Grande porcaria escalar o Everest

Eu estava assistindo o Fantástico agora há pouco e passou uma reportagem sobre uma médica braslieira que escalou o Everest duas vezes, uma pela face sul, outra pela face norte, mais difícil. E fiquei aqui pensando: mas para que raios serve colocar o pescoço em risco desse jeito? Que sentido faz isso? Só para dizer que consegue? Grande porcaria. 

Acho válido passar por um treinamento muito intenso para atingir um objetivo muito difícil. Mas escalar o Everest como preparação para a vida é totalmente desnecessário. Aliás, desnecessário, arriscado, caro, inútil e com retorno exclusivamente para o próprio ego, porque nada nem ninguém no mundo fica melhor por causa disso. É uma ego-trip com risco de vida. Uma estupidez.

Querem saber o que seria muito mais útil? Desenvolver técnicas e equipamentos que tornassem a subida até o topo do Everest tão fácil, tão simples, tão barata e tão acessível quanto ir a pé até a esquina de casa. Usar toda esta determinação, disciplina e capacidade de organização para fazer algo que torne o mundo melhor – e então visitar o topo sem esforço algum, para comemorar.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 13/08/2017

Eu e o macaco falante

 

Volta e meia eu passo pelo macaco falante e lá está ele esfaqueando a própria perna, gemendo de dor e reclamando de como a vida é ruim para ele.

Então eu chego para o macaco falante e digo:

– Urko, para deixar de sentir dor, basta deixar de esfaquear a própria perna!

E o macaco falante responde contrariado:

– Quem você pensa que é para dizer o que eu devo ou não devo fazer?

Ou:

– Isso é a sua opinião! Você não pode querer impor sua opinião sobre os outros!

Ou:

– Isso é coisa coisa de quem odeia preto e pobre andando de avião!

Ou:

– Imposto é roubo!

E continua esfaqueando a própria perna.

No dia seguinte, lá está o macaco falante, mancando, com uma ferida infeccionada na perna, gemendo de dor.

Então eu digo:

– Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse!

E o macaco falante responde:

– Tá vendo?! Isso é culpa sua! Você botou mau olhado! 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 07/03/2017

Um programa de TV para concorrer com o BBB!

Tive uma idéia genial! Será um sucesso! Vou ficar rico! Vou lançar um programa de TV para concorrer com o BBB que vai estourar a boca do balão, roubar toda a audiência da Globo e me deixar milionário! Não tem pra mais ninguém, o programa vai se chamar PPP e será o maior sucesso da TV brasileira! 

PPP significa Programa Para Pensadores. Será um talk show com dicas de economia doméstica, poupança, empreendedorismo e investimento. Terá entrevistados de alto nível, gente de sucesso no mundo dos negócios e que ensinará como desenvolver a disciplina necessária para poupar dinheiro ao invés de gastar com bobagens e dará dicas de como tornar pequenas empresas melhor gerenciadas e mais lucrativas, além de comentar as oportunidades de investimento na Bolsa de Valores e como funciona o home broker (comércio de ações feito a partir de casa).

Para diversificar, teremos entrevistados que orientarão os telespectadores quanto à nutrição paleolítica, os exercícios de alta intensidade mais eficazes para o desenvolvimento muscular e o condicionamento cardiorrespiratório, as ervas que possuem estudos científicos que comprovam que possuem benefícios à saúde na forma de chás ou temperos e as técnicas de leitura e exercícios matemáticos que mais contribuem para a agilidade mental e a memorização a longo prazo. Sem esquecer, é claro, de um quadro interessantíssimo de divulgação de ciência e tecnologia, que ninguém é de ferro e um pouco de diversão sempre faz bem.

Era o programa que faltava na TV brasileira! Basta de falta de oportunidades de aprendizado do que é realmente útil para o nosso bolso, a nossa saúde e o nosso desenvolvimento intelectual! Não será nem necessário fazer propaganda! O povo vai comentar o programa na parada do ônibus, na fila do banco e nos corredores do supermercado:

– Menina, você viu que fantástica aquela dica de portfólio com ações do setor de transmissão de energia?

– Maravilhosa! Vou vender meu carro para converter tudo em ações do setor elétrico! Aquela planilha de custo de oportunidade de aquisição de um automóvel e seus custos de manutenção versus o custo de transporte terceirizado com aplicação do excedente no mercado mobiliário foi incrível! Vou anunciar o carro esta semana mesmo!

