A estupidez alheia é deletéria aos indivíduos razoáveis. A gente (blogueiros, jornalistas, colunistas) detecta uma questão interessante sobre a qual falar, analisa a questão por diversos ângulos, se posiciona, defende uma posição com argumentos lógicos… E aí vem um quadrúpede e deixa pelo texto aquilo que os quadrúpedes costumam deixar pelo chão.

O Túlio Milman, repórter de Zero Hora, escreveu um artigo sóbrio, politicamente correto e com um enorme aviso sobre o que estava e o que não estava dizendo ao pé do texto, bem no estilo “atenção, retardados, não falem besteira” – só que bem educadinho. Mas não adianta. Nunca adianta.

O artigo do Túlio Milman é este:

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo no futuro próximo. Não precisa ser guru de marketing para ter certeza. É só olhar o que acontece, entre nuvens de fumaça, nos Estados Unidos.

A liberação do chamado consumo recreativo em uma dezena de Estados é um exemplo de como um tecido econômico saudável se forma. Como a droga ainda é proibida pela lei federal, toda a produção é local. Não há espaço para monopólios e cartéis. Há hoje centenas de pequenos plantadores, pesquisadores e vendedores. Mas, se alguém cruzar a divisa do seu Estado com a planta, corre o risco de ser preso. Isso acaba estimulando o crescimento de uma base plural e democrática.

É lindo ver essa capilaridade, essa inteligência de mercado. Não sejamos ingênuos. As gigantes farmacêuticas e de alimentos estão de olho nesses bilhões de dólares. Só que é mais barato e rápido esperar que as startups da Cannabis nasçam e se engalfinhem na disputa pela sobrevivência. As que crescerem, mais cedo ou mais tarde, serão compradas pelas grandes. É mais barato do que investir diretamente no desenvolvimento de novos produtos. É só assinar o cheque. Com menos riscos e menos custos.

Enquanto isso, sem concentração ou regras viciadas que favoreçam os mais fortes, a economia colhe benefícios.
Além da planta, há acessórios, xampus, cremes, remédios, alimentos, sucos. Marley Natural é a primeira marca global desse mercado. Confira: www.marleynatural.com.

Maconha é uma droga que pode viciar. É proibida no Brasil e em nenhum momento meu texto pretendeu estimular o consumo ou a compra de qualquer produto vinculado a ela. Quero apenas mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade. Seja na maconha ou na construção de obras públicas. Monopólios e cartéis, isso sim é uma droga.

Aí vem um quadrúpede logo abaixo e deixa esta resposta:

Essa conversa me lembra aquela frase: “antigamente era feio dar o C e era bonito fumar, hoje é feio fumar e bonito dar o C” (sqn).. Uma campanha mundial e permanente contra o tabagismo e na contramão do interesse de saúde pública essa discussão com a maconha.. Porr.. Quer fumar esta droga fuma carvalho, como eu mesmo já fiz quando era um guri idiota.. Mas não peçam que os outros achem isso bom ou normal.. Ou os retardados acham que os traficantes vão virar padres porque perderão o “emprego”?? Óbvio que não, vão continuar com os mesmos clientes, vendendo outras drogas, ou migrando de crime.. Vai burro, noiado esquizofrênico, assassino de neurônios, fuma tua maconha escondido e não enche o saco..

E outro quadrúpede acrescenta isso:

A de cocaína então… seremos primeiro mundo.

A estupidez destas criaturas é tão grande que não entendo como conseguiram fugir da carrocinha. 

O assunto do artigo do Túlio nem de longe é a maconha. O próprio Túlio diz que considera a maconha uma droga ilegal que pode viciar (vou deixar essa controvérsia de lado neste artigo) e afirma explicitamente que não pretende estimular o consumo de nenhum produto relacionado à maconha e que que seu artigo só pretende “mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade”. Está lá, literalmente como citado, muito bem ressalvado e esclarecido. Mas não adianta. A estupidez dos quadrúpedes é feita de um material adamantino à prova de alertas, ressalvas e esclarecimentos.

O quadrúpede lê uma palavra que serve como gatilho para sua estupidez assumir o controle e sai despejando besteira como se tivesse lido outro texto, que só existe na cabeça alucinada dele. E fala como se tivesse grande entendimento sobre o que leu e grande conhecimento sobre o tema, quando obviamente não é o caso nem de uma, nem de outra. E outros quadrúpedes ecoam a estupidez do primeiro, ou acrescentam as suas próprias, até que o debate se perde coice abaixo. Irrecuperavelmente.

Céus, como a estupidez me cansa.

A estupidez me cansa tanto que eu já tentei todo tipo de estratégia possível para lidar com ela: desde explicar as coisas várias vezes, com toda a paciência, uma vez por um ângulo, outra vez por outro ângulo, tentando fazer o quadrúpede entender que pantufa não é ferradura, até simplesmente escoicear de volta, de saco cheio, passando por todo o espectro possível e imaginável entre uma coisa e outra. Nunca adiantou.

Chegou um momento em que eu tive que desenvolver uma estratégia que eu sempre abominei: eu tive que parar de me importar com a estupidez. O problema é que isso requer perder o respeito pelo estúpido, uma coisa que eu, como defensor aguerrido dos Direitos Humanos, nunca consegui tolerar, muito menos aceitar, muitíssimo menos praticar. Porém, após esgotar todas as alternativas, eu finalmente me rendi à necessidade, em nome de minha própria sanidade mental, e parei de me importar no mais alto grau que estava a meu alcance.

De modo não muito eficaz, diga-se. Porque, apesar de todos os esforços, e embora muito menos do que num passado recente, a estupidez ainda me cansa.

Como diria o Hardy: “Oh, céus! Oh, vida!” 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/01/2017

4 thoughts on “A estupidez é cansativa

  1. Eu acho que algumas palavras mais “polêmicas”, como “maconha”, “religião”, “terrorismo”, “estupro”, “pedofilia”, entre outras, são como se fossem “palavras desligadoras de cérebros”. As pessoas leem ou escutam uma destas palavras e é como se elas desligassem o senso crítico e a sobriedade e ligassem o “modo repetidor de clichês alienantes”. Difícil viu…

    1. Sim, faz tempo que eu digo isso.

      Faz um experimento: no meio de uma discussão política qualquer, grita “BOLSOMITO!” ou “LULA DE VOLTA!” e observa as reações…

  2. Achei a imagem injusta. Em toda espécie há os estúpidos (a maioria) e os inteligentes. E você sabe disto:
    https://www.facebook.com/Arthur.Golgo.Lucas/posts/1349164381772593
    Vou denunciar sua conduta discriminatória e especiista à AMAMUAR!

    1. Fui até procurar para ver se existia…

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