Não me importa que tenha vencido o Donald Trump. Não me importa que tenha perdido a Hillary Clinton. Não me importa que quem tenha votado nele ou nela tenha sido esta ou aquela fatia do eleitorado. O que eu percebi nestas eleições estadunidenses foi o embrutecimento dos partidos, dos eleitores, da imprensa, da política em geral, não só no contexto dos EUA mas em todo o mundo.

burro-e-elefante

Em primeiro lugar, a disputa pela candidatura no Partido Democrata foi um sufoco para Hillary. E quem foi que lhe deu aquele sufoco? Bernie Sanders, um socialista declarado. E o mais incrível é que as previsões eram de que Sanders teria mais chance do que Hillary de vencer Trump. Considerando o quanto todos sabemos a respeito do socialismo – um regime que em qualquer de suas versões só produziu degeneração moral, miséria econômica e autoritarismo político onde quer que tenha assumido o controle de um país – é simplesmente aterrador que os EUA tenham corrido o risco de ter um socialista na presidência da República.

Em segundo lugar, a disputa pela candidatura no Partido Republicano foi baseada na desconstrução dos adversários de Trump, numa prévia macabra do que seria a campanha eleitoral, e isso foi bem sucedido dentro do próprio partido, cujos filiados preferiram a política da desconstrução desde a fase da escolha de seu candidato, demonstrando um acirramento da intolerância no coração do partido.

Em terceiro lugar, a disputa pela presidência da República foi um show de horrores, com direito a baixaria explícita, ataques pessoais, desconstrução mútua, propostas impopulares e foco muito mais na promoção da rejeição do adversário do que em um debate que nem de longe se poderia chamar de “político” em um país minimamente civilizado – e se trata do país mais poderoso do mundo, tanto na política quanto na economia e também do ponto de vista bélico.

Em quarto lugar, a imprensa se mostrou parcial, “errou” totalmente em todas as análises e nos deixa sem saber se este erro se trata principalmente de incompetência (por não saber o que estava realmente acontecendo) ou principalmente de corrupção (por saber o que estava realmente acontecendo e dizer o contrário). Qual das duas hipóteses é mais assustadora é difícil de dizer com precisão, mas eu torço muito para que tenha sido predominantemente incompetência, embora sem nenhuma convicção.

Em quinto lugar, a preferência popular foi definida contra alguém muito mais do que a favor de qualquer coisa. Não quero discutir exemplos, porque isso tiraria o foco do que eu estou dizendo, mas sublinho que isso vale tanto no sentido de que muita gente dos dois lados votou muito mais contra um candidato do que a favor do outro e muita gente dos dois lados votou contra determinados grupos sociais ao invés de a favor de propostas justas e construtivas.

Em sexto lugar, estas eleições mostraram mais uma vez que a polarização da sociedade funciona eleitoralmente cada vez melhor. Tudo virou nós contra eles. Trump passou a campanha atacando os imigrantes. A culpa de tudo é dos outros, que tomam nossos empregos e nos trazem criminalidade. Hillary, derrotada, no seu primeiro pronunciamento tratou de atacar um suposto machismo. A culpa de tudo é dos outros, que são preconceituosos e dificultam a ascensão das mulheres. Perceba: qualquer semelhança entre esta dinâmica e a campanha de xenofobia e intolerância que levou ao Brexit não é mera coincidência. É o mesmo fenômeno, trocando os mexicanos pelos poloneses e os cartéis do narcotráfico pelos extremistas islâmicos.

Em sétimo lugar, as consequências internacionais já no primeiro dia são de aprofundamento dos conflitos. A extrema-direita na França adorou a vitória da xenofobia nos EUA. A esquerda em Cuba protagonizou um espetáculo ridículo de mobilização de tropas “para enfrentar ações do inimigo”, repetindo o nome e o método da operação “Bastião” executada quando Ronald Reagan foi eleito. O governo corrupto e violento do russo Vladimir Putin e a ditadura comunista do chinês Xi Jinping acenaram com felicitações e desejo de colaboração. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu responsável por uma política linha-dura e conflitiva no Oriente Médio, declarou-se um verdadeiro amigo dos EUA e ansioso para trabalhar em conjunto para ampliar a segurança na região. Ali Khamenei, aiatolá no Irã, disse que Trump não venceu por ter sido populista, mas por ter dito a verdade. Todos os autoritários do mundo se regozijaram pela vitória de um candidato xenófobo, misógino, boquirroto e fanfarrão nos EUA.

Entre todas as reações que vi, de diversos outros países, somente a chanceler alemã Angela Merkel deixou claro que a cooperação entre seu país e os EUA depende do respeito aos Direitos Humanos sem qualquer discriminação de raça, sexo ou religião. Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, significativamente sublinhou a importância do Estado de Direito nas relações entre os países. As demais reações foram predominantemente protocolares.

