Hoje às 11:00 deve entrar em debate no Senado Federal o Projeto de Lei 193/2016, que que inclui na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional o programa Escola sem Partido. Em tempos de sequestro do ensino em todas as esferas – fundamental, médio e superior – por militantes políticos que chamam doutrinação ideológica de pensamento crítico e cooptação partidária de vulneráveis exercício da cidadania, este projeto de lei é extremamente bem-vindo. 

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A escola não tem que “formar cidadãos”. Isso é uma balela criada por doutrinadores marxistas para justificar a cooptação de nossos jovens para as ideologias políticas que destruíram nosso país ao longo dos últimos treze anos e que acabaram de ser amplamente rejeitadas pelas urnas em nosso país, nos EUA e em grande parte da Europa.

A escola tem que ensinar a matéria de cada disciplina: ler, escrever, falar uma língua estrangeira, desenvolver o pensamento lógico-matemático, somar, subtrair, multiplicar, dividir, fazer regra-de-três, saber calcular os juros de um cartão de crédito, o que é uma alimentação saudável, exercícios físicos saudáveis, tocar um instrumento musical, noções de história e geografia, uso de ferramentas, manutenção de uma residência, construção de um móvel, conserto de um chuveiro, cálculo de um circuito com a espessura correta dos fios e aterramento, programação de computadores, procedimento para recorrer ao tribunal especial cível, economia doméstica com finalidade de investimento, abrir uma empresa, investir na bolsa de valores a longo prazo, etc. Coisas úteis de fato para a vida prática do indivíduo na realidade presente, não segundo a ideologia de gênero, a luta de classes ou a teoria esquerdopata do raio que o parta.

OBS: para quem achar que estou com um “viés à direita” ao dizer o que eu disse no parágrafo anterior, afirmo desde já que a doutrinação de besteirol direitopata aos moldes de “quem não tem competência não se estabeleça”, “objetivismo moral”, “princípio da não agressão”, “imposto é roubo” e outros lixos é igualmente inaceitável, mas que em toda minha vida acadêmica não vi um único caso de doutrinação deste tipo em sala de aula para menores de idade. A tática de lavagem cerebral de vulneráveis, até onde pude constatar, tem sido tipicamente usada pelos marxistas e outros esquerdistas. Perguntem a Luís Felipe Pondé, filósofo de direita assumido, se ele tem notícia de escolas ou departamentos universitários que apresentem um quadro balanceado de filósofos ou sociólogos de todos os matizes ideológicos em sala de aula, ou se o que ele recebe são milhares de notícias de gente sendo perseguida em sala de aula por não concordar com os dogmas da esquerda.

A formação da cidadania não se dá pela doutrinação ideológica do aluno, mas pela sua capacitação intelectual e operacional no mundo moderno. Tornar-se cidadão não é decorar uma cartilha política e passar a impor um padrão de pensamento e ação política em busca de um ideal de sociedade, é saber se virar com sagacidade, ética e competência no mundo real, construindo na sua vida cotidiana um ambiente de sucesso.

De tudo isso que afirmo decorre naturalmente que é imprescindível realizar uma reforma profunda nos currículos escolares. Disciplinas que parecem ser engrandecedoras e cuja presença nos currículos parece razoável – como filosofia e sociologia – há muito se tornaram meros espaços de doutrinação ideológica. Disciplinas que deveriam servir para que os alunos compreendam como nossa civilização se desenvolveu e qual a estrutura e funcionamento do mundo atual – como história e geografia – há muito se tornaram ferramentas de distorção da realidade. Só há uma visão de mundo sendo apresentada para todos os nossos jovens em sala de aula e é a visão de mundo que leva grupelhos aparelhados a invadirem escolas e prejudicarem quem quer estudar, quem quer trabalhar, quem quer votar e quem quer ver o país avançar. É preciso eliminar este viés para podermos nos concentrar novamente na questão curricular, que é essencial.

O projeto não é perfeito. Esta é a descrição apresentada pela Agência Senado

O projeto defende a neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado; o pluralismo de ideias no ambiente acadêmico; a liberdade de aprender e de ensinar; a liberdade de consciência e de crença; o reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado; a educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença; e o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.

O projeto estabelece que o  poder público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação da teoria ou ideologia de gênero. (…)

Também deve ficar explícita a proibição de propaganda político-partidária em sala de aula e a incitação a manifestações. O projeto estabelece ainda prevê que o professor – ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas – apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

Estou extremamente preocupado com este absurdo de impor um desenvolvimento de personalidade vinculado à identidade biológica de gênero, porque isso é uma violência contra os gays, lésbicas e transexuais, mas concordo totalmente que não se deve tolerar a malfadada teoria de gênero que considera o gênero uma “construção social”. É fundamental eliminar o ranço intolerante que permite a violência psicológica contra o aluno homossexual ou transexual para que o projeto possa cumprir sua finalidade de nos livrar do ranço esquerdista sem nos fazer retroceder na garantia dos direitos e liberdades individuais que devem pautar um país civilizado que respeita todos os seus cidadãos. Este item precisa ser erradicado, porque consiste exatamente no mesmo abuso autoritário e intolerante que a esquerda sempre cometeu. Não é razoável que simplesmente passemos a cometer os abusos opostos.

