A solução para o problema dos presídios brasileiros

Acho que você sabe qual é a solução para o problema dos presídios brasileiros. Pelo menos para mim, a solução é tão óbvia, mas tão óbvia, mas tão óbvia, que eu fiquei em dúvida se deveria escrever este artigo. Afinal, só vou poder dizer o óbvio. Mas vamos lá, que neste país o óbvio precisa ser dito e mesmo assim dificilmente é entendido… 

Em primeiro lugar, um presídio planejado para receber no máximo 250 presos tem que receber no máximo 250 presos, não pode receber 600. Não é óbvio? Quem na face da Terra não sabe que a superlotação é a mãe de todos os problemas de qualquer presídio?

Em segundo lugar, não tem que haver presídios com capacidade para mais do que uns 250 presos. Não é um número absoluto, é um número razoável. Quanto maior a unidade prisional, mais difícil é de gerenciar seus sistemas de segurança e mais grave é qualquer problema que aconteça.

Em terceiro lugar, o Código Penal brasileiro prevê detenção para alguns crimes e reclusão para outros crimes. Os critérios para esta diferenciação são técnicos: dizem respeito à gravidade dos crimes cometidos e de certo modo à periculosidade do preso. Portanto, os presos precisam ser divididos em detentos e reclusos e precisam ser fisicamente separados segundo esta classificação e segundo outras sub-classificações que já vou explicar. E “separados” significa “em presídios separados”, não podem ficar na mesma unidade.

Em quarto lugar, novatos e reincidentes não devem ser colocados no mesmo presídio. Os presídios precisam ser locais não somente de cumprimento de pena mas de redução da probabilidade de que o preso volte a cometer crimes quando sair de lá. Uma sociedade que não se importa com a qualidade de vida dos presidiários, dos serviços prisionais e das estratégias de ressocialização e preparação para o reingresso do preso no mercado de trabalho está literalmente promovendo uma escola do crime em cada um de seus presídios. 

Em quinto lugar, membros de facções rivais não podem ser colocados nos mesmos presídios. Só um alienígena não sabe que a principal causa de massacres nos presídios hoje em dia é guerra entre facções rivais. Não se pode confiar em uns poucos muros ou grades para evitar estas carnificinas, é necessário uma distância que inviabilize o conflito completamente.

Em sexto lugar, as celas devem ser individuais. Cada preso tem que ter a tranquilidade de poder dormir sem medo de ser esfaqueado durante a noite por não ter se unido a uma das facções que permanentemente tentam assumir o controle dos presídios e crescer cooptando novos presos – muitos dos quais se unem às facções pelo simples medo de morrer de um modo bem ruim.Além disso, celas individuais deixam o sujeito que não quer estudar nem trabalhar sozinho o dia inteiro, o que é um forte estímulo para que o preso se engaje nestas atividades.

Em sétimo lugar, todo preso deve ter a oportunidade de estudar e de trabalhar dentro dos presídios. Não somente a oportunidade, mas um estímulo bem razoável. Por exemplo, certas regalias no que diz respeito ao conforto da cela, ao tempo de banho de sol, à prática de esportes, à diversidade na alimentação, ao acesso a oportunidades de lazer e outros podem ser condicionados ao bom comportamento, estudo e trabalho nos presídios. Obviamente, isso não significa que os presos que se negarem a estudar e a trabalhar devam ser maltratados. Nada disso. Simplesmente devem ter um “kit básico” decente de prisão, mas sem as regalias reservadas a quem se esforçar por ter bom comportamento, estudar e trabalhar.

Em oitavo lugar, e aqui eu finalmente começo a dizer coisas que não são tão óbvias, os presos não devem confraternizar entre si sem supervisão. Cada detento ou recluso deve ter privacidade nos presídios para dormir e para usar o banheiro sozinho e em paz, mas nunca conviver com os demais presos de sua unidade sem supervisão. Essa supervisão pode ser pessoal ou eletrônica, mas tem que ser permanente e muito eficaz. Por exemplo, pode ser feita com câmeras ambientais e colares com gravadores que só precisariam ser vestidos nos momentos de interação com os outros presos. Não quer se submeter ao uso do colar durante o banho de sol ou o futebol? Tudo bem, camarada, fica na tua cela. Sozinho.