Eu poderia continuar longamente citando indícios e exemplos do embrutecimento generalizado refletido por estas eleições nos EUA e suas repercussões mundo afora, mas a própria confecção de uma lista mais extensa do que esta no fundo também seria um exercício de embrutecimento. Os sinais estão claros o suficiente: salvo alguma reviravolta espetacular e imprevisível, estamos trilhando um caminho de acirramento de posições políticas, sociais e econômicas extremistas, de aprofundamento de conflitos e de enfraquecimento do Estado de Direito, tendo como pano de fundo o desencanto com a política devido à insuportável corrupção e aos ultrajantes escárnios da classe política para com o senso de dignidade, a qualidade de vida e as esperanças do cidadão comum, que se embrutece cada vez mais, caindo na armadilha de uma espiral de intolerância crescente que retroalimenta e agrava os problemas que o exasperam.

As eleições presidenciais americanas de 2016 são apenas o reflexo deste conjunto de fenômenos. O que é assustador é que isso tenha chegado ao ponto de contaminar os dois partidos que dominam a política do país mais poderoso e influente do mundo, que podem deixar de representar valores republicanos e democráticos (sem trocadilho com o nome dos partidos) e capitanear o mundo inteiro a uma era obscurantista numa escala sem precedentes.

Se em um passado não muito remoto o século XVIII nos trouxe os incríveis avanços do iluminismo e ficou conhecido como “O Século das Luzes”, hoje precisamos fazer um imenso esforço para que o século XXI não nos traga um panorama político, econômico e social que fique conhecido como “A Segunda Idade das Trevas”.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 10/11/2016

23 thoughts on “As eleições nos EUA refletem uma tendência mundial preocupante

  1. Descobrimos, finalmente: o rei está nu.

    1. Não entendi a relação disso com o texto.

  2. Apesar de achar preocupante a eleição de Trump nos Estados Unidos, eu acho que após assumir, ele irá “atenuar” um pouco seu discurso populista e agressivo. Acredito que ele dificilmente irá cumprir algumas coisas que disse em campanha, como a construção de um muro na fronteira com o México, por exemplo.

    O que me preocupa mesmo é a possibilidade destas eleições influenciarem as eleições presidenciais no Brasil em 2018 e levarem o Bolsonaro a ser eleito.

    1. O problema enfocado no texto não é o que Trump fará após assumir… É o que ele fez para ser eleito. A eleição dele e a repercussão em outras democracias mostra que existe na população dos EUA e do mundo uma disposição de consumir aquele tipo de discurso. E a repercussão em países não democráticos mostra quem está feliz com aquele discurso.

  3. Adriano Guimarães

    10/11/2016 — 10:55

    Fico espantado com a inocência de se considerar que Ângela Merkel seja mesmo tão ingênua.
    Isso chega a me fazer lembrar da crise de ignorância do Lula durante a época do mensalão, contudo, na época, era frequente se ouvir que simplesmente desconhecer o desenvolvimento de um crime tão grande já o inviabilizava intelectualmente para o cargo. Contudo sequer a negligência de alguém que deveria zelar primeiramente pelos direitos dos humanos alemães foi considerada no texto.
    Acredito que o povo alemão (e principalmente as alemãs que foram estupradas), hj, preferiria que sua líder recebesse o rótulo de xenófoba do que de negligente.

    Trump durante sua campanha deixou isso claro. E o povo comprou o discurso.

    Prefiro o povo se levantando pra proteger sua soberania e cultura do que de joelhos a uma retórica pseudo humanitária de uma profissional da política que certamente não é tão imbecil qto tem demonstrado, e certamente apresenta outros interesses obscuros, como quem sabe, criar um bolsão de dependentes de programas sociais com o voto pré-direcionado.

    https://pt.gatestoneinstitute.org/7619/alemanha-estupros-migrantes

    1. Por que ingênua? Eu não acho que ela seja ingênua, acho que ela está enfrentando um fenômeno para o qual não está preparada, ou não tem ferramentas adequadas para lidar, ou enfrenta dificuldades de suporte político para lidar adequadamente. Mas ela está reafirmando um determinado conjunto de valores que precisam muito ser reafirmados.

  4. Mefistófeles Sucks

    10/11/2016 — 15:09

    Avante Bolsonaro!

    1. Adriano Guimarães

      10/11/2016 — 18:51

      Avante

    2. Pfff…

      Entre os Bolsonaro e um pote de bosta, eu voto no pote de bosta. É mais higiênico.

    3. Adriano Guimarães

      11/11/2016 — 20:28

      Essa pode ser uma metáfora suicida, pois o receptor da mensagem pode associar àquela outra metáfora do pobre que é similar ao verme que qdo sai da merda morre. Logo prefere ficar ali mesmo.

