O brasileiro estraga tudo

Compartilhei recentemente um vídeo do Black Pigeon Speaks (eu sei, eu sei, altamente controverso) sobre a relação entre o recato sexual feminino e a estabilidade social. Hoje o perfil de uma tal de “Sociedade da Pílula Vermelha”, de onde eu nem tinha me dado conta que havia compartilhado o vídeo, curtiu minha postagem. Então eu fui lá ver o que era essa página. E encontrei na primeira postagem a pergunta contida na imagem abaixo.

E esta foi a resposta (chula) da tal Sociedade da Pílula Vermelha. Leia rapidinho essa porcaria ou pule de uma vez para o que eu escrevo logo abaixo assim que você perceber o nível da resposta:

“Esse é um ponto que tenho que destacar mais nas postagens aqui na página. O homem comum, viciado em extremos sensoriais não está pronto para viver em paz. Ele anseia pela discussão, pela raiva, pelo sofrimento e pela dor. É como um corno sadomasoquista que não consegue viver sem ser enrabado pela vida.
Como você pode ter deixado seu relacionamento chegar a esse ponto? Pelo seu relato é evidente que você perdeu uma bela e honrada dama.
Vamos analisar o relato da sua amada e ver que faz todo o sentido…
Ela relata que torceu o seu belo pezinho, algo totalmente dentro da normalidade. Outra coisa completamente normal é três pessoas largarem o que estavam fazendo para acompanhar a colega que torceu o pé em um atendimento médico. Até aí tudo bem, não há motivos pra crer que ela não foi sozinha com o macho e que ela não inventou a presença dessas outras 2 colegas para que você não desconfiasse que ela estava a caminho do açougue para ser abatida. Afinal, todos nós sabemos que mulheres são seres angelicais, que não mentem e nem mesmo sentem tesão em mentir para o namoradinho quando estão indo para o motel com outro homem. Você não deve dar bola pro fato do amigo dela ser exatamente o cara que você não vai com a cara, é uma mera coincidência.
Após uma noite árdua no hospital é lógico que as garotas estariam com fome e iriam querer se nutrir, não é mesmo? Quem sabe um salame? Hehehe! Depois é hora de colocar algum carboidrato pra dentro (ou apenas ela, pois quem sabe sua namorada é esquizofrênica e as amigas não existam, não a julgue). Enquanto o salam, ops, quer dizer, hehehe, a batata entra, a mesma te liga preocupada que você a esteja esperando como um bobinho apaixonado, lhe relata a orgia gastronômica e que você deve esperar uma ligação da mesma (abre o olho, boi bandido).
Após extrapolar o horário combinado em mais de 2 horas (o tempo passa rápido nos dias de hoje, sem problemas aqui), você, enfurecido por ciúmes injustificados (afinal sua bela amada jamais mentiria pra você) começa a entrar em modo de fúria, encorajado por devaneios onde sua bela amada participa de uma orgia helênica com o Ricardão.
Se você fosse uma homem esclarecido e tivesse feito o dever de casa tomando a pílula vermelha, você teria cagado e andado, estaria nessa hora já dormindo tranquilo sabendo que a sua namorada é só mais uma e que provavelmente não houve problema algum, que na verdade ela estava com a piroca do Ricardão em uma mão e na outra com o celular relatando as mentiras pra você. Mas não, você peca pela falta de confiança, mesmo a realidade estando esfregada na sua cara, você insiste em deturpá-la, insiste que nada ocorre, que tudo está dentro da normalidade.
Repare que é exatamente por isso que as brigas acontecem: você se apaixonou e foi jogado em um inferno emocional. Enquanto um homem seguro de si e com auto-controle emocional estaria cagando, pois tem ciência de que as mulheres mentem da maneira mais descarada.
Se você tivesse agido de maneira controlada, nem que fosse por míseros 2 minutos, apenas o suficiente pra dizer que não aceitaria aquele tipo de mentira e que estava terminando o relacionamento, a imund… digo, donzela, estaria em 10 minutos na sua casa implorando pra chupar o seu saco. Mas não, você se apaixonou e os papéis se inverteram: você homem virou a mulher da relação, emotivo, passional, cheio de ciúmes!
O pior é que você ainda deu trela pra escutar as historinhas de que demoraram duas horas pra levar as “amigas” em casa. Onde é que se demora 2 horas pra levar alguém embora as 22 horas? Realmente, o congestionamento no trânsito as 22 horas é algo brutal e que exige muita paciência, não é mesmo?
Para fechar com chave de ouro você fez exatamente o que sua amada queria: perdeu completamente o controle e começou a despejar xingamentos. Game over. Agora ela tem as condições pra inverter o jogo e jogar a culpa em você. Ela passou a noite toda chupando danone, comendo salame, colocando batata pra dentro, passeando de carro e ainda teve a sobremesa de acabar com o sub-homem que lhe estava sugando a beleza.
Desculpe ser ríspido, mas é isso que você é: um sub-homem. Você deixou que ela te controlasse o tempo todo. O horário que teria que ligar, a história que teve que engolir, o salame que ela teve de comer e a inversão de culpa. Você está no último estágio do fracasso como homem.
Para finalizar e mostrar a sua total inaptidão como macho, você ainda pergunta se exagerou. Não meu caro, você não exagerou. Você foi apenas controlado, você não tomou as rédeas de seu relacionamento, você não tomou as rédeas de sua vida, você não consegue nem mesmo interpretar uma história furada como essa que eu, em apenas 1 minuto lendo já sabia que estava cheia de furos.
Você deixou que sua vida fosse controlada por uma mulher e mulheres, dada sua natureza emocional, não têm capacidade pra gerir grandes coisas, ainda mais um relacionamento.
Você falhou em tudo o que relatou e continuará a falhar, pois não importa o que aconteça, você estará fadado a uma avalanche de sentimentos incontrolados, que nós aqui denominamos extremos sensoriais.
Pena é o que me resta ter de você. Diga adeus a sua masculinidade, ela está extinta.”

