Da estupidez ao mau caráter

Assim que escrevi o artigo de ontem sobre a estupidez, eu descobri esta treta aqui, que também ilustra muito bem o que eu disse naquele texto, mas que é muito melhor compreendido se atentarmos para o mau caráter de muitos comentaristas.

O guri da foto fez uma piadinha idiota: colocou na tela do computador a imagem de uma criancinha negra com cara de coitadinha estendendo a mão para pegar algo, tirou uma selfie bebendo um copo de água gelada e postou a foto com a legenda “sai fora, essa é minha”. Uma banalidade, merecia quando muito um “afff… :-P” e mais nada.

Pois bem… Até o presente momento são novecentos e noventa compartilhamentos e cinco mil, duzentos e tantos comentários xingando e ameaçando e aquela hipocrisia toda de quem nunca deu a menor bola para crianças necessitadas e nunca fez porcaria nenhuma para ajudar alguém de fato.

Peraí… Quem comete ofensas e ameaças por causa de uma piadinha não está fazendo algo muito pior do que a suposta ofenso original contida na piadinha? Isso não parece “ligeiramente” mau caráter, não? 

Como isso pode ser deletado a qualquer momento, resolvi copiar uma pequena amostra dos já mais de cinco mil e duzentos comentários.

Os comentários mais frequentes, obviamente, eram ofensas e desejos de maldades:

Idiota!! Um dia Deus vai te mostra o verdadeiro caminho e vai parar de querer aparecer para os outros e receber muitas curtidas!!! Hoje você é um verme!!!.

Essa merda ai tem mãe ???pq se tiver quem merece o xingamento é ela por nao educar esse mlk 😬😬

Queria saber até que ponto chega a ignorância e a imbecilidade de uma pessoa retardada assim!

Nojento seboso

IDIOTA, como todos q compartilharam e curtiram… morram de sede seus vermes filhinhos de papai!

Não podia faltar, é claro, o mau caráter de quem quer calar o que não quer ouvir:

gente, é tao fácil resolver isso, é so denunciar a página, quanto mais denúncias mais rápido ela é excluída, então vamos la derrubar essa página!!!

E não podiam faltar, obviamente, as ameaças:

Brincadeira idiota bunda mole arranca tua cabeça isso sim idiota quero vê se fosse tu la

Filhu da puta merece levar um quebra na rua verme imundo ah se eu foase de tua cidade eu ia tira uma foto tu chorando pedindo perdao mizeravel desprezivel

Felizmente, para não perdermos totalmente a fé na humanidade, havia também alguns comentários de bom senso:

Isso mesmo cambada de cretinos, CHOREEMM MAIS! Pior que esse post ridículo é a falsa indignação de vocês, por uma situação da qual, na realidade, VOCÊS não dão a MÍNIMA! Demonstram falsa indignação coletiva através do ódio, para assim se sobressair com seu ego inchado! Falsos Justiceiros Hipócritas Sociais!

E, para avacalhar de vez os milhares de vermes mimimizentos de mau caráter que o ofenderam e ameaçaram, o guri mostrou que não está nem aí com a palhaçada e fez piada em cima da própria piada, sendo que esta postagem já está com três mil, quatrocentos e poucos compartilhamentos e seis mil e poucos comentários:

Tipo… Fez alguma diferença na vida de alguém que de fato estivesse passando sede? Não. E os vermes mimimizentos, uma vez desembestados na sua sede (com trocadilho) de sangue, continuaram o ataque:

Se quer vitalizar sai correndo pelado na rua (sic)

Era para ser viralizar, óbvio.

Ofensas… 

Lixo lixo lixo..vai fica pior q ele seu merda……estora essa cra de lixo

Ameaças…

Ridículo…Toma cuidado quando sair …Se te pegarem vão te quebrar na porrada vagabundo.

Vai aprodesce.se te vejo te encho de chumbo troxa

Pensa que isso vai muda alguma coisa seu lixo de merda, isso so piora sua situação seu Hipócrita, não sei como ainda tem gente seguindo esse lixo, Si cada um lascasse um processo vc ia vê se fez certo!

