Em um país civilizado

Em um país civilizado, você não entra em pânico quando sua filhinha de dois anos de idade se perde na multidão na beira da praia. Você caminha tranquilamente até a frente da casinha do salva-vidas e encontra alguém construindo um castelo de areia com sua filha esperando que você apareça.

Brincando com as crianças na praia

Em um país civilizado, você não tem prejuízo quando seu carro aparece amassado no estacionamento do supermercado. Você encontra sob o limpador de pára-brisas um bilhete dizendo o seguinte:

“Amigo, desculpe pelo incômodo. Eu estava com pressa para comprar uns copos descartáveis extras para a festa de aniversário de meu filho, hoje à noite, e fui imprudente ao manobrar. Por favor, telefone-me assim que puder para que eu possa mandar consertar a porta do seu carro: (99) 9999-9999. Atenciosamente, Fulano.”

Em um país civilizado, a pessoa que bateu em seu carro também não vai se incomodar com uma atitude destemperada da sua parte. Isso porque você vai mandar a seguinte mensagem para o celular que ele deixou no bilhete:

“Fulano, aqui é o dono do carro do pequeno acidente ocorrido hoje no supermercado. Agradeço sua gentileza. Aproveite a festa de seu filho, amanhã telefonarei para conversarmos. Parabéns ao garoto. Atenciosamente, Beltrano.”

Em um país civilizado, uma pessoa completamente desconhecida bate em sua porta, diz que é uma emergência, pede para usar o banheiro e você não somente não tem medo como convida a pessoa para entrar e informa: “pois não, é naquele corredor, primeira porta à direita”.

Em um país civilizado, um grupo de garotos com 12 a 14 anos passa a pé pela frente de sua casa portando pistolas e rifles de verdade e uma sacola de munição, você reconhece o filho do vizinho entre eles, acena para ele e ele acena de volta e faz um convite:

“Olá, Sra. Sicrana! Hoje é dia de prática de tiro na escola. As aulas são abertas para a comunidade. A senhora gostaria de vir praticar conosco?”

Em um país civilizado, você saca a sua Magnum .357 cor de rosa da cintura, mostra para eles e responde:

“Obrigado, garotos, mas eu já passei a noite de ontem praticando no clube de tiro.”

Em um país civilizado, você entra na farmácia para comprar um antibiótico sem receita – afinal, você não é um debilóide e aprendeu na escola quando e como se usa um antibiótico – e encontra o farmacêutico jogando fora alguns pacotes de medicamento. Você fica curioso, pergunta o que ele está jogando fora e ele responde:

“Cocaína. Passou do prazo de validade.”

Em um país civilizado, você percebe que dormiu um pouco demais no dormitório climatizado que toda empresa provê para os funcionários sestearem após o almoço, se levanta com pressa e pede desculpas ao gerente pelo atraso. Mas ele responde o seguinte:

“O mais importante é a sua saúde. Se houvesse muita necessidade nós teríamos chamado você. Não se preocupe, volte ao trabalho descansado.”

Em um país civilizado, você não se preocupa com quanto tempo o seu carro biocombustível vai ter que ficar na oficina mecânica para fazer a retífica do motor. Você simplesmente abre um aplicativo no seu smartphone pedindo transporte do lugar x ao lugar y às z horas e sempre aparece alguém que tem o mesmo aplicativo e se oferece para levar você por pouca coisa mais que o preço do combustível gasto no trajeto.

Em um país civilizado, se você quiser aprender a fazer qualquer coisa, de consertar encanamentos a neurocirurgia, de fazer malabarismo sobre pernas de pau a construir um guindaste elétrico com um torno mecânico e peças reaproveitadas de um carro acidentado, tudo que você precisa fazer é ligar para a universidade mais próxima, programar um curso que atenda às suas necessidades e agendar um horário de aulas conveniente.

Em um país civilizado, se você estiver nua pegando um sol no seu intervalo de almoço na praça pública toda florida que fica em frente à empresa e o entregador de sushi chegar, você simplesmente agradece a entrega, come o sushi e volta a deitar nua em sua esteira para aproveitar mais uns dez minutos de sol assistindo duas crianças jogarem uma partida de xadrez.

Em um país civilizado, se você deixa o último pacote de fraldas descartáveis cair dentro da banheirinha às 3h da madrugada, você liga 911, ou 190, e acontece o seguinte diálogo:

O atendente pergunta: “qual é a sua emergência?”.

Você responde “eu deixei cair o último pacote de fraldas descartáveis dentro da banheirinha”.

O atendente pergunta “qual o número da fralda? A senhora quer fralda para menino, para menina ou modelo unissex?”

Você responde: “quatro a seis meses, modelo unissex está ótimo, três pacotes”.

