Por que abandonei o ensino

Foram três grandes motivos: porque o salário era e continua sendo uma porcaria, porque eu não acreditava e continuo não acreditando na utilidade dos currículos e porque eu constatei que as relações humanas e profissionais no ambiente escolar ou acadêmico mudariam muito e para muito pior. É sobre este último item que quero falar agora.

Sou bom em sala de aula. Mas não em um ambiente de coitadismo institucionalizado em que qualquer desvio do politicamente correto é ofensivo e vira alvo de patrulhamento intolerante.

Eu jogava giz nos alunos. Jogava até o apagador. Peguei aluno pelo pescoço e o arrastei até a classe para fazê-lo ficar quieto. Sentei no colo de alunos e alunas. Fazia guerra de giz. Só não tacava fogo na sala por pouco. E no entanto mantinha a disciplina, exigia bom comportamento e atenção às aulas. As turmas gostavam de mim. Alunos e alunas me procuravam para estudar e para obter conselhos pessoais.

Hoje em dia nada disso é possível.

Uma vez estávamos no meio de uma guerra de giz e bolinhas de papel, com trincheiras feitas com classes e tudo o mais, e o diretor da escola entrou porta adentro.

Eu gritei “O inimigo está invadindo a sala! Fogo nele!” e joguei giz no cara. E choveu giz e bolinha de papel nele, que teve que recuar. ?

Quando ele saiu da sala, gritei “Expulsamos o inimigo! Vitória!” e rolou uma grande ovação de vitória. ?

Aí eu saí no corredor e falei “General, se o senhor tiver algum comunicado a fazer a meu exército, eu posso propor um armistício!” ?

E ele voltou e não tocou no assunto, tratou de dizer o que veio dizer e caiu fora. Todo mundo se borrando quando caiu a ficha que tinham atirado giz no diretor. Mas não rolou nenhum stress.

Você pode imaginar uma cena dessas no ambiente mimimizento abjeto de hoje?

Obviamente eu não fazia essa zona toda hora. Nesse nível foi só essa vez.

A maioria das minhas aulas era séria, mas de bom humor. Eu não fazia palhaçada planejada, como esses animadores de sala de aula de hoje em dia. Eu sou professor, não palhaço, não cheerleader.

Eu apenas não reprimia momentos naturais de descontração e não dava muita bola para o risco de algum imbecil bancar o ofendidinho ou denunciar uma “agressão” porque joguei um giz na testa dele.

Bons tempos.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 28/02/2017

Publicado originalmente no Facebook em  28/02/2016.

Atualização em 28/02/2018

Os outros dois motivos pelos quais abandonei o ensino foram igualmente importantes. Não se pode ter um bom ambiente de ensino se o professor não se orgulha da utilidade da disciplina que está lecionando para a vida do aluno – a não ser que ele seja um medíocre ou um psicopata, e em nenhum destes casos eu chamaria o resultado de “bom ambiente de ensino”. E não se pode ter um bom ambiente de ensino com um professor cujo salário não depende do quanto ele se esforça para o bom cumprimento de sua tarefa – o que é o caso em todo o ensino público, onde os salários dos professores não têm nada a ver com seu desempenho em sala de aula, e na maior parte do ensino privado, porque o salário em si em geral não muda conforme o desempenho em sala de aula, o que muda é a empregabilidade dos professores.

 

Uma dica para quem precisa preparar um curso

Um belo dia você precisa preparar um curso em seu trabalho. Digamos que com uma carga horária de vinte horas, um turno por semana, avaliação no último dia. E agora? Por onde começar? O que incluir? Que recursos audiovisuais utilizar? Como avaliar?

Se você fizer como quase todo mundo faz, eu sei o que vai acontecer. Você vai começar do que acha que é o começo, escolhendo sobre o que vai falar, vai procurar alguns recursos audiovisuais para ter o que mostrar e ao final vai ficar em dúvida sobre o que exatamente avaliar, limitando-se a fazer algumas perguntas simples para evitar um mar de baixas avaliações, ou vai acabar exigindo a mera memorização de algumas informações específicas. E o resultado disso é que você vai preparar um curso bem fraquinho, com muito pouca utilidade, como quase sempre acontece.