Eu fiquei aqui pensando se valia a pena comentar isso e decidi que havia um comentário que valia a pena fazer.

O brasileiro estraga tudo.

É impressionante.

O foco do vídeo que eu compartilhei era a relação entre o recato sexual feminino e a estabilidade social. O autor é conservador, eu sou liberal, mas isso não impede que eu reconheça que a base do argumento dele estava correta. uma correlação entre uma coisa e outra e muito provavelmente a relação é de fato causal como o autor daquele vídeo alega, em algum grau. A base biológica do argumento está correta, as implicações antropológicas são consistentes e as implicações políticas são altamente plausíveis.

Agora assista o vídeo do Black PIgeon Speaks, observe o linguajar com que o autor trata a questão no vídeo, observe o linguajar com que eu trato a questão no parágrafo imediatamente anterior e compare com o texto em azul que você leu mais acima.

O brasileiro estraga tudo. Como pode?

Poxa, o cara está divulgando um vídeo controverso, mas bem argumentado, que nem vem ao caso agora se está correto ou não – o fato é que o tema foi tratado com seriedade e sobriedade. E aí, na página dele, o que ele tem a dizer é um monte de grosserias obtusas que com certeza o autor do vídeo que ele divulgou rechaçaria!

Eu não entendo como pode isso. Sério, o cara nem deve ter entendido o vídeo, deve ter achado que o vídeo corroborava os preconceitos dele e compartilhado sem o menor cuidado. E o pior é que provavelmente o público dele vai entender a mesma coisa que ele, que o autor do vídeo não disse nem quis dizer.

Pára o Brasil que eu quero descer!

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/12/2016

Acabar com a corrupção é fácil

Uma associação de pessoas que se dedica a práticas ilegais é uma organização criminosa. Organizações criminosas não devem ter autorização do Estado para funcionar. Portanto, que se casse todos os mandatos e se suspenda o registro naquela unidade administrativa de qualquer partido que tiver eleito pelo menos um candidato que venha a ser condenado por qualquer crime de corrupção, desvio de verba, recebimento de propina, tráfico de influência, caixa 2, etc…

Não, não é uma “punição excessiva”. Não me venha com esse papo de defensor de bandido e da corrupção. Quem defende penas que não servem para coibir os ilícitos na prática está defendendo a prática dos ilícitos. E não estou falando de “penas maiores para bandidos cruéis”, não. Estou falando de quaisquer penas em quaisquer situações. Como a falta no futebol, por exemplo.

A falta no futebol praticamente não é um ilícito a evitar, virou uma estratégia de jogo. Se o time adversário está em uma boa situação para dar início a um ataque perigoso em que não é clara a chance de gol, pode valer a pena fazer uma falta e dar tempo para seu time recuar. Não precisa nem tentar partir a perna do centroavante, basta um empurrãozinho que desequilibra. É suficiente para o ilícito valer a pena.

Em outras situações, a falta não é uma boa opção. Dentro da grande área, por exemplo. Neste caso, a falta recebe um nome diferente, “pênalti”, e um pênalti é uma punição bem mais eficaz para coibir o comportamento ilícito. Adivinhe o que aconteceria se toda falta fosse pênalti, independentemente de ser feita dentro ou fora da grande área? Quase não haveria faltas.

A corrupção hoje é punida como a falta, se é que é punida. A punição não é eficaz para coibir o ilícito. O candidato pode até perder os direitos políticos por oito anos, mas todo partido tem muitos outros corruptos para substituir o condenado e continua tendo muitos incentivos para praticar os mais variados ilícitos. É como se o sujeito que cometeu a falta dentro da grande área simplesmente tivesse que ser substituído, sem que o pênalti fosse marcado. Pode até ser benéfico para a equipe dele.

Para que a punição à corrupção seja eficaz e coíba de fato os ilícitos, o partido não pode ficar impune. E tem que sofrer uma punição pesada, que o prejudique muito no “campeonato”, para que nem sequer pense na possibilidade de praticar ou ser tolerante com a corrupção. É o partido que tem que fiscalizar furiosamente a licitude de todas as suas atividades, não o Estado.

Quando o time cai para a segunda divisão ou o partido fica suspenso e impedido de concorrer por uma única eleição que seja, perdendo todas as vagas na unidade administrativa em questão (município, estado ou união), cada vereador, cada deputado, cada senador, cada prefeito, cada governador, cada assessor parlamentar, cada secretário ou presidente de autarquia ou fundação, cada funcionário, cada cri-cri de diretório e cada filiado realmente interessado se torna um fiscal em potencial. Com uma fiscalização assim não dá para arriscar.

Digamos que o PQP tenha eleito o prefeito e cinco dos nove vereadores do município de Pindoramópolis. Seis meses depois, o vereador Zé da Pinga espinafra sua secretária e é denunciado por um esquema de venda subfaturada de cachaça para financiamento do caixa 2 de sua campanha eleitoral. As acusações são corroboradas pelos bêbados da cidade, o Ministério Público investiga, denuncia, o vereador Zé da Pinga é condenado por corrupção. Recorre, é condenado de novo em segunda instância. Tudo isso em menos de um ano, claro, afinal o Judiciário tem que ser ágil, porque a justiça falha porque tarda. E agora?

