Eu sou um macaco falante. Você é um macaco falante. Todos somos macacos falantes. Nossa espécie tem registros fósseis dos últimos três milhões e duzentos mil anos de evolução como macacos falantes. Tudo em nós, absolutamente tudo, é definido em função de nossa biologia: a biologia de um macaco falante. Não é possível o exercício correto do poder pelos macacos falantes ou para os macacos falantes sem o reconhecimento de que somos macacos falantes. 

banana

Dizer que o exercício correto do poder deve ser honesto e ético é algo de uma obviedade monumental. O que não é óbvio em todo pensamento político mundial é o fato de que a honestidade e a ética são dependentes da biologia da espécie que define estes conceitos. Foi exatamente por ignorar esta absoluta dependência que todos os grandes pensadores da humanidade tatearam no escuro para formar suas visões de mundo e geraram escolas de pensamento completamente díspares e discordantes entre si. A todos eles faltaram duas coisas: conhecimento em biologia e entendimento de que absolutamente tudo que seja pensado sobre o ser humano depende totalmente da natureza biológica do macaco falante. Quer um exemplo? Vamos lá.

Você que está me lendo provavelmente acredita que a democracia é um regime muito bom, que representa os maiores anseios políticos da humanidade. Pois bem, isso é uma imensa bobagem. A democracia é um péssimo regime, que só funciona quando não é necessário. E a razão disso é biológica.

Ao longo de mais de três milhões e duzentos mil anos, o macaco falante foi (e ainda é) um caçador-coletor tribal hierarca. As decisões sobre o que caçar, onde caçar e como caçar não eram tomadas através de deliberação democrática, segundo o princípio de “um indivíduo, um voto”. Nada disso. As decisões eram tomadas pelo macho alfa do grupo e seu séquito próximo, composto pelos betas mais aptos, que era a quem o macho alfa dava algum crédito para receber aconselhamento. Os demais indivíduos do grupo, em especial os ômegas, não tinham absolutamente nenhum poder de decisão. E, obviamente, o macho alfa do grupo não era escolhido por votação. O macho alfa do grupo era aquele sujeito que ninguém se arriscava a contrariar. O único poder de escolha que o grupo tinha era assassinar o macho alfa quando este se demonstrasse incompetente para guiar o grupo de modo bem sucedido e insistisse em impor suas decisões assim mesmo apesar do descontentamento geral em relação a estas decisões. Este arranjo de poder garantiu a evolução do macaco falante até a posição de espécie dominante do planeta.

Como a democracia se encaixa no arranjo de poder que modelou o macaco falante? Ela não se encaixa. Na democracia, os ômegas fazem algo que ao longo de toda a evolução humana eles jamais fizeram justamente porque nunca tiveram capacidade de fazer: eles escolhem os alfas. Noutras palavras, são os indivíduos que menos têm capacidade de liderar e que mais são vulneráveis às manipulações exercidas pelos alfas que escolhem os alfas. A liderança do grupo, que na natureza despontava devido à capacidade de se impor, passou a despontar devido à capacidade de convencer. A competência para liderar passou a ser julgada não pelos resultados concretos da ação direta do alfa, mas pela subjetividade dos ômegas e sua preferência pelos discursos que lhe fossem mais agradáveis.

Aí eu pergunto: entre “são tempos difíceis, teremos que fazer grandes esforços e sacrifícios” e “eu vou resolver tudo sem que vocês tenham que se preocupar com nada”, em quem você acha que os ômegas votam? E eu mesmo respondo: o cérebro da idade da pedra do ômega não foi evolutivamente programado para questionar os alfas, portanto, ele julga igualmente plausíveis ambas as declarações e escolhe a mais confortável para si.

O resultado disso é que a democracia é um regime regido pela manipulação dos desejos não realistas do maior número de ômegas inebriados pelo discurso do alfa com maior capacidade de convencimento, não de realização. Tem como dar certo uma coisa destas? Só se os alfas em disputa tiverem entre si um pacto de disputa honesta e ética, sabendo que esta é a melhor escolha para a manutenção da qualidade do sistema político, econômico e social que lhes garante uma ótima qualidade de vida, em segurança, sem risco de convulsão social ou de complicações com a justiça. Ou seja, só se a cultura for tão elevada que a democracia já não faça diferença.

O exercício correto do poder não têm, portanto, nada a ver com o regime democrático, mas com a função natural do macaco falante macho alfa, que é a de guiar o grupo de modo eficaz para que o grupo tenha sucesso na caça e na defesa do território, das fêmeas e dos filhotes de todos os betas e ômegas, algo que só é possível ocorrer se o macho alfa atingir a posição de liderança através da imposição de suas habilidades e competências e mantiver a posição através da obtenção de resultados favoráveis que mantenham o contentamento do grupo.