E, obviamente, sempre tem um com bom senso:

Ele ja tiro essa foto com consciência dos comentários dos otarios que chinga pra da risada deles kkkkkkkkkk

Enfim…

Um guri faz uma piadinha boba – uma simples piadinha boba – e milhares de imbecis se lançam em fúria contra a piadinha, cometendo no processo um sem número de ofensas e ameaças, muitas das quais certamente passíveis de processo criminal. Estes são os guerreiros da justiça social demonstrando sua verdadeira índole, seu mau caráter e sua completa incoerência e intolerância.

Alguns meses atrás eu estaria esbravejando e espumando de raiva por causa disso.

Hoje eu aproveito para escrever um artigo na boa e sinto um levíssimo, reconfortante e delicioso desprezo!

Por Tutatis! Estou adquirindo imunidade! 🙂 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 05/01/2017

A estupidez é cansativa

A estupidez alheia é deletéria aos indivíduos razoáveis. A gente (blogueiros, jornalistas, colunistas) detecta uma questão interessante sobre a qual falar, analisa a questão por diversos ângulos, se posiciona, defende uma posição com argumentos lógicos… E aí vem um quadrúpede e deixa pelo texto aquilo que os quadrúpedes costumam deixar pelo chão.

O Túlio Milman, repórter de Zero Hora, escreveu um artigo sóbrio, politicamente correto e com um enorme aviso sobre o que estava e o que não estava dizendo ao pé do texto, bem no estilo “atenção, retardados, não falem besteira” – só que bem educadinho. Mas não adianta. Nunca adianta.

O artigo do Túlio Milman é este:

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo no futuro próximo. Não precisa ser guru de marketing para ter certeza. É só olhar o que acontece, entre nuvens de fumaça, nos Estados Unidos.

A liberação do chamado consumo recreativo em uma dezena de Estados é um exemplo de como um tecido econômico saudável se forma. Como a droga ainda é proibida pela lei federal, toda a produção é local. Não há espaço para monopólios e cartéis. Há hoje centenas de pequenos plantadores, pesquisadores e vendedores. Mas, se alguém cruzar a divisa do seu Estado com a planta, corre o risco de ser preso. Isso acaba estimulando o crescimento de uma base plural e democrática.

É lindo ver essa capilaridade, essa inteligência de mercado. Não sejamos ingênuos. As gigantes farmacêuticas e de alimentos estão de olho nesses bilhões de dólares. Só que é mais barato e rápido esperar que as startups da Cannabis nasçam e se engalfinhem na disputa pela sobrevivência. As que crescerem, mais cedo ou mais tarde, serão compradas pelas grandes. É mais barato do que investir diretamente no desenvolvimento de novos produtos. É só assinar o cheque. Com menos riscos e menos custos.

Enquanto isso, sem concentração ou regras viciadas que favoreçam os mais fortes, a economia colhe benefícios.
Além da planta, há acessórios, xampus, cremes, remédios, alimentos, sucos. Marley Natural é a primeira marca global desse mercado. Confira: www.marleynatural.com.

Maconha é uma droga que pode viciar. É proibida no Brasil e em nenhum momento meu texto pretendeu estimular o consumo ou a compra de qualquer produto vinculado a ela. Quero apenas mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade. Seja na maconha ou na construção de obras públicas. Monopólios e cartéis, isso sim é uma droga.

Aí vem um quadrúpede logo abaixo e deixa esta resposta:

Essa conversa me lembra aquela frase: “antigamente era feio dar o C e era bonito fumar, hoje é feio fumar e bonito dar o C” (sqn).. Uma campanha mundial e permanente contra o tabagismo e na contramão do interesse de saúde pública essa discussão com a maconha.. Porr.. Quer fumar esta droga fuma carvalho, como eu mesmo já fiz quando era um guri idiota.. Mas não peçam que os outros achem isso bom ou normal.. Ou os retardados acham que os traficantes vão virar padres porque perderão o “emprego”?? Óbvio que não, vão continuar com os mesmos clientes, vendendo outras drogas, ou migrando de crime.. Vai burro, noiado esquizofrênico, assassino de neurônios, fuma tua maconha escondido e não enche o saco..