Eu já vi isso acontecer muitas vezes. Já vi um profissional preparar um curso de aperfeiçoamento que mal continha o básico de sua atividade, já vi um professor preparar um curso sobre didática em que ninguém aprendeu nenhuma técnica ou desenvolveu qualquer habilidade nova, vi um aluno de pós-graduação preparar um curso de qualificação cheio de erros grosseiros, vi um departamento inteiro de um órgão público preparar um curso que se tornou uma grande colcha de retalhos sem nenhuma ligação entre si, vi um técnico em uma área muito específica do conhecimento preparar um curso cheio de lacunas em sua própria área de especialização, entre outros. Em comum, todos eles tiveram pouca utilidade prática.

Pois bem… Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar, porque a minha dica é tão simples e fácil de memorizar quanto poderosa para auxiliar tanto na seleção dos conteúdos quanto na organização de suas apresentações.

Eis a dica: a primeira coisa que você tem que preparar é a prova final. Ponto.

Quando você prepara um curso começando pela prova final, tudo fica muito claro. Ao começar pela prova final, a primeira coisa que você tem que decidir é quais são os conhecimentos que os seus alunos terão que mostrar que aprenderam e quais são as habilidades que eles terão que demonstrar que desenvolveram. Tendo em mente o que seus alunos precisarão saber ao final, sua seleção de conteúdos se tornará muito mais objetiva e sua seleção de recursos tenderá a ser muito mais dirigida. Tendo a prova final em mente, você terá um critério muito claro para dar ênfase no que é mais importante e terá uma tendência muito menor de usar os recursos audiovisuais como confete e purpurina.

Não repita aquela bobagem de quem diz que “prova não avalia”. Provas são um excelente método de avaliação. Na maioria absoluta dos casos, quem acha que prova não avalia é justamente quem não sabe preparar uma prova. E não sabe preparar uma prova porque só pensa em fazer isso depois de já terem dado um curso inteiro sem objetivo, sem método e sem consistência. É um erro comum, mas é fácil de ser corrigido – especialmente agora que você já sabe o que deve ser feito.

Você não vai preparar uma prova para avaliar o curso que você preparou, você vai preparar um curso para capacitar seus alunos a corresponder às exigências que você estabeleceu na prova. Você terá um roteiro de desenvolvimento. Você terá um mapa para corrigir sua rota on the fly. Você terá um padrão ouro para checar a qualidade do que está fazendo. E você terá, no resultado geral dos seus alunos, uma avaliação da sua capacidade de preparar um curso adequadamente para transmitir determinados conhecimentos e desenvolver determinadas habilidades. Um bônus inestimável.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 06/01/2017

A minha proposta de reforma do ensino

Escrevo este artigo antes de ler a MP sobre a reforma do ensino, porque ao buscá-la na internet descobri que ela recebeu mais de quinhentas emendas, ou seja, virou um monstrengo deformado com câncer a respeito do qual não dá para afirmar nada, nem se vai sobreviver, quanto mais se haverá de se tornar saudável. Pelo que tudo indica, mais uma vez o Brasil perderá uma ótima oportunidade de sair da lama. E não precisaria ser assim. A minha proposta é MUITO simples e eficaz.

O que eu faria com o ensino fundamental e médio? O seguinte:

  1. O governo define uma carga horária razoável para cada nível de ensino, igual para todo o país.
  2. O MEC define metade do currículo segundo seus especialistas e consultas a quem quiser.
  3. Cada escola define de modo 100% livre e independente a outra metade do currículo.

Pronto. Este é o texto completo da minha reforma do ensino.

Não vou entrar no mérito se tem que ter língua estrangeira ou não no currículo, se artes e filosofia devem ser obrigatórias ou opcionais, se tem que ter educação física ou se tem que ter matérias optativas. Nada disso me importa.

O governo que defina a carga horária e o MEC que decida o que bem entender e estabeleça como obrigatórias ou optativas as disciplinas que quiser, com o conteúdo que quiser, segundo os critérios que quiser, inclusive reservando um percentual de carga horária para que as Secretarias de Educação Estaduais e Municipais definam currículos de natureza regional, exclusivamente na metade do currículo sobre a qual cabe ao governo tomar decisões.

Quanto à outra metade do currículo, que seja integralmente definida em cada escola, de acordo com o critério que cada escola quiser utilizar. A escola que quiser pode consultar a comunidade, a escola que quiser pode simplesmente dispensar seus alunos, a escola que quiser pode oferecer um curso obrigatório de mecatrônica avançada, sem que absolutamente ninguém possa questionar a decisão tomada pela escola, nem interferir no currículo, de modo algum. A escolha que cabe aos pais em relação às escolas que não quiserem consultar ninguém para definir seus currículos é matricular ou não o filho naquela escola. Mais nada.