– Sério? E o que você vai fazer com com a sua garagem, que você acabou de ampliar?

– Vou implantar uma estufa aquapônica, querida! Um consórcio de produção de hortaliças e peixes herbívoros para produzir alimento de alta qualidade biológica, a um custo ínfimo, é uma oportunidade que não dá para deixar passar!

– Pois eu dou o maior apoio! A minha estufa aquapônica já está madura e a produção está excelente. Depois que passei a comer peixes toda a semana, aumentando minha ingestâo de ômega-3 natural, nunca mais tomei anti-inflamatórios e estou sentindo melhorias sensíveis na minha memória.

– E o seu Protocolo Tabata, você já está conseguindo fazer os oito sprints completos?

– Não, mas estou quase! Já consigo chegar no sétimo sprint! Faço duas vezes por semana, sempre lembrando que as fibras musculares tipo 1 consomem muito menos energia que as fibras 2a, 2b e 2x, portanto é necessário promover um stress miofibrilar profundo com depleção de glicogênio para promover o desenvolvimento destas fibras.

– Você tem toda razão. Está no caminho certo. Mas veja, querida, o gerente de conta chamou a sua ficha.

– Beijos, querida! Vou lá encerrar minha conta de poupança e transferir tudo para a conta de investimentos.

Sem dúvida alguma, o PPP será um sucesso total! Mal vejo a hora de começar as gravações! Alguém aí se candidata a ajudar a ler as milhares de cartas e e-mail que chegarão com dúvidas e sugestões de pauta? Certamente vou precisar de ajuda. A Globo que se cuide. O BBB está com as horas contadas. Um povo prafrentex como o brasileiro jamais vai deixar passar uma oportunidade tão boa!

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/01/2017

Eu não gosto de macacas de salto alto

Eu sou um macaco. Você é um macaco. Somos todos macacos. Nossa espécie é um macaco falante que há cerca de três milhões e setecentos mil anos atrás realizou uma interessante transição do quadrumanismo arborícola para o bipedismo terrestre. Sim, nós éramos quadrúmanos, como nosso primo mais próximo, o chimpanzé. Mas precisamos transformar duas de nossas mãos em pés para podermos manter o equilíbrio, percorrer grandes distâncias e carregar pesos consideráveis.

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Caminhar apoiado em mãos é algo muito instável, como podemos observar em nossos primos chimpanzés quando se deslocam eretos sobre as duas mãos traseiras. As necessidades de manter o equilíbrio e percorrer um grande território em busca de caça foram selecionando aqueles dentre nós com uma conformação corporal cada vez mais adequada para percorrer grandes distâncias e carregar o produto da caça e da coleta de volta para o local de acampamento do grupo tribal.

Ao longo da evolução, os corpos com maior eficiência para se manterem equilibrados na posição bípede foram sendo selecionados, nossas ossaturas e musculaturas se tornaram cada vez mais adaptadas para caminharmos eretos sobre os membros posteriores e podemos dizer que nossos braços posteriores se tornaram pernas e nossas mãos posteriores se tornaram pés. Pés que precisavam ter cada vez mais área de contato com o solo, tanto para manter o equilíbrio quanto para proporcionar tração.

Ora, se há duas coisas que são absolutamente prejudicadas com o uso de saltos altos são o equilíbrio e a tração. O salto alto  posiciona as articulações de modo antinatural, exige esforços também antinaturais da musculatura de todo o membro inferior e  modifica nosso centro de gravidade, o que prejudica nosso equilíbrio, e reduz a área de contato da planta do pé com o solo, o que reduz a tração. Trata-se de um aparato de propósito estético questionável que prejudica inquestionavelmente a função.

As macacas falantes podem achar seus saltos altos lindos e deslumbrantes, podem achar que eles “valorizam” suas pernas, mas a verdade é que este é um mero efeito de alongamento, que é o que é ilusoriamente interpretado por nosso cérebro da idade da pedra como belo. Porém, macacaquinhas queridas, vocês não precisam disso. Nós macacos falantes machos pertencemos à mesma espécie de vocês e apreciamos os corpos de nossas fêmeas como a natureza os fez.

Eu mesmo não gosto nem da periclitância, nem da estética do salto alto. Prefiro que vocês preservem a saúde de suas articulações e fiquem mais seguras e confortáveis usando saltos baixos no dia-a-dia, reservando o salto alto somente para raras ocasiões festivas, se tanto. Até porque, caríssimas símias, vocês ficam lindas até mesmo ou principalmente descalças, assim como a bela macaca da foto que ilustra este artigo. Tenham consciência disso.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/11/2016

A última estupidez do olavismo

Todo mundo com pelo menos dois neurônios funcionais sabe que o Olavo de Carvalho é um picareta que pastoreia um rebanho de otários acéfalos que rivalizam em capacidade crítica com os zumbis da seita da estrela vermelha, ou seja, nenhuma. Talvez por isso muita gente julgue esta turba ignara inofensiva, mas hoje eles se uniram ao PT no discurso do golpe e contrário ao impeachment. Não é divertido que o “mestre” do circo de horrores da filosofia brasileira esteja atiçando seus discípulos em defesa dos interesses de seu maior inimigo? Entenda como isso aconteceu.

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A ironia de Olavo de Carvalho ter dito isso é deliciosa.

Tudo começou quando o PT estava firme e forte no poder, com Dilma ainda com uma boa avaliação popular. Naquela época, para agitar uma cenoura na frente de seus burros, Olavão reforçou o discurso de que o impeachment não iria acontecer porque “o comunismo sempre ganha”. Sua turba de paranóicos idiotizados relinchava com prazer orgásmico toda vez que ele dizia que era necessária uma intervenção militar para deter o avanço do comunismo, pois o PT, o PMDB, o PSDB, o DEM, a CNBB, a OAB, a Globo, a FIESP, o STF, o TSE, o Obama, o Papa, o Super-Homem, o Batman, os Teletubbies e até o seu peixinho dourado eram perigosos cripto-comunistas a um passo de estabelecer a Nova Ordem Mundial do governo mundial gayzista gramsciano da ONU.

Enquanto o Olavão regurgitava reacionarismo para alimentar seus enteados intelectuais, e que Deus me perdoe por usar a palavra “intelectual” neste contexto, movimentos sociais bem organizados como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, com algum grau de articulação que nunca será bem explicado com os partidos de oposição, faziam um trabalho duro, contínuo e competente pró-impeachment. E em 13/03/2016 a maior manifestação popular da história do Brasil mudou os rumos da história.

Um pouco porque a situação do país já era falimentar, um tanto porque muita gente queria livrar a própria pele, a base aliada do governo ruiu, o impeachment foi viabilizado e depois de muitas chicanas finalmente concretizado.

O astrólogo tinha errado sua previsão.

Urgia inventar algum disparate para manter vivo o mito de que “Olavo tinha razão”, ainda que respirando por aparelhos.

E não é que a patacoada inventada superou toda e qualquer expectativa mesmo para os padrões pândegos com que Olavo usualmente debocha de sua tribo de botocudos lobotomizados? O filósofo do refrigerante feito com células de fetos abortados profetizou que o impeachment na verdade legitimava a presidência de Dilma, que simplesmente “não era presidente” e portanto podia ser enxotada com um simples “sai daí” dito por qualquer cidadão comum. E as suas mulas-sem-cabeça amestradas com estômagos de avestruz engoliram essa bomba.

A cereja do bolo, aliás, foi a orientação do guru para que os cidadãos comuns ingressassem na justiça comum contra o TSE para obrigar este a não reconhecer a presidência de Dilma porque a eleição teria sido fraudada devido a ter sido realizada uma “apuração secreta”, afinal, nas palavras do iluminado, “contagem eletrônica é uma coisa, apuração secreta é outra”. E teve até advogado que engoliu isso! Sério, esse pessoal tinha que perder o registro na OAB. Para que vocês tenham uma idéia, isso equivale a um soldado raso do exército (juiz de primeira instância) dar uma ordem para um almirante da marinha (ministro do TSE, que é outro poder) para que ele afundasse um navio sob sua guarda (crime de sabotagem e alta traição na área de competência do outro). (Valeu pelo exemplo, Roberto!)

Ao vomitar uma groselha dessas, Olavão mais uma vez delimita seu público entre os mais estúpidos dos asnos, o que infelizmente não é pouca gente. Esta massa ignara está zurrrando e latindo nas redes sociais contra o impeachment e dividindo um movimento que precisa ser mantido unido apesar de todas as diferenças entre os aliados de ocasião pelo menos até a cassação definitiva do mandato da guerrilheira, evitando a volta ao controle do Estado da quadrilha criminosa mais nefasta que este país já conheceu desde a redemocratização. Para não terem que reconhecer que o picareta não é infalível, as olavetes estão ardorosamente defendendo os interesses do PT, atacando o impeachment.

Nunca os supostos anti-comunistas defenderam tão entusiasticamente a volta da esquerda ao poder. Para nossa sorte, além de estúpidos, são incompetentes. E o inconseqüente mentor deste incrível exército de Brancaleone está precisando apelar para táticas desesperadas que reduzem o seu rebanho de antas aos mais incapazes.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 28/05/2016

A estupidez de proibir a estupidez

Vivemos em um mundo de estúpidos. Em um mundo de estúpidos, eu defendo radicalmente o direito de ser estúpido. É justo e é razoável. Afinal, não se pode legislar contra as tendências humanas e esperar que o resultado seja positivo. Portanto, como corolário óbvio do respeito à estupidez, é necessário proibir a estupidez de tentar proibir a estupidez.

Sorvete na testa

Eu estava aqui ouvindo ópera no Youtube quando ouvi o Fantástico berrando lá na sala que a marinha sei lá eu de onde tinha proibido um sujeito de se lançar ao mar “porque a embarcação dele seria insegura”. Ora, o cara tem todo o direito de se lançar ao mar com a porcaria da embarcação que ele bem entender. A vida é dele. Ele não está prejudicando nem ameaçando ninguém. Então, o problema é dele. Ninguém tem o direito de se meter. A marinha alega que o sujeito está cometendo uma estupidez, mas ela só aumenta os custos dele para ter um barco acompanhante, ou o obriga a agir de modo clandestino, e seus próprios gastos com fiscalização, sem produzir nenhum benefício. É a maldita estupidez de tentar proibir a estupidez.

Pouco depois a TV berrou de novo lá da sala que o STF proibiu a distribuição da fosfoetanolamina “porque ela pode fazer mal à saúde por não ter sido adequadamente testada”. Ora, nem vou entrar no mérito da estupidez que é alegar riscos a longo prazo para um paciente que tem uma doença cruel e fatal a curto ou médio prazo. A questão é outra. Já foi provado que a fosfoetanolamina não é tóxica nem interfere na quimioterapia. Então, qual o problema de liberar o consumo? Os médicos e o STF alegam que é estupidez usar uma substância que não foi adequadamente testada, mas ninguém será prejudicado pela substância e muitas pessoas que estão tendo melhoras de uma doença fatal e que causa muito sofrimento assistirão desesperadas a doença voltar a se desenvolver e matá-las. É a maldita estupidez de tentar proibir a estupidez.

Finalmente eu pulei da ópera para o TED Talks e assisti a palestra de uma prostituta fazendo uma excelente avaliação do resultado de todas as políticas que costumam ser usadas para lidar com a prostituição: proibição total, proibição da oferta do serviço, proibição da procura do serviço, proibição de atividades do entorno do serviço e legalização com normatização restritiva, todas elas com resultados negativos. Ora, tudo o que as prostitutas do mundo inteiro querem é descriminalização e possibilidade de exercício da profissão como um vendedor comum. Mas ninguém as ouve. Alegam todo tipo de teoria absurda ou princípios que não são relevantes para nenhum dos envolvidos e continuam implantando políticas que pioram a situação e promovem sofrimento. Mas qual o problema de atender as demandas delas? Quem não se prostitui nem paga os serviços de quem se prostitui só tem a ganhar com a regulamentação da profissão, devido à redução de insegurança, violência e gastos públicos. É a maldita estupidez de tentar proibir a estupidez.

Estou com uma dúvida terrível se eu tomei uma boa decisão reativando o blog. Não deixa de ser uma estupidez voltar a escrever sobre coisas que me incomodam sabendo que isso não vai mudar o mundo. Talvez alguma alma caridosa queira me poupar deste sofrimento me proibindo de escrever…

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/05/2016

Um mundo de Fábios Robertos

Você é marceneiro. Trabalha com um serrote. Um belo dia eu caio de pára-quedas a seu lado e digo: “Meu amigo, eu não sou marceneiro, mas descobri que existe uma coisa chamada serra circular. Ela permite que você trabalhe muito mais rápido, com muito maior precisão de corte e com muito menos esforço. Eu aprendi a usar este equipamento e gostaria de ensinar você a usá-lo também, pois será muito útil para você e para seus clientes. Estou disposto a fazer isso de graça. O que você me diz?” 

serrote

Acredite se quiser, amigo leitor, isso é o que eu estou dizendo há um mês para diversos profissionais – de outra área, não da marcenaria – e todos estão respondendo que eles aprenderam a trabalhar com serrote, logo, a minha “serra circular” não funciona. “Lógica” interessante, não? 

Além disso, quando eu insisto dizendo que sei que eles aprenderam a trabalhar com serrote, mas que o mundo evoluiu e agora existe a serra circular, um equipamento novo que funciona muito melhor que o serrote, eles se mostram ofendidos e afirmam que não é verdade. Eu mostro um móvel que construí, eu mostro os móveis que outros marceneiros construíram, eu mostro o manual do usuário da serra circular, mas eles mal olham e já torcem o nariz. Impossível não lembrar do Fábio Roberto.

A situação não é, porém, perfeitamente análoga. No caso do marceneiro, se ele não quiser trabalhar com a serra circular, o pior que pode acontecer é construir um móvel torto ou com um acabamento inferior ao que poderia ser feito com um equipamento mais adequado. Não há sofrimento, risco de mutilação ou morte para o cliente do marceneiro que insiste em usar o serrote. Pa bo ente me pala bas. 

E aqui estou eu, preocupadíssimo com os clientes destes “marceneiros”, quebrando a cabeça, tentando convencer alguém da marcenaria de que eu não estou louco, que o velho serrote já está obsoleto e que a tal da serra circular não somente funciona muito bem como é o equipamento mais adequado para os objetivos da marcenaria. Absurdamente, eles só querem saber do serrote. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 19/08/2015 

O planeta dos macacos não é uma metáfora

A série original de O Planeta dos Macacos é talvez o filme de Hollywood que nos brindou com as melhores metáforas de análise da psiquê humana e das mazelas sociais e políticas de nosso planeta. As personalidades dos macacos dos filmes são na verdade arquétipos humanos muito refinados. E, lamento dizer, o General Urko é o representante supremo da mentalidade predominante na Terra. 

urko
“Humano bom é humano morto!” – frase mais famosa do General Urko.

No filme original, o nome deste personagem era Ursus, porém, como ele é um macaco e como “Ursus” parece com “urso”, na tradução o nome dele foi mudado para Urko. O que corrobora a minha tese do parágrafo de abertura. 

Se o filme original continha excelentes metáforas, entretanto, a realidade é um tanto mais cruel que o filme. Você sabe, #SomosTodosMacacos. Isso não é uma metáfora. Somos Todos Macacos mesmo. Macacos falantes, mas macacos. Literalmente. Somos todos macacos e somos a espécie dominante do planeta. Então, este é o planeta dos macacos. Também literalmente. 

Assim sendo, como podemos ignorar nossa própria natureza biológica em praticamente todos os assuntos da mais alta relevância psicológica, social, política, econômica e sanitária? Bem, você já sabe: é mais uma urkice entre tantas outras. De agora em diante provavelmente você vai ler esta expressão mais vezes aqui no Pensar Não Dói. 

Minha tese é que a humanidade não tem jeito enquanto não jogar na lata do lixo da história todas as ditas “humanidades”, da psicologia à política, da sociologia à economia, de Adam Smith a Freud, de Marx a Focault, de Rosseau a Maquiavel, de Olavão à grande pensadora Valesca Popozuda, e construir tudo de novo com o alicerce solidamente fundamentado na biologia evolutiva, na ecologia, na etologia, na primatologia e na ética, em Darwin, em Popper e em Kant. Os macacos iluministas modernos provavelmente concordarão. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 12/07/2015 

Por que eu decidi continuar escrevendo

Por dois motivos: primeiro, porque eu fiz amigos escrevendo e novas amizades são sempre bem vindas; segundo, porque sempre existe a possibilidade de alguém que decida pensar a sério sobre o que eu escrevo abra os olhos, concordando ou discordando de mim. 

Brinde entre amigos 525x350

Eu já tive ambições bem maiores. Já pensei em usar o blog para articular um movimento social, para construir um partido iluminista, para lançar livros a partir dos debates aqui desenvolvidos… Mas só muito recentemente eu me dei conta do quão profunda é a realidade de viver no Planeta dos Macacos. Eu preciso de um tempo para pensar e repensar em alguma macaquice mais realista à qual dedicar meus esforços. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 02/06/2015 

Por que eu tenho escrito pouco

Eu andava com uma certa dificuldade de escrever, mas eu não sabia bem por quê… Até que na última semana eu assisti diversos debates do Bill Nye, do Richard Dawkins, do Christopher Hitchens e de outros cientistas e céticos contra gente incapaz de mudar sua visão de mundo com base nas evidências, ou que as distorce e tenta meter em um molde como um alfaiate que tenta esticar o braço e cortar a perna do freguês quando a roupa não serve. 