O atendente informa: “pois não, senhora. Três pacotes de fraldas descartáveis, tamanho de quatro a seis meses, modelo unissex. O valor será descontado na sua próxima fatura telefônica, com um acréscimo de $ 0.87 para cobrir os custos de deslocamento da viatura, já calculados pelo GPS. Dentro de 15 a 20 minutos estará em sua porta. Boa noite”.

Em um país civilizado, a expressão “fila da emergência” é incompreensível.

Em um país civilizado, se o seu filho de 12 anos quiser levar a AK-47 dele municiada para a sala de aula, ele será orientado a manter a arma travada, não apontar a arma para os coleguinhas e para os professores e só metralhar terroristas que invadam a sala atirando se o professor não conseguir eliminar a ameaça com sua própria arma.

Em um país civilizado, não existem buracos nas ruas. Nunca.

Em um país civilizado, você pode comprar álcool líquido 92,8° no supermercado. E também pode comprar dinamite, mas nesse caso é necessário apresentar a identidade. A carteira de motorista serve.

Em um país civilizado, ninguém cede seu assento para outra pessoa no transporte público. Não é necessário. Sempre há assentos vagos, em todos os horários.

Em um país civilizado, não existem cotas. De nenhum tipo. Todas as pessoas têm 100% de seus direitos garantidos. E sobram oportunidades de realização pessoal e profissional. 

Em um país civilizado, as pessoas são responsáveis e fortes entusiastas de uma atitude proativa em prol de uma vida melhor, mais segura, mais confortável, mais solidária e mais agradável – com exceção dos casos patológicos, que são tratados com muita compaixão porém muita firmeza.

Em um país civilizado, não é necessário fazer comentários sobre a qualidade dos políticos, empresários, líderes comunitários e formadores de opinião. Afinal, em qualquer país eles sempre refletem a cultura e o caráter do povo.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/01/2015 

Teoria da Evolução versus religião

Volta e meia eu leio ataques de religiosos à Teoria da Evolução e a Charles Darwin, normalmente afirmando que a Teoria da Evolução não tem evidências, que é apenas mais uma crença ou religião e que “se você veio do macaco, o problema é seu, porque eu vim de Deus”. #sóquenão 

árvore filogenética

A Teoria da Evolução é uma das mais bem estabelecidas e importantes teorias científicas já produzidas. A Teoria da Evolução é tão bem estabelecida e importante que é a teoria unificadora das ciências biológicas e da saúde (e outras ciências derivadas que não vou citar agora para não gerar polêmica e desviar o assunto, mas futuramente podemos discutir isso).

Afirmar que não existem evidências da evolução só tem duas explicações: ou ignorância, ou má fé. O nível de evidência da Teoria da Evolução é monumental. Temos desde seqüências fósseis até linhas filogenéticas de DNA produzidas por estudos taxonômicos altamente refinados por análise multivariada e análise de cluster feitas por supercomputadores. Tudo isso longamente revisado e criticado por uma comunidade científica das mais qualificadas e atuantes (porque, embora as noções gerais da evolução sejam simples, os detalhes são muito complexos, e o assunto é apaixonante).

Os religiosos sempre tentam desqualificar a ciência como apenas mais uma religião, o que não deixa de ser uma ironia hilária. Mas eu não discuto mais com eles. Francamente, não há muito o que discutir com alguém que acredita que um judeu morto há dois mil anos era filho de uma virgem com o próprio criador do universo, que também era ele mesmo, e que ressuscitou, subiu aos céus pelas próprias forças, está vivo em algum lugar há todo este tempo e vai voltar do céu a cavalo, junto com quatro cavaleiros que vão causar terremotos tocando trombetas e ressuscitar bilhões de cadáveres decompostos só para lançá-los em um lago de fogo eterno para sofrerem por toda a eternidade as dores excruciantes e imitigáveis de queimaduras terríveis e constantes em nome do amor de Deus.

Fala sério, quem acredita NISSO tem alguma credibilidade para questionar as supostas inconsistências de uma teoria científica muito bem estabelecida, ou para questionar a suposta falta de *evidências* de qualquer coisa? 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 31/12/2014

(*) Originalmente postado aqui

Os custos da cultura do Brasil

Um país civilizado deveria funcionar bem e oferecer segurança, conforto e praticidade para seus cidadãos, certo?. Por exemplo, não é uma exigência excessiva querer que um cidadão possa pagar uma simples conta no banco sem contratempos. 

Banco-do-Brasil

Saí de casa ontem por volta das 18h para pagar duas contas no Banco do Brasil. Junto comigo estava meu pai, que tinha que passar no mercado. As ruas estavam lotadas, o trânsito não fluía. Em uma esquina que deveria ter uma sinaleira (sinaleira é semáforo em portoalegrês), os motoristas têm que negociar um a um a passagem em três sentidos diferentes. Na seguinte também. E na seguinte. Para que ordenar o trânsito com semáforos (opa, desta vez saiu em português) se dá para deixar o motorista disputar a tapa a vez de passar, né? 

