Pois houve quem me perguntasse: “Arthur, todo mundo conhece a tua posição política e a intensidade com que a expressas. Tu és um técnico do estado que atende diversos municípios na tua atividade profissional. Como é isso de atender um município que é administrado por um partido sobre o qual tu tens uma opinião muito negativa?” Uma ótima pergunta.

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A resposta é muito mais simples e objetiva do que você pode imaginar: eu não estou nem aí para qual é o partido do gestor com quem eu tenho que lidar. Não me faz a menor diferença se eu estou lidando com o partido que eu mais critico ou com o que eu menos critico, com o partido que está mais distante da minha ideologia pessoal ou com o que está mais próximo. E isso vale tanto para o partido do gestor do estado do qual sou funcionário quanto para o partido do gestor do município que eu devo atender.

Eu não sou funcionário desta administração ou daquela administração. Eu sou funcionário da administração. O gestor do estado não é o meu patrão, é o gerente escolhido pelo meu patrão para administrar temporariamente o estado. E o gestor do município que eu atendo não é o dono do município, é o gerente escolhido pelos donos do município. Nosso objetivo é trabalhar para promover o melhor interesse dos nossos patrões, não importa nossa opinião um sobre o outro. Quem não sabe agir assim não deveria ser nem gestor, nem funcionário público.

Se o meu relacionamento com o gestor municipal puder ser amigável, ótimo! É melhor para mim, é melhor para ele, é melhor para o desenvolvimento de nossas atividades e é melhor para os nossos patrões, o povo do estado e o povo do município. Se o gestor não pensar assim, então ele terá de mim apenas o melhor atendimento profissional possível, que é o mínimo exigível de um funcionário público, e minha boa vontade, que é um brinde que eu ofereço até mesmo para o gestor que eu mais critico no mundo. Por que isso? Porque eu sou um cara legal, ora! 🙂

Como profissional, não me cabe fazer um serviço mal feito, não me cabe ser negligente, não me cabe ser irresponsável, não me cabe fazer corpo mole, não me cabe questionar a escolha soberana do meu patrão, o povo, que escolheu este ou aquele gestor para executar esta ou aquela política. O que me cabe é atuar dentro da lei, da ética e da melhor técnica disponível.

Como cidadão é claro que eu posso criticar as escolhas dos demais cidadãos e botar a boca no trombone – mas não em horário de expediente, nem fazendo uso de qualquer recurso oficial. Isso eu faço no meu blog, no meu Facebook, no meu Twitter pessoal, no meu e-mail pessoal, no meu tempo livre. E em relação a isso não cabe reclamação alguma de quem eu atendo profissionalmente.

É claro que não há uma separação entre o profissional e o cidadão, eu sou ambos o tempo todo, mas deve haver ética, bom senso, coerência e cuidado com a qualidade na realização de qualquer atividade profissional, neste ou naquele momento, neste ou naquele contexto. E eu posso garantir a vocês: não é difícil. Eu, pelo menos, não tenho o menor problema com isso, nem nunca tive, mesmo quando estive sob as ordens de um gestor francamente hostil. O gestor passa, minha consciência fica.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 21/10/2016

2 thoughts on “Como conciliar o serviço público com uma posição política forte?

  1. Eu sou funcionário público, faço o meu trabalho da melhor forma possível, assim como muitos dos meus colegas. Não aguento esse papo que o funcionalismo público é ruim por definição porque o funcionário público está intocável, aposenta na hora que toma possa, etc… Em várias partes do mundo, durante várias décadas, o serviço público foi sinônimo de eficiência e ética. E não custa mais caro do que o mesmo serviço no setor privado não, esse é conversa fiada. O problema está nas pessoas, não no sistema, que obviamente pode ser melhorado. Os regulamentos existem mas não estão sendo aplicados porque ninguém quer se incomodar com colegas. A maioria só pensa em si, no seu conforto, no que pode tirar a mais para si, mesmo que seja em detrimento de outros. O que falta é chefia inspiradora, quase sempre. Uma pena, mas vejo o mundo se fechar cada dia mais, se tornar mais egoísta, mas duro e angustiante…

    1. Antoine, pensa bem: se ninguém quer se incomodar com os colegas, então o problema está no sistema, porque o funcionário público sabe que não adianta denunciar o cara ao lado – a chance maior é que nada aconteça e ainda se ganhe um desafeto e a fama de cagüete. Em uma empresa privada, o cara que faz corpo mole não dura muito, porque o colega sabe que vai ter que fazer o trabalho dele e o patrão agradece a informação para se livrar de um cara que não dá lucro, só despesa. Lógico, há exceções, mas a regra é esta.

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