Em nono lugar, o preso tem que receber um bom exemplo por parte do corpo funcional dos presídios. Não é qualquer pessoa que pode ser agente prisional. É necessário que sejam pessoas comprometidas de fato com a ressocialização dos presos, que os tratem com educação e formalidade sem ser artificiais, que saibam ser disciplinadas antes de tentar disciplinar os presos, que tenham o tempo todo em mente que sua função não é punir os presos – isso é feito pela privação de liberdade – e sim reduzir as chances de que eles voltem a cometer crimes quando não estiverem mais presos.

Em décimo e último lugar, os presídios precisam ser comparados com outros presídios do mesmo país e de outros países para avaliar suas condições físicas, suas características de funcionamento, seus graus de reincidência, suas taxas de incidentes e outros parâmetros importantes para o sucesso da missão dos presídios – afastar o preso da sociedade por um tempo e prepará-lo para retornar à sociedade de modo que não cometa novos delitos e se torne um cidadão respeitável e produtivo.

Acho que falei somente o óbvio nos sete primeiros itens e o quase óbvio nos últimos três itens. Gerenciar presídios não é um assunto complicado. Não é nem sequer um assunto difícil. Basta ter os objetivos corretos e pensar com bom senso. Não se reduz a criminalidade com truculência, violência, humilhações ou maus tratos. Pelo contrário, isso estimula o agravamento da criminalidade, vitimando não somente os presos, mas a toda a sociedade.

Os presídios pioram com a superlotação. Os presos precisam ser adequadamente separados. Os novatos pioram em contato com os reincidentes. Os independentes pioram em contato com as facções. Os inofensivos pioram em contato com os violentos. As facções pioram em contato umas com as outras. O sistema todo piora se gerenciado por pessoas que não se importam em oferecer um bom exemplo para os presos, dos diretores dos presídios aos agentes penitenciários da linha-de-frente. Os presídios precisam ser bons centros educacionais, porque deles depende nossa segurança depois que os presos cumprem suas penas e retornam à sociedade. São princípios bem simples e fáceis de implementar se os gestores públicos quiserem e decidirem fazer a coisa certa do jeito certo. E aí entra a sua parte neste assunto.

O que você está dizendo nas redes sociais ou nos almoços em família sobre os massacres ocorridos nos presídios do norte do país? Você está ajudando a reduzir a histeria e a trazer esclarecimento e entendimento sobre a questão dos presídios? Em que tipo de candidato você está votando? Você já escreveu alguma coisa sobre a questão dos presídios para algum político em que você tenha votado? Sua contribuição pode ser pequena, mas que seja positiva.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 23/01/2017

Não foi acidente, foi homicídio. Houve negligência

Errei: não foram nem o piloto, nem as regras estúpidas. Foi a negligência dos países da América Latina quem matou a equipe da Chapecoense. O piloto tinha histórico conhecido e registrado de voos em completo desrespeito às normas de segurança da aviação quanto ao combustível reserva. Mesmo assim, nenhuma autoridade da Bolívia, da Colômbia, da Argentina ou do Brasil tomou qualquer providência.

Entenda as regras de segurança

Imagine que você vai decolar do aeroporto A e aterrissar no aeroporto B. As regras da aviação exigem que a aeronave tenha sempre combustível de sobra no mínimo para mais meia hora de voo além do percurso planejado, não de A até B, mas de A, passando por B, até um aeroporto C, mais meia hora de voo.

Você tem que poder decolar de A, chegar em B, encontrar B fora de condições de aterrissagem por um motivo qualquer (por exemplo, um acidente), dirigir-se para C e ainda poder aguardar meia hora em sobrevoo até poder pousar.

