Uma das coisas que eu considero mais fantásticas nas análises políticas que eu vejo tanto na grande mídia (“séria”, “oficial”)  quanto nas redes sociais (passionais, voluntariosas) é o absurdo pacto de hipocrisia com que são tratados indivíduos e organizações que continuam a ser tratados como se sérios e respeitáveis fossem, quando todas as evidências apontam de modo massivo e cabal na direção oposta, revelando-se um cenário de criminalidade institucionalizada para qualquer um que não insista em viver no conto de fadas da Roupa Nova do Rei.

metralhas

Vejam bem: não estou falando de ninguém em especial, nem de qualquer organização em especial, empresa, partido político, instituição pública ou ONG. Estou falando da ridícula mania de fingir que alguém é honesto e respeitável até sentença penal transitada em julgado, quando todos sabemos que é impossível que certos indivíduos, pelas coisas que dizem, pelos bens que amealham em curto espaço de tempo e por suas atitudes em geral, ou certas organizações, pelas decisões que tomam, pela maneira que agem e pelo recorrente envolvimento de inúmeras de suas lideranças em escândalos de corrupção, sejam minimamente honestos ou honrados.

Dentre todas as possibilidades, a que mais me incomoda é a figura do partido político que com grande freqüência têm membros de seu alto escalão condenados pela justiça por crimes diversos e cuja militância, ao invés de condenar os ilícitos e expulsar sumariamente os infratores, realiza atos de desagravo a criminosos, faz vaquinhas para pagar suas despesas, discursa apaixonadamente em defesa de diversos condenados por diversos crimes em diversas instâncias e acusa a Justiça em si de estar “perseguindo injustamente” seus correligionários, “criminalizando o partido” e se comportando ela própria de modo criminoso, devendo os juízes que condenam criminosos eles mesmos serem punidos e irem para a cadeia.

Entretanto, lá vejo eu na grande mídia e nas redes sociais os partidos que possuem esta prática serem tratados como partidos políticos e não como as grandes quadrilhas criminosas especializadas em teatro político que de fato são. Nós os vemos criando um programa “importantíssimo para a cidadania” ontem, quando detinham o orçamento em suas mão, e os vemos obstruindo votações e votando contra o financiamento destes programas hoje, quando o orçamento está em mãos de terceiros. Nós os vemos primeiro elogiando um parceiro para auferir o tempo de TV que aquele aporta à campanha e depois enxovalhando o parceiro que se afastou porque foi posto para escanteio depois das eleições. Nós os vemos desprezar o diálogo e impor sua agenda quando estão no poder e apelar para o sentimentalismo pueril elogiando o diálogo e a negociação quando perdem o poder.

E continuamos, após todas as evidências acachapantes de que tais partidos só se interessam pela justiça quando ela atinge os outros e só se interessam pelo diálogo quando não têm outra opção, a chamar estes farsantes de legítimos. E continuamos, após todas as evidências acachapantes de que tais partidos tomaram de assalto as instituições do Estado, aparelharam os órgãos públicos, rapinaram os cofres das administrações que detiveram e cometeram todo tipo de manobra escusa possível para evitarem que a verdade viesse à tona e a justiça fosse feita, a chamar estes criminosos de políticos.

Se um bicho pesa seis toneladas, é cinza, tem tromba preênsil, presas de marfim e vive na savana é um elefante. Não chamamos este bicho de baleia porque é pesado, de anta porque tem tromba, de lobo porque tem presas, de leão porque vive na savana ou de peixe-boi porque é cinza. Não tentamos nos enganar quanto à natureza do bicho porque uma ou outra de suas características é compatível com a descrição de um outro bicho. E não negamos que se trata do bicho que realmente é só porque uma de suas características menos relevantes eventualmente não combina com a descrição habitual do bicho – afinal de contas, um elefante albino ainda é um elefante.

Já em relação aos partidos políticos, só porque eles possuem um registro que diz que é isso que eles são, nós consideramos “excessivo” ou até mesmo “ofensivo” se alguém “generalizar” dizendo que um ou outro deles se trata na verdade de uma organização criminosa que finge ser uma instituição legítima para se apoderar do controle do Estado e de seus recursos. Nós olhamos todo o conjunto das características que eles apresentam, em especial seus crimes, incoerências, falácias e bravatas, e no entanto dizemos que eles são instituições legítimas apenas porque tecnicamente organizações criminosas não possuem CNPJ, como se fosse possível dizer que o elefante albino não é um elefante apenas porque tecnicamente os elefantes não são brancos.

Precisamos aprender a interpretar as evidências como elas são, não como os criminosos querem que interpretemos seu teatrinho.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 19/10/2016

4 thoughts on “Quadrilhas criminosas especializadas em teatro político

  1. O pior é algumas pessoas que juram que são “apartidárias” mas no fundo, defendem com unhas e dentes um determinado partido. Eu tinha um “amigo” que vivia defendendo a quadrilha criminosa que por mais de 13 anos “governou” o Brasil, e quando eu apontava isso, ele dizia de pés juntos que não apoiava partido nenhum, apesar de só defender o PT e só criticar os políticos de outros partidos (especialmente os que faziam oposição ao então governo federal). Um certo dia, ele passou tanto dos limites que eu o bloqueei.

    Porém, levando em consideração que alguns partidos são quadrilhas criminosas disfarçadas, temos ALGUM verdadeiro partido político no Brasil?

    1. Boa pergunta. Se eu soubesse a resposta, me filiaria.

  2. Isentão detected no comentário do Fola. O famoso “não sou petista mas…” !

    1. É o que mais tem por aí.

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