Qualidade Suficiente

Todo mundo sabe que a burocracia e a corrupção são dois grandes entraves para a criação de um ambiente de sucesso sócio-econômico, mas pouca gente leva em consideração o quanto é daninha a falta daquele tanto de qualidade que obviamente poderia ser melhorado, mas que não o é porque o consumidor compra o produto assim mesmo, do jeito que está, porque tem “qualidade suficiente”. 

Pipoca

A qualidade suficiente tem exemplos por todo o lado. Ninguém deixa de comprar um automóvel porque não há um lugar para colocar o guarda-chuva molhado em dias de chuva – e a indústria automobilística não se preocupa em resolver este problema porque o consumidor sempre compra algum carro assim mesmo. Ninguém deixa de comprar pipoca na praça porque não são oferecidos guardanapos para tirar o óleo das mãos depois do consumo – e os pipoqueiros não se preocupam em resolver este problema porque o consumidor sempre compra pipoca assim mesmo. Há exemplos para todos os bolsos.

A má notícia é que este problema veio para ficar. Ou pelo menos para ficar por muito tempo, porque o macaco falante médio se contenta com a qualidade suficiente. Se ele tiver que pagar R$ 200,00 de diferença entre dois carros iguais em tudo menos na presença de uma incrivelmente bem bolada solução para o guarda-chuva molhado, o macaco falante médio em geral irá “economizar” menos de 1% do valor do veículo e comprar a versão mais barata. Se ele tiver que pagar R$ 0,25 de diferença entre o saco de pipocas com guardanapos e sem guardanapos, o macaco falante médio em geral vai pedir o troco, lamber as mãos e secar na roupa.

É natural que seja assim. O macaco falante médio é um beta ou um ômega. O ômega dificilmente compra carro, mas compra pipoca, pega ônibus comendo pipoca e deixa tudo melecado com a gordura da pipoca. E o outro ômega não deixa de pegar ônibus melecado com gordura de pipoca, nem reclama disso, porque ônibus melecado com gordura de pipoca tem qualidade suficiente para o ômega. Quem reclama ou pega o lotação em busca de higiene é o beta. O alfa vai de carro. Sem meleca de gordura de pipoca e sem reclamação.

Aceitar a qualidade suficiente é o que leva o macaco falante médio a resolver tudo com gambiarras. O hoje extinto Bom-Bril na antena da televisão é um ícone da qualidade suficiente. Seu sucessor não tão óbvio é o computador com programa antivírus. Pense bem: um sistema operacional tem que ser seguro de fábrica. Ter que instalar um segundo programa para evitar que o primeiro programa não seja invadido por um terceiro programa é uma baita gambiarra. (Aposto que você não tinha percebido isso. E aposto que você não vai trocar seu Windows por um Linux por isso, nem sequer passar a rodar seu Windows como uma máquina virtual dentro de um Linux. Na verdade, eu aposto que você nem sabe o que é isso. É natural. Todo mundo se contenta com qualidade suficiente em alguma área.)

O grande problema da qualidade suficiente é a sinergia. O pneu tem qualidade suficiente. A suspensão do carro tem qualidade suficiente. O asfalto tem qualidade suficiente. E o resultado é que o seu carro volta e meia acaba numa borracharia ou mecânica de beira de estrada. Nem vou falar da pipoca. (Argh.) Já o seu computador volta e meia trava e de vez em quando você perde uma parte do que estava fazendo.

O custo disso? Bilhões e bilhões de dólares, muito tempo de vida desperdiçado, muito sofrimento e até mortes. Afinal, o cinto de segurança tem qualidade suficiente, o atendimento hospitalar tem qualidade suficiente, a fiscalização do poder público tem qualidade suficiente, a vida tem qualidade suficiente.

E vai continuar assim, porque a cidadania do macaco falante também tem qualidade suficiente.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/07/2016

Fórmula Humpf

Existe coisa mais chata que assistir um campeonato de Fórmula 1 que antes mesmo de começar já tinha o campeão (Hamilton), o vice-campeão (Rosberg) e o terceiro colocado (Vettel) definidos? Se a F-1 não mudar logo, vai perder muito público e ainda mais dinheiro. 