Negligência latina

O avião Avro RJ 85 tem autonomia de voo de 4 h 22 min, ou 2985 km. Isso significa que qualquer plano de voo com esta aeronave acima de 3 h 52 min é ilegal. Pois bem. Eu selecionei seis voos da Lamia em uma tabela publicada pelo Diário Catarinense:

voos-acima-do-limite

Todos os tempos de voo mostrados na tabela acima são tempos de voo real, realizados com tripulantes e passageiros à bordo, entre um aeroporto A e um aeroporto B, por uma aeronave com 3 h 52 min de autonomia legal máxima não entre A e B, mas entre A, B e C. Quatro destes voos tiveram duração superior à autonomia máxima da aeronave, o que por si só já deveria ter provocado uma investigação. Segundo a reportagem da VEJA, o último contato antes da queda do avião foi após 4 h 37 min de voo. Isso indica que em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 4 ou 5 minutos de cair, talvez menos, dependendo das condições específicas do voo. Em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 9 ou 10 minutos de cair.

Não somente estes voos jamais poderiam ter sido autorizados, como certamente muitos outros voos desta aeronave certamente e de muitas outras provavelmente foram e estão sendo autorizados em total desacordo com as normas de segurança da aviação em toda a América Latina.

Não foi acidente, foi homicídio

A diferença entre homicídio doloso e homicídio culposo é que no homicídio doloso o agente quer produzir o resultado do crime, ou assume a possibilidade de produzi-lo (o que se chama “dolo eventual”), enquanto no homicídio culposo o agente não quer produzir o resultado do crime, mas o produz por negligência, incompetência ou imperícia. Vou deixar ao pessoal da área do direito o debate técnico se o que aconteceu foi dolo eventual ou negligência, porém, deixando barato que seja apenas negligência, o fato é que foi homicídio.

Enquanto não pararmos de pensar “coitadinha da funcionária do aeroporto que autorizou o voo, como é que ela ia saber que uma coisa dessas podia acontecer?” ou “coitadinho do despachante da Lamia, ele só estava obedecendo o que mandaram ele fazer”, essas coisas vão continuar acontecendo. A função daquela funcionária era evitar as mortes que ocorreram. A função daquele despachante era certificar-se de que todos os aspectos legais pertinentes ao voo estavam corretos. Os dois precisam ir para a cadeia por homicídio. E provavelmente não somente eles.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/12/2016

Leia também: A Tragédia do Jeitinho.

Regras estúpidas derrubaram o avião

Não foi a falta de gasolina. Regras estúpidas derrubaram o avião que transportava o time da Chapecoense. 

aviao-chapecoense

Antes de prosseguir a leitura, clique aqui e leia este artigo.

Leu? Pois bem: assim como regras estúpidas mataram o repórter da Band, regras estúpidas mataram o piloto, o time da Chapecoense e os repórteres que os acompanhavam. E não é difícil entender o motivo.

Imagine que você fez uma grande besteira. Por exemplo, resolveu voar somente com o combustível necessário para o trajeto, com pouquíssimo ou quase nenhum combustível de reserva. Você não tem a intenção de se ferrar, você não é suicida, você fez uma besteira. Não vou discutir se foi por ganância, por prepotência, por aperto financeiro, por estupidez, por erro de cálculo, por falha de protocolo ou por qualquer outra causa. Não importa o motivo, importa que a besteira está feita e que você acabou de perceber que está numa encrenca.

O que é a coisa mais razoável a fazer a partir do momento em que você percebe o problema?

A coisa mais razoável a fazer é resolver o problema com tranquilidade, pensar de maneira objetiva, sem conflitos de interesse e sem distrações, de modo que o problema possa ser resolvido da melhor maneira possível, certo?