Agora o Zé da Pinga, o prefeito e os outros quatro vereadores têm seus mandatos cassados, o Zé da Pinga tem seus direitos políticos suspensos por oito anos a contar do final de seu mandato e devido à condenação do Zé da Pinga por corrupção o PQP tem seu registro suspenso em Pindoramópolis do momento da condenação até dois anos e meio após a próxima eleição municipal, o que significa que não elegerá ninguém nem poderá se reorganizar legalmente naquele município neste prazo. Isso e multa, claro.

Não proponho a extensão penal da condenação por corrupção aos demais filiados, apenas a eleitoral. Perceba que não proponho a suspensão dos direitos políticos dos outros eleitos. O jogador de futebol que comete uma falta maldosa dentro da grande área é expulso, seu time é punido com o pênalti, mas ninguém propõe dar cartão vermelho para os demais jogadores. Depois que eles levarem o gol, perderem o jogo e caírem para a segunda divisão, podem até voltar se jogarem bem.

No caso dos partidos políticos, “jogar bem” tem que ser definido tanto pela habilidade política quanto pela licitude de suas atividades. A reincidência no mesmo ilícito ou em qualquer outra forma de corrupção deve punir o partido com maior intensidade do que a primeira infração. Por exemplo, a multa pode dobrar a cada reincidência e o registro pode ser suspenso na instância imediatamente superior (no estado, se a condenação foi de um vereador ou prefeito; na união, se a condenação foi de um deputado estadual ou governador) caso a multa não seja paga até as próximas eleições.

Agora escreva para seu deputado federal ou senador sugerindo isso e observe pela reação dele se ele quer ou não combater a corrupção, moralizar a política, punir os criminosos e abrir caminho para que os honestos dominem a política daqui em diante. Só não se decepcione se ele não responder, ou se disser que sua proposta constitui uma “punição excessiva”… 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 18/12/2016

Quando o desprezo é melhor que o perdão

Dizer que o desprezo é melhor que o perdão só é chocante para quem nunca parou bem para pensar no quanto pode nos ferir a insistência de que devemos perdoar quem despreza tanto nosso bem estar que um dia cometeu uma grande injustiça contra nós. Na verdade, o desprezo pode ser uma arma muito mais eficaz que o perdão para recolocar nossa autoestima no eixo e nossa vida nos trilhos. 

Eu, você, todo mundo já passou por alguma injustiça. Algo que nos fez ter alguma emoção ruim, seja de humilhação, de revolta, de raiva, de impotência, enfim, algo que sentimos como injusto sempre nos fere emocionalmente de alguma forma. A emoção inicial é inevitável, mas como lidar com a experiência varia muito de pessoa para pessoa.

A maioria continua remoendo a injustiça e as emoções ruins trazidas pelo episódio durante muito tempo – e assim acabam sendo vítimas duas vezes da mesma injustiça: a primeira pela injustiça em si, a segunda pelo poder que conferem ao episódio para continuar tomando tempo e causando estrago em sua vida. Mas não precisa ser assim.

Eu estava lendo um livro de autoajuda muito interessante até que me deparei com uma história que me fez torcer o nariz. Um policial abordou uma gangue de jovens assaltantes e recebeu um tiro no pescoço que o deixou paraplégico. O livro narra então que este policial perdoou seu algoz, que o bandidinho que lhe deu o tiro telefonou para ele da cadeia e que o policial o convidou para saírem juntos pelo país espalhando uma mensagem de perdão e esperança. A palhaçada só não teria acontecido porque o candidatozinho a anjo morreu atropelado três dias depois de sair da cadeia, mas hoje o tal policial é um palestrante muito requisitado para contar para todo mundo como é lindo perdoar.

Eu desprezo este tipo de história. Isso só serve para fazer 99,9% das pessoas se sentirem péssimas por não serem tão angelicais e capazes de perdoar como o incrível palestrante – que cobra uma bela grana por palestra e ganha apupos e bons afagos no ego por ser “tão bom”. Para mim isso é apenas uma maneira esperta porém hipócrita de lidar com uma tragédia pessoal. Quem não ganhar dinheiro e admiração por ser “tão bom” certamente não terá o mesmo incentivo e muito menos a mesma força para manter essa postura e se sentirá ainda mais arrasado, provavelmente se culpando por não ser “tão bom” quanto o tal policial.

Para o mortal comum, como eu e você, o desprezo funciona muito melhor. Eu não tenho vergonha alguma de admitir isso, e você também não deveria ter. Canalhas e malfeitores que não se arrependem – e em “arrepender-se” está necessariamente incluída a completa e total reparação do mal causado e a promoção de um benefício extra a título de pedido de desculpas – não merecem perdão, merecem punição. E, quando não podemos puni-los, ou quando não estamos satisfeitos com a punição que legalmente podemos infligir a eles, o melhor a fazer para o bem de nossa saúde e paz de espírito é desprezar estes desgraçados. O desprezo, se não dói no algoz, pelo menos alivia a vítima.