Emerson-Fittipaldi-Lotus-1972
Este é o Emerson Fittipaldi em sua very old fashioned Lotus de 1972. Coloquei essa foto aqui só porque ela fica bonita na chamada do artigo no Facebook. 🙂

Eu não sou um grande fã da Fórmula 1, mas sou um nerd de personalidade competitiva, então sempre curti o desenvolvimento tecnológico e gosto de assistir disputas francas e emocionantes. Nenhuma destas coisas está presente na F-1 de hoje. Os sites e blogs especializados em F-1 apontam as mais variadas causas para isso, mas a minha explicação predileta diz respeito à origem de Jean Todd, o chefão da FIA: o cara é um ex-co-piloto de rally

Se você não sacou qual a importância de o chefão da FIA ser um ex-co-piloto de rally, vou explicar isso com dois exemplos simples: as regras sobre o fluxo de combustíveis e a qualidade dos pneus. 

A regra do fluxo de combustíveis é a seguinte: em um determinado sensor cuja instalação foi tornada obrigatória, não pode passar mais de uma determinada quantidade de combustível em um determinado período de tempo, a qualquer momento da corrida. Os valores em si são irrelevantes. 

A regra da qualidade dos pneus é a seguinte: há tipos de pneus diferentes, cada equipe é obrigada a usar pelo menos dois tipos diferentes em cada corrida e a qualidade de todos os tipos é previamente determinada, fazendo com que as equipes tenham que lidar com diversos pneus que se esfarelam facilmente. 

Aí eu pergunto: o que o fã de Fórmula 1 quer? 

Quer gritar ASSSULÉÉÉRA AÍÍÍRTONNN?

Ou quer gritar ECONOMIZA SETE VÍRGULA QUATRO MILILITROS DE GASOLINA, ROSBEEERG? 

Quer assistir uma disputa acirrada, com ultrapassagens ousadas e muita perícia?

Ou quer assistir seu piloto predileto ganhar ou perder posições porque os carros estão com os pneus se desmanchando e uma equipe ou outra fez um “emocionante” cálculo para determinar o melhor momento para trocar o pneu médio pelo macio? 

Pois é. 

Para quem teve sua formação no automobilismo como co-piloto de rally, modular o estilo de pilotagem para respeitar o limite da taxa de consumo de combustível provavelmente seja emocionante. Ou talvez calcular a melhor estratégia de troca de pneus seja emocionante. Sério, eu sou um nerd, eu reconheço que isso deve ser muito emocionante para algumas pessoas – mas não para o público da Fórmula 1.

Se o Jean Todd não sabe, eu conto a real para ele: o público da Fórmula 1 quer ver velocidade, ultrapassagens ousadas e perícia nas manobras. Se quisesse ver economia de recursos e cálculos, assistiria rally, não F-1. 

Dito isso, creio que é fácil dar umas sugestõezinhas para evitar que a Fórmula 1 acabe com menos audiência que o campeonato de carrinho de rolimã do meu bairro. Eis aqui três delas: 

1) Desregulamentar quase tudo. Nada de determinar qual será a potência do motor, o número de cilindros, os detalhes aerodinâmicos, os tipos de pneus, o limite de fluxo de combustível e a estrutura da rebimboca da parafuseta. Determinem a volumetria do tanque em cerca de dois terços do necessário para completar a corrida e equalizem o peso dos pilotos. Ponto. 

OBS: “Equalizar o peso dos pilotos” é o seguinte: todos os pilotos devem pesar, digamos, 100 kg. Como nenhum deles pesa tudo isso, deve-se acrescentar peso complementar sob o assento de cada piloto de modo a completar 100 kg. Afinal, queremos ver disputa de habilidade, não de magreza ou de nanismo. 

No início haveria uma grande confusão, o que seria divertido, mas em duas ou três temporadas provavelmente todas as equipes convergiriam para um motor V-10 com uma cilindrada de cerca de 3.0 e um carro com excelente aerodinâmica, que é o que já se demonstrou ser o melhor e mais emocionante. A partir daí, teríamos novamente uma disputa franca, em alto nível, sem o atual fedor de bode na sala. 