Burros

Percebam que eu não estou falando sobre religiões, apesar de ter citado três exemplos nesta área, mas sobre um modo de pensamento: aquele que impede a pessoa de admitir evidências em contrário a suas crenças, porque ela não está interessada em encontrar a verdade e sim em se manter convicta de que aquilo em que ela já acredita é a verdade – e de preferência tentar convencer mais gente disso. 

É o caso, por exemplo, de quem ainda acredita que o atual governo federal é honesto ou que está fazendo bem ao país, apesar de todas as evidências em contrário. Discutir com estas pessoas costuma ser tão produtivo quanto discutir com um criacionista da Terra jovem que alega que a contagem das idades dos personagens da Bíblia é mais precisa para determinar a idade da Terra do que as ciências físicas. Chega uma hora em que simplesmente se percebe que é estupidez argumentar racionalmente (ou de qualquer modo) com quem pensa assim, qualquer que seja o assunto.

Um dia desses eu estava discutindo sobre o desarmamento com uma pessoa que vomitou o velho chavão de que “quem tem arma ou é polícia ou é bandido”. Eu parei… Olhei bem… Respirei fundo… Perguntei: “você realmente acha que o cidadão honesto que tem uma arma para defender sua própria vida, a de sua família e a sua propriedade contra uma agressão injusta em um mundo cada dia mais dominado pela violência e pelo crime é também um criminoso?”. E a resposta dela foi: “não existe cidadão honesto armado, arma é só para polícia ou para bandido”.

Bem, eu interrompi a conversa ali e fui embora. Não pretendo voltar a falar com aquela pessoa.

Noutra ocasião uma amiga minha postou uma propaganda de uma picaretagem chamada “reflexologia”, segundo a qual existe um mapa do corpo inteiro na sola do pé e fazer uma massagenzinha no ponto específico do pé supostamente correspondente a um determinado órgão promove benefícios à saúde ou mesmo cura doenças que estejam prejudicando aquele órgão. Eu avisei que era picaretagem, ela teve um ataque de estupidez dizendo que eu a tinha ofendido, eu mostrei evidências de que aquilo era picaretagem, ela disse que não queria saber e acabou me bloqueando.

É uma pena, era uma boa amiga, mas eu não vou pedir desculpas por alertá-la sobre uma picaretagem óbvia. 

Quando eu tentei explicar minha dieta e os fundamentos dela a uma pessoa próxima da minha família, ela ridicularizou o que eu estava explicando, disse que não era um troglodita para seguir uma dieta paleolítica, que não vivia nas cavernas, que preferia comer e beber o que gosta e se tiver algum problema ir a um médico, porque é para isso que servem os avanços da medicina. Eu disse que não é assim que funciona, que há danos que são irreversíveis, que o velho ditado que diz que “prevenir é melhor que remediar” é bastante sábio e que há fortes evidências em favor da minha dieta. Ela respondeu que todo mundo vai morrer um dia, então prefere viver bem até lá.

Ela acaba de passar por uma cirurgia, remover uma parte do intestino e garantir que terá seqüelas pelo resto da vida.

Enfim, eu poderia passar horas citando exemplos divertidos ou trágicos de gente que não é capaz de observar evidências, raciocinar com uma lógica razoável e mudar de opinião com base nisso. O que me incomoda, como blogueiro, é que, se na vida privada ainda é razoavelmente possível evitar uma exposição muito intensa a isso, na internet é absolutamente impossível. Sempre tem um boi corneta que ou não consegue ou não quer juntar dois e dois e obter quatro, e isso a cada dia mais me torra a paciência.

Mas o pior mesmo é que todas as evidências são de que isso continuará assim por toda minha vida.

Os leitores e comentaristas do Pensar Não Dói, felizmente, me brindam com uma ilha de sanidade no meio de um mar de comportamentos deste tipo na internet. Mas não deixa de ter conseqüências saber que, para quem é capaz de avaliar evidências de modo lógico e racional, muito do que eu escrevo é chover no molhado, enquanto que, para quem não é capaz, é inútil. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/05/2015