E outro quadrúpede acrescenta isso:

A de cocaína então… seremos primeiro mundo.

A estupidez destas criaturas é tão grande que não entendo como conseguiram fugir da carrocinha. 

O assunto do artigo do Túlio nem de longe é a maconha. O próprio Túlio diz que considera a maconha uma droga ilegal que pode viciar (vou deixar essa controvérsia de lado neste artigo) e afirma explicitamente que não pretende estimular o consumo de nenhum produto relacionado à maconha e que que seu artigo só pretende “mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade”. Está lá, literalmente como citado, muito bem ressalvado e esclarecido. Mas não adianta. A estupidez dos quadrúpedes é feita de um material adamantino à prova de alertas, ressalvas e esclarecimentos.

O quadrúpede lê uma palavra que serve como gatilho para sua estupidez assumir o controle e sai despejando besteira como se tivesse lido outro texto, que só existe na cabeça alucinada dele. E fala como se tivesse grande entendimento sobre o que leu e grande conhecimento sobre o tema, quando obviamente não é o caso nem de uma, nem de outra. E outros quadrúpedes ecoam a estupidez do primeiro, ou acrescentam as suas próprias, até que o debate se perde coice abaixo. Irrecuperavelmente.

Céus, como a estupidez me cansa.

A estupidez me cansa tanto que eu já tentei todo tipo de estratégia possível para lidar com ela: desde explicar as coisas várias vezes, com toda a paciência, uma vez por um ângulo, outra vez por outro ângulo, tentando fazer o quadrúpede entender que pantufa não é ferradura, até simplesmente escoicear de volta, de saco cheio, passando por todo o espectro possível e imaginável entre uma coisa e outra. Nunca adiantou.

Chegou um momento em que eu tive que desenvolver uma estratégia que eu sempre abominei: eu tive que parar de me importar com a estupidez. O problema é que isso requer perder o respeito pelo estúpido, uma coisa que eu, como defensor aguerrido dos Direitos Humanos, nunca consegui tolerar, muito menos aceitar, muitíssimo menos praticar. Porém, após esgotar todas as alternativas, eu finalmente me rendi à necessidade, em nome de minha própria sanidade mental, e parei de me importar no mais alto grau que estava a meu alcance.

De modo não muito eficaz, diga-se. Porque, apesar de todos os esforços, e embora muito menos do que num passado recente, a estupidez ainda me cansa.

Como diria o Hardy: “Oh, céus! Oh, vida!” 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/01/2017

Quando o desprezo é melhor que o perdão

Dizer que o desprezo é melhor que o perdão só é chocante para quem nunca parou bem para pensar no quanto pode nos ferir a insistência de que devemos perdoar quem despreza tanto nosso bem estar que um dia cometeu uma grande injustiça contra nós. Na verdade, o desprezo pode ser uma arma muito mais eficaz que o perdão para recolocar nossa autoestima no eixo e nossa vida nos trilhos. 

Eu, você, todo mundo já passou por alguma injustiça. Algo que nos fez ter alguma emoção ruim, seja de humilhação, de revolta, de raiva, de impotência, enfim, algo que sentimos como injusto sempre nos fere emocionalmente de alguma forma. A emoção inicial é inevitável, mas como lidar com a experiência varia muito de pessoa para pessoa.

A maioria continua remoendo a injustiça e as emoções ruins trazidas pelo episódio durante muito tempo – e assim acabam sendo vítimas duas vezes da mesma injustiça: a primeira pela injustiça em si, a segunda pelo poder que conferem ao episódio para continuar tomando tempo e causando estrago em sua vida. Mas não precisa ser assim.