2) Proibir a recuperação de potência. Não porque não seja uma boa idéia desenvolver mecanismos de recuperação de potência, mas porque a Fórmula 1 não é o ambiente adequado para fazer isso. Palavra de nerd que manja um pouco de Teoria do Caos

A relação entre os inúmeros componentes responsáveis pela produção de potência, pela recuperação de potência e pelo reaproveitamento de potência é tão complexa, mas tão complexa, mas tão complexa, que obter o melhor ajuste deixa de ser uma questão de capacitação técnica e passa a ser uma questão de sorte. Eu não consigo imaginar um fator mais frustrante e desestimulante do que esse. Isso é péssimo para qualquer esporte e ainda pior para um esporte tão caro. 

3) Parar de mudar o regulamento toda hora e de introduzir gambiarras desastrosas como controle de fluxo de combustível, redução da qualidade dos pneus e limitações aerodinâmicas para “evitar hegemonias”.

Não é a hegemonia que estraga o esporte, mas a ausência de disputa. O melhor piloto e a melhor equipe devem vencer tantas vezes quantas conseguirem vencer. Mas a disputa pode ser aumentada sem a indecente introdução de obstáculos planejados para frustrar especificamente a equipe que melhor fez exatamente aquilo que deveria fazer.

Ao invés de inventar gambiarras para quebrar artificialmente a hegemonia de um piloto ou de uma equipe específica, basta e é muito mais ético introduzir uma regra de achatamento de vantagens que seja sempre igual para todos. Você vai entender isso direitinho com o exemplo a seguir. 

Imagine que, a cada ponto conquistado no campeonato, seja acrescentado um peso de 150 g no carro. 

Tabela de pontos e pesos acrescidos

Perceba que essa regra é igual para todos, não altera nenhum componente ou vantagem específica de qualquer piloto, carro ou equipe, mas achata as vantagens obtidas ao longo do campeonato, dificultando que uma equipe dispare de modo inalcançável na tabela. Tão logo outra equipe se aproxime na tabela, entretanto, ela também vê seu avanço dificultado pela mesma regra, restabelecendo a diferença. Isso aumenta a disputa sem interferir no resultado final. 

Eu não digo que a Fórmula 1 deva adotar essa regra específica, que pode ou não cair no agrado dos fãs, mas que a linha de pensamento deveria ser a seguinte: primeiro, competir pelos critérios corretos, respeitando a vocação do esporte; segundo, ao invés de intervir de modo casuísta e oportunista, mudando as regras com o objetivo de alterar artificialmente os resultados, violando a meritocracia e a própria razão de ser do investimento no esporte, deveria ser procurado um modo negociado e ético de valorizar o espetáculo e aumentar a disputa – para que nenhum fã fique decepcionado, nenhum piloto frustrado, nenhuma equipe desmotivada e nenhum investidor ressabiado.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 14/06/2015

Automóveis versus bicicletas

Eu moro a 15 km do local de trabalho, pelo Google Maps. Demoro cerca de quarenta e cinco minutos para chegar lá, porque o trânsito é pesado. Aí um espertinho pode fazer os cálculos e dizer: “você anda a 20 km/h, um maratonista corre a 18 km/h, uma bicicleta faz tranquilo entre 20 km/h e 25 km/h – você chegaria antes de bicicleta”.

Bicicleta em aclive

Esta é a hora em que eu começaria a rir ou chamaria o sujeito de imbecil, conforme o meu humor no dia.

Eu vou para o trabalho seguro e dentro de um veículo climatizado. Se chover, ligo o limpador de pára-brisa e o ar-condicionado e chego sequinho. Se fizer um calor dos infernos, ligo o ar-condicionado e chego sequinho e confortável. Em qualquer dos casos, chego descansado e sequinho.

Se eu fosse de bicicleta, eu estaria exposto à chuva e ao sol. Se chovesse, eu chegaria encharcado de chuva. Se fizesse sol, eu chegaria encharcado de suor. Em qualquer dos casos, eu chegaria molhado, fedorento e cansado.

No caminho de casa para o trabalho eu enfrento diversas subidas e descidas bastante íngremes. Com o carro eu apenas troco de marcha e aperto um pouco mais o pedal. Com a bicicleta, além de trocar de marcha, eu teria que fazer muito mais força e pedalar muito mais. Além disso, os aclives e declives são praticamente irrelevantes para o tempo do trajeto com o automóvel. Com a bicicleta, qualquer aclive ou declive muda muito não apenas o esforço, como o tempo e a segurança do percurso.