Sabem o que vai acontecer?

A metade do currículo definida pelo MEC será igual para todo mundo. Ou seja, o básico definido pelos especialistas como indispensável para a formação do cidadão será oferecido a todos. Provavelmente vai incluir língua portuguesa, língua inglesa, artes, música, filosofia, sociologia, educação física, história, geografia, matemática, física, química e uma ou outra que eu posso ter esquecido. Grosso modo, a mesma porcaria de sempre, que não serve para nada, mas que é considerada “indispensável” pelo MEC e pelos “especialistas” em educação. Teremos que conviver com esse peso inútil porque é politicamente impossível se livrar deste atraso de vida sem que escolas sejam invadidas, ruas sejam obstruídas, greves sejam lançadas e a vanguarda do atraso inviabilize o país novamente.

Já a outra metade do currículo será diferente para todo mundo – e isso vai deixar bem claro quais escolas estão formando alunos para o sucesso na vida e quais estão apenas servindo para sustentar gente incompetente, agitadores políticos e outros arautos do atraso. E, ficando claro qual currículo produz gente de sucesso e qual currículo produz fracassados, cada pai e cada mãe no país terá a opção de escolher se quer que seu filho seja uma pessoa de sucesso ou um fracassado na vida, bastando para isso escolher matriculá-lo na escola A ou na escola B.

O que tem que ficar claro que as escolas que não tiverem alunos suficientes para funcionarem não receberão incentivos financeiros do governo. Se forem privadas, elas vão falir. Se forem públicas, elas serão fechadas e seus diretores e professores serão demitidos a bem do serviço público. Não precisamos de incompetentes que levam escolas à falência recebendo salário para destruir a educação no país. Se houver necessidade na região, serão abertos novos concursos públicos para reabrir a escola no ano seguinte, sendo vedada a recontratação dos demitidos antes de cinco anos no serviço público.

Obviamente, as escolas de maior sucesso acabarão recebendo uma quantidade de pedidos de matrícula cada vez maior. Para que elas não se tornem elitistas e excludentes, basta estabelecer a regra de que nenhuma escola pode rejeitar nenhum pedido de matrícula. Se uma escola receber mais pedidos de matrícula do que é capaz de atender, o governo fica automaticamente obrigado a financiar a expansão daquela unidade escolar, em regime de emergência, segundo os mesmos exatos critérios de estrutura e funcionamento daquela unidade escolar no ano anterior – ou seja, a escola não fica limitada a atender um determinado número de alunos em função de não ter capacidade de investimento para ampliar suas instalações. É óbvio que a unidade 2 de uma escola não necessariamente terá a mesma qualidade da unidade 1, porque não é possível clonar professores, mas ainda assim esta é a melhor solução disponível.

Cada professor tem o direito de dar aula como quiser? Tem. Cada direção de escola tem o direito de administrar sua escola como quiser? Tem. Cada pai e mãe de aluno tem o direito de matricular seu filho na escola que bem entender? Tem. Cada Gestor público tem o direito de demitir funcionários que não realizam suas obrigações com a mínima competência necessária para o cargo? Tem. Ninguém tem seus direitos prejudicados nesta proposta – só tem que arcar com as consequências de suas próprias decisões e ser competente para não ficar sendo pago para arrebentar com o futuro de nossos filhos, o que é muito razoável. E nossos filhos ganham finalmente o direito a uma educação de qualidade.

Que comece o mimimi.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 17/11/2016

A escola não tem que formar cidadãos. A escola tem que ensinar a matéria

Hoje às 11:00 deve entrar em debate no Senado Federal o Projeto de Lei 193/2016, que que inclui na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional o programa Escola sem Partido. Em tempos de sequestro do ensino em todas as esferas – fundamental, médio e superior – por militantes políticos que chamam doutrinação ideológica de pensamento crítico e cooptação partidária de vulneráveis exercício da cidadania, este projeto de lei é extremamente bem-vindo. 

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A escola não tem que “formar cidadãos”. Isso é uma balela criada por doutrinadores marxistas para justificar a cooptação de nossos jovens para as ideologias políticas que destruíram nosso país ao longo dos últimos treze anos e que acabaram de ser amplamente rejeitadas pelas urnas em nosso país, nos EUA e em grande parte da Europa.

A escola tem que ensinar a matéria de cada disciplina: ler, escrever, falar uma língua estrangeira, desenvolver o pensamento lógico-matemático, somar, subtrair, multiplicar, dividir, fazer regra-de-três, saber calcular os juros de um cartão de crédito, o que é uma alimentação saudável, exercícios físicos saudáveis, tocar um instrumento musical, noções de história e geografia, uso de ferramentas, manutenção de uma residência, construção de um móvel, conserto de um chuveiro, cálculo de um circuito com a espessura correta dos fios e aterramento, programação de computadores, procedimento para recorrer ao tribunal especial cível, economia doméstica com finalidade de investimento, abrir uma empresa, investir na bolsa de valores a longo prazo, etc. Coisas úteis de fato para a vida prática do indivíduo na realidade presente, não segundo a ideologia de gênero, a luta de classes ou a teoria esquerdopata do raio que o parta.

OBS: para quem achar que estou com um “viés à direita” ao dizer o que eu disse no parágrafo anterior, afirmo desde já que a doutrinação de besteirol direitopata aos moldes de “quem não tem competência não se estabeleça”, “objetivismo moral”, “princípio da não agressão”, “imposto é roubo” e outros lixos é igualmente inaceitável, mas que em toda minha vida acadêmica não vi um único caso de doutrinação deste tipo em sala de aula para menores de idade. A tática de lavagem cerebral de vulneráveis, até onde pude constatar, tem sido tipicamente usada pelos marxistas e outros esquerdistas. Perguntem a Luís Felipe Pondé, filósofo de direita assumido, se ele tem notícia de escolas ou departamentos universitários que apresentem um quadro balanceado de filósofos ou sociólogos de todos os matizes ideológicos em sala de aula, ou se o que ele recebe são milhares de notícias de gente sendo perseguida em sala de aula por não concordar com os dogmas da esquerda.

A formação da cidadania não se dá pela doutrinação ideológica do aluno, mas pela sua capacitação intelectual e operacional no mundo moderno. Tornar-se cidadão não é decorar uma cartilha política e passar a impor um padrão de pensamento e ação política em busca de um ideal de sociedade, é saber se virar com sagacidade, ética e competência no mundo real, construindo na sua vida cotidiana um ambiente de sucesso.

De tudo isso que afirmo decorre naturalmente que é imprescindível realizar uma reforma profunda nos currículos escolares. Disciplinas que parecem ser engrandecedoras e cuja presença nos currículos parece razoável – como filosofia e sociologia – há muito se tornaram meros espaços de doutrinação ideológica. Disciplinas que deveriam servir para que os alunos compreendam como nossa civilização se desenvolveu e qual a estrutura e funcionamento do mundo atual – como história e geografia – há muito se tornaram ferramentas de distorção da realidade. Só há uma visão de mundo sendo apresentada para todos os nossos jovens em sala de aula e é a visão de mundo que leva grupelhos aparelhados a invadirem escolas e prejudicarem quem quer estudar, quem quer trabalhar, quem quer votar e quem quer ver o país avançar. É preciso eliminar este viés para podermos nos concentrar novamente na questão curricular, que é essencial.

O projeto não é perfeito. Esta é a descrição apresentada pela Agência Senado

O projeto defende a neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado; o pluralismo de ideias no ambiente acadêmico; a liberdade de aprender e de ensinar; a liberdade de consciência e de crença; o reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado; a educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença; e o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.

O projeto estabelece que o  poder público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação da teoria ou ideologia de gênero. (…)

Também deve ficar explícita a proibição de propaganda político-partidária em sala de aula e a incitação a manifestações. O projeto estabelece ainda prevê que o professor – ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas – apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

Estou extremamente preocupado com este absurdo de impor um desenvolvimento de personalidade vinculado à identidade biológica de gênero, porque isso é uma violência contra os gays, lésbicas e transexuais, mas concordo totalmente que não se deve tolerar a malfadada teoria de gênero que considera o gênero uma “construção social”. É fundamental eliminar o ranço intolerante que permite a violência psicológica contra o aluno homossexual ou transexual para que o projeto possa cumprir sua finalidade de nos livrar do ranço esquerdista sem nos fazer retroceder na garantia dos direitos e liberdades individuais que devem pautar um país civilizado que respeita todos os seus cidadãos. Este item precisa ser erradicado, porque consiste exatamente no mesmo abuso autoritário e intolerante que a esquerda sempre cometeu. Não é razoável que simplesmente passemos a cometer os abusos opostos.

