No Brasil e no mundo estamos assistindo a ascensão da direita. Isso não se deve aos méritos da direita, que são nulos, mas aos defeitos da esquerda, que são muitos. Mais uma vez estamos assistindo o pêndulo da política oscilar de um extremo ao outro, como uma reação intolerante à intolerância do outro extremo, sem que ninguém se importe em procurar um ponto de equilíbrio harmônico e produtivo.

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Eu estou bastante incomodado com este fenômeno. Há pouco tempo atrás não era possível dizer que se era contra as cotas racistas, sexistas e coitadistas impostas pela esquerda sem que um cretino nos chamasse de racista, sexista e elitista. Hoje está ficando difícil dizer que é necessário proteger os direitos à saúde e educação universais, gratuitos e de boa qualidade sem que um cretino nos chame de esquerdista, socialista ou comunista. Só trocamos de fanatismo.

Não tenho a menor dúvida de que era imprescindível derrubar a esquerda em nosso país.

O Brasil estava se tornando uma Venezuela em um ritmo assustador nos últimos anos. Se não tivéssemos aprovado a “PEC da bengala” e chutado a guerrilheira da presidência, ela teria indicado para o STF Ministros que estariam fazendo no Brasil o que a Suprema Corte da Venezuela está fazendo por lá: anulando absolutamente tudo o que o Parlamento aprova, descaradamente, num claro jogo de cartas marcadas para sustentar a ditadura socialista de Nicolas Maduro.

O golpe branco dado contras as instituições na Venezuela pelo ditador Nicolas Maduro, sua Suprema Corte de títeres do regime e a garantia pela força da continuidade de um governo que está matando a população de fome com comandantes do exército politicamente alinhados ao ditador é uma vitrine excelente do que a esquerda faz quando chega de fato ao poder. E não pensem que basta esperar as eleições de 2019 para que Maduro seja expulso do poder pelas urnas: até lá ele e sua gangue irão inventar algum jogo de palavras para defender la revolución contra a vontade popular.

O problema é que o processo de derrubada da esquerda foi uma reação espasmódica e não uma tomada de consciência.

Sendo alvo do mesmo tipo de acusação esquerdista no Brasil, nos EUA, na Venezuela ou em qualquer lugar do mundo, é óbvio que as pessoas olham para o pior dos exemplos, percebem a caminho de quê estão se dirigindo e reagem em defesa da própria sobrevivência. Num contexto assim, qualquer inimigo da esquerda tem imensa chance de crescer em aprovação popular. Quanto mais inimigo da esquerda, melhor. E ninguém se vende mais como inimigo da esquerda do que a ala oposta do espectro ideológico, a direita, que no entanto partilha dos mesmos defeitos da esquerda em termos de falta de razoabilidade, estupidez de propostas, descaso pelo bem estar da população e intolerância ao diálogo.

Eu não canso de ficar pasmo com a facilidade com que as mesmas pessoas que acusam a esquerda de intolerância se posicionam de maneira totalmente intolerante, por exemplo em praticamente qualquer conversa nas redes sociais. No último domingo eu bloqueei um cara que se diz liberal porque, apenas porque eu disse que uma posição que ele defende está tecnicamente equivocada e que isso foi matematicamente provado pelo Prêmio Nobel John Forbes Nash Jr., o sujeito disse que eu não sou liberal, me chamou de socialista e disse que eu quero implantar uma economia planejada aos moldes de Nicolas Maduro, coisa em que, segundo ele, nem o PSOL acredita mais. Sendo que o sujeito sabe que eu defendo o ordoliberalismo!

Está ficando chato isso. A esquerda esticou tanto a corda, ofendendo e humilhando qualquer um que dissesse qualquer coisa que não fosse adesão total e incondicional a todas as suas pretensões, que a corda arrebentou e agora está todo mundo caindo no conto da direita raivosa, ignorando que a própria esquerda teve o impulso que teve nas últimas décadas graças à ascensão da direita neoliberal radical após a queda do Muro de Berlim. Pior ainda, o monstro que está surgindo desta vez é ainda pior que os neoliberais, é o monstro libertariano que prega que a simples existência do Estado é um mal e que abomina o Estado de Bem Estar Social, que é a única coisa ao redor do mundo que garantiu suficiente harmonia social para que a criminalidade fosse reduzida e o povo se sentisse seguro. Se estes depravados tomarem o poder, podemos esperar um desmonte generalizado da proteção social no mundo inteiro, com um provável retorno retumbante da esquerda ainda dentro do meu período de vida (tenho 48 anos no momento em que escrevo isso).

O inimigo não é “a esquerda”. O inimigo não é “a direita”. O inimigo é o embrutecimento que estes dois conjuntos de ideologias depravadas promovem para expandir seu domínio, jogando o tempo todo uma população desesperada por paz, segurança e qualidade de vida no colo um do outro, em fuga, porque o monstro que não está no poder sempre parece menor pior do que o monstro que está no poder.

Precisamos de paz. Precisamos de razoabilidade. Precisamos de modelos que funcionem e que já tenham sido testados, para deixar de cair nos contos de fadas e demônios que a esquerda e a direita nos empurram goela abaixo. E, para obter isso, precisamos estabelecer com clareza quem é o inimigo: a intolerância é o inimigo; o embrutecimento é o inimigo; o extremismo é o inimigo. Precisamos combater a intolerância com metatolerância. Precisamos combater o embrutecimento com ponderação. Precisamos combater o extremismo com moderação. Se falharmos em fazer isso, pode ser que um dia o pêndulo penda tanto para um dos lados que não haja mais volta.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/11/2016

One thought on “Devemos à esquerda pervertida a ascensão da direita raivosa

  1. Gerson Bouzin

    15/11/2017 — 13:25

    Eu concordo em parte. Acho que o crescimento da Esquerda não se deve ao neoliberalismo, principalmente aqui na América Latina que nunca foi liberal. Esse crescimento se deve a um planejamento deliberado, e a organizações como o Foro de São Paulo e as do Soros.

    E na prática acho a esquerda bem pior. Tendo a dar uns 85/90% de razão para direita no geral.

    Concordo que a Direita extremista é ruim, mas se tiver que optar entre um extremista de direita e um de esquerda (e receio que tenha) ficarei com o de direita.

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