Com o automóvel, eu carrego um estepe, um galão de água, uma muda de roupa e uma bolsinha com meus documentos, alguns medicamentos de emergência (não saio de casa sem ter um anti-alérgico na mão) e os cacarecos que eu bem entender. E volta e meia dou uma carona para algum amigo.

Com uma bicicleta, eu não tenho como carregar um estepe, nem o galão de água, e teria que andar com uma mochila pesada nas costas para carregar metade das coisas que carrego no carro, o que aumentaria o peso a carregar, a dificuldade de enfrentar os trajetos, o esforço necessário e a agilidade necessária para tentar escapar de algum imprevisto. Além disso, não poderia dar carona para ninguém.

E ainda há o fato de que o automóvel tem pára-choques e uma boa quantidade de metal entre eu e qualquer coisa lá fora. O pára-choque da bicicleta é a cara do ciclista e qualquer cachorro vadio pode representar um risco ou ferimento grave.

Isso quer dizer que eu jamais teria uma bicicleta? Claro que não! Ando pensando em comprar uma, inclusive. Mas não sou louco para usar uma bicicleta em um trânsito maluco, poluído, perigoso, sob as intempéries, com grande esforço físico e perda de tempo, além de diversos outros problemas, para bancar o salvador do mundo, achando que daqui a vinte anos não haverá carros nas ruas e todos serão ciclistas saudáveis e contentes.

Um pouquinho de bom senso não faz mal a ninguém. Bicicleta é bom para passear no parque, para fazer exercício, para pequenos deslocamentos próximos à residência ou para aventuras com os amigos (tipo ir de uma cidade a outra de bicicleta) nas férias. Para as necessidades do cotidiano em uma região urbana, é o automóvel que melhor satisfaz as minhas necessidades – e as da maioria das pessoas, como muito bem vemos pela proporção entre automóveis e bicicletas transitando nas ruas desde sempre.

Quem quiser que eu deixe o meu carro na garagem que implemente um excelente sistema de transporte coletivo, onde eu viaje sentado, com ar condicionado, a qualquer momento do dia ou da noite, com segurança, que me pegue e me deixe a não mais de 400 m de casa. E que custe menos do que andar de carro.

Espinafrar o automóvel particular virou modinha de eco-chato. Mas resolver o problema do transporte de modo razoável, confortável, prático e barato, isso ninguém faz. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 31/03/2015 

Documentário Fat Head Legendado

Se você não tem paciência para pesquisar e ler calhamaços de informação sobre como se fica gordo, como se emagrece e qual é a melhor dieta para a sua saúde, assista a este documentário – que foi produzido em tom cômico mas contém boa informação e aprenda sem ter que “estudar”.  Fat Head   YouTube Clique aqui para assistir ao documentário Fat Head legendado no Youtube. A imagem acima mostra onde você deve clicar para ativar as legendas e para assistir o vídeo em tela cheia. Boa diversão e bom aprendizado! Depois de assistir ao vídeo, volte aqui para comentá-lo.  Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 30/12/2014 

Seu telhado está preparado contra porcos voadores migratórios?

O porco voador migratório representa um problema grave de segurança pública no Brasil. É um animal que vive em bandos e realiza um vôo migratório anual sobre regiões densamente povoadas de vários estados brasileiros. Ele tem o hábito de pousar em grande número em telhados molhados, onde acasala ruidosamente. Milhares de casos de desabamento de telhados tem sido registrados anualmente, com queda de porcos acasalando sobre os moradores em noites de chuva, gerando grandes prejuízos, centenas ou até milhares de desabrigados e dezenas de vítimas fatais todos os anos. Mesmo assim os brasileiros não costumam reforçar seus telhados para resistir ao pouso e acasalamento dos porcos voadores. 

porco alado

Agora troque a migração anual dos porcos voadores pelos vendavais e chuvaradas que acontecem todos os anos e me diga se é algo inteligente que os brasileiros saibam que isso se repete todos os anos, vejam nos telejornais milhares de pessoas perdendo tudo o que possuem todos os anos e mesmo assim continuem construindo casas com telhados ridiculamente incapazes de resistir a estes eventos meteorológicos altamente previsíveis. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/12/2014 

Eu sei como resolver. Mas não conto!