Se queremos uma escola sem partido, que seja uma escola sem partido de esquerda e sem partido de direita. Que seja uma escola voltada para o engrandecimento intelectual e a capacitação técnica do cidadão. Que seja uma escola que respeite cada indivíduo em sua essência, sem tentar impor este ou aquele princípio de moralidade ou postura política, que são coisas que cabem ao desenvolvimento cultural de uma sociedade, não à doutrinação em sala de aula. Que a sala de aula ensine o respeito a todo o indivíduo que não causa mal a terceiros e pronto, sem impor nem proibir este ou aquele tipo de pensamento político, religioso ou sexual. Se não é papel da escola impor uma direção, também não é papel da escola impor a outra.

Também não se pode permitir que o projeto sirva de porta de entrada para a introdução de pseudo-ciências no currículo escolar em função da necessidade de apresentar “as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes” e com isso trazer o criacionismo, a astrologia, a terapia quântica ou alguma outra balela pseudo-científica para a sala de aula. Isso não está em foco agora, mas é 100% garantido que algum safado vá tentar fazer isso caso o projeto seja aprovado.

Vivemos em tempos difíceis. Os principais grupos em luta pelo poder e pela hegemonia cultural em nossa sociedade não são ingênuos e se aproveitam de qualquer oportunidade para forçar a expansão de suas agendas ideológicas. Se quisermos garantir um mínimo de sanidade para nosso futuro próximo, precisamos ficar muito atentos e fazer toda a pressão que for possível fazer para que a razoabilidade e o bom senso prevaleçam.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 16/11/2016

A goleada para a Alemanha

Este não é um artigo sobre futebol. É um artigo sobre educação e ciência. Os alemães solicitaram 20 vezes mais patentes do que os brasileiros e o placar de prêmios Nobel desde 1901 é Alemanha 103 x 0 Brasil. Esta é a verdadeira goleada com a qual o Brasil deveria se preocupar. 

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Autor do texto: ANDRÉ LUÍS PARREIRA, 38 anos, físico pela Universidade Federal de São João del-Rei e mestre em tecnologia pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, diretor para o Brasil da Hiperlab, fabricante americana de planetários digitais. 

A goleada para a Alemanha

Sua respeitada ciência, sua história de reconstrução, a economia robusta, os automóveis e, mais recentemente, a energia renovável fazem a Alemanha estar sempre presente em nossas rodas de conversa. Lá, um povo apaixonado por futebol e cerveja consegue grandes placares também fora do campo.  

Por aqui, em 26 de junho e em ritmo de Copa do Mundo, foi sancionado pela Presidência da República o Plano Nacional de Educação (PNE). A meta mais comentada, embora não a mais relevante, tem sido a de se destinar 10% do PIB (Produto Interno Bruto) à educação em dez anos. Hoje, são investidos 6,4%.  

Felizmente, há outras metas previstas no PNE, pois somente esse aumento do investimento, ainda que significativo, não será suficiente para alcançarmos placares de patamar alemão ou de qualquer outro país que seja destaque educacional. Podemos concluir isso com a projeção de alguns números recentes do relatório “Education at a Glance”, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).  

Proporcionalmente, destinar 10% do PIB à educação faria o investimento médio por estudante saltar de aproximadamente US$ 2.900/ano para cerca de US$ 4.500, o que ainda fica muito aquém dos US$ 10 mil/ano investidos pela Alemanha.  

O salário inicial médio de um professor de educação básica no Brasil passaria dos atuais US$ 5.000/ano para US$ 7.500 contra US$ 30 mil/ano na Alemanha. Como exigir cada vez mais anos de estudo e qualificação dos professores quando se oferece tão pouco?  

Mas o investimento ainda terá que dar conta de outra triste realidade: a precária estrutura para o desenvolvimento de uma educação de qualidade para a ciência. Já tive a oportunidade de visitar escolas na Alemanha e constatei que o laboratório de ciências, aliado a projeto pedagógico, é parte do dia a dia desde o ensino fundamental.  

Por aqui, segundo o portal QEdu.org.br, somente 2% das escolas públicas municipais possuem laboratório de ciências. Se esticarmos a amostra para escolas públicas, o que engloba as estaduais e as federais, o número cresce para 8%. E a pesquisa fala somente em possuir, nada sobre sua utilização efetiva.  

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2012, com participação de 65 países, o placar em ciências ficou assim: Brasil com 405 pontos (59º lugar!) x Alemanha com 524 pontos (12º lugar!).  

No quesito inovação tecnológica, os alemães solicitaram 20 vezes mais registros de patentes do que nós. E, se colocarmos no placar o número de prêmios Nobel desde 1901, teremos Alemanha 103 x 0 Brasil!  

