menos para alguns auto-proclamados “liberais” que estão dizendo basicamente duas coisas: primeiro, que a União Européia é um projeto fracassado, de matiz socialista, que sufoca a soberania dos Estados-Nações; segundo, que o Brexit foi a melhor decisão possível para defender a liberdade dos indivíduos e a economia do Reino Unido. Esse pessoal está completamente errado em ambas as afirmações.

A União Européia têm defeitos, é claro, como toda construção humana. Em especial, a União Européia padece de extrema burocracia, excesso de regulamentação e falta de transparência. São problemas graves e ninguém disse o contrário, mas são problemas solucionáveis através do mesmo processo que levou à criação da União Européia: diálogo, negociação e foco nos objetivos de garantir a paz, aumentar a liberdade das pessoas e fortalecer as economias do continente.

Quanto ao projeto supostamente fracassado e de matiz socialista, temos que lembrar que, na história do socialismo, todos os países que adotaram essa ideologia maldita sofreram êxodo populacional, muitos deles tendo fechado suas fronteiras para impedir que sua população fugisse para lugares mais prósperos. A União Européia, entretanto, tem enfrentado o problema oposto: um excesso de imigração em busca de um ambiente econômico mais próspero e de maior liberdade individual. O próprio perfil migratório da União Européia desmente seu pretenso matiz socialista.

Quanto ao Brexit ser uma ação em defesa da liberdade, é pura e simplesmente mentira. As pessoas deixarão de ter a liberdade migratória de que hoje desfrutam e passarão a enfrentar barreiras. As mercadorias deixarão de ter isenção de taxas alfandegárias e passarão a enfrentar impostos de exportação e de importação nos dois sentidos entre o Reino Unido e a União Européia. E todos os acordos comerciais que o Reino Unido tentar fazer com qualquer país da União Européia terão de qualquer modo que ser aprovados pelas regras da União Européia, o que significa que haverá apenas perdas e não ganhos de liberdade.

Mas isso não é tudo. Os pretensos “liberais” que são contrários ao acordo de cooperação voluntária chamado de União Européia dizem que o Brexit é a melhor escolha possível devido a seus efeitos saudáveis na economia do Reino Unido, que se tornará “mais livre e mais forte”. Bem, isso é o que eles dizem. O que os mercados dizem é que a bolsa de valores despencou 12,5% em um único dia e teve outras quedas subseqüentes, que a libra esterlina despencou e está em seu valor mais baixo perante o dólar nos últimos trinta e um anos, que a previsão do PIB do Reino Unido para este ano já caiu 1,5% e que os mercados futuros desabaram e vão continuar caindo, um caos tão dramático que duas das três maiores agências internacionais classificadoras de risco rebaixaram a nota do Reino Unido – a Standard & Poor’s em dois degraus de uma só vez e a Ficht em um degrau. Será mesmo que estes supostos “liberais” sabem melhor que o mercado o que é melhor para o mercado?

Tem mais. A Escócia fez um plebiscito dois anos atrás para definir se ficaria no Reino Unido ou se se tornaria independente. A União Européia disse que, se a Escócia saísse do Reino Unido, teria que abandonar também a União Européia. Então, para permanecer na União Européia, a Escócia abriu mão de sua independência perante o Reino Unido. No plebiscito da semana passada, a Escócia foi coerente com sua posição de dois anos atrás: quase dois terços dos votos válidos dos escoceses confirmou a intenção de permanecer na União Européia. Entretanto, o resultado global do plebiscito no Reino Unido obriga a Escócia a se retirar da União Européia contra sua vontade, ironicamente em função de ter aberto mão de sua independência perante o Reino Unido para poder permanecer na União Européia! Não surpreendentemente, a Escócia já anunciou que vai tentar vetar o resultado do plebiscito e que se não o conseguir chamará um novo plebiscito sobre a independência, pois “não será arrancada da União Européia contra sua vontade”. O Brexit significará, portanto, não a saída do Reino Unido da União Européia, mas a dissolução do Reino Unido.

E tem ainda mais. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein já anunciou que pedirá um plebiscito para reunificar o país com a Irlanda, que também pertence à União Européia. Talvez a reunificação das Irlandas seja o único efeito positivo do Brexit, ao custo da dissolução do Reino Unido.