    4. Não é nem uma metáfora. Se um pote de bosta ganhar vida, eu voto nele ao invés de votar no Bolsonaro. Alguém como o Bolsonaro só ganharia meu voto se fosse a última alternativa contra a esquerda. E isso só porque contra a esquerda eu votaria até no Diabo.

  5. Ainda preciso entender bem o que está acontecendo. Não sei se esse embrutecimento se deve à internet/existência de redes sociais, que permite que mais gente entre em contato e se ataque sem medo das consequências. Ou talvez seja uma reação à tentativa, agora visível, de dominar tudo empreendida pela esquerda e movimentos globalistas. Depois de todos os ataques, grosserias, insultos que as pessoas vem sofrendo a tendência é exagerar na reação mesmo. Eu que sou mais controlado e treinado pra interações de stress já sinto raiva, imagine gente sem preparo.

    1. Eu precisei passar sete meses afastado do blog para não terminar de destruir minha minha própria imagem (que eu arrebentei bem reagindo com indignação incontida às perversões da esquerda e à estupidez de seus apoiadores) e acabar infartando.

      E eu fiz dois anos de yoga, três anos e meio de meditação budista, muitos anos de defesa da racionalidade e um blog chamado “Pensar Não Dói”.

      Não tenho mais dúvida alguma: minha maior sacada se chama Metatolerância.

  6. mandei um comentário, não sei se foi bloqueado, se vai ser moderado ou o que. aguardo que seja publicado.

    1. Não tem nada na fila de moderação. 🙁

  7. P.S.: Se Trump continuasse a política vigente e adotasse o globalismo, seria mais uma prova cabal de que os Estados Unidos são e sempre serão imperialistas e maus, como Trump defende pouca intromissão em política externa, Trump é criticado pela esquerda que domina a mídia nos EUA e no Brasil por ser… isolacionista!?(verdadeiro sinal dos tempos!). E, se ele estivesse no meio-termo seria criticado por não ter uma política clara. Em toda e qualquer situação, acusar, protestar, não é preciso lógica, só é preciso atacar tudo que impede o avanço da esquerda, se Putin e o chinaredo tivessem reagido mal, seria óbvio que Trump é o motivo para a tensão e a escalada armamentista e o início da terceira guerra mundial iminente é culpa toda dele, mas se eles reagem pacificamente, releva que Trump não presta porque gente dessa laia aceitou sua eleição. Se árabes e israelenses estão em guerra, a culpa é dos Estados Unidos porque um dia haveriam de eleger Trump, se elegem e Israel e Irã reconhecem sua eleição e reagem bem, é óbvio que Trump é o culpado de…de…alguma coisa, escolha você mesmo o que, até porque não importa o que for, Trump é sempre errado, o culpado, de tratar ilegais como se fossem ilegais e foras da lei, tadinhos, de não incentivar negros a matar policiais brancos opressores de bandidos, de não apoiar que muçulmanos comecem a viver me guetos sob a sharia como já fazem na Europa, de não facilitar a entrada de terroristas no país, de não aceitar dinheiro da Arábia Saudita e do Qatar ao mesmo tempo em que estes governos financiam o Estado Islâmico, de não alimentar discursos vitimistas de mulheres e gays fomentando a desagregação social em vez disso governar para todos, promovendo a união dos americanos não-esquerdopatas, culpado de ser homem e não ter cortado os testículos,de ousar fazer política sendo franco em vez de dissimulado, enfim, culpado de ter nascido, de continuar respirando e atrapalhando os planos de tanta gente decente, justa, tolerante, descolada e cuti-cuti, que vai cumprir todas suas as promessas de mundo melhor nem que pra isso tenham que prender e matar todos os que não forem capaz de perceber como eles são legais.

    1. Os EUA tinham dois lixos disputando a presidência da República. Ganhou o lixo mais imprevisível e a esquerda está fazendo o previsível. Só isso.

  8. releva, leia-se, revela. desconsiderar outros erros menores, não fiz correção por falta de tempo

  9. minhas msgs continuam sendo bloqueadas, talvez seja número de caracteres excedido. Se for, vamos por partes, como faria o velho Jack: Me permita discordar, o politicamente correto é uma técnica para monopolizar o discurso e evitar debate de idéias sob falso pretexto de superioridade moral.

  10. Como o próprio nome diz, o p.c. é o correto para um partido político, ou, atualmente, já que esse partido se ramificou em linhas auxiliares para ocupar quase a totalidade do espectro político na maioria dos países ocidentais, o p.c. é (…)

  11. infelizmente não estou conseguindo enviar mais nada

    1. Cadastra teu e-mail no blog e faz login. Usa a entrada de menu no alto à direita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *