Todo mundo sabe que a burocracia e a corrupção são dois grandes entraves para a criação de um ambiente de sucesso sócio-econômico, mas pouca gente leva em consideração o quanto é daninha a falta daquele tanto de qualidade que obviamente poderia ser melhorado, mas que não o é porque o consumidor compra o produto assim mesmo, do jeito que está, porque tem “qualidade suficiente”. 

Pipoca

A qualidade suficiente tem exemplos por todo o lado. Ninguém deixa de comprar um automóvel porque não há um lugar para colocar o guarda-chuva molhado em dias de chuva – e a indústria automobilística não se preocupa em resolver este problema porque o consumidor sempre compra algum carro assim mesmo. Ninguém deixa de comprar pipoca na praça porque não são oferecidos guardanapos para tirar o óleo das mãos depois do consumo – e os pipoqueiros não se preocupam em resolver este problema porque o consumidor sempre compra pipoca assim mesmo. Há exemplos para todos os bolsos.

A má notícia é que este problema veio para ficar. Ou pelo menos para ficar por muito tempo, porque o macaco falante médio se contenta com a qualidade suficiente. Se ele tiver que pagar R$ 200,00 de diferença entre dois carros iguais em tudo menos na presença de uma incrivelmente bem bolada solução para o guarda-chuva molhado, o macaco falante médio em geral irá “economizar” menos de 1% do valor do veículo e comprar a versão mais barata. Se ele tiver que pagar R$ 0,25 de diferença entre o saco de pipocas com guardanapos e sem guardanapos, o macaco falante médio em geral vai pedir o troco, lamber as mãos e secar na roupa.

É natural que seja assim. O macaco falante médio é um beta ou um ômega. O ômega dificilmente compra carro, mas compra pipoca, pega ônibus comendo pipoca e deixa tudo melecado com a gordura da pipoca. E o outro ômega não deixa de pegar ônibus melecado com gordura de pipoca, nem reclama disso, porque ônibus melecado com gordura de pipoca tem qualidade suficiente para o ômega. Quem reclama ou pega o lotação em busca de higiene é o beta. O alfa vai de carro. Sem meleca de gordura de pipoca e sem reclamação.

Aceitar a qualidade suficiente é o que leva o macaco falante médio a resolver tudo com gambiarras. O hoje extinto Bom-Bril na antena da televisão é um ícone da qualidade suficiente. Seu sucessor não tão óbvio é o computador com programa antivírus. Pense bem: um sistema operacional tem que ser seguro de fábrica. Ter que instalar um segundo programa para evitar que o primeiro programa não seja invadido por um terceiro programa é uma baita gambiarra. (Aposto que você não tinha percebido isso. E aposto que você não vai trocar seu Windows por um Linux por isso, nem sequer passar a rodar seu Windows como uma máquina virtual dentro de um Linux. Na verdade, eu aposto que você nem sabe o que é isso. É natural. Todo mundo se contenta com qualidade suficiente em alguma área.)

O grande problema da qualidade suficiente é a sinergia. O pneu tem qualidade suficiente. A suspensão do carro tem qualidade suficiente. O asfalto tem qualidade suficiente. E o resultado é que o seu carro volta e meia acaba numa borracharia ou mecânica de beira de estrada. Nem vou falar da pipoca. (Argh.) Já o seu computador volta e meia trava e de vez em quando você perde uma parte do que estava fazendo.

O custo disso? Bilhões e bilhões de dólares, muito tempo de vida desperdiçado, muito sofrimento e até mortes. Afinal, o cinto de segurança tem qualidade suficiente, o atendimento hospitalar tem qualidade suficiente, a fiscalização do poder público tem qualidade suficiente, a vida tem qualidade suficiente.

E vai continuar assim, porque a cidadania do macaco falante também tem qualidade suficiente.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/07/2016

10 thoughts on “Qualidade Suficiente

  1. O problema do macaco falante médio é a falta de visão a médio e longo prazo, e como gambiarras eventualmente duram mais que deveriam, o chimpanzé com polegares opositores e telencéfalo altamente (?) desenvolvido não se interessa em buscar uma solução definitiva ou ao menos duradoura para seu problema.