Isso sem nem entrar muito em detalhes sobre o nível do pessoal da campanha pelo Brexit. Clique no link e assista Nigel Farage, líder do UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), cometer uma inominável série de disparates e ofensas contra Herman van Rompuy, então presidente da União Europeia (2009 – 2014), e contra a Bégica inteira, apenas porque é o país de origem deste. O vídeo está no YouTube e tem menos de um minuto e meio.

Por tudo isso eu não estranho nem um pouco que, em apenas três dias, o parlamento britânico já tenha recebido mais de três milhões e trezentas mil assinaturas solicitando um novo plebiscito. Simplesmente a população britânica não tinha idéia da real importância e das conseqüências daquilo que estava votando. Muitos foram enganados com as alegações fantasiosas de “uma prosperidade econômica inimaginável” caso ocorresse a saída da União Européia. Outros tantos ou ainda mais foram instigados a votar pela saída tendo insuflados sentimentos xenófobos comuns em épocas de crise.

O outro, o desconhecido, o estranho sempre foi um bom bode expiatório para todo fanático cuja ideologia se beneficia do acirramento de ânimos e do ataque a uma vítima indefesa e conveniente. O imigrante é sempre o melhor dos bodes expiatórios, porque ele tem aparência diferente, hábitos diferentes e em geral uma barreira linguística que impede ou ao menos dificulta muito que ele se torne conhecido e as diferenças de sua cultura sejam compreendidas.

Finalmente, eu me arrisco a fazer duas previsões.

A primeira é que não haverá um Brexit. O choque foi tão forte, os prejuízos foram tão grandes e o clima de hostilidade que a decisão xenófoba provocou em toda a Europa foram tão intensos que muito provavelmente o Reino Unido vai dar um jeito de fazer alguma gambiarra para permanecer na União Européia. O atual primeiro-ministro, que chamou o plebiscito apesar de querer permanecer na União Européia, já anunciou que deixará o cargo até outubro e que não será ele quem encaminhará a comunicação oficial à União Européia solicitando o desligamento do Reino Unido. O maior defensor do Brexit dentro de seu próprio partido já disse que não tem pressa em sair da União Européia – uma afirmação canalha que demonstra claramente que percebeu o tamanho da enrascada em que meteu o país e que está ganhando tempo para arranjar alguma saída da saída.

A segunda é que a União Européia se fortalecerá. A reação de Alemanha, França e Itália foi de irritação e impaciência com o Brexit, exigindo que o Reino Unido saia de uma vez e alertando que não haverá negociações formais ou informais enquanto não houver a solicitação formal de saída do Reino Unido. Ou seja, não há espaço para mimimi e chorumelas, ninguém vai aliviar a barra e quem quiser abandonar o navio terá que assumir sozinho a responsabilidade por todas as suas decisões, não importa quem seja o retirante. É uma decisão dura, digna e responsável, que valoriza extremamente o projeto europeu e que pelo tom com que está sendo transmitida firma uma posição bem clara sobre a xenofobia: não é bem-vinda.

Eu posso errar, é claro. Não me dediquei a ler de modo muito profundo sobre o assunto, tomei por base os dados mais amplamente disponíveis e fiz uma avaliação baseada no que é mais razoável fazer para o bem de todos os envolvidos – o que não costuma ser o forte do macaco falante, como o próprio resultado do plebiscito mostra. Mas acho que há uma grande chance de eu vir a acertar as duas previsões.

Será divertido acompanhar a política européia nos próximos meses.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 27/06/2016

Adendo a 16/11/2016: um artigo que mostra que eu estava certo quanto ao Brexit ser motivado por xenofobia.

One thought on “Brexit: quando a xenofobia causa o caos

  1. O povo quer sair, Arthur. Não é o Estado, ou a elite intelectual – é o cidadão comum, que só teve chance de produzir um resultado surpreendente porque na votação direta se exclui a distribuição distrital que torna o sistema eleitoral inglês elitista e injusto (foi essa distritalização que impediu o UKIP de ter vagas na Câmara dos Comuns, por sinal).

    Meu palpite é que serão fechados tantos acordos quantos forem necessários para garantir os interesses da UE e do Reino Unido – mas, agora, em outro patamar, de igualdade. No final, os bretões ganharão mais essa.

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