Foram sete anos e meio de blog, com uma parada de sete meses no primeiro semestre do ano passado, porque eu teria um infarto ou um derrame se blogasse durante o impeachment, mas a verdade é que desde o artigo “O Brasil é um pântano” o blog estava agonizando. Todas as tentativas de reanimar o blog de lá para cá perderam o fôlego rapidamente. Eu simplesmente não estava mais no pique. É hora de passar a régua, fazer um balanço e me lançar em outros projetos.

Eu não decidi matar o blog, mas também não devo alimentá-lo com muita frequência por um tempo. Eu fiz amizades maravilhosas através do blog e não pretendo destruir estas lembranças nem me desfazer deste espaço, o Pensar Não Dói vai continuar no ar e eventualmente eu vou publicar algum artigo, mas eu estou mudando muito minha cabeça e o blog vai acompanhar esta mudança – que eu ainda não sei bem para que lado será. O que eu sei é que como está não pode ficar.

Eu perguntei em duas redes sociais – Twitter e Facebook – se as pessoas salvariam uma criança de um estupro se pudessem ou se deixariam a criança ser estuprada alegando que o estuprador tem livre arbítrio. Várias pessoas respondem e se estabelece uma discussão sobre moralidade. Aí alguém se dá conta de que a pergunta é absurda e pergunta qual é o coelho na cartola. Então eu explico que todo mundo que respondeu sabe que um estupro de criança é um imenso absurdo e que é uma imoralidade permitir que isso aconteça, mas que quando se questiona a moralidade deste suposto Deus Todo Poderoso e Todo Bondade ninguém admite que ou o suposto Deus não é poderoso ou não é nem bom nem decente, porque supostamente ele pode evitar o estupro de crianças mas evidentemente não o faz. E o que acontece? Começam a falar em respeito às crenças, em fé, em sei lá mais o quê, mas não são capazes de entender ou de admitir que o que tinham acabado de reconhecer implica necessariamente que este suposto Deus não é como eles dizem que é. O macaco falante simplesmente não tem a menor lógica, a menor coerência, o menor compromisso com a verdade, nem mesmo entende o assunto ou enfrenta diretamente o problema que se apresenta.

No Facebook eu fui expulso dos três maiores grupos de discussão sobre diabetes porque comecei a divulgar o que diz a melhor ciência do mundo a respeito da fisiologia envolvida – e o que essa ciência diz é que as atuais orientações sobre diabetes estão completamente erradas, como aliás todas as orientações nutricionais tradicionais que você conhece. Pouca gente pode entender o quanto aquilo me fez mal, o desespero que eu senti por ter meu acesso às pessoas que poderiam se beneficiar do meu conhecimento bloqueado por um imbecil sem nenhum conhecimento científico nem qualquer disposição para se alfabetizar em ciência, nutrição e fisiologia. Teve uma cretina dez ou quinze anos mais jovem que eu que postou uma foto mordendo um chocolate antes de me expulsar. Eu sei que ela será enterrada antes de mim, mas isso não é um consolo, é a própria razão do meu sofrimento, porque eu sei como evitar isso e não consigo fazer a própria beneficiária entender isso, aquela besta irracional.

No trabalho eu estou vendo claramente que as epidemias de zika, dengue e chikungunya estão avançando sobre o país, disseminadas pelo mosquito Aedes aegypti. Existia um programa chamado PNCD (Programa Nacional de Controle da Dengue) que foi substituído pelo PNEM (Programa Nacional de Enfrentamento à Microcefalia) por causa do surto de microcefalia que acometeu o Brasil. O PEVCA (Programa Estadual de Vigilância e Controle do Aedes) reflete as orientações destes programas e orienta e supervisiona os municípios para implantarem as diretrizes do programa. O problema é que o método não funciona, a população não está nem aí, não colabora e não adianta questionar isso com os gestores e os técnicos, mostrar as falhas, apresentar sugestões técnicas, escrever para meio mundo, queimar meu filme totalmente em tudo quanto é reunião… Nada muda. Essa adesão acrítica às orientações do Ministério da Saúde está me deixando doente. Eu tenho pesadelos com gente morrendo sangrando por todos os poros e com crianças com microcefalia, sei o que precisa ser feito para conter estas epidemias e não tenho poder para isso nem encontro eco nos interlocutores que têm ou deveriam ter.