O erro que você não pode cometer é confundir desprezo com acinte. Se você precisa esfregar na cara da pessoa desprezada que você a despreza, então você não a despreza. Se você precisa contar ao mundo que despreza alguém, então você não despreza este alguém. Quando você despreza alguém, você não se importa se ele ou ela sabe disso ou não. Você não se importa se alguém mais sabe disso ou não. Você simplesmente tem um instante de nojo quando lembra daquela pessoa e logo em seguida decide que ela não vale nem sequer o tempo que você gastaria para ficar lembrando dela. Você não a esquece, você deixa de pensar nela porque há coisas mais importantes e mais interessantes na sua vida com que gastar seu tempo – recolher cocô de gato do quintal, por exemplo.

Se você achou graça em pensar que recolher cocô de gato do quintal possa ser mais importante que lembrar de uma certa pessoa, eu lhe proponho um exercício. Pense em alguma tarefa real que você tenha que fazer de vez em quando e que seja tão interessante e divertida quanto recolher cocô de gato do quintal. Pensou? Pois bem: toda vez que você se lembrar de alguém que deveria desprezar, porque lhe fez algum mal, porque cometeu alguma injustiça contra você ou porque é um encosto na sua vida, lembre que catar cocô de gato no quintal é mais importante que essa pessoa, dê uma risada e vá realizar a tal tarefa em que você pensou com um sorriso no rosto, sabendo que isso é mais interessante do que pensar naquele traste. Então concentre-se na tarefa e tire o traste de sua mente. Este é um ótimo exercício de desprezo.

Eu não sou e você não precisa ser – nem tentar ser – um anjo de pensamentos puros, capaz de perdoar a todos sem olhar a quem. Isso é balela alienante e irreal que só serve para nos fazer sentir mal, porque não é o natural de nossa espécie sentir assim. Você não deve tentar contrariar sua natureza. Por dois motivos: primeiro, porque você não pode; segundo, porque só vai se frustrar e se sentir pior. Portanto, não tente perdoar quem você não quer perdoar. Prefira sentir desprezo. Sempre que se lembrar da existência de algum desgraçado, algum malfeitor, algum encosto, não dê a ele o poder de ocupar seus pensamentos e de perturbar suas emoções. Lembre de compará-lo em importância com cocô de gato e cultive o mais tranquilo e debochado desprezo pelo traste em questão.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 12/12/2016 

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Metatolerância: teoria e prática

Metatolerância é o exercício coerente e consequente da tolerância para com a tolerância e da intolerância para com a intolerância, em busca de um mundo mais tolerante, saudável e harmônico. Sua prática requer discernimento, coragem e honestidade intelectual, mas sobretudo firmeza e implacabilidade, porque os intolerantes as possuem de sobra e os tolerantes não as possuem em suficiência.

METATOLERÂNCIA

Desde quando formulei o conceito de metatolerância, eu sabia que ele era simples, mas não era fácil. Custei para perceber o motivo, porém. Foram necessários cerca de 28 meses para que eu me desse conta de que para um intolerante é fácil fingir tolerância para com os tolerantes até o momento em que estrategicamente lhe seja benéfico abandonar o fingimento, mas para um tolerante é muito difícil exercer a intolerância contra os intolerantes a qualquer momento. Nos dois últimos dias, entretanto, caiu a ficha. Contarei o que houve. 

Anteontem um amigo (agora ex-amigo) teve um surto de estupidez fascista no Facebook. Estava lá vociferando que manifestações pacíficas eram inúteis para modificar o status quo, que era necessário apelar para a desestabilização e até para a violência, etc. Quando eu vi aquilo, dito de maneira histérica e ridícula, eu caí na risada e entrei na discussão para zoar com o sujeito. Não me incomodei em nada, porque não tinha o menor respeito pelas bobagens que ele estava dizendo.

Ontem, depois de ele me ofender, me ameaçar de espancamento, empalamento em praça pública e sei lá mais o que, eu percebi que tudo aquilo era realmente a sério – ou, se não era, a brincadeira estava longe demais. A discussão desde sempre foi uma baixaria, com troca de ofensas de ambos os lados, mas até então eu estava levando na brincadeira e achando graça. Afinal, tudo o que ele dizia era tão estapafúrdio, tão cheio de clichês esquerdistas abjetos e absurdos, que eu não tinha como levar a sério. Para mim era só uma guerra de torta. Naquele momento, entretanto, eu percebi que tinha tomado a intolerância dele por deboche, caiu a ficha do quanto ele estava perturbado e avisei o sujeito: “cara, tu estás doente”. Obviamente, foi inútil.

Hoje a coisa continuou e o cara continuou a lançar ataques pessoais. Eu respondi mantendo o foco na situação do Brasil, que foi roubado e falido pelo partido dele. Citei as condenações por corrupção e as imensas cifras já recuperadas, coisa que seria impossível caso não tivesse havido a corrupção e o roubo. A resposta dele invariavelmente foi me chamar de coxinha, idiota, palhaço, dizer que amigos meus falam de mim pelas costas (defeito meu ou deles?), que eu não entendo nada de antropologia, sociologia e história (leitores antigos rindo neste momento) e que Stalin matou foi pouco.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

O interessante é que também na tarde de hoje já havia acontecido outro episódio em que eu bloqueei alguém com quem estava discutindo sobre política na página de um amigo em comum. Sabem aquele sujeito que, desde o primeiro momento em que a gente lê, a gente percebe que vai ter que aturar um chato de galochas com blá-blá-blá pernóstico, pedante, citando pensadores como se fossem autoridade científica e nos acusando de falácia ao mesmo tempo? Pois bem, eu respirei fundo e encarei. O problema é que a cada postagem ele lançava uma farpa pessoal. E, lá pelas tantas, o cara me chamou de comunista.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

Foi a partir deste duplo bloqueio de hoje que eu percebi qual é a maior dificuldade do exercício da metatolerância: para uma pessoa tolerante e com convicções éticas, é muito difícil ser devidamente intolerante com os intolerantes porque guardamos respeito por todo ser humano até um limite que ultrapassa muito o razoável. O sujeito mostra uma vez que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra duas vezes que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra dez vezes que é intolerante, a gente releva. Na centésima vez que o sujeito mostra que é intolerante, finalmente a ficha cai, a gente não releva, reage… E o intolerante nos acusa de intolerância! E nós nos sentimos mal por isso!