Pois bem… O piloto do avião era o dono da companhia aérea. Ele sabia que, se declarasse emergência por não ter combustível suficiente, receberia uma multa imensa, que poderia inviabilizar financeiramente sua empresa. Ele tinha todo o interesse do mundo em aterrissar em segurança, mas as regras estúpidas que multam quem declara emergência por ter cometido uma besteira prévia cria um conflito de interesses importante. Se cair com o avião acabaria com a vida do piloto, como de fato acabou, ser multado em um valor alto também acabaria com a vida dele, ou ao menos ele se sentia assim a ponto de achar que valia a pena arriscar mais um minuto antes de declarar emergência.

Entenda isso: se não houvesse a multa, o piloto não teria hesitado. Não teria dúvidas quanto ao que seria mais adequado fazer, porque não teria conflito de interesse algum. Não teria decidido arriscar mais uns minutos de voo antes de declarar emergência. Não teria matado ninguém. Regra estúpidas matam.

A maneira certa de coibir o que aquelas regras estúpidas tentam coibir de modo inepto é outra. A maneira certa de coibir o voo com combustível insuficiente é vistoriar a quantidade de combustível de cada aeronave imediatamente após o pouso. Não interessa se tudo deu certo ou não. Não interessa se o piloto declarou emergência ou não. Só o que interessa é se as regras de segurança foram cumpridas. É assim que as coisas deveriam ser feitas.

E perceba: também não interessa a minha opinião, a sua ou de quem quer que seja a respeito do “absurdo” de voar com pouco combustível ou do “absurdo” de ter conflito de interesses nesta ou em outra situação. Valores morais não podem ter relevância para o estabelecimento de protocolos de segurança exatamente porque as pessoas possuem diferentes valores morais e portanto diferentes percepções de prioridades, como atesta o fato de ter havido uma tragédia por causa disso.

O fato incontestável é que o conflito de interesses gerado pelas regras estúpidas que multam quem declarar emergência por infração das normas de segurança levou o piloto a postergar uma decisão gravíssima por tempo suficiente para ocasionar a tragédia e que isso não teria ocorrido se não fizesse a menor diferença declarar emergência ou não para o fim de multar a empresa.

Se a regra fosse como eu digo que deveria ser, devendo ser feita uma vistoria imediatamente após o pouso para verificar se a aeronave cumpriu as normas de reserva de combustível, aquele piloto nem sequer teria arriscado voar com pouca gasolina, porque a multa seria certa mesmo que o avião aterrissasse em perfeita segurança.

Conhecer bem a biologia do cérebro da idade da pedra do macaco falante é fator crucial para regulamentar adequadamente seu comportamento.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 1º/12/2016

Caminhões matam pessoas. Armas salvam vidas

Quando dizemos que veículos automotores matam muito mais do que armas de fogo, os desarmamentistas dizem que veículos automotores não devem ser proibidos porque não foram feitos para matar e armas de fogo devem ser proibidas porque foram feitas para matar. Desta vez, porém, um terrorista matou dezenas de pessoas e feriu centenas atropelando-as com um caminhão e foi parado a tiros com armas de fogo. O que dizem os desarmamentistas a respeito? Nada. Estão calados, fingindo que sua tese estúpida não foi pulverizada por aquele terrorista. Mas ela foi pulverizada. 

Caminhão crivado de balas

O terrorista do caminhão nos fez o favor de demonstrar – ao custo de algumas centenas de vidas destruídas – aquilo que, se não houvesse tanto macaco falante retardado no mundo, já deveria ser óbvio há muito tempo: não existe esse maniqueísmo ridículo inventado pelos desarmamentistas para sustentar sua tese estúpida. O uso de objetos não se prende a supostas finalidades definidas. Gente má usa veículos automotores para matar inocentes e gente boa usa armas de fogo para meter bala na cara de gente má que mata inocentes. E muito menos gente teria morrido se uma massa crítica de cidadãos honestos e adequadamente treinados estivesse armada naquele dia e metesse bala no caminhão assim que ele começasse a atropelar as pessoas.

Eu precisava fazer um registro do óbvio, para não deixar passar e em branco, e estava com saudade de chamar a tese desarmamentista de estúpida. Ambos os objetivos foram cumpridos. Have a nice day. Bang.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/07/2016 

OBS: é, eu não ando com muita paciência para me repetir.

A cultura de submissão e o massacre na boate gay de Orlando

Eu já estou cansado de repetir isso, mas lá vai de novo: a primeira morte no massacre de Orlando foi causada pelo maluco assassino. Todas as demais mortes foram causadas pela prepotência e estupidez dos desarmamentistas organizados, pela famigerada imposição desarmamentista e pela cultura de submissão e covardia propagada por canalhas com pretensões fascistas e inocentes úteis com pretensões “politicamente corretas”. 

Gun Free Zone
Esta figura esclarece totalmente a estupidez desarmamentista.

Eu juro que eu adoraria compreender como funciona a mente desarmamentista, porque ela é irracional demais para que eu possa entender sua “lógica”. Basicamente, um desarmamentista pensa assim: “se as zebras não correrem nem derem coices, elas estarão seguras do ataque dos leões”. Tudo bem se um desarmamentista quiser apostar a sua própria vida nesta tese estúpida. O problema é que eles querem apostar a vida dos outros. E estão conseguindo, o que é impressionante, porque significa que muita gente está de acordo com uma tese simplesmente suicida.

O massacre ocorrido na boate gay em Orlando foi apenas mais um – não foi o primeiro e não será o último – massacre causado pelo prepotente e estúpido wishful thinking desarmamentista. “Especialistas” incapazes de somar dois e dois estão vomitando abobrinhas na grande mídia, dizendo que o problema é a facilidade com que o cidadão honesto obtém armas. Só que não. O problema é a dificuldade que o cidadão honesto tem para usar armas. Afinal, a boate gay em Orlando era uma “gun free zone“, uma “área livre de armas”. Livre para o cidadão honesto, óbvio, mas não para o assassino que promoveu o massacre.

Se a bicharada portasse revólveres e pistolas na mesma proporção em que portava camisinhas, quantas teriam virado purpurina na boate? Meia dúzia? Provavelmente nem isso. Se um percentual expressivo dos boêmios daquela fatídica noite estivesse armado, teria sido possível fazer um grande grupo de refém dentro do espaço de um banheiro? Nem pensar. Mas eu já estou cansado de explicar repetidamente o óbvio.

Mais armas nas mãos dos cidadãos honestos teriam salvo literalmente dezenas de vidas naquela noite.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/06/2016

O embrutecimento político é a derrota da civilização

Só para variar, houve quem pervertesse completamente o que eu disse no meu artigo anterior, Tragédia na França: a culpa é da própria Europa. OK, voltemos ao tema. Eu tratei basicamente de duas coisas: primeira, que a civilização ocidental – da qual a Europa é o berço e um dos dois melhores exemplos, o outro sendo a América do Norte – está pagando um preço altíssimo por perverter os conceitos que a sustentam; segunda, a estupidez do desarmamento da população honesta e a cultura de coitadismo da qual decorre esta aberração.

Vida de centrista

São valores básicos da civilização ocidental a democracia, a liberdade individual, o progresso científico-tecnológico, a primazia dos Direitos Humanos e a justiça social, entre outros. As duas forças embrutecedoras da política pós-Revolução Francesa – a direita e a esquerda – detestaram o artigo porque nele eu bato em uma ferida de cada uma.

A direita não gostou porque eu disse que a culpa pelo embrutecimento terrorista é da falta de compaixão e solidariedade pelo sofrimento de grandes populações deixadas à própria sorte e à mercê de “governos” opressores que massacram “seus” povos. A direita odeia ser cobrada por compaixão e solidariedade, valores de que ela desdenha alegando algo que é bem representado pelo ditado “quem não tem competência não se estabeleça” – ou “cada um que se vire”.

A esquerda não gostou porque eu disse que o empoderamento do indivíduo, inclusive para o uso de força letal para garantir sua segurança, é uma necessidade urgente e uma condição sine qua non para o convívio pacífico e harmônico em sociedade – paz e harmonia essas baseadas na capacidade de defesa do cidadão, não no Estado-papai que “protege” e domina o cidadão em todas as esferas de sua vida, o que a esquerda indubitavelmente sempre deseja fazer.

Mas a verdade é que não se constrói um mundo pacífico sem compaixão, solidariedade e capacidade de retaliação letal contra bandidos amplamente distribuída entre a população. E entre estes bandidos se incluem criminosos comuns, terroristas e qualquer governo que abuse de suas prerrogativas. Aliás, é por isso que o governo não tem que saber quem tem armas e quem não tem, nem quantas. Só o que o governo tem que saber é quem está habilitado a portá-las em via pública, pelo mesmo motivo que precisa saber quem está habilitado a dirigir um veículo automotor.

Todavia, de um modo nefasto, direita e esquerda se aliam para provocar o embrutecimento da política e o afastamento do cidadão médio da cuidadosa avaliação destes imperativos e da ponderação na política.

Eu disse com todas as letras que a culpa pelos ataques terroristas na França é da própria Europa. E eu sustento esta afirmação. Foi a falta de compaixão e solidariedade pelos povos que estavam sob domínio de ditaduras laicas ou religiosas e a fuga à responsabilidade pela sorte de milhões de inocentes massacrados que permitiu a expansão e a exportação de ideologias autoritárias e do terrorismo. Nenhum regime que submete inocentes à força é confiável. Alguns deles, ao se fortalecerem, se tornarão expansionistas. Aí estão a história do nazismo, do comunismo, do cristianismo e do islamismo para provar, cada um dos quatro com seu próprio deus único. Em um momento ou em outro, de um modo ou de outro, todos eles se tornaram expansionistas e massacraram muita gente.

Eu disse com todas as letras que o desarmamento da população honesta é uma estupidez coitadista que faz parte de um sistema de (des)educação que pretende emascular, acovardar e incapacitar o indivíduo a fazer uso de força – inclusive de força letal – para defender sua própria vida, sua família e sua propriedade. Aí está a história de todos os massacres em universidades americanas e de atentados terroristas na Europa para provar, cada um dos dois tipos de ataque com seu próprio método de explorar a incapacidade de reação da população honesta desarmada e a incapacidade do Estado de proteger seus cidadãos, seja com serviços de inteligência, seja com policiamento ostensivo, seja com que método for.

E eu também disse que não se pode sequer sonhar com uma sociedade livre de criminosos, fanáticos, intolerantes e insegurança. É algo com que teremos de conviver enquanto formos macacos falantes. Mas podemos minimizar muito os danos e construir uma sociedade agradável e segura de viver se – e somente se – deixarmos de dar ouvidos às ideologias pervertidas que sustentam o descaso para com o sofrimento do próximo, independentemente de fronteiras artificiais, e o mimimi coitadista e covarde de quem quer lavar as mãos e terceirizar a garantia de sua segurança para outros macacos falantes, uma expectativa irreal que mais uma vez foi demonstrada como tal.

O afastamento do centro na política é sempre embrutecedor. A terceirização obrigatória da segurança pessoal é sempre irrealista e inviável, por mais que seja útil contar com instituições que minimizem nossos riscos. Enquanto estas duas coisas não forem adequadamente compreendidas, não teremos paz, nem harmonia, nem segurança.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/11/2015

Tragédia na França: a culpa é da própria Europa

Milhões de pessoas foram e estão sendo massacradas na África e no Oriente Médio nas últimas décadas. O que a Europa fez para evitar estes massacres? Muito pouco ou quase nada. “Não é com a gente.” Centenas de pessoas foram mortas ou feridas por um punhado de terroristas. Quantas podiam se defender? Nenhuma. Estavam todas desarmadas, confiando no papai Estado para protegê-las. Descaso e coitadismo paralisante, eis as causas da tragédia.

