Estou aqui assistindo (15/11) um canalha de voz melíflua falar com a maior cara de pau que a droga no Brasil não pode ser legalizada porque temos milhões de desempregados e se liberarmos as drogas esse público desesperado vai se afundar no vício. Ele também diz que é necessário um debate melhor, mais estudos e mais educação antes que se possa dar um passo tão perigoso que pode colocar em risco a saúde pública. Eu vejo estas declarações mal intencionadas travestidas de afetada razoabilidade e me ferve o sangue. 

amigo-da-onca

Em primeiro lugar, qualquer desempregado que quiser comprar maconha, cocaína, crack, ecstasy, LSD e anfetaminas hoje tem fácil acesso a qualquer uma destas drogas. Tente você comprar um simples antibiótico ou uma caixa de ritalina. O tal cara sabe disso e esta declaração dele demonstra claramente a que ele vem e retira completamente a legitimidade e a credibilidade de qualquer coisa que ele diga sobre o assunto.

Em segundo lugar, este tipo de terrorismo pornográfico só funciona para justificar os alucinados que já babam de ódio contra a possibilidade de alguém ter a liberdade de fazer algo que eles querem que seja proibido não interessa a justificativa. Drogas não são um problema de saúde pública, são uma questão de cidadania. Até existe um componente de saúde pública envolvido, mas não é este o ponto central desta discussão. O que o tal cara quer fazer é decidir segundo seus próprios padrões ideológicos o que os outros podem ou não fazer, independentemente das consequências para os outros.

Em terceiro lugar, a verdade é que não existe debate a respeito deste assunto. Eu discuto isso há duas décadas e é muito se 1% dos proibicionistas mudaram de idéia mesmo perante todos os argumentos do mundo que mostram claramente que não existe nenhuma vantagem na proibição e que existem inúmeras vantagens na legalização e na mais ampla liberalização possível.

Em quarto lugar, são justamente os caras que dizem que é necessário mais educação que fazem todos os esforço possíveis para que não haja educação nenhuma a respeito deste assunto, mas simplesmente doutrinação para “dizer não às drogas”. Eles chamam qualquer informação útil sobre o assunto de “apologia” e dizem que isso é caso de polícia. Ou seja, para eles, “educar” é obrigar todo mundo a propagar a idéia deles, sem adquirir nenhum conhecimento, sem a possibilidade de divergir ou ou fazer escolhas próprias bem informadas.

Em quinto e último lugar, perigoso é manter o proibicionismo estúpido que faz o preço de todas as drogas subirem até a estratosfera, tornando este mercado extremamente atraente para quadrilhas criminosas cada vez mais violentas e mais capazes de corromper o poder público ou de plantar seus membros em todos os poderes da República.

Todos os países que adotaram medidas liberalizantes assistiram o consumo cair, a criminalidade cair e o custo para lidar com o problema das drogas cair. E a queda é tanto maior quanto mais liberalizante a medida. Mais estudos o K@$#%#, o que nós precisamos é parar de ouvir estes canalhas intolerantes amigos da onça que atravancam a liberdade, o progresso e a segurança e com isso promovem muito mais sofrimento, violência, corrupção e morte do que o consumo pacífico de qualquer substância poderia trazer!

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 18/11/2016

16 thoughts on “Drogas não são problema de saúde pública. São questão de cidadania

  1. E esse foi o tema que me fez chegar até seu blog a primeira vez!

    1. E que está te fazendo comentar agora. 🙂

      Faz um Gravatar aí, Bruno!

  2. Esse é um daqueles seus artigos que, só de olhar o título, a gente já sente uma satisfação e sabe que vem coisa boa por aí.

    Quanto ao assunto do texto, eu concordo 100%, mas tenta explicar isso pra um proibicionista, e ele fecha os olhos, tapa os ouvidos e diz “trá-lá-lá, não tô ouvindo, não tô ouvindo!”. Enche a paciência.

    E parece que a imprensa faz um péssimo serviço quanto a este assunto (não só quanto a este, mas vamos nos ater a uma só questão). Eu já vi tudo quanto é tipo de alegação estúpida e/ou mal intencionada de repórteres de revistas, jornais e telejornais. Certa vez eu li uma notícia que relatava um acidente de trânsito com uma vítima fatal, e o autor do texto dizia que o motorista que causou o acidente havia fumado maconha no dia anterior, mesmo isso sendo irrelevante para a notícia. Ao ler uma notícia dessas, a pessoa que já tem um preconceito enraizado vai ficar ainda mais convencida de que a maconha é uma coisa abominável, que mata, que causa acidentes, que deixa as pessoas retardadas, que é coisa de vagabundo, etc.

    E assim caminha a humanidade…

    1. Escrevi este artigo com o fígado, mas até que não cuspi muito marimbondo. 😛

  3. Eu sou totalmente a favor da legalização das drogas, mas tem alguns pontos que valem a pena debater.

    O argumento que eu mais ouço quando eu debato esse assunto com um conservador, é: ” Ah, concordo com você que uma pessoa deveria fumar o que ela quiser, o problema é que essa pessoa futuramente vai procurar ajuda da saúde pública e isto vai gerar muitos gastos…”

    Em relação a isto, você é a favor ou contra do uso de dinheiro público para o tratamento de viciados?

