Um belo dia você precisa preparar um curso em seu trabalho. Digamos que com uma carga horária de vinte horas, um turno por semana, avaliação no último dia. E agora? Por onde começar? O que incluir? Que recursos audiovisuais utilizar? Como avaliar?

Se você fizer como quase todo mundo faz, eu sei o que vai acontecer. Você vai começar do que acha que é o começo, escolhendo sobre o que vai falar, vai procurar alguns recursos audiovisuais para ter o que mostrar e ao final vai ficar em dúvida sobre o que exatamente avaliar, limitando-se a fazer algumas perguntas simples para evitar um mar de baixas avaliações, ou vai acabar exigindo a mera memorização de algumas informações específicas. E o resultado disso é que você vai preparar um curso bem fraquinho, com muito pouca utilidade, como quase sempre acontece.

Eu já vi isso acontecer muitas vezes. Já vi um profissional preparar um curso de aperfeiçoamento que mal continha o básico de sua atividade, já vi um professor preparar um curso sobre didática em que ninguém aprendeu nenhuma técnica ou desenvolveu qualquer habilidade nova, vi um aluno de pós-graduação preparar um curso de qualificação cheio de erros grosseiros, vi um departamento inteiro de um órgão público preparar um curso que se tornou uma grande colcha de retalhos sem nenhuma ligação entre si, vi um técnico em uma área muito específica do conhecimento preparar um curso cheio de lacunas em sua própria área de especialização, entre outros. Em comum, todos eles tiveram pouca utilidade prática.

Pois bem… Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar, porque a minha dica é tão simples e fácil de memorizar quanto poderosa para auxiliar tanto na seleção dos conteúdos quanto na organização de suas apresentações.

Eis a dica: a primeira coisa que você tem que preparar é a prova final. Ponto.

Quando você prepara um curso começando pela prova final, tudo fica muito claro. Ao começar pela prova final, a primeira coisa que você tem que decidir é quais são os conhecimentos que os seus alunos terão que mostrar que aprenderam e quais são as habilidades que eles terão que demonstrar que desenvolveram. Tendo em mente o que seus alunos precisarão saber ao final, sua seleção de conteúdos se tornará muito mais objetiva e sua seleção de recursos tenderá a ser muito mais dirigida. Tendo a prova final em mente, você terá um critério muito claro para dar ênfase no que é mais importante e terá uma tendência muito menor de usar os recursos audiovisuais como confete e purpurina.

Não repita aquela bobagem de quem diz que “prova não avalia”. Provas são um excelente método de avaliação. Na maioria absoluta dos casos, quem acha que prova não avalia é justamente quem não sabe preparar uma prova. E não sabe preparar uma prova porque só pensa em fazer isso depois de já terem dado um curso inteiro sem objetivo, sem método e sem consistência. É um erro comum, mas é fácil de ser corrigido – especialmente agora que você já sabe o que deve ser feito.

Você não vai preparar uma prova para avaliar o curso que você preparou, você vai preparar um curso para capacitar seus alunos a corresponder às exigências que você estabeleceu na prova. Você terá um roteiro de desenvolvimento. Você terá um mapa para corrigir sua rota on the fly. Você terá um padrão ouro para checar a qualidade do que está fazendo. E você terá, no resultado geral dos seus alunos, uma avaliação da sua capacidade de preparar um curso adequadamente para transmitir determinados conhecimentos e desenvolver determinadas habilidades. Um bônus inestimável.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 06/01/2017

2 thoughts on “Uma dica para quem precisa preparar um curso

  1. Vc não deve iniciar pela prova final. Vc deve iniciar pelo objetivo. O objetivo é definido com um palavra do tipo “Ao fim do curso o aluno deve saber” e vc deve definir de formar certa com parâmetros certos: “Ao fim do curso o aluno deveria saber usar um mapa de tipo X para determinar o caminho para ir de um ponto ate um outro ponto, em menos de 40 segundos”. Depois de definir o objetivo “geral” vc deve cortar este objetivo em “pedaço” (objetivo intermediário) e depois em sequencia.
    A “prova” não pode ser feita no final, mas deve ser feita ao fim de cada sequencia. Porque? Por que se vc tem 15 pedaços no curso, significa que o aluno que não vai entender o 1, vai acumular problema quando vc vai tentar explicar o 2, depois o 3 etc… Então quando ele vai chegar na prova final, vai ser um fracasso mas seria “tarde demais”. Se cada sequencia tem uma “mini-prova”, vc vai poder verificar o entendimento, antes de dar a segunda sequencia etc…
    Mas tudo isso é complexo. Uma dos melhores sistema de ensino para adulto é o TWI (veja aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Training_Within_Industry). Os documentos históricos sobre o TWI são muito interessante. Nos usamos TWI para dar aula de combate incêndio, primeiro socorro etc… e nos damos também curso de pedagogia usando TWI (tudo é gratuito). Faz quase 20 anos que eu uso isso e realmente o resultado é muito bom. Vc pode entrar em contato em MP para ter mas infos.
    Abraço

    1. Pierre, eu conheço a cabeça do brasileiro…

      Dizer para o brasileiro que ele tem que “definir os objetivos” resulta na seguinte resposta: “ué, ele tem que aprender a matéria!”

      Vai por mim, começar pela prova final é o melhor meio de fazer o brasileiro definir objetivos.

      Quanto a fazer avaliações intermediárias, sim, é uma boa idéia, desde que isso seja usado de fato para fazer uma revisão de conteúdo se houver necessidade. Em toda a minha vida acadêmica, toda, da alfabetização até o mestrado, eu nunca vi um professor fazer isso. Nem um único. E os motivos são simples: dá trabalho, é necessário um planejamento complexo, não há tempo para isso e o professor não está nem aí.

      Quanto ao TWI, vou ler e me informar com cuidado a respeito. Valeu pela dica! 🙂

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