Eu estava lendo um livro de autoajuda muito interessante até que me deparei com uma história que me fez torcer o nariz. Um policial abordou uma gangue de jovens assaltantes e recebeu um tiro no pescoço que o deixou paraplégico. O livro narra então que este policial perdoou seu algoz, que o bandidinho que lhe deu o tiro telefonou para ele da cadeia e que o policial o convidou para saírem juntos pelo país espalhando uma mensagem de perdão e esperança. A palhaçada só não teria acontecido porque o candidatozinho a anjo morreu atropelado três dias depois de sair da cadeia, mas hoje o tal policial é um palestrante muito requisitado para contar para todo mundo como é lindo perdoar.

Eu desprezo este tipo de história. Isso só serve para fazer 99,9% das pessoas se sentirem péssimas por não serem tão angelicais e capazes de perdoar como o incrível palestrante – que cobra uma bela grana por palestra e ganha apupos e bons afagos no ego por ser “tão bom”. Para mim isso é apenas uma maneira esperta porém hipócrita de lidar com uma tragédia pessoal. Quem não ganhar dinheiro e admiração por ser “tão bom” certamente não terá o mesmo incentivo e muito menos a mesma força para manter essa postura e se sentirá ainda mais arrasado, provavelmente se culpando por não ser “tão bom” quanto o tal policial.

Para o mortal comum, como eu e você, o desprezo funciona muito melhor. Eu não tenho vergonha alguma de admitir isso, e você também não deveria ter. Canalhas e malfeitores que não se arrependem – e em “arrepender-se” está necessariamente incluída a completa e total reparação do mal causado e a promoção de um benefício extra a título de pedido de desculpas – não merecem perdão, merecem punição. E, quando não podemos puni-los, ou quando não estamos satisfeitos com a punição que legalmente podemos infligir a eles, o melhor a fazer para o bem de nossa saúde e paz de espírito é desprezar estes desgraçados. O desprezo, se não dói no algoz, pelo menos alivia a vítima.

O erro que você não pode cometer é confundir desprezo com acinte. Se você precisa esfregar na cara da pessoa desprezada que você a despreza, então você não a despreza. Se você precisa contar ao mundo que despreza alguém, então você não despreza este alguém. Quando você despreza alguém, você não se importa se ele ou ela sabe disso ou não. Você não se importa se alguém mais sabe disso ou não. Você simplesmente tem um instante de nojo quando lembra daquela pessoa e logo em seguida decide que ela não vale nem sequer o tempo que você gastaria para ficar lembrando dela. Você não a esquece, você deixa de pensar nela porque há coisas mais importantes e mais interessantes na sua vida com que gastar seu tempo – recolher cocô de gato do quintal, por exemplo.

Se você achou graça em pensar que recolher cocô de gato do quintal possa ser mais importante que lembrar de uma certa pessoa, eu lhe proponho um exercício. Pense em alguma tarefa real que você tenha que fazer de vez em quando e que seja tão interessante e divertida quanto recolher cocô de gato do quintal. Pensou? Pois bem: toda vez que você se lembrar de alguém que deveria desprezar, porque lhe fez algum mal, porque cometeu alguma injustiça contra você ou porque é um encosto na sua vida, lembre que catar cocô de gato no quintal é mais importante que essa pessoa, dê uma risada e vá realizar a tal tarefa em que você pensou com um sorriso no rosto, sabendo que isso é mais interessante do que pensar naquele traste. Então concentre-se na tarefa e tire o traste de sua mente. Este é um ótimo exercício de desprezo.

Eu não sou e você não precisa ser – nem tentar ser – um anjo de pensamentos puros, capaz de perdoar a todos sem olhar a quem. Isso é balela alienante e irreal que só serve para nos fazer sentir mal, porque não é o natural de nossa espécie sentir assim. Você não deve tentar contrariar sua natureza. Por dois motivos: primeiro, porque você não pode; segundo, porque só vai se frustrar e se sentir pior. Portanto, não tente perdoar quem você não quer perdoar. Prefira sentir desprezo. Sempre que se lembrar da existência de algum desgraçado, algum malfeitor, algum encosto, não dê a ele o poder de ocupar seus pensamentos e de perturbar suas emoções. Lembre de compará-lo em importância com cocô de gato e cultive o mais tranquilo e debochado desprezo pelo traste em questão.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 12/12/2016 

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Oportunidades e atitudes

Um mendigo morador de rua me abordou tentando me vender uma pulseira supostamente de ouro que ele teria encontrado pelo chão por apenas R$ 5,00. Eu paguei R$ 25,00, a pulseira era só uma bijuteria de cobre e eu acho que fiz um ótimo negócio, tanto que a estou usando até hoje. Ele jogou fora a melhor oportunidade da vida dele. 