Massacre na França

Ouvimos por tempo demais os pervertidos que dizem que intervir e derrubar ditaduras sanguinárias é uma violação ao princípio da autodeterminação dos povos. Levamos longe demais a mentira de que cidadãos honestos e bem educados se tornam criminosos apenas pelo fato de terem uma arma nas mãos. Produzimos uma civilização de avestruzes que metem a cabeça em um buraco quando seres humanos são massacrados no país ou na favela ao lado e de covardes omissos que querem pagar para que outros coloquem suas vidas em risco para protegê-los.

Uma civilização que não defende toda e qualquer vida inocente acima de qualquer alegação pervertida sobre “soberania” é uma civilização doente. Quem precisa de proteção não são os governos sanguinários, são as pessoas inocentes que eles dominam e massacram. Onde estava a Europa quando milhões de pessoas estavam sendo submetidas a atrocidades na Síria, na Líbia, no Sudão, na Somália? O que fizeram os países do berço da civilização para socorrer seus irmãos miseráveis, humilhados, submetidos, torturados e mortos além de votar moções na ONU e manter comércio com os ditadores que os oprimiam?

Agora a barbárie que nunca combateram adequadamente ataca dentro de sua própria casa.

A Europa não é uma vítima inocente da sexta-feira 13 sangrenta, assim como os Estados Unidos da América não são uma vítima inocente do onze de setembro – um ataque promovido por terroristas que os EUA mesmos armaram e treinaram. Não se lava as mãos perante a injustiça, porque as mãos continuam sujas e um dia a injustiça cresce de tal modo que atinge “quem importa”. Que se dane se a Al Qaeda está subjugando e massacrando inocentes, porque está sendo conveniente para os interesses do Tio Sam? O onze de setembro é a conseqüência. Que se dane se os sírios estão sendo massacrados, porque não é o nosso povo? Os ataques da sexta-feira 13 sangrenta na França são a conseqüência. O descaso para com o sofrimento dos outros fortalece os promotores do sofrimento e universaliza a barbárie.

E o que dizer dos mortos na casa de shows Bataclan? Três ou quatro terroristas mataram mais de setenta pessoas. Passaram quinze longos minutos matando as vítimas uma a uma. Recarregaram as armas pelo menos três vezes. Que as primeiras quatro ou cinco pessoas tenham sido mortas sem conseguirem se defender é absolutamente compreensível, mas o que fez com que mais de seis dezenas de pessoas ficassem passivas à espera da morte senão uma educação emasculante, acovardante e incapacitante que faz com que ninguém reaja nem mesmo perante a morte certa? Se todos os presentes partissem para cima dos assassinos nem que fosse a socos e pontapés, muito menos gente teria morrido e muito menos ataques desse tipo aconteceriam no futuro.

Não se trata de um conflito entre a barbárie e a civilização, mas de um conflito entre duas barbáries. De um lado a barbárie da intolerância, do outro lado a barbárie do descaso e do coitadismo paralisante. Enquanto isso continuar, ninguém viverá em paz, ninguém estará em segurança, ninguém terá liberdade.

Precisamos abandonar o discurso canalha de que o sofrimento de inocentes para além de uma fronteira convencionada não é problema nosso. Sabemos que há ditaduras sanguinárias que massacram povos inteiros e promovem atrocidades monstruosas – como na Coréia do Norte – e nada fazemos além de votar moções ou impor barreiras comerciais. Há quem chegue à extrema perversão de afirmar que é necessário “diálogo e diplomacia” para lidar com terroristas bárbaros que degolam inocentes à faca em frente às câmeras de TV para fazer propaganda de suas ideologias insanas para conquistar adeptos. Isso não pode ser tolerado. Quem oprime ou massacra pessoas inocentes é criminoso e quem tolera ou justifica isso é pervertido e monstruoso. Nada disso é condizente com o que deveria se chamar “civilização”.