Eu poderia citar mais alguns exemplos, como ter sido bloqueado num destes aplicativos de relacionamentos por uma garota cuja aparência eu elogiei, que não tinha nenhum texto no perfil, somente fotos, e que teve uma crise de estupidez dizendo que está cansada de ser julgada apenas pela aparência. Não me entendam mal, eu não me senti rejeitado, eu ri demais da estupidez dela, mas no contexto em que estou escrevendo espero que fique claro que isso foi mais uma mostra do quanto tem sido difícil e desagradável lidar com o macaco falante. Eu preciso proteger minha saúde física e mental.

Então, no último dia 08/01/2017, eu baixei os dois livros que citei no artigo anterior. Não me lembro como foi que eu tropecei de novo no assunto Bolsa de Valores, sobre o qual eu já havia me interessado em 2015 e que não pude estudar em 2016 porque precisava me dedicar a estudar outras coisas devido a uma mudança radical na minha atividade profissional. Comecei a ler artigos de revistas e de portais de investimento, a assistir aulas, palestras e depoimentos no YouTube, até que me decidi: vou me dedicar a isso, por dois bons motivos.

O primeiro é que eu não estou suficientemente recuperado e forte para me dedicar a uma segunda atividade profissional. Eu não somente não tenho nem idéia do que eu poderia tentar fazer neste momento de crise econômica, mas eu teria que abrir uma empresa, enfrentar uma burocracia enorme, lidar com fiscais, alugar um local, contratar gente, adquirir equipamentos, fazer propaganda, trabalhar um turno extra inteiro e correr todos os riscos de um empreendimento novo em época de crise, sendo que eu não poderia estar presente durante um turno inteiro para colocar a empresa nos trilhos do jeito que eu quero. Isso seria muito pesado para mim neste momento e eu não posso arriscar ter um colapso de saúde no meio do processo.

O segundo é que eu não preciso depender de nenhum macaco falante para me dedicar a investir na Bolsa de Valores. Eu não preciso explicar nada para ninguém. Eu não preciso pedir nada para ninguém. Eu não preciso ouvir a opinião de ninguém. Eu não preciso justificar decisão nenhuma para ninguém. Eu não preciso contar com a colaboração de ninguém. Eu não preciso me estressar com o macaco falante. Posso fazer tudo sozinho e ninguém precisa ficar sabendo se eu estou indo bem ou me ferrando, se ganhei dinheiro ou se perdi dinheiro, se escolhi um investimento certo ou se dei uma mancada enorme, se os critérios que usei foram razoáveis ou se foram uma aposta alucinada. Nada. Nenhuma aporrinhação. Depende só de mim.

A necessidade, a oportunidade e o alívio conspiraram na mesma direção. E eu vou dar uma guinada na minha vida.

Meu primeiro artigo de 2017 havia sido sobre radicalizar princípios e ações. Estou cumprindo.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/01/2017

9 thoughts on “Passando a régua

  1. Mas não deixe de postar sobre os resultados obtidos na bolsa, isso pode até render mais acessos ao blog.
    Que tipo de empresa estaria pensando em abrir?

    1. Não estou pensando em abrir empresa, estou estudando a Bolsa de Valores, pensando em investir.

    2. Entendi Arthur, o bacana é que outras mídias estão fazendo sucesso, como vídeos (youtube) e tem outra forma que é muito apreciada que são os podcasts, já ouvir falar na familia b9?

  2. Por um lado, eu entendo o seu desgaste- ou ao menos, tento entender. Por outro, fico triste por causa do possível abandono do blog. Eu gosto muito de ler os artigos que são aqui postados, embora nem sempre consiga pensar em algo inteligente para comentar.

    Mas enfim, espero que você tome a melhor decisão possível.