Crianças que morrem esquecidas dentro de automóveis poderiam ser salvas por um dispositivo que custa menos de R$ 50,00. Agências bancárias podem ser protegidas de ataques armados ou com dinamite por um dispositivo muito barato capaz impedir a concretização do furto. O CUB de uma construção pode ser reduzido com facilidade aumentando o valor do imóvel. Eu sei como fazer tudo isso, mas não vou contar como. 

Criança esquecida no carro morre

Eu pretendia escrever um artigo sobre cada um destes assuntos (e mais alguns outros). Depois de muito pensar, decidi não contar no blog como resolver estes e diversos outros problemas para os quais eu tenho soluções. Por quê? Por dois motivos. 

Primeiro, porque eu já ofereci muitas soluções para quem não quer soluções e isso é muito frustrante. 

Segundo, porque alguém vai usar minhas idéias para ganhar dinheiro e não vai me dar um centavo. 

Então a coisa fica assim: se eu divulgar as soluções e ninguém se interessar por elas, eu ficarei frustrado; mas se eu divulgar as soluções e alguém se interessar por elas, eu não ganharei nada. 

Como eu não sou um ricaço como o Alberto Santos Dumont, que podia se dar ao luxo de trabalhar pelo bem da humanidade sem se preocupar com o próprio sustento, por que eu deveria publicar estas idéias? 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/08/2014 

Como a Claro trata o cliente – parte 4: cliente é lixo

Se você é cliente da Claro ou da NET, deveria ler este artigo para saber como a Claro me tratou depois de mais de uma década como cliente. Um dia talvez chegue a sua vez de ser tratado do mesmo modo. 

Claro02

Eu passei por várias mudanças de endereço nos últmos meses. Mudança é uma coisa que bagunça a rotina. No meio da última mudança, entre inúmeras preocupações e coisas por fazer, eu esqueci de pagar a fatura da internet. Descobri isso quando a internet foi cortada, claro.

Alguns dias depois fui à loja da Claro pegar uma segunda via da conta para colocar tudo em dia. Cheguei no caixa, falei que queria uma segunda via da conta e a Claro, pelo funcionário do caixa, pediu o meu CPF e imprimiu uma nova conta.

Eu ia pagar a conta em uma lotérica, mas a Claro me disse que eu poderia pagar ali no caixa mesmo. Para não ter que pegar outra fila, paguei ali mesmo. E a Claro me disse que no máximo em 24 horas, provavelmente muito antes, minha internet estaria no ar.

Passaram-se 24 horas e nada.

Então liguei para o atendimento da Claro, aquele mesmo do qual já falei aqui, aqui e aqui. A Claro me disse, por sua atendente, que o pagamento não havia entrado no sistema ainda.

“- Mas eu fiz o pagamento dentro da própria loja da Claro! Quer dizer que a Claro não informou para si mesma que já recebeu o pagamento?” 

“- Senhor, não há nenhum procedimento que possamos estar realizando para religar a sua internet agora. O senhor terá que esperar o pagamento entrar no sistema.” 

Passaram-se 36 horas e nada. 

Liguei de novo. 

“- Senhor, o seu pagamento ainda não entrou no sistema.” 

Passaram-se 48 horas e nada.

E aí voltei à loja da Claro.

Lá eu descobri que o pagamento que eu havia efetuado, cujo comprovante estava em minhas mãos, não havia sido o da fatura em atraso, mas um suposto resíduo de uma banda larga que eu tinha em 2012 – exatamente aquele caso que me deixou quatro horas e meia sendo enrolado e gerou os três primeiros artigos da série que se encerra com o presente artigo. 

Ou seja, eu pedi uma segunda via da fatura atual e a Claro me deu uma fatura referente a uma falha de processamento dela no cancelamento de uma banda larga de anos atrás. 

Aí eu disse para a Claro: OK, então, agora que vocês já sabem qual foi o erro que cometeram, estornem esse valor cobrado indevidamente, utilizem este valor para pagar a minha fatura atrasada e religuem minha internet imediatamente. 

O que a Claro me disse? Que naquele momento não poderia fazer isso. Que teria que relatar o problema para um comitê sei lá eu de onde e que em cinco dias úteis eu teria uma resposta. Enquanto isso, eu que me dane se eu estou sem internet por causa da incompetência dela. 