Oportunidade
O absurdo dos absurdos é que esta história está me incomodando há semanas, não por eu ter pago muito mais do que a pulseirinha valia, mas porque eu sei que o coitado deve ter se achado muito esperto por me tirar R$ 20,00 a mais do que imaginava possível, enquanto eu estava disposto a oferecer a ele uma casa para morar com o mesmo conforto que eu, segurança alimentar e a oportunidade de se reerguer na vida de modo honesto, digno e seguro.

Fábio Roberto (nome verdadeiro) aproximou-se da janela de meu carro pedindo licença e fazendo uso de um vocabulário refinado e de boa articulação verbal: “não pense o senhor que eu seja uma pessoa de má conduta”. Aquilo chamou minha atenção. Ali estava uma pessoa que era um pouco mais do que parecia. Mas eu estava passeando com meus amigos, fazendo uma despedida, porque me mudaria de cidade na semana seguinte. Não era um momento em que eu estivesse disposto a ouvir uma conversa fiada cujo objetivo, estava óbvio, era me tomar dinheiro. E não deu noutra.

“Eu achei essa pulseirinha no chão lá na Calçada da Fama (local de Porto Alegre freqüentado por um público de alto poder aquisitivo) e queria só R$ 5,00 nela porque estou sem nenhum dinheiro.”

Para me livrar dele o mais rápido possível, resolvi comprar logo a porcaria do badulaque inútil que ele estava me oferecendo. Peguei R$ 5,00 do bolso, estendi para ele e coloquei a pulseirinha pendurada no retrovisor. Mas eu devo ter feito uma evidente cara de “O que eu faço para me livrar desse cara o mais rápido possível? Já sei! Compro a pulseirinha!”, porque ele percebeu e comentou, deixando perceber que havia se sentido humilhado por meu gesto. A bofetada me fez acordar e então eu dei atenção àquele mendigo de vocabulário refinado, boa articulação verbal e algum senso de dignidade.

Ele contou uma longa história, que eu ouvi com atenção e interesse genuínos e agora conto a você.

Fábio Roberto é natural de uma cidade do interior gaúcho, onde vivia com sua esposa, que havia sido sua primeira namorada, e os filhos do casal. Largou a escola e começou a trabalhar aos doze anos de idade, estimulado pelo pai, que lhe dizia que a escola da vida lhe ensinaria muito mais do que a escola dos livros. Proféticas palavras, mas não do modo como você está pensando agora.

Bem disposto e dedicado, o jovem aprendiz foi trabalhar no ramo da construção e manutenção de casas, tornando-se um profissional gabaritado em instalações elétricas, hidráulicas, colocação de azulejos e acabamentos em geral, com mais de 35 anos de experiência na área. Saiu da pobreza e construiu um padrão de vida de classe média para sua família com esta atividade. Tinha prazeres simples: futebol, cerveja e uma sinuquinha com os amigos. Era dedicado à família e diz que sempre foi 100% fiel à esposa. Mas um dia descobriu que havia contraído o HIV.

Duvido que exista maneira mais cruel de descobrir uma traição: através de um laudo laboratorial positivo para uma doença sem cura que você, sendo 100% fiel a sua parceira, só pode ter contraído por via sexual. Dela. Que também só tinha tido você como namorado.

A esta altura da narrativa fiquei realmente impressionado com a decisão que ele tomou: saiu de casa, com medo de que tivesse uma crise de raiva e fizesse alguma besteira da qual pudesse se arrepender. Foi para a casa do irmão esfriar a cabeça.

Na casa do irmão, o segundo choque: a cunhada, desinformada e preconceituosa, com medo de contrair o HIV pelo simples convívio no mesmo ambiente, objeta sua permanência. E então ele se retira da casa do irmão, sai da cidade e se torna morador de rua.

