Dizer que o desprezo é melhor que o perdão só é chocante para quem nunca parou bem para pensar no quanto pode nos ferir a insistência de que devemos perdoar quem despreza tanto nosso bem estar que um dia cometeu uma grande injustiça contra nós. Na verdade, o desprezo pode ser uma arma muito mais eficaz que o perdão para recolocar nossa autoestima no eixo e nossa vida nos trilhos. 

Eu, você, todo mundo já passou por alguma injustiça. Algo que nos fez ter alguma emoção ruim, seja de humilhação, de revolta, de raiva, de impotência, enfim, algo que sentimos como injusto sempre nos fere emocionalmente de alguma forma. A emoção inicial é inevitável, mas como lidar com a experiência varia muito de pessoa para pessoa.

A maioria continua remoendo a injustiça e as emoções ruins trazidas pelo episódio durante muito tempo – e assim acabam sendo vítimas duas vezes da mesma injustiça: a primeira pela injustiça em si, a segunda pelo poder que conferem ao episódio para continuar tomando tempo e causando estrago em sua vida. Mas não precisa ser assim.

Eu estava lendo um livro de autoajuda muito interessante até que me deparei com uma história que me fez torcer o nariz. Um policial abordou uma gangue de jovens assaltantes e recebeu um tiro no pescoço que o deixou paraplégico. O livro narra então que este policial perdoou seu algoz, que o bandidinho que lhe deu o tiro telefonou para ele da cadeia e que o policial o convidou para saírem juntos pelo país espalhando uma mensagem de perdão e esperança. A palhaçada só não teria acontecido porque o candidatozinho a anjo morreu atropelado três dias depois de sair da cadeia, mas hoje o tal policial é um palestrante muito requisitado para contar para todo mundo como é lindo perdoar.

Eu desprezo este tipo de história. Isso só serve para fazer 99,9% das pessoas se sentirem péssimas por não serem tão angelicais e capazes de perdoar como o incrível palestrante – que cobra uma bela grana por palestra e ganha apupos e bons afagos no ego por ser “tão bom”. Para mim isso é apenas uma maneira esperta porém hipócrita de lidar com uma tragédia pessoal. Quem não ganhar dinheiro e admiração por ser “tão bom” certamente não terá o mesmo incentivo e muito menos a mesma força para manter essa postura e se sentirá ainda mais arrasado, provavelmente se culpando por não ser “tão bom” quanto o tal policial.

Para o mortal comum, como eu e você, o desprezo funciona muito melhor. Eu não tenho vergonha alguma de admitir isso, e você também não deveria ter. Canalhas e malfeitores que não se arrependem – e em “arrepender-se” está necessariamente incluída a completa e total reparação do mal causado e a promoção de um benefício extra a título de pedido de desculpas – não merecem perdão, merecem punição. E, quando não podemos puni-los, ou quando não estamos satisfeitos com a punição que legalmente podemos infligir a eles, o melhor a fazer para o bem de nossa saúde e paz de espírito é desprezar estes desgraçados. O desprezo, se não dói no algoz, pelo menos alivia a vítima.

O erro que você não pode cometer é confundir desprezo com acinte. Se você precisa esfregar na cara da pessoa desprezada que você a despreza, então você não a despreza. Se você precisa contar ao mundo que despreza alguém, então você não despreza este alguém. Quando você despreza alguém, você não se importa se ele ou ela sabe disso ou não. Você não se importa se alguém mais sabe disso ou não. Você simplesmente tem um instante de nojo quando lembra daquela pessoa e logo em seguida decide que ela não vale nem sequer o tempo que você gastaria para ficar lembrando dela. Você não a esquece, você deixa de pensar nela porque há coisas mais importantes e mais interessantes na sua vida com que gastar seu tempo – recolher cocô de gato do quintal, por exemplo.

Se você achou graça em pensar que recolher cocô de gato do quintal possa ser mais importante que lembrar de uma certa pessoa, eu lhe proponho um exercício. Pense em alguma tarefa real que você tenha que fazer de vez em quando e que seja tão interessante e divertida quanto recolher cocô de gato do quintal. Pensou? Pois bem: toda vez que você se lembrar de alguém que deveria desprezar, porque lhe fez algum mal, porque cometeu alguma injustiça contra você ou porque é um encosto na sua vida, lembre que catar cocô de gato no quintal é mais importante que essa pessoa, dê uma risada e vá realizar a tal tarefa em que você pensou com um sorriso no rosto, sabendo que isso é mais interessante do que pensar naquele traste. Então concentre-se na tarefa e tire o traste de sua mente. Este é um ótimo exercício de desprezo.

Eu não sou e você não precisa ser – nem tentar ser – um anjo de pensamentos puros, capaz de perdoar a todos sem olhar a quem. Isso é balela alienante e irreal que só serve para nos fazer sentir mal, porque não é o natural de nossa espécie sentir assim. Você não deve tentar contrariar sua natureza. Por dois motivos: primeiro, porque você não pode; segundo, porque só vai se frustrar e se sentir pior. Portanto, não tente perdoar quem você não quer perdoar. Prefira sentir desprezo. Sempre que se lembrar da existência de algum desgraçado, algum malfeitor, algum encosto, não dê a ele o poder de ocupar seus pensamentos e de perturbar suas emoções. Lembre de compará-lo em importância com cocô de gato e cultive o mais tranquilo e debochado desprezo pelo traste em questão.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 12/12/2016 

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2 thoughts on “Quando o desprezo é melhor que o perdão

  1. Eduardo Silva

    15/12/2016 — 12:45

    ranço cristão. agora travestido de politicamente correto. nada de novo.

  2. concordo com o texto, se alguém acredita que se sente melhor perdoando a quem fez coisas terríveis contra ele e os seus, paciência, é um direito dele, mas o mais provável é que com esse comportamento ele esteja promovendo a impunidade e estimulando que sejam cometidas novas injustiças.

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