Surpreendentemente, ao invés de ter que esperar cinco dias úteis, eu recebi a resposta no dia seguinte – hoje. A Claro me ligou no sábado de manhã, me acordando num dos dois únicos dias da semana em que eu posso dormir até mais tarde, de um número confidencial, sem fornecer um número de protocolo, e eu ainda sonolento atendi a chamada, violando sem querer minha própria regra de nunca atender números confidenciais. 

E o que a Claro me informou? Que não tem registro do cancelamento daquela banda larga de 2012, portanto não tem como estornar o valor pago. 

Eu tentei argumentar: 

“- Peraí, eu continuei cliente da Claro por mais dois anos, não havia nenhuma pendência!” 

“- Senhor, nós não encontramos nenhum registro de cancelamento da sua banda larga de 2012, portanto não há como estornar aquele pagamento.” 

“- Bom, se vocês não encontraram o registro do que foi feito dentro do quiosque de vocês mesmos, então vocês cometeram dois erros!” 

“- Senhor, eu já informei o que tinha que informar. A Claro agradece a sua atenção, tenha um bom dia!” 

E a Claro desligou o telefone na minha cara

Ou seja, a Claro me tomou um dinheiro que eu não lhe devia, através de um ardil maldoso, pouco me interessa se por incompetência ou por má fé, usou de uma alegação que eu não tenho como conferir e que na verdade não passa ou de um segundo erro, ou de má fé, e bateu o telefone na minha cara enquanto eu tentava argumentar, me tratando como lixo. 

E eu que vá me queixar para o bispo, claro

Se a Claro fosse uma empresa decente – e não é – ela poderia ter simplesmente dito o seguinte: 

“- Senhor, nós lamentamos o inconveniente. O senhor é nosso cliente há mais de uma década e nós temos o máximo interesse em mantê-lo como cliente. Nós já religamos a sua internet, corrigimos o problema em nosso sistema e geramos uma nova fatura, que pode ser paga dentro dos próximos dez dias.” 

Se a Claro tivesse agido com esta decência, eu continuaria sendo um cliente satisfeito por muitos anos, dando lucro à operadora por muitos anos, falando bem da operadora por muitos anos. Mas não… A Claro fez questão de ser chinelona. Os R$ 94 (noventa e quatro reais) que ela me tomou cobrando indevidamente uma fatura de 2012 que jamais deveria ter existido foram o atestado de chinelagem mais vergonhoso que uma empresa de grande porte poderia emitir. Graças a sua visão medíocre e a essa conduta porca e mal educada, a Claro perdeu um cliente e tem agora um inimigo que jamais a perdoará. 

Diz uma antiga pesquisa feita pelo ramo hoteleiro que um cliente satisfeito conta em média para quatro pessoas que foi bem atendido e que um cliente insatisfeito conta em média para onze pessoas que foi mal atendido. Pois aqui estou eu contando para quatrocentos leitores por dia que a Claro me atendeu muito, muito, muito mal. 

Mas isso não é tudo. 

Eu não vou me contentar em fazer progaganda contra para mais onze ou quatrocentas pessoas. 

Eu vou é tirar pelo menos mais onze clientes da Claro. 

PROMOÇÃO “ESCURO” 

Estou oferecendo de graça onze chips pré-pagos de outras operadoras, um para cada uma das primeiras onze pessoas que quebrarem os seus chips pré-pagos da Claro na minha frente e prometerem nunca mais usar os serviços da Claro. 

Está vendo isso, Claro maldita? Não é pela migalha dos R$ 94, seus chinelões. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/10/2014 

Os custos da cultura do Brasil

Um país civilizado deveria funcionar bem e oferecer segurança, conforto e praticidade para seus cidadãos, certo?. Por exemplo, não é uma exigência excessiva querer que um cidadão possa pagar uma simples conta no banco sem contratempos. 

Banco-do-Brasil

Saí de casa ontem por volta das 18h para pagar duas contas no Banco do Brasil. Junto comigo estava meu pai, que tinha que passar no mercado. As ruas estavam lotadas, o trânsito não fluía. Em uma esquina que deveria ter uma sinaleira (sinaleira é semáforo em portoalegrês), os motoristas têm que negociar um a um a passagem em três sentidos diferentes. Na seguinte também. E na seguinte. Para que ordenar o trânsito com semáforos (opa, desta vez saiu em português) se dá para deixar o motorista disputar a tapa a vez de passar, né? 