Precisamos abandonar o discurso covarde de que pagamos impostos para que as instituições nos defendam. Sabemos que as instituições são compostas tão somente por outras pessoas e estas não são mais interessadas em salvar as nossas vidas do que nós mesmos, nem são capazes de fazer isso – como ficou absolutamente evidente nesta tragédia acontecida na França. A inteligência anti-terrorismo não foi capaz de prever os atentados e a polícia não foi capaz de proteger ninguém quando eles ocorreram. Mas o que é pior é que as pessoas chacinadas pelos terroristas não somente não estavam armadas para se defenderem como também não estavam mentalmente capacitadas a se defenderem – tanto é que foram chacinadas mesmo estando em muitíssimo maior número. Se educássemos nossos cidadãos para radicalmente não tolerar a intolerância, a maioria destas pessoas estaria viva.

Precisamos parar de arar e adubar o solo para os intolerantes plantarem suas ideologias. A miséria é a água parada para o mosquito do extremismo político ou religioso. Gente que estuda, trabalha, tem casa própria, carro próprio, passa o verão no litoral, tem um bom nível cultural e vê sentido para a vida dificilmente se torna extremista. Gente cuja maior preocupação é regar o jardim dificilmente amarra explosivos na cintura e massacra dezenas de inocentes.

Criminosos sempre houve e sempre haverá. Fanáticos sempre houve e sempre haverá. Intolerantes sempre houve e sempre haverá. Insegurança sempre houve e sempre haverá. Mas nós podemos parar de produzir estas coisas corrigindo a rota do desenvolvimento da civilização ocidental. Podemos reduzir imensamente o sofrimento, os conflitos e as injustiças se assim o decidirmos, mas isso só será possível se a civilização ocidental assumir uma identidade coerente e vigorosa. Se deixar de de dar ouvidos aos pervertidos. Se deixar de engolir ideologias de descaso e de dependência. Se investir em seus cidadãos para que se tornem metatolerantes e autônomos. Se investir também na metatolerância e na autonomia para além de suas fronteiras.

Não há garantias. Mas há necessidade de coragem e determinação.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 14/11/2015

Uma chance em um milhão?

Volta e meia eu ouço algum defensor da energia atômica dizer que “a chance de acontecer algum acidente grave com uma usina nuclear é de uma em um milhão”. Será?

chernobyl

Tivemos um acidente grave em Three Mile Island, um acidente grave em Chernobyl e um acidente grave em Fukushima. Onde estão as outras dois milhões, novecentos e noventa e nove mil, novecentas e noventa e sete usinas nuclares? 

Cansa ouvir esse besteirol sobre “tecnologia segura” e “chances mínimas de problemas”, viu?

Se na mão dos estadunidenses e dos japoneses aconteceram aqueles acidentes, imagine o perigo que representa ter  usinas nucleares nas mãos de povos com culturas em que a responsabilidade não é tão valorizada.

Fechem Angra.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 29/09/2015

Linchamento vira desculpa para controle tirânico da internet

Um site divulga um retrato falado de uma suposta suspeita de um suposto crime e alerta que pode ser um boato. Alguém acha uma pessoa parecida com o retrato falado, reúne um bando de criminosos e juntos espancam essa pessoa até a morte. E um advogado pede o indiciamento do administrador do site por homicídio triplamente qualificado e propõe uma “lei para punir o mau uso das redes sociais” por causa disso. 

Linchamento

Continue reading “Linchamento vira desculpa para controle tirânico da internet”

Sim, as mulheres devem aprender a se comportar para não serem estupradas

Recebi o compartilhamento de uma suposta pesquisa do IPEA em que supostamente 65,1% dos brasileiros concordam que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas e que 58,5% dos brasileiros concordam que se as mulheres soubessem como se comportar haveria menos estupros. Há uma mentira e uma verdade analisada de modo distorcido misturadas nisso. 

“Eu sou dona do meu próprio corpo e tenho o direito de me vestir e de me comportar como eu bem entender sem que ninguém me toque ou me critique.”

Continue reading “Sim, as mulheres devem aprender a se comportar para não serem estupradas”