A ortocracia, é necessário salientar, não se resume a isto, pois o exercício correto do poder também exige, além de honestidade, ética e uma dinâmica meritocrática objetiva de conquista e subjetiva de manutenção de poder, o respeito a outras características biológicas típicas de nossa espécie. Mas isso é assunto para um outro artigo. O essencial hoje é compreender que, enquanto insistirmos em ignorar a natureza símia de nossa espécie e o quanto isso determina tudo aquilo que somos e como agimos, o resultado continuará sendo será essa imensa banana em que nosso mundo está virado.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/11/2016

7 thoughts on “Ortocracia, o exercício correto do poder

  1. Arthur,

    Concordo com coisa pra caralho aí mas a hipótese de que a estrutura social foi SEMPRE padrão macho alpha é muito forçada. A cultura social é bem mais elástica que isso. Sempre achei interessante pra caramba esse artigo:

    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC387823/

    1. Bruno, há três coisas diferentes aí:

      1) Sim, o padrão de nossa espécie sempre foi o do macho alfa liderando o grupo, o que ocorre sem exceção significativa há milhões de anos. No mundo moderno, quando a civilização passou a impedir o uso da força física individual como fator de competição para propósitos de liderança de grupo, o macho alfa não necessariamente precisa ser um macho. Aí estão Margareth Thatcher e Angela Merkel, ambas governantes de grande projeção e muito bem sucedidas, para provar isso. Mas observa que as duas possuem um padrão de comportamento de macho alfa.

      2) É óbvio que existe cultura e que a cultura tem impacto no comportamento, mas isso só acontece porque nossa biologia permite a existência do fenômeno de aprendizado baseado em observação de comportamento de terceiros. Ou seja, a base biológica não é negada pela existência de fenômenos culturais, muito antes pelo contrário: é justamente porque é vantajoso aprender estratégias de sucesso através da observação que a possibilidade de desenvolver uma cultura foi positivamente selecionada durante a evolução. Mas veja bem: a possibilidade de desenvolver uma cultura evoluiu “porque é vantajoso aprender estratégias de sucesso através da observação”. Uma vez que na evolução muitas estruturas que eram usadas para um fim passaram a ser usadas para outro fim (foi assim que a partir das patas os mamíferos desenvolveram asas e nadadeiras), deveria ser óbvio que isso é uma Caixa de Pandora.

      3) O artigo nem de longe é conclusivo e cita várias explicações alternativas para o nível de violência do grupo de babuínos. Vou trazer uma pequena reflexão sobre o papel da acessibilidade sexual das fêmeas aos betas para o nível de violência de um grupo: pensa aí em qual é a principal motivação para um terrorista islâmico se explodir dentro de um ônibus cheio de crianças. Nem idéia? Simples: acesso às fêmeas. O cara acredita que vai sair de um ambiente onde ele nunca nem sequer uma fêmea para entrar em um paraíso onde ele terá 72 fêmeas permanentemente disponíveis para satisfazer sua libido.

      Agora pensa aí em uma praia naturista. Sabe quando rola uma briga com agressão física em um ambiente naturista? É bem mais raro do que na média das classes sociais das pessoas que frequentam os ambientes naturistas. Embora existam variáveis de confusão , mas há uma boa chance de que o simples acesso visual às fêmeas já seja suficiente para reduzir a belicosidade do grupo.

  2. Gostei das observações a respeito da origem biológica da organização política do macaco falante, com a estruturação da hierarquia social encabeçada por um alfa. Mas ao mesmo tempo que tal modelo se mostra adequado ao homo sapiens, sua implementação sem qualquer limitação aos poderes do alfa sobre a sociedade e uma eventual ausência de mecanismos para a remoção do alfa sem emprego de violência como primeira alternativa podem resultar na instauração do velho império da força, presente na Terra desde sempre.

    1. Gabriel, eu sou a última pessoa na face da Terra que aprovaria a “implementação sem qualquer limitação aos poderes do alfa sobre a sociedade”, especialmente sem “mecanismos para a remoção do alfa sem emprego de violência”.

      O que eu afirmo é que é necessário estabelecer um processo meritocrático de fato, baseado em resultados de gestão, não em poder de convencimento, para que qualquer indivíduo possa ingressar em um cargo de gestão, isso em qualquer um dos poderes (executivo, legislativo e judiciário), bem como um processo de deposição também baseado em resultados de gestão. Tem que ter resultados positivos para entrar e tem que sair se tiver resultados negativos.

      Os métodos específicos estão abertos a debate. Apresentarei alguns com o tempo.

  3. Uma coisa não ficou muito clara com este texto: em uma ortocracia, como os governantes chegariam ao poder? Através de uma revolução, um golpe de Estado, ou coisa parecida? Tive essa impressão ao ler a seguinte frase: “o macho alfa atingir a posição de liderança através da imposição de suas habilidades e competências”

    Desculpe se minha pergunta for meio idiota, ou se eu houver te interpretado mal, mas é que isso não ficou muito claro, ao menos para mim.

    1. Fola, há várias possibilidades bem suaves, algumas delas bastante simples e compatíveis com nosso sistema político. Por exemplo, poderíamos estabelecer que só podem concorrer ao governo do estado os 10% melhores prefeitos de um estado, segundo algum conjunto de indicadores objetivos. E só podem concorrer à presidência da república os 15% melhores governadores do país, também segundo algum conjunto de indicadores objetivos.

      Nosso presidente da República necessariamente seria alguém com a experiência de já ter gerido uma cidade e um estado e se destacado primeiro entre os melhores prefeitos e depois entre os melhores governadores. E o povo ainda teria ampla gama de escolha, mas apenas entre os candidatos que já demonstraram consistentemente ter uma boa capacidade de gestão.

      Para depor o prefeito, governador ou presidente, bastaria a qualquer momento 50% + 1 dos parlamentares de sua esfera legislativa decidirem assim. Simples assim. Nada de um longo processo de impeachment. Se o parlamento não tolera um governante, ele cai e são chamadas novas eleições.

      Claro, há outras possibilidades. Apresentarei algumas ao longo do tempo.

  4. Obrigado pela explicação!

    (e essa é a primeira vez que eu vejo você me chamar de Fola :P)

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