A chave do exercício da metatolerância é perder o respeito por quem mostra que não merece respeito.

Uma vez que eu perdi o respeito por ambos estes interlocutores, um intolerante de esquerda e um intolerante de direita, eu simplesmente não senti qualquer constrangimento por bloquear os dois sem avisar ou sem dar qualquer explicação. No caso do que eu não conhecia, eu não tive paciência para explicar nada. No caso do que era meu amigo, eu até pensei em escrever algo, eu até esperei alguns segundos porque ele estava escrevendo alguma coisa, mas logo me dei conta de que seria bobagem. Seria fraqueza. Eu estaria me preocupando com os sentimentos de alguém que já havia ameaçado me agredir e que dizia que eu tinha que ser empalado em praça pública. Ridículo. Gente como estes dois caras não merece nem minha compaixão, nem minha raiva, só merece meu desprezo. E foi isso que eu dei a eles, deletando-os do meu universo sem remorso.

O engraçado ou tragicômico nisso tudo é que eu vivo aconselhando que “quando uma pessoa te mostrar aquilo que ela realmente é, acredita logo na primeira vez”, mas tenho uma certa dificuldade para fazer isso de primeira, muito por medo de haver algum mal entendido. Isso e um certo sentimentalismo têm feito com que eu seja tolerante demais com os intolerantes, o que não é bom. Tolerar os intolerantes os fortalece, permite por mais tempo que eles espalhem seu veneno, gerem mal estar e promovam o embrutecimento de que gostam e no qual prosperam.

Pelo bem tanto de nossa saúde emocional como de nossa segurança social, precisamos ser mais metatolerantes: tolerar os tolerantes e não tolerar os intolerantes. Mesmo. E isso fica muito mais fácil quando entendemos que perder o respeito por alguém não significa que temos que desrespeitar este alguém e sim que não temos que respeitar este alguém. Por exemplo, deletando a pessoa de nosso universo, para que não tenhamos que lidar com sua toxicidade, ou seu vampirismo emocional. Por exemplo, não nos preocupando com o que ela pode dizer de nós após a deletarmos de nossa vida. Por exemplo, sendo mais saudável e mais feliz na total ausência dela, ou mesmo de sua lembrança.

A partir de hoje, estarei bem mais tranquilo e à vontade para ser implacável no exercício da metatolerância.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/12/2016

Entenda a decisão do STF sobre Renan

A decisão do STF sobre Renan era previsível, matou quatro coelhos com uma paulada só e foi a melhor possível para o Brasil. O STF não podia nem cacifar Marco Aurélio, nem enfraquecer o instrumento jurídico da decisão liminar, nem deixar Renan sair fortalecido, nem deixar um petralha assumir a presidência do Senado. Todos estes objetivos foram atingidos.

renan-calheiros-e-marco-aurelio-de-melo

A Constituição e as leis são como a Bíblia: você pode justificar qualquer decisão citando o trecho que mais interessar para fundamentar aquilo que já tinha decidido previamente. O juiz e o pastor São arqueólogos de incisos e versículos. Foi isso o que permitiu a gambiara de manter Renan na presidência do Senado e impedir que ele assuma a presidência da República ao mesmo tempo. Mas esta foi uma das gambiarras melhor elaboradas que eu já vi o STF fazer.

A decisão do STF tinha quatro propósitos imediatos:

  1. Dar um tabefe no Marco Aurélio para refrear o ímpeto de ministros do STF meterem o bedelho nos assuntos internos dos outros Poderes da União, reduzindo. Obviamente, de modo circunspecto.
  2. Preservar o instrumento da decisão em caráter liminar dentro dos objetivos para os quais ele existe, especificamente como instrumento para tomada de decisões judiciais quando há periculum in mora, para que não se torne um instrumento político.
  3. Manter o presidente do Senado sob a responsabilidade e a alçada do Senado, evitando um conflito com a casa legislativa que poderia resultar em retaliações graves neste momento delicado para as instituições da República.
  4. Manter na presidência do Senado um aliado do presidente da República, evitando que um petralha fiel ao partido destituído da presidência da República pudesse impor uma agenda desestabilizadora para o país.

Nesta ordem.

Para dar um tabefe circunspecto no Marco Aurélio, a decisão do STF não podia acompanhar a decisão dele, mas também não podia simplesmente negá-la, ou estariam desmoralizando publicamente um ministro do STF. Como fizeram isso? “Concordando parcialmente” com a parte menos importante da decisão dele, começando por elogiar sua fundamentação, mas cassando seu efeito de fato.

Entenda uma coisa sobre como falam os juízes: se ele começar elogiando você, é porque você está ferrado. Se ele começar desancando você, é porque você está salvo. Os juízes sempre fazem isso para parecer que estão votando contra aquilo que gostariam de votar, para não serem acusados de estar votando de acordo com seus interesses ou simpatias. A decisão do STF sobre Renan Calheiros seguiu direitinho esta liturgia: dos nove ministros que votaram, seis começaram elogiando o ministro Marco Aurélio – exatamente aqueles que cassaram o principal efeito da liminar dele.