Se queremos uma escola sem partido, que seja uma escola sem partido de esquerda e sem partido de direita. Que seja uma escola voltada para o engrandecimento intelectual e a capacitação técnica do cidadão. Que seja uma escola que respeite cada indivíduo em sua essência, sem tentar impor este ou aquele princípio de moralidade ou postura política, que são coisas que cabem ao desenvolvimento cultural de uma sociedade, não à doutrinação em sala de aula. Que a sala de aula ensine o respeito a todo o indivíduo que não causa mal a terceiros e pronto, sem impor nem proibir este ou aquele tipo de pensamento político, religioso ou sexual. Se não é papel da escola impor uma direção, também não é papel da escola impor a outra.

Também não se pode permitir que o projeto sirva de porta de entrada para a introdução de pseudo-ciências no currículo escolar em função da necessidade de apresentar “as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes” e com isso trazer o criacionismo, a astrologia, a terapia quântica ou alguma outra balela pseudo-científica para a sala de aula. Isso não está em foco agora, mas é 100% garantido que algum safado vá tentar fazer isso caso o projeto seja aprovado.

Vivemos em tempos difíceis. Os principais grupos em luta pelo poder e pela hegemonia cultural em nossa sociedade não são ingênuos e se aproveitam de qualquer oportunidade para forçar a expansão de suas agendas ideológicas. Se quisermos garantir um mínimo de sanidade para nosso futuro próximo, precisamos ficar muito atentos e fazer toda a pressão que for possível fazer para que a razoabilidade e o bom senso prevaleçam.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 16/11/2016

7 thoughts on “A escola não tem que formar cidadãos. A escola tem que ensinar a matéria

  1. De tudo isso, só discordo em uma coisa: quem criou essa balela de “escola formando cidadãos” não foram exatamente os marxistas, como você declarou. Foram os positivistas que fizeram a besteira de pensar isso, quando na Proclamação da República sonharam em formar uma geração de catedráticos daquele mix de imigrantes brutos e escravos libertos que era o Brasil do final do século XIX.

    O problema, para eles e para nós, é que catedrático pensa, reflete, idealiza, mas não constrói nada. Assim, ficamos apenas na teoria, enquanto os desenvolvidos partem para a prática – e, enquanto pensamos o país do futuro, outros fazem pátrias para o presente (e se dão muito bem).

    1. Se não foram os marxistas que inventaram, no entanto são os marxistas que o fazem hoje. E, olha… Se os positivistas tinham em mente formar um ser pensante autônomo, que pena que não deu certo!

  2. Acho extremamente necessário e bem vindo este projeto, e concordo com a maioria de suas ponderações. O que me preocupa é este trecho aqui:

    “o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.”

    Com isso, e ainda mais com a bancada evangélica ainda presente e relativamente forte no congresso, é bem capaz de algum babaca querer proibir os professores de ensinar sobre o big bang e a Teoria da Evolução porque vai contra “o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.”

    1. Bem, Big Bang não é teoria religiosa. Já criacionismo e outras balelas são teorias religiosas. Uma delas tem lugar na escola, as outras não. Quem quiser lecionar religião que o faça em casa ou matricule o filho em uma escola confessional da religião apropriada. Por mim, tudo bem.

  3. André Martins

    17/11/2016 — 08:31

    Ensinar o “procedimento para recorrer ao tribunal especial cível” deve ser precedido por ensinar quando se deve recorrer a ele.
    Ensinar “economia doméstica com finalidade de investimento” deve ser precedido por ensinar como funciona a mecânica de remuneração do investimento.
    Ensinar a “abrir uma empresa” deve ser precedido por ensinar porque abrir uma empresa é uma boa alternativa e como se chegou a esse ponto.
    E por que tudo isso não é formar um cidadão?

    1. Quando recorrer ao JEC, OK.

      Como funciona a mecânica do investimento, OK, desde que se limite a falar do investimento, sem palhaçada marxista sobre exploração de mais valia.

      Por que abrir uma empresa é uma boa? Porque se ganha mais dinheiro sendo o empresário do que sendo o funcionário do empresário. A não ser que o sujeito prefira a “segurança” do salário “garantido” no fim do mês. (Ho! Ho! Ho!)

      O objetivo de cada uma destas coisas é instrumentalizar o indivíduo para que ele se vire no mundo real. Se quiseres incluir isso no conceito de “formar cidadãos”, ótimo. Mas acho que sabes bem do que eu estou falando quando critico quem quer “formar cidadãos”, né?

  4. André Martins

    18/11/2016 — 12:56

    “desde que se limite a falar do investimento, sem palhaçada marxista sobre exploração de mais valia.”
    Eu diria que desde que não se limite a falar apenas de Marx ou apenas de Mises.

    Sim, sei. Mas acho que há muitos espantalhos nessa discussão. Vou tentar reproduzir o que escutei de um sindicalista da APEOESP: “Nos criticam por desprezar o mercado de trabalho e o ensino das matérias técnicas e focar apenas na formação de cidadãos críticos. Mas para nós não há essa divisão: queremos ensinar matérias que permitam o aluno se integrar ao mercado de trabalho de modo ético e responsável, sabendo seus direitos e deveres.”

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