Ou seja, precisamos de muito mais que o investimento do PNE para melhorarmos nosso desempenho. Vamos ter que aprender com os alemães e trabalhar por muitos anos para reduzir as diferenças. Na educação, já estamos na prorrogação. 

Fonte: Folha de São Paulo

AGL

Em resumo: o autor propõe elevar o investimento em educação; pagar melhor os professores; melhorar a estrutura das escolas, com pelo menos um laboratório de ciências; buscar conhecimento em países mais avançados; trabalhar pensando no longo prazo. Cinco pontos. 

Eu tenho uma visão diferente, comecei a desenvolver alguns pontos extras, mas logo percebi que seria melhor fazer isso em um artigo separado – e ainda tenho aquele artigo do Feynman sobre a educação no Brasil para comentar antes disso. Gostaria primeiro de saber a opinião dos leitores sobre os pontos apresentados. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/07/2014 

A educação no Brasil vista por uma das mais brilhantes mentes do século XX

Richard P. Feynman, nasceu no ano de 1918 no estado de Nova Iorque, nos EUA. Estudou física no M.I.T. e em Princeton, e lecionou em Cornell e no Instituto de Tecnologia da California. Deu importantes contribuições à Física e foi considerado uma das mentes mais criativas de seu tempo. Ganhou o prêmio Nobel em 1965 e faleceu em 1988. Na década de 50 ele viveu e lecionou por quase um ano na cidade do Rio de Janeiro. 

Richard-Feynman

O texto abaixo foi extraído do livro autobiográfico “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman!” (título original: “Surely You’re Joking, Mr. Feynman!”), publicado originalmente em 1985, nos Estados Unidos. 

Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estudantes que se tornariam professores, uma vez que àquela época não havia muitas oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell, e assim por diante.

Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta e os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fizesse a pergunta de novo – o mesmo assunto e a mesma pergunta, até onde eu conseguia –, eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo, uma vez eu estava falando sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaróide.

O polaróide só passa luz cujo vetor elétrico esteja em uma determinada direção; então expliquei como se pode dizer em qual direção a luz está polarizada, baseando-se em se o polaróide é escuro ou claro.

Primeiro pegamos duas filas de polaróide e giramos até que elas deixassem passar a maior parte da luz. A partir disso, podíamos dizer que as duas fitas estavam admitindo a luz polarizada na mesma direção – o que passou por um pedaço de polaróide também poderia passar pelo outro. Mas, então, perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaróide.

Eles não faziam a menor idéia.

Eu sabia que havia um pouco de ingenuidade; então dei uma pista: “Olhe a luz refletida da baía lá fora”.

Ninguém disse nada.

Então eu disse: “Vocês já ouviram falar do Ângulo de Brewster?”

– Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o ângulo no qual a luz refletida de um meio com um índice de refração é completamente polarizada.

– E em que direção a luz é polarizada quando é refletida?

– A luz é polarizada perpendicular ao plano de reflexão, senhor.

Mesmo hoje em dia, eu tenho de pensar; eles sabiam fácil! Eles sabiam até a tangente do ângulo igual ao índice!

Eu disse: “Bem?”

Nada ainda. Eles tinham simplesmente me dito que a luz refletida de um meio com um índice, tal como a baía lá fora, era polarizada: eles tinham me dito até em qual direção ela estava polarizada. 

Eu disse: “Olhem a baía lá fora, pelo polaróide. Agora virem o polaróide”.

– “Ah! Está polarizada”!, eles disseram.

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”, eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando “Observe a água”.

Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos… são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era difícil descobrir isso.

Eu não conseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se coloca muito peso do lado de fora, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!

Depois da palestra, falei com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações – o que vão fazer com elas?”

– Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova.

– E como vai ser a prova?

– Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Quando dois corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado.

Então fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e eu tinha permissão para ouvi-la. Um dos estudantes foi absolutamente fantástico: ele respondeu tudo certinho! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo e ele respondeu perfeitamente.

Depois eles perguntaram: “Quando a luz chega a um ângulo através de uma lâmina de material com uma determinada espessura, e um certo índice N, o que acontece com a luz?

– Ela aparece paralela a si própria, senhor – deslocada.

– E em quanto ela é deslocada?

– Eu não sei, senhor, mas posso calcular. Então, ele calculou. Ele era muito bom. Mas, a essa época, eu tinha minhas suspeitas.

Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que eu queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma, os resultados da prova. A primeira pergunta que fiz foi: “Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?” 

– Não.

Aí eu perguntei: “Se esse livro fosse feito de vidro e eu estivesse olhando através dele alguma coisa sobre a mesa, o que aconteceria com a imagem se eu inclinasse o livro?” 

– Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo que o senhor tivesse virado o livro.

Eu disse: “Você não fez confusão com um espelho, fez?”

– Não senhor!

Ele havia acabado de me dizer na prova que a luz seria deslocada, paralela a si própria e, portanto, a imagem se moveria para um lado, mas não seria alterada por ângulo algum. Ele havia até mesmo calculado em quanto ela seria deslocada, mas não percebeu que um pedaço de vidro é um material com um índice e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta.

Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei demonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não aprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobre realmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles.

Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que acontecia: eles não conseguiam fazer!

Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.

Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros.

Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!

Ao final do ano acadêmico, os estudantes pediram-me para dar uma palestra sobre minhas experiências com o ensino no Brasil. Na palestra, haveria não só estudantes, mas também professores e oficiais do governo. Assim, prometi que diria o que quisesse. Eles disseram: “É claro. Esse é um país livre”.

Aí eu entrei, levando os livros de física elementar que eles usaram no primeiro ano de faculdade. Eles achavam esses livros bastante bons porque tinham diferentes tipos de letra – negrito para as coisas mais importantes para se decorar, mais claro para as coisas menos importantes, e assim por diante.

Imediatamente, alguém disse: “Você não vai falar sobre o livro, vai? O homem que o escreveu está aqui, e todo mundo acha que esse é um bom livro”.

– Você me prometeu que eu poderia dizer o que quisesse.

O auditório estava cheio. Comecei definindo ciência como um entendimento do comportamento da natureza. Então, perguntei: “Qual um bom motivo para lecionar ciência? É claro que país algum pode considerar-se civilizado a menos que… pá, pá, pá”. Eles estavam todos concordando, porque eu sei que é assim que eles pensam.

Aí eu disse: “Isso, é claro, é absurdo, porque qual o motivo pelo qual temos de nos sentir em pé de igualdade com outro país? Nós temos de fazer as coisas por um bom motivo, uma razão sensata; não apenas porque os outros países fazem”. Depois, falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição para a melhoria da condição humana, e toda essa coisa – eu realmente os provoquei um pouco.

Daí eu disse: “O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil!”

Eu os vejo se agitar, pensando: “O quê? Nenhuma ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas aulas”.

Então eu digo que uma das primeiras coisas a me chocar quando cheguei ao Brasil foi ver garotos da escola elementar em livrarias, comprando livros de física. Havia tantas crianças aprendendo física no Brasil, começando muito mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos, que era estranho que não houvesse muitos físicos no Brasil – por que isso acontece? Há tantas crianças dando duro e não há resultado.

Então eu fiz a analogia com um erudito grego que ama a língua grega, que sabe que em seu país não há muitas crianças estudando grego. Mas ele vem a outro país, onde fica feliz em ver todo mundo estudando grego – mesmo as menores crianças nas escolas elementares. Ele vai ao exame de um estudante que está se formando em grego e pergunta a ele: “Quais as idéias de Sócrates sobre a relação entre a Verdade e a Beleza?” – e o estudante não consegue responder. Então ele pergunta ao estudante: “O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?” O estudante fica feliz e prossegue: “Disse isso, aquilo, aquilo outro” – ele conta tudo o que Sócrates disse, palavra por palavra, em um grego muito bom. 

Mas, no Terceiro Simpósio, Sócrates estava falando exatamente sobre a relação entre a Verdade e a Beleza!

O que esse erudito grego descobre é que os estudantes em outro país aprendem grego aprendendo primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras gregas realmente significam algo. Para o estudante, elas não passam de sons artificiais. Ninguém jamais as traduziu em palavras que os estudantes possam entender.

Eu disse: “É assim que me parece quando vejo os senhores ensinarem ‘ciência’ para as crianças aqui no Brasil” (Uma pancada, certo?)

Então eu ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. “Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum desse livro, exceto em um lugar onde há uma bola, descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm erros – ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais – muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo de ‘resultados’ experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém jogou tal bola, ou jamais teriam obtido tais resultados!”

“Descobri mais uma coisa”, eu continuei. “Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de uma página, posso mostrar qual é o problema – como não há ciência, mas memorização, em todos os casos. Então, tenho coragem o bastante para folhear as páginas agora em frente a este público, colocar meu dedo em uma página, ler e provar para os senhores.”