Entrei por uma viela toda esburacada e cheia de quebra-molas, como toda Ilha de Florianópolis tem, demonstrando que tem um povo tão selvagem que precisa ser contido com barreiras físicas para não se matar a mais de 40 km/h até mesmo nas grandes avenidas, e evitei umas três outras esquinas de negociação de quem passa até o mercado. Lá chegando, estacionei na rua em frente e fiquei dentro do carro esperando meu pai fazer as compras, para não ter que entrar no estacionamento, que é muito movimentado, apertado para manobrar e só tem um portão para entrada e saída. 

Feitas as compras, observei um motorista saindo do estacionamento do mercado e tentando dar a volta por trás de um ônibus que estava parado em frente ao portão de saída do estacionamento. Sim, há uma parada de ônibus na frente do portão de saída do mercado. 

Dali fomos ao Banco do Brasil. Estacionei em uma vaga milagrosamente disponível no prédio ao lado, pois o estacionamento em frente ao BB é pago. Desta vez foi meu pai quem ficou no carro enquanto eu ia pagar as minhas contas no BB. 

Primeira maravilha: meu cartão estava bloqueado. Por quê? Porque o BB decidiu me obrigar a substituir o meu cartão com fita magnética por um cartão com chip, que ele já enviou… Para meu antigo endereço em outra cidade a 550 km de distância. E, claro, eu tenho que resolver isso na minha agência, que também fica na cidade em que eu morava antes. 

Bem, havia uma opção para desbloquear o cartão – o que indica claramente que o bloqueio tinha mesmo o objetivo de me encher o saco para me forçar a trocar de cartão, não qualquer motivo de segurança – então desbloqueei o cartão e tentei pagar minhas contas. 

Segunda maravilha: só pude pagar uma das contas. Quando tentei pagar a minha segunda conta, com meu cartão, com meu dinheiro, o BB me informou que eu não poderia fazer isso naquele dia, pois eu havia excedido o valor autorizado para pagamentos naquele dia. 

Minhas contas. Meu cartão. Meu dinheiro. E o Banco do Brasil me impediu de pagar uma das minhas contas, usando meu cartão, com meu dinheiro. 

Hoje vou ter que enfrentar novamente a negociação nas esquinas sem sinaleiras, mais a dificuldade de estacionar, ou o custo do estacionamento pago, mais o maldito sistema do BB, só que dentro do horário bancário, porque a segunda conta, sozinha, é mais alta que o limite diário que o Banco do Brasil me permite dispor do meu próprio dinheiro. 

Como eu já sei em que lixo de país eu vivo, a conta não vencia ontem. Eu estava pagando com antecedência, prevendo alguma palhaçada. Qual palhaçada viria eu não sabia, mas eu sabia que alguma palhaçada viria. E veio. 

O Brasil é um país em que temos que partir do princípio de que alguma coisa sempre dará errado, porque alguma coisa sempre terá sido mal feita. Além disso, a solução provavelmente não estará disponível a tempo, ou custará caro, ou causará mais um problema, freqüentemente exigindo alguma gambiarra ou “jeitinho”. 

E seria tão fácil fazer as coisas bem feitas! 

Vejamos: 

O BB quer que eu troque de cartão por um cartão mais seguro. Certo, então por que, ao invés de bloquear meu cartão para me forçar a ir buscar outro, o BB não me possibilita, em qualquer lugar do país, usar meu cartão antigo com fita magnética e minha senha ou mesmo um dado biométrico para validar um cartão novo com chip imediatamente

O BB quer que eu tenha segurança nas operações fora do horário bancário. Certo, então por que, ao invés de inventar limites que constituem um estorvo, o BB não me fornece uma segunda senha, que funcione igualzinho à primeira, mas que ative um alarme silencioso e chame a segurança ou a polícia ou ambos imediatamente

Aliás, por que nem o Banco do Brasil, nem nenhum banco no Brasil faz isso? 

Não será pelo mesmo motivo que nos faz ter cruzamento sem sinaleiras, paradas de ônibus na frente das portas de estacionamentos movimentados e quebra-molas em ruelas esburacadas onde é impossível desenvolver 40 km/h?