Após três anos vivendo na rua, sob o sol, a chuva, o calor, o frio e muitas vezes tendo que revirar lixo para encontrar o que comer, Fábio Roberto se aproxima da janela do meu carro, me vende uma pulseirinha, me conta esta história triste e diz que só continua nesta situação porque ninguém lhe dá uma oportunidade. Diz que, quando descobrem que ele é morador de rua, não lhe dão emprego, e assim o condenam a ser morador de rua para sempre.

Não foi só isso que ele falou, é claro. Rolou também um papo filosófico sobre ele sempre ter feito tudo certo e ter acontecido tudo aquilo com ele. Segundo seu próprio relato, ele sempre demonstrou estoicismo e firmeza de princípios. Realmente parecia uma pessoa que, apesar de ter passado por grandes injustiças, tinha seus valores e não se deixava contaminar.

Minha amiga, que estava no carro ouvindo a conversa e que precisa fazer uma reforma em casa, perguntou se ele toparia fazer o serviço, mas que isso só poderia ser feito dali a um mês ou dois. Até lá ela não teria condições de ajudar, mas ela achava que ele merecia a chance – e ela é do tipo que conhece bem as pessoas.

Eu, que me preparava para viajar de mudança para outra cidade, pensando em aprender justamente o tipo de trabalho no qual ele se dizia gabaritado, tendo em vista a impressão geral que tive dele após uma longa conversa com muitos detalhes dos quais a maioria eu hoje certamente já esqueci, pensei o seguinte: “Eu posso alugar uma casa que tenha outra nos fundos, ou uma edícula, dar um teto para esse sujeito, segurança alimentar e um emprego. Aprendo com ele o que quero, deixo o cara bem encaminhado, deixo para ele a empresa com toda a clientela e me mando para a Europa.”

Percebendo que a avaliação de minha amiga e a minha eram semelhantes quanto ao sujeito, eu tomei coragem e fiz mesmo a proposta: “Tchê, eu vou me mudar de cidade. Se tu topares ir para onde vou, eu te dou a oportunidade que tu dizes estar procurando. Eu te dou um lugar para morar, um emprego com carteira assinada e depois que aprender teu ofício eu te deixo de graça a empresa com toda a clientela e vou embora. Topas?”

No início ele não acreditou. Custou para aceitar que minha amiga e eu estávamos falando sério. Mas acabou se convencendo e parece que percebeu que estava com uma oportunidade real em mãos pela primeira vez em muitos anos. Topou, é claro.

Ficamos conversando mais um pouco e ele perguntou onde podia comprar um cachorro-quente-morte-lenta qualquer naquele horário. Aí eu tirei mais R$ 20,00 do bolso, dei para ele e disse: “na quadra aqui ao lado tu encontras uma refeição muito melhor, vai lá, come o que tu quiseres e volta aqui para a gente continuar conversando e combinar os detalhes de nosso acordo”.

Ele saiu todo sorridente e entusiasmado, dizendo que ia comer carne, arroz e feijão, que estava muito feliz e que logo voltaria para dar início a uma vida nova.

Mas nunca voltou.

Nem naquele dia, nem nos dias seguintes, nem nunca mais. E ele sabia onde e como nos encontrar nos dias seguintes se quisesse.

Quando ele estava se afastando, porém, eu peguei a pulseirinha que ele havia me vendido, coloquei no pulso e falei para meus amigos: “Esta correntinha vai servir para eu me lembrar da lição que eu vou aprender hoje. Vamos ver o que o Fábio Roberto vai me ensinar.”

E o que o Fábio Roberto me ensinou é que ele não está naquela situação porque ninguém dá uma oportunidade para ele, mas porque ele ou não pôde aproveitar a oportunidade porque mentiu sobre suas habilidades, ou não teve coragem de sair de sua zona de conforto. É um perdedor consolidado.