Entrei por uma viela toda esburacada e cheia de quebra-molas, como toda Ilha de Florianópolis tem, demonstrando que tem um povo tão selvagem que precisa ser contido com barreiras físicas para não se matar a mais de 40 km/h até mesmo nas grandes avenidas, e evitei umas três outras esquinas de negociação de quem passa até o mercado. Lá chegando, estacionei na rua em frente e fiquei dentro do carro esperando meu pai fazer as compras, para não ter que entrar no estacionamento, que é muito movimentado, apertado para manobrar e só tem um portão para entrada e saída. 

Feitas as compras, observei um motorista saindo do estacionamento do mercado e tentando dar a volta por trás de um ônibus que estava parado em frente ao portão de saída do estacionamento. Sim, há uma parada de ônibus na frente do portão de saída do mercado. 

Dali fomos ao Banco do Brasil. Estacionei em uma vaga milagrosamente disponível no prédio ao lado, pois o estacionamento em frente ao BB é pago. Desta vez foi meu pai quem ficou no carro enquanto eu ia pagar as minhas contas no BB. 

Primeira maravilha: meu cartão estava bloqueado. Por quê? Porque o BB decidiu me obrigar a substituir o meu cartão com fita magnética por um cartão com chip, que ele já enviou… Para meu antigo endereço em outra cidade a 550 km de distância. E, claro, eu tenho que resolver isso na minha agência, que também fica na cidade em que eu morava antes. 

Bem, havia uma opção para desbloquear o cartão – o que indica claramente que o bloqueio tinha mesmo o objetivo de me encher o saco para me forçar a trocar de cartão, não qualquer motivo de segurança – então desbloqueei o cartão e tentei pagar minhas contas. 

Segunda maravilha: só pude pagar uma das contas. Quando tentei pagar a minha segunda conta, com meu cartão, com meu dinheiro, o BB me informou que eu não poderia fazer isso naquele dia, pois eu havia excedido o valor autorizado para pagamentos naquele dia. 

Minhas contas. Meu cartão. Meu dinheiro. E o Banco do Brasil me impediu de pagar uma das minhas contas, usando meu cartão, com meu dinheiro. 

Hoje vou ter que enfrentar novamente a negociação nas esquinas sem sinaleiras, mais a dificuldade de estacionar, ou o custo do estacionamento pago, mais o maldito sistema do BB, só que dentro do horário bancário, porque a segunda conta, sozinha, é mais alta que o limite diário que o Banco do Brasil me permite dispor do meu próprio dinheiro. 

Como eu já sei em que lixo de país eu vivo, a conta não vencia ontem. Eu estava pagando com antecedência, prevendo alguma palhaçada. Qual palhaçada viria eu não sabia, mas eu sabia que alguma palhaçada viria. E veio. 

O Brasil é um país em que temos que partir do princípio de que alguma coisa sempre dará errado, porque alguma coisa sempre terá sido mal feita. Além disso, a solução provavelmente não estará disponível a tempo, ou custará caro, ou causará mais um problema, freqüentemente exigindo alguma gambiarra ou “jeitinho”. 

E seria tão fácil fazer as coisas bem feitas! 

Vejamos: 

O BB quer que eu troque de cartão por um cartão mais seguro. Certo, então por que, ao invés de bloquear meu cartão para me forçar a ir buscar outro, o BB não me possibilita, em qualquer lugar do país, usar meu cartão antigo com fita magnética e minha senha ou mesmo um dado biométrico para validar um cartão novo com chip imediatamente

O BB quer que eu tenha segurança nas operações fora do horário bancário. Certo, então por que, ao invés de inventar limites que constituem um estorvo, o BB não me fornece uma segunda senha, que funcione igualzinho à primeira, mas que ative um alarme silencioso e chame a segurança ou a polícia ou ambos imediatamente

Aliás, por que nem o Banco do Brasil, nem nenhum banco no Brasil faz isso? 

Não será pelo mesmo motivo que nos faz ter cruzamento sem sinaleiras, paradas de ônibus na frente das portas de estacionamentos movimentados e quebra-molas em ruelas esburacadas onde é impossível desenvolver 40 km/h?

Quantos outros custos, em segurança, conforto e praticidade, nos impõe essa cultura de gambiarra e jeitinho e desprezo por fazer as coisas bem feitas? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/09/2014 

Extremistas

Recebi a notícia pelo Facebook: “Justiça de SP culpa vítima de bala de borracha pela perda do próprio olho”. Já sei como a maioria das pessoas se posiciona nesses casos. 

Extremistas

De um lado ficam os extremistas que dizem que, se um seqüestrador com uma pistola apontada para a cabeça de uma vítima inocente for alvejado por um sniper da polícia, o Estado cometeu um crime. 