    1. Devo postar mais raramente e com maior profundidade quando postar.

  3. Acompanho o seu blog de uns 6 meses pra cá. Já na primeira vez que li algumas postagens escritas por vc, percebi sua inteligência e raciocínio apurado. Não que eu concorde sempre com cada palavra, mas de modo geral, sim.
    Espero que vc mude de ideia e continue postando. O mundo precisa de mais pessoas como vc: críticas, debatedoras, argumentativas.
    Só mantenha a calma, não perca a saúde por causa de centenas ou milhares de indivíduos tacanhos. Não é tão fácil modificar e evoluir os outros.

    1. “Não é fácil”? É praticamente impossível, Paulo. A maior parte das pessoas lê duas ou três palavras-chave e já sai respondendo o que acha que o autor escreveu. Eu já escrevi textos em que não defendia idéia alguma, só dava uma informação técnica sobre um artigo científico sobre a maconha, querendo debater a tal informação técnica, e *nenhum* de mais de cinquenta comentários foi sobre o assunto em pauta. A maioria foi no estilo “se legalizar a maconha, todo mundo vai se chapar e a economia vai parar e vai ser o fim do mundo”. Pô.

      Minha caixa de comentários sempre foi protegida contra baixaria. Dá para conversar sem medo de ser acuado por um mal educado. Mas o número de comentários não pára de cair, está no mais baixo patamar histórico. Simplesmente não está havendo interesse – e eu não estou disposto a traçar um plano para recuperação de volume de acessos, não é este meu objetivo.

      Agradeço os elogios. Não devo sumir, mas devo postar menos em função do tempo que passei a dedicar a estudar.

  4. Arthur, acompanho o seu blog já faz alguns meses. Conheci ele na época que eu estava estudando sobre movimentos sociais. A principio eu não era contra esses movimentos, embora eu tivesse um pé atrás com a maioria deles. Até que eu comecei a ter contato direto com ativistas, tanto pessoalmente quanto virtualmente e percebi que essas pessoas não lutavam realmente por igualdade.

    Sinceramente, os seus tópicos e os debates que ocorreram sobre movimentos sociais aqui, foram os melhores que eu já tive o prazer de ler. Sempre quando alguém tem dúvidas sobre feminismo eu recomendo algum artigo seu. Aliás, gosto muito dos seus artigos sobre nutrição também!

    Ah, em relação aos comentários, eu não comento muito porque, honestamente, não tenho muito a acrescentar.

    Enfim, bons estudos!

  5. Oi Arthur, fazia tempo que não vinha aqui, que bom que vc continua escrevendo otimos textos. Sobre a pergunta de salvar a crianca ou não, achei muito interessante. Nunca havia pensado a respeito. Bom, vou te falar o que penso: eu acho que fé é um alicerce sobre o qual as pessoas constroem suas vidas. Não tem a ver com lógica mesmo. Eu mesmo já mudei de crença algumas vezes simplesmente porque me atrevi a questionar, e as respostas me levaram a perceber que o que eu achava que acreditava era ilógico. Penso assim, como vc é altamente racional e questionador vc nao pegou para si nenhum sistema de crenças porque isso iria contra o que vc é. Algumas “macacos falantes” precisam disso, e ficam irritados quando você propoem um questionamento racional porque a vida deles, seus costumes, sua etiqueta, está alicerçado no código de conduta da fé. Exemplo: se vc é adventista, nao trabalha aos sabados, nao come carne de animais que não ruminam, peixe só se tiver escamas etc, o foco é: seja saudável pq seu corpo é o tempo de Deus. Toda a vida de um adventista gira ao redor dessa crença, dai vc chega e fala “o mundo não foi criado em sete dias, portanto Deus não pode ter descansado no sétimo” , o cara não vai querer questionar isso pra ele mesmo porque ele sabe que se ele se convencer disso o custo que ele vai ter pra mudar será muito maior do que o custo de manter a fé que ele professa. E eu poderia citar mil exemplos de outros credos aqui, e sempre cai nisso, o custo de mudar é maior do que o de manter. Bom é isso o que eu penso, Grande abraço e obrigado pela lucidez dos seus textos, Robson/SJCampos

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