Para preservar o uso da liminar para os casos de periculum in mora, a decisão do STF foi fundamentada no fato de que o afastamento de Renan da presidência do Senado não servia para afastar um perigo imediato, pois, antes que Renan pudesse assumir interinamente a presidência da República, quem assumiria seria o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Além disso, há um julgamento em andamento sobre a matéria, que formalmente não está decidida, mesmo que seis ministros já tenham decidido do mesmo modo. Isso porque em tese os ministros do STF podem mudar seu voto enquanto o último ministro não votar.

Entenda que a decisão do SFT sobre Renan Calheiros não teve a intenção de beneficiá-lo e sim deixar claro que o instrumento jurídico utilizado – uma decisão monocrática em caráter liminar – não deve ser utilizada tanto para esta finalidade quanto para outras situações semelhantes. Em uma época de protagonismo jurídico sem precedentes na política, milhares de prefeitos e dezenas de milhares de vereadores agradecem penhorados.

Para manter o presidente do Senado sob a jurisdição do Senado, a decisão do STF só precisava não mexer na posição de Renan. Quanto a isso não havia qualquer dificuldade ou complicação.

Entenda que o legislativo faz as leis, incluindo a Constituição Federal, e que poderia “legitimamente” aprovar uma PEC que limitasse prerrogativas do STF ou mexesse em privilégios dos ministros do STF.

Para manter na presidência do Senado um aliado do presidente da República, era fundamental que Renan continuasse ocupando a posição que ocupa, porque o vice-presidente do Senado é Jorge Viana, um petralha radical que já mostrou a que veio e que já adiantou que atuará para inviabilizar o país. Aliás, sério que a direita retardada está revoltada porque o STF não derrubou um aliado de Temer para um petralha assumir a presidência do Senado?

Entenda que desta vez o STF atuou de maneira a preservar a governabilidade e evitar que o PT tacasse fogo no país para tentar culpar o governo Temer pelo caos. Muito embora seja verdade que Jorge Viana já pensou em não agarrar esta batata quente, o fato é que um petralha na presidência do Senado seria garantia de obstrução irresponsável.

A decisão do STF não revelou um propósito mediato:

Está muito enganado quem acha que Renan ganhou esta. Renan está ferrado.

Se Renan tivesse respeitado o STF, acolhido a suspensão de Marco Aurélio e entrado com um recurso, ele teria ficado apenas um dia afastado de suas prerrogativas. Talvez por arrogância, prepotência e absoluta estupidez, que lhe impediram de perceber que o plenário do STF jamais manteria uma decisão monocrática de afastar o presidente de uma casa legislativa através de uma decisão em caráter liminar, talvez por arrogância, prepotência e estupidez, que lhe impediram de avaliar corretamente o tamanho da espinha de peixe que deixou atravessada na garganta do STF por cometer crime de desobediência baseado no conhecimento de que o plenário do STF jamais manteria uma decisão monocrática de afastar o presidente de uma casa legislativa através de uma decisão em caráter liminar, Renan Calheiros afrontou o STF de um modo tal que não poderá ser deixado impune.

Não tenha dúvida, em breve o STF vai degolar Renan de maneira acachapante. Se você acha que não, então favorite este artigo e volte aqui ou quando o STF julgar o mérito da ação sobre a qual Toffoli está sentado em cima, ou quando o STF começar a julgar as outras 12 ações contra Renan que estão na gaveta, assim que for eleita a nova mesa diretora do Senado.

Resumo da ópera

A decisão do STF sobre Renan desautorizou Marco Aurélio e desestimulou novos ímpetos de intervenção monocrática, preservou o instrumento da decisão em caráter liminar, garantiu a harmonia entre os poderes e garantiu a governabilidade. Quanto à “vitória” de Renan, observe os comentários dos ministros do STF, de inúmeros juristas e da grande mídia sobre a desobediência que ele protagonizou: “ordem judicial pode ser discutida, mas tem que ser cumprida” é a frase mais ouvida em todos os telejornais de hoje.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 07/12/2016

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Os “coxinhas” não piraram

O comentário ridículo abaixo sobre os “coxinhas” mostra, para quem tiver o trabalho de pensar um pouco a respeito, o esgotamento completo de uma visão de mundo anacrônica, equivocada e sobretudo maldosa. Nem mesmo um completo débil mental é capaz de acreditar a sério que alguém vai protestar contra si mesmo. Para dizer ou concordar com uma coisa assim, há que ter uma grande dose de corrupção moral.

protestar-contra-si-mesmo

A esquerda há três décadas e meia vem dizendo que o Brasil passou 500 anos sendo explorado pela “direita”, atualmente identificada com os “coxinhas”. Obviamente, “direita” ou “coxinhas” para a esquerda é “tudo que não sou eu”, mas tanto faz. Vamos dar de barbada que fosse. Pois bem, em 500 anos o Brasil nunca teve três anos seguidos de recessão, exceto quando a esquerda assumiu o poder. Nunca perdemos tantas empresas, tantos postos de trabalho, tanto dinheiro e tanto prestígio internacional quanto nos 13 anos do PT na presidência da República.