Eu fiz isso. Brrrrrrrup – coloquei meu dedo e comecei a ler: “Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados…”

Eu disse: “E aí, você teve alguma ciência? Não! Apenas disseram o que uma palavra significa em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza – quais cristais produzem luz quando você os fricciona, por que eles produzem luz. Alguém viu algum estudante ir para cada e experimentar isso? Ele não pode”. 

“Mas, se em vez disso, estivesse escrito: ‘Quando você pega um torrão de açúcar e o fricciona com um par de alicates no escuro, pode-se ver um clarão azulado. Alguns outros cristais também fazem isso. Ninguém sabe o motivo. O fenômeno é chamado triboluminescência’. Aí alguém vai para casa e tenta. Nesse caso, há uma experiência da natureza.”

Usei aquele exemplo para mostrar a eles, mas não faria qualquer diferença onde eu pusesse meu dedo no livro; era assim em quase toda parte.

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado. Há dois estudantes na minha sala que se deram muito bem, e um dos físicos que eu sei que teve sua educação toda no Brasil. Assim, deve ser possível para algumas pessoas achar seu caminho no sistema, ruim como ele é.”

Bem, depois de eu dar minha palestra, o chefe do departamento de educação em ciências levantou e disse: “O Sr. Feynman nos falou algumas coisas que são difíceis de se ouvir, mas parece que ele realmente ama a ciência e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos prestar atenção a ele. Eu vim aqui sabendo que temos algumas fraquezas em nosso sistema de educação; o que aprendi é que temos um câncer!” – e sentou-se. 

Isso deu liberdade a outras pessoas para falar, e houve uma grande agitação. Todo mundo estava se levantando e fazendo sugestões. Os estudantes reuniram um comitê para mimeografar as palestras, antecipadamente, e organizaram outros comitês para fazer isso e aquilo. 

Então aconteceu algo que eu não esperava de forma alguma. Um dos estudantes levantou-se e disse: “Eu sou um dos dois estudantes aos quais o Sr. Feynman se referiu ao fim de seu discurso. Eu não estudei no Brasil; eu estudei na Alemanha e acabo de chegar ao Brasil”.

O outro estudante que havia se saído bem em sala de aula tinha algo semelhante a dizer. O Professor que eu havia mencionado levantou-se e disse: “Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando, felizmente, todos os professores haviam abandonado a universidade: então aprendi tudo lendo sozinho. Dessa forma, na verdade, não estudei no sistema brasileiro”.

Eu não esperava aquilo. Eu sabia que o sistema era ruim, mas 100 por cento – era terrível!

Uma vez que eu havia ido ao Brasil por um programa patrocinado pelo Governo dos Estados Unidos, o Departamento de Estado pediu-me que escrevesse um relatório sobre minhas experiências no Brasil, e escrevi os principais pontos do discurso que eu havia acabado de fazer.

Mais tarde descobri, por vias secretas, que a reação de alguém no Departamento de Estado foi: “Isso prova como é perigoso mandar alguém tão ingênuo para o Brasil. Pobre rapaz; ele só pode causar problemas. Ele não entendeu os problemas”. Bem pelo contrário! Acho que essa pessoa no Departamento de Estado era ingênua em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de cursos e descrições, era assim que era. 

AGL

Eu escrevi um comentário sobre este texto do Feynman, mas o conjunto ficou longo demais, então vamos primeiro discutir o que ele escreveu e depois postarei o meu comentário na forma de um artigo independente. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/07/2014 

Nossos professores nos traíram (2)

Quando eu pedi ajuda com sugestões de bibliografia para estudar os conteúdos necessários para compreender um artigo histórico sobre os fundamentos da estatística, meu velho desconhecido e implicante amigo que usa o pseudônimo de “Raiden” aproveitou para zoar comigo dizendo que afinal as inutilidades dos currículos escolares não eram assim tão inúteis. Mas eu mantenho minha posição original. Vejam por quê. 

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“Educação” significa “engenharia cerebral”

Quem educa ou faz engenharia cerebral, ou faz nada. Ou você assume que sua função como educador é modificar o desenvolvimento do cérebro de alguém e faz isso visando um objetivo específico, de modo planejado e eficaz, ou você parte da premissa errada e produz um resultado qualquer por puro acaso. “Facilitador de aprendizagem” é um vomitador de verborragia nonsense; o bom educador é um engenheiro de cérebros. 

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