Um critério correto para deportações

Ainda é cedo para emitir qualquer opinião sólida sobre Donald Trump, mas é possível apontar um ou outro ponto nos quais ele está correto. Deportar imigrantes ilegais que cometeram crimes nos EUA é sem dúvida um destes. 

trump-deportation

Não quero entrar no mérito de outros pontos ou mesmo de outras deportações. Quero focar exclusivamente a deportação de criminosos. Eu não vejo como me opor a uma medida destas. Se eu pudesse identificar cada imigrante que cometeu crime no Brasil e deportá-los, eu faria o mesmo. Por que haveria querer manter em meu país alguém que não veio para cá para somar e sim para subtrair? Alguém que pode cometer violência contra mim, contra minha família ou contra meus amigos se ficasse livre e por quem eu teria que trabalhar para sustentar se fosse preso? Isso não faz o menor sentido. Neste aspecto, Donald Trump e seus apoiadores estão certos. Neste aspecto. Foco.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 13/11/2016

As eleições nos EUA refletem uma tendência mundial preocupante

Não me importa que tenha vencido o Donald Trump. Não me importa que tenha perdido a Hillary Clinton. Não me importa que quem tenha votado nele ou nela tenha sido esta ou aquela fatia do eleitorado. O que eu percebi nestas eleições estadunidenses foi o embrutecimento dos partidos, dos eleitores, da imprensa, da política em geral, não só no contexto dos EUA mas em todo o mundo.

burro-e-elefante

Em primeiro lugar, a disputa pela candidatura no Partido Democrata foi um sufoco para Hillary. E quem foi que lhe deu aquele sufoco? Bernie Sanders, um socialista declarado. E o mais incrível é que as previsões eram de que Sanders teria mais chance do que Hillary de vencer Trump. Considerando o quanto todos sabemos a respeito do socialismo – um regime que em qualquer de suas versões só produziu degeneração moral, miséria econômica e autoritarismo político onde quer que tenha assumido o controle de um país – é simplesmente aterrador que os EUA tenham corrido o risco de ter um socialista na presidência da República.

Em segundo lugar, a disputa pela candidatura no Partido Republicano foi baseada na desconstrução dos adversários de Trump, numa prévia macabra do que seria a campanha eleitoral, e isso foi bem sucedido dentro do próprio partido, cujos filiados preferiram a política da desconstrução desde a fase da escolha de seu candidato, demonstrando um acirramento da intolerância no coração do partido.

Em terceiro lugar, a disputa pela presidência da República foi um show de horrores, com direito a baixaria explícita, ataques pessoais, desconstrução mútua, propostas impopulares e foco muito mais na promoção da rejeição do adversário do que em um debate que nem de longe se poderia chamar de “político” em um país minimamente civilizado – e se trata do país mais poderoso do mundo, tanto na política quanto na economia e também do ponto de vista bélico.

Em quarto lugar, a imprensa se mostrou parcial, “errou” totalmente em todas as análises e nos deixa sem saber se este erro se trata principalmente de incompetência (por não saber o que estava realmente acontecendo) ou principalmente de corrupção (por saber o que estava realmente acontecendo e dizer o contrário). Qual das duas hipóteses é mais assustadora é difícil de dizer com precisão, mas eu torço muito para que tenha sido predominantemente incompetência, embora sem nenhuma convicção.

Em quinto lugar, a preferência popular foi definida contra alguém muito mais do que a favor de qualquer coisa. Não quero discutir exemplos, porque isso tiraria o foco do que eu estou dizendo, mas sublinho que isso vale tanto no sentido de que muita gente dos dois lados votou muito mais contra um candidato do que a favor do outro e muita gente dos dois lados votou contra determinados grupos sociais ao invés de a favor de propostas justas e construtivas.

Em sexto lugar, estas eleições mostraram mais uma vez que a polarização da sociedade funciona eleitoralmente cada vez melhor. Tudo virou nós contra eles. Trump passou a campanha atacando os imigrantes. A culpa de tudo é dos outros, que tomam nossos empregos e nos trazem criminalidade. Hillary, derrotada, no seu primeiro pronunciamento tratou de atacar um suposto machismo. A culpa de tudo é dos outros, que são preconceituosos e dificultam a ascensão das mulheres. Perceba: qualquer semelhança entre esta dinâmica e a campanha de xenofobia e intolerância que levou ao Brexit não é mera coincidência. É o mesmo fenômeno, trocando os mexicanos pelos poloneses e os cartéis do narcotráfico pelos extremistas islâmicos.

Em sétimo lugar, as consequências internacionais já no primeiro dia são de aprofundamento dos conflitos. A extrema-direita na França adorou a vitória da xenofobia nos EUA. A esquerda em Cuba protagonizou um espetáculo ridículo de mobilização de tropas “para enfrentar ações do inimigo”, repetindo o nome e o método da operação “Bastião” executada quando Ronald Reagan foi eleito. O governo corrupto e violento do russo Vladimir Putin e a ditadura comunista do chinês Xi Jinping acenaram com felicitações e desejo de colaboração. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu responsável por uma política linha-dura e conflitiva no Oriente Médio, declarou-se um verdadeiro amigo dos EUA e ansioso para trabalhar em conjunto para ampliar a segurança na região. Ali Khamenei, aiatolá no Irã, disse que Trump não venceu por ter sido populista, mas por ter dito a verdade. Todos os autoritários do mundo se regozijaram pela vitória de um candidato xenófobo, misógino, boquirroto e fanfarrão nos EUA.

Entre todas as reações que vi, de diversos outros países, somente a chanceler alemã Angela Merkel deixou claro que a cooperação entre seu país e os EUA depende do respeito aos Direitos Humanos sem qualquer discriminação de raça, sexo ou religião. Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, significativamente sublinhou a importância do Estado de Direito nas relações entre os países. As demais reações foram predominantemente protocolares.

Eu poderia continuar longamente citando indícios e exemplos do embrutecimento generalizado refletido por estas eleições nos EUA e suas repercussões mundo afora, mas a própria confecção de uma lista mais extensa do que esta no fundo também seria um exercício de embrutecimento. Os sinais estão claros o suficiente: salvo alguma reviravolta espetacular e imprevisível, estamos trilhando um caminho de acirramento de posições políticas, sociais e econômicas extremistas, de aprofundamento de conflitos e de enfraquecimento do Estado de Direito, tendo como pano de fundo o desencanto com a política devido à insuportável corrupção e aos ultrajantes escárnios da classe política para com o senso de dignidade, a qualidade de vida e as esperanças do cidadão comum, que se embrutece cada vez mais, caindo na armadilha de uma espiral de intolerância crescente que retroalimenta e agrava os problemas que o exasperam.

As eleições presidenciais americanas de 2016 são apenas o reflexo deste conjunto de fenômenos. O que é assustador é que isso tenha chegado ao ponto de contaminar os dois partidos que dominam a política do país mais poderoso e influente do mundo, que podem deixar de representar valores republicanos e democráticos (sem trocadilho com o nome dos partidos) e capitanear o mundo inteiro a uma era obscurantista numa escala sem precedentes.

Se em um passado não muito remoto o século XVIII nos trouxe os incríveis avanços do iluminismo e ficou conhecido como “O Século das Luzes”, hoje precisamos fazer um imenso esforço para que o século XXI não nos traga um panorama político, econômico e social que fique conhecido como “A Segunda Idade das Trevas”.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 10/11/2016

Um único parágrafo sobre o Brexit

O Brexit é tão bom, mas tão bom, que, quando o resultado do plebiscito foi anunciado, Boris Johnson, o prefeito de Londres, ícone da campanha vitoriosa pelo Brexit, desistiu de concorrer ao cargo de primeiro-ministro. Pois hoje, para completar o fiasco, Nigel Farade, o agressivo líder do Partido pela Independência do Reino Unido, totalmente pró-Brexit, abandonou o cargo. Os ratos furaram o fundo do casco e agora estão abandonando o navio. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/07/2016

Brexit: quando a xenofobia causa o caos

Não há outro assunto no meu Facebook nos últimos dias, então eu resolvi escrever um segundo artigo sobre o Brexit, fazendo algumas constatações e algumas previsões. A primeira delas: não foi a luta pela liberdade que produziu o resultado do plebiscito do Brexit, foi predominantemente xenofobia

Vermes Polacos

A frase acima – algo como “vamos sair da União Européia – chega de vermes poloneses” – foi afixada próxima a uma escola em Cambridge. No mesmo dia, cartazes com a inscrição “go home polish scum” (voltem para casa, escumalha polonesa) foram afixados na fachada de um centro cultural polonês. E esse tipo de coisa tem acontecido em diversos locais pelo Reino Unido nos últimos dias, demonstrando claramente que a xenofobia foi um dos principais fatores que levou ao resultado do plebiscito do Brexit, provavelmente o principal.

Isso está claro para todo mundo, menos para alguns auto-proclamados “liberais” que estão dizendo basicamente duas coisas: primeiro, que a União Européia é um projeto fracassado, de matiz socialista, que sufoca a soberania dos Estados-Nações; segundo, que o Brexit foi a melhor decisão possível para defender a liberdade dos indivíduos e a economia do Reino Unido. Esse pessoal está completamente errado em ambas as afirmações.

A União Européia têm defeitos, é claro, como toda construção humana. Em especial, a União Européia padece de extrema burocracia, excesso de regulamentação e falta de transparência. São problemas graves e ninguém disse o contrário, mas são problemas solucionáveis através do mesmo processo que levou à criação da União Européia: diálogo, negociação e foco nos objetivos de garantir a paz, aumentar a liberdade das pessoas e fortalecer as economias do continente.

Quanto ao projeto supostamente fracassado e de matiz socialista, temos que lembrar que, na história do socialismo, todos os países que adotaram essa ideologia maldita sofreram êxodo populacional, muitos deles tendo fechado suas fronteiras para impedir que sua população fugisse para lugares mais prósperos. A União Européia, entretanto, tem enfrentado o problema oposto: um excesso de imigração em busca de um ambiente econômico mais próspero e de maior liberdade individual. O próprio perfil migratório da União Européia desmente seu pretenso matiz socialista.

Quanto ao Brexit ser uma ação em defesa da liberdade, é pura e simplesmente mentira. As pessoas deixarão de ter a liberdade migratória de que hoje desfrutam e passarão a enfrentar barreiras. As mercadorias deixarão de ter isenção de taxas alfandegárias e passarão a enfrentar impostos de exportação e de importação nos dois sentidos entre o Reino Unido e a União Européia. E todos os acordos comerciais que o Reino Unido tentar fazer com qualquer país da União Européia terão de qualquer modo que ser aprovados pelas regras da União Européia, o que significa que haverá apenas perdas e não ganhos de liberdade.

Mas isso não é tudo. Os pretensos “liberais” que são contrários ao acordo de cooperação voluntária chamado de União Européia dizem que o Brexit é a melhor escolha possível devido a seus efeitos saudáveis na economia do Reino Unido, que se tornará “mais livre e mais forte”. Bem, isso é o que eles dizem. O que os mercados dizem é que a bolsa de valores despencou 12,5% em um único dia e teve outras quedas subseqüentes, que a libra esterlina despencou e está em seu valor mais baixo perante o dólar nos últimos trinta e um anos, que a previsão do PIB do Reino Unido para este ano já caiu 1,5% e que os mercados futuros desabaram e vão continuar caindo, um caos tão dramático que duas das três maiores agências internacionais classificadoras de risco rebaixaram a nota do Reino Unido – a Standard & Poor’s em dois degraus de uma só vez e a Ficht em um degrau. Será mesmo que estes supostos “liberais” sabem melhor que o mercado o que é melhor para o mercado?

Tem mais. A Escócia fez um plebiscito dois anos atrás para definir se ficaria no Reino Unido ou se se tornaria independente. A União Européia disse que, se a Escócia saísse do Reino Unido, teria que abandonar também a União Européia. Então, para permanecer na União Européia, a Escócia abriu mão de sua independência perante o Reino Unido. No plebiscito da semana passada, a Escócia foi coerente com sua posição de dois anos atrás: quase dois terços dos votos válidos dos escoceses confirmou a intenção de permanecer na União Européia. Entretanto, o resultado global do plebiscito no Reino Unido obriga a Escócia a se retirar da União Européia contra sua vontade, ironicamente em função de ter aberto mão de sua independência perante o Reino Unido para poder permanecer na União Européia! Não surpreendentemente, a Escócia já anunciou que vai tentar vetar o resultado do plebiscito e que se não o conseguir chamará um novo plebiscito sobre a independência, pois “não será arrancada da União Européia contra sua vontade”. O Brexit significará, portanto, não a saída do Reino Unido da União Européia, mas a dissolução do Reino Unido.

E tem ainda mais. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein já anunciou que pedirá um plebiscito para reunificar o país com a Irlanda, que também pertence à União Européia. Talvez a reunificação das Irlandas seja o único efeito positivo do Brexit, ao custo da dissolução do Reino Unido.

Isso sem nem entrar muito em detalhes sobre o nível do pessoal da campanha pelo Brexit. Clique no link e assista Nigel Farage, líder do UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), cometer uma inominável série de disparates e ofensas contra Herman van Rompuy, então presidente da União Europeia (2009 – 2014), e contra a Bégica inteira, apenas porque é o país de origem deste. O vídeo está no YouTube e tem menos de um minuto e meio.

Por tudo isso eu não estranho nem um pouco que, em apenas três dias, o parlamento britânico já tenha recebido mais de três milhões e trezentas mil assinaturas solicitando um novo plebiscito. Simplesmente a população britânica não tinha idéia da real importância e das conseqüências daquilo que estava votando. Muitos foram enganados com as alegações fantasiosas de “uma prosperidade econômica inimaginável” caso ocorresse a saída da União Européia. Outros tantos ou ainda mais foram instigados a votar pela saída tendo insuflados sentimentos xenófobos comuns em épocas de crise.

O outro, o desconhecido, o estranho sempre foi um bom bode expiatório para todo fanático cuja ideologia se beneficia do acirramento de ânimos e do ataque a uma vítima indefesa e conveniente. O imigrante é sempre o melhor dos bodes expiatórios, porque ele tem aparência diferente, hábitos diferentes e em geral uma barreira linguística que impede ou ao menos dificulta muito que ele se torne conhecido e as diferenças de sua cultura sejam compreendidas.

Finalmente, eu me arrisco a fazer duas previsões.

A primeira é que não haverá um Brexit. O choque foi tão forte, os prejuízos foram tão grandes e o clima de hostilidade que a decisão xenófoba provocou em toda a Europa foram tão intensos que muito provavelmente o Reino Unido vai dar um jeito de fazer alguma gambiarra para permanecer na União Européia. O atual primeiro-ministro, que chamou o plebiscito apesar de querer permanecer na União Européia, já anunciou que deixará o cargo até outubro e que não será ele quem encaminhará a comunicação oficial à União Européia solicitando o desligamento do Reino Unido. O maior defensor do Brexit dentro de seu próprio partido já disse que não tem pressa em sair da União Européia – uma afirmação canalha que demonstra claramente que percebeu o tamanho da enrascada em que meteu o país e que está ganhando tempo para arranjar alguma saída da saída.

A segunda é que a União Européia se fortalecerá. A reação de Alemanha, França e Itália foi de irritação e impaciência com o Brexit, exigindo que o Reino Unido saia de uma vez e alertando que não haverá negociações formais ou informais enquanto não houver a solicitação formal de saída do Reino Unido. Ou seja, não há espaço para mimimi e chorumelas, ninguém vai aliviar a barra e quem quiser abandonar o navio terá que assumir sozinho a responsabilidade por todas as suas decisões, não importa quem seja o retirante. É uma decisão dura, digna e responsável, que valoriza extremamente o projeto europeu e que pelo tom com que está sendo transmitida firma uma posição bem clara sobre a xenofobia: não é bem-vinda.

Eu posso errar, é claro. Não me dediquei a ler de modo muito profundo sobre o assunto, tomei por base os dados mais amplamente disponíveis e fiz uma avaliação baseada no que é mais razoável fazer para o bem de todos os envolvidos – o que não costuma ser o forte do macaco falante, como o próprio resultado do plebiscito mostra. Mas acho que há uma grande chance de eu vir a acertar as duas previsões.

Será divertido acompanhar a política européia nos próximos meses.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 27/06/2016

Adendo a 16/11/2016: um artigo que mostra que eu estava certo quanto ao Brexit ser motivado por xenofobia.

O Ocidente após o Brexit

O assunto do momento é o “Brexit”, abreviatura de Britanic exit, a saída do Reino Unido da União Européia. Eu não havia tocado neste assunto antes porque jamais imaginei que a Inglaterra cometesse uma burrice deste tamanho. Gibraltar, Escócia, Irlanda do Norte e a região de Londres votaram pela permanência. O resto da Inglaterra e o País de Gales votaram pela saída e deflagraram uma crise que poderá modificar radicalmente tanto a União Européia quanto o próprio Reino Unido.

Brexit

A primeira-ministra da Escócia já deixou claro que, com 62% de votos pela permanência na União Européia, “a Escócia se vê como parte da União Européia e não aceita ser retirada do bloco contra sua vontade”. Um plebiscito sobre a independência da Escócia perante o Reino Unido já está sendo pensado. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein, antigamente conhecido como o braço político do IRA, anunciou que pretende lançar um plebiscito de reunificação das duas Irlandas! Quanto a Gibraltar, nada menos que 95% da população votou pela permanência. O quadro geral é de uma possível desagregação do próprio Reino Unido, algo impensável até anteontem.

Os mercados deixaram sua posição inequívoca: a libra esterlina despencou perante o dólar, as bolsas de valores do mundo inteiro fecharam em queda e os operadores das bolsas deram declarações dizendo que felizmente é sexta-feira, porque as quedas seriam muito maiores se fosse um início de semana. Os mercados futuros caíram no mundo inteiro, da Ásia às Américas.

O Japão está extremamente preocupado com as conseqüências econômicas do Brexit, pois muitas empresas japonesas têm a Inglaterra como porta de entrada para o mercado europeu e a saída da Inglaterra da União Européia significará uma alteração significativa nas tarifas sobre os produtos japoneses na Europa. É provável que indústrias japonesas migrem para outros países da Europa. A Ucrânia já anunciou que o Brexit alterará suas relações com a União Européia e possivelmente a isenção dos vistos será adiada. A Espanha já propôs uma partilha de soberania sobre Gibraltar, para que a península não seja praticamente transformada em uma ilha. A Itália já anunciou que quer sediar a Agência Européia de Medicamentos, atualmente sediada em Londres. E até as Ilhas Malvinas, ou Falklands, serão afetadas com o aumento das tarifas de suas exportações para a União Européia.

Mas estas estão longe de ser as piores conseqüências.

O pior de tudo é o precedente político. Os britânicos, que nunca se integraram completamente à União Européia, tendo mantido moeda própria e ficado de fora do Espaço Shengen, provocaram agora o início de uma onda de questionamento da União Européia que pode resultar em diversos plebiscitos do mesmo tipo, na saída de outros membros e na completa descaracterização do bloco, talvez sua inviabilidade, justamente no momento em que uma crise de refugiados do Oriente Médio, entre os quais se calcula haver mais de cinco mil terroristas infiltrados, traz os maiores desafios para a segurança dos cidadãos e para a economia de todo o continente Europeu. O dano político que o processo agora iniciado pode trazer para o que chamamos de Ocidente tem potencial para ser o maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Para quem ainda não entendeu: pode ser que sim, pode ser que não, mas este episódio tem o potencial de ser o marco inicial da redefinição de tudo o que conhecemos em termos de geopolítica e talvez até mesmo da própria identidade da civilização ocidental. Nunca desde o século XVIII o mundo precisou tanto de Enlightenment (Esclarecimento, Iluminismo).

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/06/2016

Atualização a 25/06/2016:

Eu não acho que esta tenha sido uma batalha entre direita e esquerda. Esta foi uma batalha entre os dois times do embrutecimento (a direita e a esquerda) e o time da sensibilidade e da razoabilidade (o centro iluminista).

A esquerda queria ficar pelos motivos errados. A direita queria sair pelos motivos errados. E a atitude certa a tomar, que é a revisão dos problemas que estão levando os membros da União Européia a querer abandonar o acordo – porque estão descontentes – não está sendo nem sequer cogitada.

Isso é ridículo: a União Européia foi um acordo negociado longamente e com muito diálogo… E agora tudo o que está sendo proposto é “aderir ou sair”, sem negociação e sem diálogo para resolver os problemas do bloco…

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/06/2016

Quem lucra com as execuções do Hamas?

Israel estava perdendo o apoio do mundo inteiro por causa das inúmeras mortes de inocentes causadas por suas operações militares na Faixa de Gaza. Então, muito convenientemente,  apareceram os vídeos do Hamas executando publicamente diversos palestinos por suposta colaboração com Israel. 

Hamas executa 18 palestinos por colaborar com Israel

Só eu acho estranho demais que, quando o mundo inteiro estava retirando o apoio a seu inimigo, o Hamas resolva dar uma demonstração teatral de intolerância e barbárie que óbvia e previsivelmente supera em muito o nível de rejeição de todas as mortes de civis de que ele mesmo acusa Israel, atraindo novamente para si o ódio de todo o planeta? 

Se eu fosse Benjamin Netanyahu, a estas horas estaria pulando de alegria, batendo palmas e dando vivas ao Hamas, pelo incrível favor prestado. De um momento para o outro, todo o mundo deixou de comentar as mortes de crianças e outros inocentes devido aos bombardeios de Israel e passou a condenar furiosamente as execuções promovidas pelo Hamas. 

A conveniência do momento político, dos métodos brutais e da justificativa das execuções é tão grande, mas tão grande, mas tão grande, que eu começo a pensar se os extremistas do Hamas não são um bando de palermas raivosos financiados por extremistas israelenses muito mais espertos e maquiavélicos. 

Que sorte que eu não tenho como investigar a hipótese. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/08/2014. 

Legitimidade

No artigo anterior eu escrevi esta frase para comparar as ações do Estado de Israel e as ações da organização terrorista Hamas: “Não se trata de proporcionalidade, mas de legitimidade.” Houve quem me criticasse por “defender” Israel. Estão equivocados: eu defendi a legitimidade. 

É legítimo que Israel, dispondo de alternativas tecnológicas e de recursos humanos e materiais abundantes, atire mísseis em escolas e hospitais, ou que destrua a única usina elétrica da região, numa verdadeira ação de terrorismo de Estado, colocando a vida e o bem estar de toda a população palestina em risco? Não, não é legítimo. 

Para quem não lembra ou não sabe, eu já escrevi sobre o que eu acho que Israel deve fazer para pacificar a região definitivamente. Clique no link abaixo e leia: 

Como Israel pode resolver o conflito com a Palestina

Utopia? Óbvio.

Qualquer solução razoável é utópica no Planeta dos Macacos. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 04/08/2014 

Quando a diplomacia é um agente do mal

Poucas coisas me soam mais estúpidas ou mal intencionadas do que a exigência de que o Estado de Israel use diplomacia para lidar com a organização terrorista Hamas (“Movimento de Resistência Islâmica”). 

Míssil palestino é destruído no ar por sistema de defesa israelense.
Míssil palestino é destruído no ar por sistema de defesa israelense.

O que quer o Estado de Israel? Deixar de sofrer atentados aleatórios contra a população civil. 

O que quer o Hamas? A aniquilação do Estado de Israel, a morte de todos os malditos judeus e a implantação da Sharia não somente em Gaza mas em toda a Palestina Histórica, em nome de Allah, o misericordioso. 

A assimetria destas intenções torna pornográfica a exigência de que o Estado de Israel use diplomacia para lidar com o Hamas. 

O simples fato de sugerir tal aberração já constitui uma ofensa a Israel, porque confere legitimidade aos terroristas que diariamente cometem dezenas de tentativas de homicídio aleatórias contra o povo israelense. 

“Ah, mas o conflito é “desproporcional”, porque Israel está matando “um número excessivo” de mulheres e crianças palestinas”, dizem. 

Como é que é? Sério que estão usando um argumento numérico de contagem de vítimas para classificar as ações de Israel? 

Então os partidários deste argumento indecente respondam aí: quantas mulheres e crianças palestinas vocês autorizam Israel a matar por dia para que o conflito se torne “proporcional”? 

Ou talvez vocês prefiram que Israel intercepte menos foguetes do Hamas, para aumentar o número de civis israelenses mortos e assim justificar um número maior de mortes entre os civis palestinos? 

Não se trata de proporcionalidade, mas de legitimidade. 

De um lado, há um grupo terrorista que armazena armamento e posiciona dispositivos lança-mísseis dentro de creches, escolas, hospitais, mesquitas e bairros residenciais e ameaça de morte os civis que desejam fugir das proximidades destes locais – porque o Hamas quer que eles sejam vitimados para poder promover a guerra de propaganda contra o infiel a ser aniquilado, não importa o preço. 

Do outro lado, há um Estado Nacional que tem que se defender diariamente de dezenas de mísseis lançados com o objetivo de assassinar e mutilar aleatoriamente seus cidadãos e provocar medo, pânico, terror. 

Clamar por diplomacia nestas condições é uma perversão. É conferir legitimidade aos terroristas e a seus métodos, ao mesmo tempo que condena a vítima do terrorismo a ceder às exigências de seus algozes fundamentalistas – que nunca ficarão satisfeitos, porque seu objetivo insano é aniquilar o Estado de Israel inteiro. 

“Ah, mas o Estado de Israel também não tem legitimidade, porque foi construído sobre o lar dos palestinos e blá-blá-blá”, dizem.  

Certo, certo… Então os que pensam assim tenham coragem e questionem na ONU a própria existência do Estado de Israel. 

Ou vão querer que o Estado de Israel exista mas esteja sempre errado pelo simples fato de existir? Muito conveniente, não? 

Certos discursos tornam evidente que para alguns há muito tempo a questão israelense-palestina não se trata de um conflito que deve ser resolvido para evitar a morte de inocentes, mas de um conflito que deve ser mantido e agravado para que se possa explorar politicamente a morte de inocentes. 

Fazem mais condenações ao Estado de Israel, que é vítima de dezenas de atentados terroristas diários, do que ao Hamas, que pratica tentativas de homicídio aleatórias todos os dias. Fazem muito mais exigências de que Israel use diplomacia do que exigências de que o Hamas pare de cometer crimes. 

São discursos convenientes e hipócritas

Ao mesmo tempo que tentam amarrar as mãos do Estado de Israel, exigindo dele o uso de blá-blá-blá notoriamente inútil, nada fazem para que o agressor terrorista cesse seus ataques. Isso é querer a manutenção do conflito. Isso é não se importar com mulheres e crianças mortas. Isso é usar estas mortes politicamente para os mais abjetos propósitos. 

A estes que querem resolver o conflito através da diplomacia eu convido a ir a Israel exigir das autoridades israelenses o uso de diplomacia e depois ir aos redutos do Hamas e exigir dos terroristas o uso de diplomacia. Mostrem que acreditam no que falam. Vão até lá e façam isso! E LOGO, porque tem gente inocente morrendo. O que estão esperando? 

Ah, não querem ir porque “esse é um conflito que deve ser resolvido entre as partes”? Bem, então calem a boca e não se metam a dizer para somente uma das partes – sempre a mesma – o que ela deve ou não deve fazer para não ser vítima de atentados e homicídios aleatórios diariamente. 

Vamos deixar isso bem claro: as opções que Israel tem não são usar a diplomacia ou usar a força. As opções que Israel tem são ou permitir que o Hamas continue assassinando civis israelenses aleatoriamente ou levar a culpa pela morte dos civis palestinos que o Hamas usa como escudos humanos para seu armamento e seus lança-mísseis. 

Entre uma e outra destas alternativas, qualquer Estado soberano ou grupo de combatentes no planeta faria exatamente o mesmo que o Estado de Israel faz: proteger os seus, mesmo que isso implique multiplicar as baixas do outro lado, seja de combatentes, seja de inocentes. 

Portanto, leitor do Pensar Não Dói, muita atenção perante estes discursos “pró-diplomacia”. Muitos deles – a maioria – são apenas discursos anti-Israel, anti-EUA, anti-“imperialismo”, anti-sociedade-ocidental, anti-“tudo-isso-que-está-aí”, etc.

Uma boa dica para detectar a orientação ideológica e ética desses discursos: verifique se quem exige que Israel use diplomacia também exige que o Hamas use diplomacia; verifique se as críticas aos abusos de Israel também se estendem ao uso de inocentes como escudos humanos por parte do Hamas; e principalmente verifique se a preocupação humanitária para com as vítimas dos bombardeios de Israel também se estende às vitimas dos bombardeios do Hamas. 

Se qualquer uma das respostas for “não”, você já sabe com certeza que não está diante de um defensor sincero da diplomacia. Isso para dizer o mínimo. 

 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/07/2014

::

AAA: Não há uma única palavra de apoio à morte de civis no texto acima. Se você acha que eu defendi que Israel mate palestinos inocentes porque o Hamas mata israelenses inocentes, então você entendeu tudo errado. Neste caso, leia o artigo de novo. 

Uma pergunta ao Chef

O artigo de hoje não foi escrito por mim. Trata-se da transcrição de uma pergunta e uma resposta que foram publicadas no Orkut, numa comunidade pública, entre meus amigos Roberto, que abriu o tópico com o título igual ao deste artigo, e Amelio, que é o Chef em questão e vive em Londres. O texto se refere ao momento político vivido no Brasil, em comparação com o que acontece na Inglaterra. Ignorem a falta de acentos no texto do Chef, porque o teclado dele não está configurado para a língua portuguesa.   Continue reading “Uma pergunta ao Chef”