A calamidade das contas públicas chegou a tal ponto que até mesmo o PMDB, parceiro do PT nas duas últimas eleições, percebeu que o país estava indo para um buraco tão grande, tão rápido, que não seria possível esperar até 2018 para chutar a bunda da esquerda e começar a recuperar o país. O parasita precisa que o hospedeiro sobreviva para poder continuar sugando seu sangue, mas a esquerda chafurdou no sangue do hospedeiro como um vampiro sedento que não se alimentava há séculos. E os “coxinhas” foram para a rua exigir o impeachment e o fim da corrupção.

Veio o impeachment, abençoado impeachment. Veio o episódio vergonhoso do conchavo do presidente do Senado com o presidente do STF para evitar a perda dos direitos políticos da presidente da República deposta. Vieram as eleições e o povo virou “coxinhas” e deixou claro que não quer saber de nada que venha do PT, impondo-lhe uma derrota acachapante e um encolhimento de cerca de 60% nas urnas. E vieram então à tona muitas das falcatruas do período de corrupção do país pelo PT – ou talvez eu deva inventar o neologismo “corruptização” para deixar mais claro que corrupção é uma atuação transformadora.

A esquerda não se limitou a roubar como fizeram todos os outros que o precederam. Não. Todos os partidos de esquerda possuem um fetichismo pelo autoritarismo absoluto, travestido de alguma ideologia porca que é usada para enganar os incautos de que a esquerda necessita para chegar ao poder. Uma vez atingido o poder, entretanto, o que vemos é o que aconteceu em Cuba, com mais de meio século de ditadura e milhares de fuzilamentos por divergência de opinião, ou na Venezuela, com a população morrendo de fome, comendo lixo, sem itens básicos de higiene, sem medicamentos, elegendo um Congresso de oposição e tendo sua vontade negada por um ditador que se aliou a um tribunal farsesco que anula todos os atos do Poder Legislativo, ou na Coréia do Norte, com uma quadrilha sanguinária de comando hereditário que perpetra os mais abomináveis crimes contra a humanidade sem que ninguém interfira. Graças a Deus, portanto, pelos corruptos de hoje, que nos livraram de destino muito pior.

Só que eles demoraram demais.

Se a cacarecada partidária toda que virou casaca tivesse peitado a esquerda quando perceberam que ela estava indo com sede demais ao pote, se os ladrões mais experientes tivessem avisado que “não é assim que se rouba”, o país não teria sido desmanchado ao ponto que foi, não teria sido necessário cortar tão fundo para o parasita evitar a morte do hospedeiro, não teria havido tanta revolta e tanta mobilização. Por isso a mobilização continua. Por isso o povo está indo às ruas hoje.

Não se trata, portanto, de “coxinhas” protestando contra si mesmos, afirmação ridícula e despropositada que nem mesmo um quadrúpede levaria a sério. Trata-se de uma revolta legítima contra a traição a que o povo foi submetido pela esquerda e por seus aliados, que gostaram tanto do novo nível de roubalheira inaugurado pela esquerda que se lançaram a ele e se lambuzaram como nunca antes na história deste país. Trata-se do mesmíssimo sentimento que levou os “coxinhas” a realizarem a maior manifestação da história do Brasil contra o PT, da mesmíssima revolta e da mesmíssima impaciência perante o escárnio com que a classe política tem tratado a honestidade, a decência, a competência administrativa e a qualidade de vida do povo brasileiro. E contra os mesmíssimos atores.

Eu tenho cá minhas ressalvas quanto aos objetivos das manifestações de hoje, penso que é uma armadilha perigosa confiar no mesmo Judiciário que não fez nada contra a corrupção nas últimas décadas, mas compreendo sua lógica e os sentimentos por trás dela. Os “coxinhas” não piraram, o povo está simplesmente exausto de viver mal e ainda ser feito de palhaço.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/12/2016

Não foi acidente, foi homicídio. Houve negligência

Errei: não foram nem o piloto, nem as regras estúpidas. Foi a negligência dos países da América Latina quem matou a equipe da Chapecoense. O piloto tinha histórico conhecido e registrado de voos em completo desrespeito às normas de segurança da aviação quanto ao combustível reserva. Mesmo assim, nenhuma autoridade da Bolívia, da Colômbia, da Argentina ou do Brasil tomou qualquer providência.

Entenda as regras de segurança

Imagine que você vai decolar do aeroporto A e aterrissar no aeroporto B. As regras da aviação exigem que a aeronave tenha sempre combustível de sobra no mínimo para mais meia hora de voo além do percurso planejado, não de A até B, mas de A, passando por B, até um aeroporto C, mais meia hora de voo.

Você tem que poder decolar de A, chegar em B, encontrar B fora de condições de aterrissagem por um motivo qualquer (por exemplo, um acidente), dirigir-se para C e ainda poder aguardar meia hora em sobrevoo até poder pousar.

Negligência latina

O avião Avro RJ 85 tem autonomia de voo de 4 h 22 min, ou 2985 km. Isso significa que qualquer plano de voo com esta aeronave acima de 3 h 52 min é ilegal. Pois bem. Eu selecionei seis voos da Lamia em uma tabela publicada pelo Diário Catarinense:

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Todos os tempos de voo mostrados na tabela acima são tempos de voo real, realizados com tripulantes e passageiros à bordo, entre um aeroporto A e um aeroporto B, por uma aeronave com 3 h 52 min de autonomia legal máxima não entre A e B, mas entre A, B e C. Quatro destes voos tiveram duração superior à autonomia máxima da aeronave, o que por si só já deveria ter provocado uma investigação. Segundo a reportagem da VEJA, o último contato antes da queda do avião foi após 4 h 37 min de voo. Isso indica que em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 4 ou 5 minutos de cair, talvez menos, dependendo das condições específicas do voo. Em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 9 ou 10 minutos de cair.