A correntinha está no meu pulso até hoje. Tem sido uma lembrança constante para eu ficar atento às oportunidades, ser sincero para comigo mesmo quanto a minhas habilidades e ter coragem para sair de minha zona de conforto quando um projeto parece valer a pena. E também tem sido uma lembrança para observar muito mais as atitudes que as palavras das pessoas, porque é isso que mostra o que cada uma é de fato e o que se pode realmente esperar delas. Valeu cada centavo daqueles R$ 25,00.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 28/07/2015 (publicado em 14/08/2015)

O Macaco Masoquista

Sabem aquele papo de que “quem não aprende pelo amor aprende pela dor”? Esqueçam. É mentira. 

Stupid
Acho que é isso que acontece com a cabeça do Macaco Masoquista quando ele tenta pensar… Só pode.

Isso não deveria ser nenhuma novidade, mas eu não me canso de ficar surpreso com o quanto o macaco que se acha sapiens é incapaz de aprender mesmo perante as mais óbvias evidências. Vamos a alguns exemplos.

Cadeia

Quando eu era moderador de uma grande comunidade de Direitos Humanos no Orkut, uma das frases que eu mais lia era “cadeia tem que ser ruim, para quem passar por lá nunca mais querer voltar”. Quem dizia isso, obviamente, não acreditava nisso de verdade, só estava destilando ódio. Caso contrário, teria que concordar com o raciocínio que eu apresentava em seguida. 

Eu perguntava “Tu não achas que todas as pessoas devem ser tratadas com dignidade?”. 

E normalmente a resposta era algo como “Vagabundo não tem dignidade.” 

Então eu dizia “Pois é, eu vou te ensinar o contrário. Vou te prender em uma cela escura e úmida de 2m x 2m e te encher de porrada o dia inteiro até nunca mais quereres repetir que vagabundo não tem dignidade. Quanto tempo achas que vais demorar para aprender isso?”. 

A resposta em geral era algo como “Nunca!” 

Mas eles continuavam a dizer que “cadeia tem que ser ruim, para quem passar por lá nunca mais querer voltar”. 

O Macaco Masoquista não aprende nem com privação de liberdade, nem tomando pau. 

Enchente

Eu já contei em algum lugar do blog que assisti um repórter entrevistar uma pessoa cuja casa tinha sido atingida por umas quatro ou cinco enchentes e que em todas as vezes tinha perdido tudo que tinha dentro de casa. 

Essa pessoa estava indignada, perguntando “E agora, quem é que vai pagar por tudo que eu perdi?”. E eu estou grato por não ser aquele repórter, ou eu teria dado com o microfone nos cornos daquela quadrúpede falante.

Gente… A criatura perde tudo que tem quatro vezes, não aprende que isso pode acontecer de novo, não faz nada para se proteger e ainda acha que “alguém” tem que pagar pelo que ela deixou a água destruir?

Primeiro que eu não moraria em um lugar inundável. Segundo que, se tivesse que morar em um lugar assim, eu construiria uma estrutura para onde pudesse içar meus bens mais valiosos e necessários em caso de enchente.

O Macaco Masoquista não aprende nem perdendo tudo o que tem. 

Hospital

Volta e meia nós vemos reportagens na grande mídia com denúncias embasbacantes e revoltantes sobre gente que morre ou fica aleijado na fila da emergência, de gente que é atendida em macas espalhadas pelos corredores, ou de gente que tem que dormir no chão dentro do hospital, às vezes sem ter nem sequer um colchão, sobre trapos. E todo mundo reclama e diz que é um absurdo.

Porém, o que as pessoas que passam por isso fazem quando escapam do SUS com vida?

Elas passam a assistir o noticiário e ler os jornais para compreender melhor o funcionamento e a situação do país, ou elas trocam de canal quando começa o noticiário e vão assistir as fofocas dos famosos?

Elas passam a lutar por uma saúde pública melhor, organizando-se em ONGs, filiando-se a partidos políticos para exercer pressão, promovendo campanhas de conscientização, ou só ficam reclamando?

O Macaco Masoquista não aprende nem sob muita dor, risco de seqüela grave ou morte. 

Conclusão

O Macaco Masoquista também não vai aprender nada com este artigo… 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/08/2014