    1. Eu costumo responder o seguinte nesse aspecto: quem usa drogas ilegais hoje e precisa de atendimento médico já é atendida em hospitais públicos e já geram custos. Só que esses custos não subsidio nenhum dos impostos da venda dessas drogas por que eles não existem.

      Por outro lado seria anti ético negar atendimento. Quem disse que o problema de saúde da pessoa é consequência da droga? E os usuários de álcool e tabaco que já recebem tratamento para câncer, cirroses e afins também seriam barrados?

    2. ” Por outro lado seria anti ético negar atendimento. Quem disse que o problema de saúde da pessoa é consequência da droga? E os usuários de álcool e tabaco que já recebem tratamento para câncer, cirroses e afins também seriam barrados? ”

      Sim, concordo com você. Se nós fossemos levar por esse lado, a saúde pública seria extinta, visto que, vários problemas de saúde que nós temos hoje é em decorrência de certos hábitos nocivos.
      Por exemplo:
      Tem diabetes? Ninguém mandou abusar do açúcar.
      É Hipertenso? Ninguém mandou abusar do sal e levar uma vida sedentária… e etc.

      Quando eu me refiro ao tratamento de viciados, eu digo em um sentido mais estrito. Aquele tratamento que visa reverter a situação de “viciado”.

    3. Mas e aí? Vício é a consequência do abuso e predisposição genética mas geralmente o abuso é uma consequência – mais um sintoma do que uma causa – de outros problemas sociais ou psicológicos.

      Não tem jeito, tem que tratar mesmo.

      Mas acho que nesse sentido você concorda comigo: é muitíssimo mais barato tratar os viciados do que sustentar a guerra as drogas e o custeio médico das vitimas de confrontos.

      Caramba, médicos militares do mundo todo vem treinar atendimento de emergência pra ferimentos de batalha no RIO DE JANEIRO.

      E o argumento do aumento do custo de tratamento de viciados normalmente é associado a falsa hipótese do aumento de viciados. A prática tem mostrado o oposto: nem aumenta e as vezes até reduz. Reduziu pra caramba o número de viciados em opioides (droga legal) nos estados americanos onde legalizaram a maconha por exemplo.

    4. Sou a favor da cobrança de um seguro embutido no preço dos produtos que comprovadamente façam mal à saúde – como açúcar, fumo e sapatos de salto alto – para subsidiar o sistema de saúde e sou a favor do atendimento à saúde gratuito e universal, mesmo que a conta não feche e a sociedade precise subsidiar os serviços de saúde. É o ônus de viver seguro e livre em uma civilização digna deste nome.

  4. Agora que a Califórnia aprovou o uso recreativo da maconha vamos ver o que dirão após as mudanças. Espero que tenha bastante visibilidade.

    1. Tem muitos exemplos de legalização bem sucedida. Por exemplo, na República Tcheca. Vou ver se o Fabiano Golgo comenta isso aqui.

  5. Fabiano Golgo

    22/11/2016 — 08:01

    A Europa quase inteira adota uma legislação branda sobre o uso de drogas. Em Praga, depois de pressão americana, colocaram na lei que o indivíduo pode portar uma quantia “menos que grande” (sim, é esse o texto), sem especificar quanto seria. Isso permite que a polícia ignore os usuários. E não há caça aos “traficantes”, pois eles são diluídos entre estudantes universitários (que produzem skunk em estufas caseiras, compradas legalmente) e bares alternativos. Em Portugal, desde 2005, o uso de qualquer droga foi descriminalizado, cocaína e heroína incluídos, sendo q o resultado foi, 10 anos depois… a diminuição do consumo de drogas em 1% e o desaparecimento da heroína do mercado. Proibir o uso de drogas é como proibir tatuagens, piercings, dar o cu ou o consumo de costela gorda… se fizer mal, é somente ao usuário e não a terceiros. Sendo que o Estado e as leis devem regular APENAS aquilo que cause consequências a terceiros. O pulmão é meu, como o cu é meu, então eu coloco dentro o que bem me entender, desde que não envolva menores de idade.

    1. “Direito ao supositório.” 😛

  6. Eduardo Silva

    30/11/2016 — 13:07

    Resposta padrão ao conservador-padrão sobre este assunto: “É ilógico e imoral liberar o álcool e o cigarro e, ao mesmo tempo, proibir a cannabis”. Será que convence?

    1. BRUNO FERREIRA PORTO

      30/11/2016 — 14:24

      Não… Eles vão imediatamente dizer que álcool e tabaco não fazem tão mal, que não tiram da realidade e mais um monte de mentiras – até mesmo pessoas que eu SEI que já usaram maconha falam a mesma coisa. Duplipensar.

    2. A mesma pessoa que defende liberdades individuais defende proibição de plantio para consumo próprio. Aí eu chamo o cara de macaco falante e ele fica ofendidinho.

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