Não somente estes voos jamais poderiam ter sido autorizados, como certamente muitos outros voos desta aeronave certamente e de muitas outras provavelmente foram e estão sendo autorizados em total desacordo com as normas de segurança da aviação em toda a América Latina.

Não foi acidente, foi homicídio

A diferença entre homicídio doloso e homicídio culposo é que no homicídio doloso o agente quer produzir o resultado do crime, ou assume a possibilidade de produzi-lo (o que se chama “dolo eventual”), enquanto no homicídio culposo o agente não quer produzir o resultado do crime, mas o produz por negligência, incompetência ou imperícia. Vou deixar ao pessoal da área do direito o debate técnico se o que aconteceu foi dolo eventual ou negligência, porém, deixando barato que seja apenas negligência, o fato é que foi homicídio.

Enquanto não pararmos de pensar “coitadinha da funcionária do aeroporto que autorizou o voo, como é que ela ia saber que uma coisa dessas podia acontecer?” ou “coitadinho do despachante da Lamia, ele só estava obedecendo o que mandaram ele fazer”, essas coisas vão continuar acontecendo. A função daquela funcionária era evitar as mortes que ocorreram. A função daquele despachante era certificar-se de que todos os aspectos legais pertinentes ao voo estavam corretos. Os dois precisam ir para a cadeia por homicídio. E provavelmente não somente eles.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/12/2016

Leia também: A Tragédia do Jeitinho.

Regras estúpidas derrubaram o avião

Não foi a falta de gasolina. Regras estúpidas derrubaram o avião que transportava o time da Chapecoense. 

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Leu? Pois bem: assim como regras estúpidas mataram o repórter da Band, regras estúpidas mataram o piloto, o time da Chapecoense e os repórteres que os acompanhavam. E não é difícil entender o motivo.

Imagine que você fez uma grande besteira. Por exemplo, resolveu voar somente com o combustível necessário para o trajeto, com pouquíssimo ou quase nenhum combustível de reserva. Você não tem a intenção de se ferrar, você não é suicida, você fez uma besteira. Não vou discutir se foi por ganância, por prepotência, por aperto financeiro, por estupidez, por erro de cálculo, por falha de protocolo ou por qualquer outra causa. Não importa o motivo, importa que a besteira está feita e que você acabou de perceber que está numa encrenca.

O que é a coisa mais razoável a fazer a partir do momento em que você percebe o problema?

A coisa mais razoável a fazer é resolver o problema com tranquilidade, pensar de maneira objetiva, sem conflitos de interesse e sem distrações, de modo que o problema possa ser resolvido da melhor maneira possível, certo?

Pois bem… O piloto do avião era o dono da companhia aérea. Ele sabia que, se declarasse emergência por não ter combustível suficiente, receberia uma multa imensa, que poderia inviabilizar financeiramente sua empresa. Ele tinha todo o interesse do mundo em aterrissar em segurança, mas as regras estúpidas que multam quem declara emergência por ter cometido uma besteira prévia cria um conflito de interesses importante. Se cair com o avião acabaria com a vida do piloto, como de fato acabou, ser multado em um valor alto também acabaria com a vida dele, ou ao menos ele se sentia assim a ponto de achar que valia a pena arriscar mais um minuto antes de declarar emergência.

Entenda isso: se não houvesse a multa, o piloto não teria hesitado. Não teria dúvidas quanto ao que seria mais adequado fazer, porque não teria conflito de interesse algum. Não teria decidido arriscar mais uns minutos de voo antes de declarar emergência. Não teria matado ninguém. Regra estúpidas matam.

A maneira certa de coibir o que aquelas regras estúpidas tentam coibir de modo inepto é outra. A maneira certa de coibir o voo com combustível insuficiente é vistoriar a quantidade de combustível de cada aeronave imediatamente após o pouso. Não interessa se tudo deu certo ou não. Não interessa se o piloto declarou emergência ou não. Só o que interessa é se as regras de segurança foram cumpridas. É assim que as coisas deveriam ser feitas.

E perceba: também não interessa a minha opinião, a sua ou de quem quer que seja a respeito do “absurdo” de voar com pouco combustível ou do “absurdo” de ter conflito de interesses nesta ou em outra situação. Valores morais não podem ter relevância para o estabelecimento de protocolos de segurança exatamente porque as pessoas possuem diferentes valores morais e portanto diferentes percepções de prioridades, como atesta o fato de ter havido uma tragédia por causa disso.

O fato incontestável é que o conflito de interesses gerado pelas regras estúpidas que multam quem declarar emergência por infração das normas de segurança levou o piloto a postergar uma decisão gravíssima por tempo suficiente para ocasionar a tragédia e que isso não teria ocorrido se não fizesse a menor diferença declarar emergência ou não para o fim de multar a empresa.

Se a regra fosse como eu digo que deveria ser, devendo ser feita uma vistoria imediatamente após o pouso para verificar se a aeronave cumpriu as normas de reserva de combustível, aquele piloto nem sequer teria arriscado voar com pouca gasolina, porque a multa seria certa mesmo que o avião aterrissasse em perfeita segurança.

Conhecer bem a biologia do cérebro da idade da pedra do macaco falante é fator crucial para regulamentar adequadamente seu comportamento.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 1º/12/2016