Regras estúpidas derrubaram o avião

Não foi a falta de gasolina. Regras estúpidas derrubaram o avião que transportava o time da Chapecoense. 

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Leu? Pois bem: assim como regras estúpidas mataram o repórter da Band, regras estúpidas mataram o piloto, o time da Chapecoense e os repórteres que os acompanhavam. E não é difícil entender o motivo.

Imagine que você fez uma grande besteira. Por exemplo, resolveu voar somente com o combustível necessário para o trajeto, com pouquíssimo ou quase nenhum combustível de reserva. Você não tem a intenção de se ferrar, você não é suicida, você fez uma besteira. Não vou discutir se foi por ganância, por prepotência, por aperto financeiro, por estupidez, por erro de cálculo, por falha de protocolo ou por qualquer outra causa. Não importa o motivo, importa que a besteira está feita e que você acabou de perceber que está numa encrenca.

O que é a coisa mais razoável a fazer a partir do momento em que você percebe o problema?

A coisa mais razoável a fazer é resolver o problema com tranquilidade, pensar de maneira objetiva, sem conflitos de interesse e sem distrações, de modo que o problema possa ser resolvido da melhor maneira possível, certo?

Pois bem… O piloto do avião era o dono da companhia aérea. Ele sabia que, se declarasse emergência por não ter combustível suficiente, receberia uma multa imensa, que poderia inviabilizar financeiramente sua empresa. Ele tinha todo o interesse do mundo em aterrissar em segurança, mas as regras estúpidas que multam quem declara emergência por ter cometido uma besteira prévia cria um conflito de interesses importante. Se cair com o avião acabaria com a vida do piloto, como de fato acabou, ser multado em um valor alto também acabaria com a vida dele, ou ao menos ele se sentia assim a ponto de achar que valia a pena arriscar mais um minuto antes de declarar emergência.

Entenda isso: se não houvesse a multa, o piloto não teria hesitado. Não teria dúvidas quanto ao que seria mais adequado fazer, porque não teria conflito de interesse algum. Não teria decidido arriscar mais uns minutos de voo antes de declarar emergência. Não teria matado ninguém. Regra estúpidas matam.

A maneira certa de coibir o que aquelas regras estúpidas tentam coibir de modo inepto é outra. A maneira certa de coibir o voo com combustível insuficiente é vistoriar a quantidade de combustível de cada aeronave imediatamente após o pouso. Não interessa se tudo deu certo ou não. Não interessa se o piloto declarou emergência ou não. Só o que interessa é se as regras de segurança foram cumpridas. É assim que as coisas deveriam ser feitas.

E perceba: também não interessa a minha opinião, a sua ou de quem quer que seja a respeito do “absurdo” de voar com pouco combustível ou do “absurdo” de ter conflito de interesses nesta ou em outra situação. Valores morais não podem ter relevância para o estabelecimento de protocolos de segurança exatamente porque as pessoas possuem diferentes valores morais e portanto diferentes percepções de prioridades, como atesta o fato de ter havido uma tragédia por causa disso.

O fato incontestável é que o conflito de interesses gerado pelas regras estúpidas que multam quem declarar emergência por infração das normas de segurança levou o piloto a postergar uma decisão gravíssima por tempo suficiente para ocasionar a tragédia e que isso não teria ocorrido se não fizesse a menor diferença declarar emergência ou não para o fim de multar a empresa.

Se a regra fosse como eu digo que deveria ser, devendo ser feita uma vistoria imediatamente após o pouso para verificar se a aeronave cumpriu as normas de reserva de combustível, aquele piloto nem sequer teria arriscado voar com pouca gasolina, porque a multa seria certa mesmo que o avião aterrissasse em perfeita segurança.

Conhecer bem a biologia do cérebro da idade da pedra do macaco falante é fator crucial para regulamentar adequadamente seu comportamento.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 1º/12/2016

8 thoughts on “Regras estúpidas derrubaram o avião

  1. A tragédia do voo da Chapecoense tem mais um ingrediente além de regras estúpidas: o velho jeitinho. A sucessão de ações que acabaram por resultar na queda do avião e na morte daquelas pessoas, bem como alguns fatos da aviação relacionados ao assunto são bem explicados neste post: http://mundoraiam.com/a-tragedia-do-jeitinho/

    1. Muito esclarecedor. Esse piloto foi extremamente irresponsável, não tem justificativa.

  2. Escutei que já existe essa regra, mas ela foi violada na decolagem. O post acima do Gabriel detalha isso bem.

  3. Na verdade, foi o ato de não respeitar a regra de volume mínimo para a distância de voo (o que faria ser necessário um reabastecimento no meio do caminho) que causou o acidente.

    A irresponsabilidade e a ganância do piloto-dono causou a morte de 70 inocentes e a dele.

    E o pior: não foi a primeira vez que ele desrespeitou a regra.

  4. BRUNO FERREIRA PORTO

    06/12/2016 — 09:32

    “Vistoriar a quantidade de combustível de cada aeronave imediatamente após o pouso. ” é inviável na prática.

    Mas concordo que a multa por declarar é estúpida.
    ps. tentei criar um avatar mas nunca recebo o e-mail de criação da conta…

    1. Não vejo como isso possa ser inviável, Bruno. Qualquer carro vagabundo produzido antes de qualquer um de nós ter nascido tem um mostrador no painel que indica a quantidade de combustível. Qual seria a dificuldade de fazer essa conferência visualmente?

      Sendo um pouquinho mais moderno, qual seria a dificuldade de a própria aeronave passar por rádio para o computador do aeroporto a lista completa de uma série de parâmetros de voo e de segurança ao aterrissar? (Com vistorias in loco por amostragem.)

    2. BRUNO FERREIRA PORTO

      09/12/2016 — 09:22

      Cada carro vagabundo produzido antes de nós termos nascido também não mostra a quantidade correta de combustível. É bem aproximado.

      Por outro lado o combustível que sobra JÁ DEVE SER CONHECIDO ANTES DE DECOLAR.

      Essa informação vai no plano de voo.

      Mas… se faz questão da sim pro pilot pousar, estacionar a aeronave em atitude padrão e avaliar visualmente a quantidade de combustível que sobrou. Mas pra que diabos fazer isso?

      Mandar eletronicamente como norma é tão viável quanto exigir a instalação de airbag e abs em todos os carros já em circulação. Vai tentar por airbag num fusca. Alguns aviões já tem capacidade pra isso. E registros de dados do motor já são usados.

    3. Bruno, tem que verificar na chegada pelo simples fato de que acontecem coisas como este piloto maluco fez e matou a si mesmo, toda equipe da Chapecoense e diversos membros da imprensa. O cara já havia feito isso pelo menos seis vezes em dois meses. Uma hora a casa cai – ou o avião.

      Quanto a fazer isso eletronicamente, pode muito bem ser implantado aos poucos. As aeronaves novas informariam estes dados automaticamente, reduzindo o tempo de checagem, e as antigas seriam vistoriadas visualmente enquanto existissem. Em poucas décadas todas informarão eletronicamente.

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