    Apenas uma curiosidade: o macaco falante já conseguiu resolver o problema de criar um compartimento para guardar um guarda-chuva na porta do carro e já a implementou num passado recente (http://www.core77.com/posts/25012/Rainy-Day-Design-Flaw-Why-Arent-Umbrellas-Better-Integrated-with-Cars), mas por algum motivo essa engenhosidade somente está disponível para quem tem muito dinheiro (Rolls Royce Phantom) ou mora na República Checa (Skoda Octavia).

    1. WHOOOA!!! 🙂 Eu achava que NINGUÉM tinha planejado isso. Quem diria, é só comprar um Rolls Royce Phantom e está resolvido o problema… 😛

  2. Adorei o post.
    Infelizmente é a pura realidade. 🙁

  3. O povo vive de mimimi falando que a indústria criou produtos com vida útil limitada de propósito… Eu como Engenheiro já digo que é mentira – nós criamos produtos que se adequam as necessidades de mercado! Sim, aprendemos a calcular a vida útil de peças mecânicas, existe toda uma ciência por trás da fadiga. O principal fator é a redução de custo e a otimização. Por exemplo: pra que diabos vão projetar telefones celulares que durem 10 anos se os macacos falantes querem trocar uma vez por ano. Outro fator no caos dos celulares é a evolução tecnológica – não faz sentido projetar para durarem 10 anos se em dois já estão tecnologicamente defasados.

    No caso de carros a pressão é tanto de mercado (carros mais baratos!!!!) quanto na eficiência. Carros antigos tinham chapas grossas pois não tinhamos conhecimento tecnico e ferrramentas computacionais de projeto o suficiente para usarem menos aço! Hoje em dia isso é possível: carros com a mesma resistência com 1/10 do aço! Por outro lado o mercado exige produtos mais baratos, ainda mais no Brasil, por que diabos vou projetar uma peça pra durar 20 anos se o macaco troca de carro a cada dois? E COMPRA MESMO ASSIM.

    E algum tempo eu venho procurando por produtos de longa duração, ou nem compro. Celulares ainda está complicado (mesmo assim só troco a cada 3 a 4 anos e se morrer mesmo) mas computador já está quase assim. Meu notebook é de 2009, meu desktop é de 2011. A placa de vídeo falhou recentemente e fiz de tudo para arrumar… Não deu.

    Maquina de lavar, geladeira e eletromeopáticos em geral: eu mesmo arrumo! Mas também escolhi esses equipamentos baseados nas soluções mecânicas de maior duração: botões mecânicos e substituíveis na maquina de lavar, geladeira sem painel eletrônico, etc.

    Sou exceção por ter o conhecimento técnico para isso. A maioria sofre na mão de técnicos picaretas e gambiarreiros…

    É foda mesmo, é uma bola de neve. E é justamente esse comportamento do descartável barato que é o prego do caixão da nossa espécie. Por isso que eu gosto das tecnologias que estão desenvolvendo para exploração planetária: são sempre de altíssima durabilidade e no sentido de serem autossuficientes em energia e recursos. Se conseguirmos isso poderemos aplicar aqui também.

    1. Eu queria ter grana para poder produzir um carro “avançado” como o fusca e econômico como o Gurgel BR-800, fazer o bicho o mais básico, simples e durável possível e vender o mais barato possível. Tipo assim um jipinho para durar meio século consumindo qualquer combustível que apareça (motor Elko). Ah, como eu queria!

  4. Outra revolução importante que está acontecendo que pode por um fim nisso:

    Hardware de projeto aberto e impressoraas 3D!

    Qualquer um pode construir o que quiser. Se quebrar uma peça é só imprimir outra peça. A peça velha pode ser reciclada facilmente. Se quiser pode até imprimir sua própria impressora e não depender da empresa local 😛

    1. Mas aí depende do material usado para a impressão.

  5. Roberto Tramarim

    04/07/2016 — 18:42

    E veja que você citou, com propriedade, a qualidade suficiente do atendimento hospitalar(particular, é claro, porque o SUS é qualidade insuficiente mesmo), mas não citou a qualidade suficiente da Justiça, se é que eu não estou sendo otimista e na verdade esta também tem qualidade insuficiente.

    1. Estás sendo otimista, sim. SUS = (in)justiça = (des)educação = qualidade insuficiente.

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