Quantos outros custos, em segurança, conforto e praticidade, nos impõe essa cultura de gambiarra e jeitinho e desprezo por fazer as coisas bem feitas? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/09/2014 

O Macaco Masoquista

Sabem aquele papo de que “quem não aprende pelo amor aprende pela dor”? Esqueçam. É mentira. 

Stupid
Acho que é isso que acontece com a cabeça do Macaco Masoquista quando ele tenta pensar… Só pode.

Isso não deveria ser nenhuma novidade, mas eu não me canso de ficar surpreso com o quanto o macaco que se acha sapiens é incapaz de aprender mesmo perante as mais óbvias evidências. Vamos a alguns exemplos.

Cadeia

Quando eu era moderador de uma grande comunidade de Direitos Humanos no Orkut, uma das frases que eu mais lia era “cadeia tem que ser ruim, para quem passar por lá nunca mais querer voltar”. Quem dizia isso, obviamente, não acreditava nisso de verdade, só estava destilando ódio. Caso contrário, teria que concordar com o raciocínio que eu apresentava em seguida. 

Eu perguntava “Tu não achas que todas as pessoas devem ser tratadas com dignidade?”. 

E normalmente a resposta era algo como “Vagabundo não tem dignidade.” 

Então eu dizia “Pois é, eu vou te ensinar o contrário. Vou te prender em uma cela escura e úmida de 2m x 2m e te encher de porrada o dia inteiro até nunca mais quereres repetir que vagabundo não tem dignidade. Quanto tempo achas que vais demorar para aprender isso?”. 

A resposta em geral era algo como “Nunca!” 

Mas eles continuavam a dizer que “cadeia tem que ser ruim, para quem passar por lá nunca mais querer voltar”. 

O Macaco Masoquista não aprende nem com privação de liberdade, nem tomando pau. 

Enchente

Eu já contei em algum lugar do blog que assisti um repórter entrevistar uma pessoa cuja casa tinha sido atingida por umas quatro ou cinco enchentes e que em todas as vezes tinha perdido tudo que tinha dentro de casa. 

Essa pessoa estava indignada, perguntando “E agora, quem é que vai pagar por tudo que eu perdi?”. E eu estou grato por não ser aquele repórter, ou eu teria dado com o microfone nos cornos daquela quadrúpede falante.

Gente… A criatura perde tudo que tem quatro vezes, não aprende que isso pode acontecer de novo, não faz nada para se proteger e ainda acha que “alguém” tem que pagar pelo que ela deixou a água destruir?

Primeiro que eu não moraria em um lugar inundável. Segundo que, se tivesse que morar em um lugar assim, eu construiria uma estrutura para onde pudesse içar meus bens mais valiosos e necessários em caso de enchente.

O Macaco Masoquista não aprende nem perdendo tudo o que tem. 

Hospital

Volta e meia nós vemos reportagens na grande mídia com denúncias embasbacantes e revoltantes sobre gente que morre ou fica aleijado na fila da emergência, de gente que é atendida em macas espalhadas pelos corredores, ou de gente que tem que dormir no chão dentro do hospital, às vezes sem ter nem sequer um colchão, sobre trapos. E todo mundo reclama e diz que é um absurdo.

Porém, o que as pessoas que passam por isso fazem quando escapam do SUS com vida?

Elas passam a assistir o noticiário e ler os jornais para compreender melhor o funcionamento e a situação do país, ou elas trocam de canal quando começa o noticiário e vão assistir as fofocas dos famosos?

Elas passam a lutar por uma saúde pública melhor, organizando-se em ONGs, filiando-se a partidos políticos para exercer pressão, promovendo campanhas de conscientização, ou só ficam reclamando?

O Macaco Masoquista não aprende nem sob muita dor, risco de seqüela grave ou morte. 

Conclusão

O Macaco Masoquista também não vai aprender nada com este artigo… 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/08/2014 

O crack é diferente das outras drogas?

Sempre que eu falo em “legalização de todas as drogas” alguém me pergunta: “e o crack? Ou então: e o krokodil? (Droga sintetizada na Rússia que causa perda de membros e pedaços do corpo por necrose.) Você quer legalizar estas drogas também?”. Sim. Quando eu digo todas, significa todas

crack-kit

Continue reading “O crack é diferente das outras drogas?”