Do outro lado ficam os extremistas que dizem que, se um jornalista foi alvo de uma bala de borracha e perdeu a visão devido à imprudência da polícia em usar esse tipo de projétil contra multidões, a culpa de ser atingido é da vítima. 

Estou cansado de extremistas, seus simplismos e sua intolerância. 

Extremista tem que ser crucificado de cabeça para baixo em cima de um formigueiro, amarrado com arame farpado cheio de urtiga e ser chicoteado até se engasgar com o próprio sangue. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/09/2014 

A vitória dos intolerantes

Perdi quatro compartilhamentos automáticos dos artigos do Pensar Não Dói porque meus amigos que faziam o compartilhamento foram intimidados por seus amigos intolerantes e preferiram deixar de me ajudar a divulgar o blog a ter que dar explicações ou serem pressionados ou incomodados. 

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Um foi porque uma amiga de minha amiga disse que o que eu escrevo “não tem nada a ver com ela”, outros dois porque os amigos esquerdistas de duas amigas foram lhes buzinar os ouvidos por causa de minhas críticas à esquerda, outro porque uma amiga de um amigo veio questionar minhas críticas à homeopatia. E já estou prevendo perder mais um compartilhamento em função de críticas ao cristianismo que pretendo publicar em breve. 

Então fica combinado assim: se eu postar fotinho e filmezinho de gatinho e de cachorrinho, perfeito, ninguém reclama e o blog cresce; se eu postar opiniões firmes sobre assuntos polêmicos, especialmente se eu criticar alguém ou alguma coisa em que alguém acredite ou goste, os intolerantes reclamam, os amigos preferem não se incomodar, fazem a vontade dos intolerantes e o blog estagna, ou pelo menos fica dependendo apenas de minhas forças para a divulgação. 

Não basta aos intolerantes simplesmente não ler o que não gostam. Nada disso, eles precisam impor sua vontade e sua visão de mundo de alguma maneira. E, se algum amigo meu compartilha coisas do meu blog e eles não gostam, ‘bora atazanar quem compartilha meus artigos para fazê-los desistir de divulgar meu blog. Assim agem os intolerantes.

O que me deixa abismado é que funciona.

Quando pressionados, meus amigos poderiam dizer: “peraí, cara, o Arthur é meu amigo, eu posso não concordar com tudo que ele diz, de fato eu discordo de várias coisas, porque não existem duas pessoas que pensem igual em tudo, mas não me custa nada disponibilizar os artigos dele para quem quiser ler e debater, assim como não te custa nada não ler os artigos dele se não gostares”.

Ao invés disso, meus amigos acabam cedendo à pressão dos intolerantes e fazendo a vontade deles.

Por quê?

Bem, eu continuei amigo dos quatro que deixaram de compartilhar meus artigos e não comecei a torrar o saco deles cobrando uma atitude, afinal eu não sou intolerante.

Mas os intolerantes ou se afastam de quem não cede a seus caprichos, ou atazanam estas pessoas incansavelmente criticando e cobrando e pressionando.

Então, o melhor balanço é deixar de compartilhar os artigos e continuar sem se incomodar com nenhum dos dois. Cômodo e prático, né? 

Obviamente, a mesma lógica permanece válida para situações análogas,  o que invariavelmente beneficia os intolerantes e reforça sua maneira de agir.  

Em conseqüência, devido à mais simples e óbvia seleção natural, a menor incomodação no curto prazo promove diretamente uma incomodação muito maior no longo prazo, tornando todo o ambiente cada vez mais intolerante. E mais, e mais

Parabéns, intolerantes! Vocês vão dominar o mundo! O que vocês sempre esquecem é que sempre aparece um cara mais intolerante que vocês e mais disposto a ações mais extremas que vocês. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/08/2014 

Tentativa de cachorricídio

Se você tem um destes cachorros histéricos que não param de latir e enchem o saco dos vizinhos o tempo todo, deveria ler esta história… 

Cachorro chato latindo

Eu morei em diversos prédios de apartamentos além do malfadado apartamento térreo sobre o qual comentei em outro artigo. Em um destes outros prédios, a vizinha do apartamento térreo tinha um destes malditos sacos de pulgas e latidos que vivem tremendo e azucrinando a vizinhança dia e noite com aqueles latidinhos agudos irritantes que nos fazem lamentar a ausência de carabinas no supermercado. 

Latido vai, latido vem, um belo dia um vaso com folhagens aterrissou bem ao lado do tal cachorro. Uma semana depois, outro.

O cérebro humano é pródigo na detecção de padrões, então até mesmo a tapada da vizinha do térreo não teve muita dificuldade para perceber que algum vizinho de um andar mais acima estava decidido a matar aquela insuportável fonte de stress e insônia. E recolheu o cachorro e a respectiva casinha para dentro do apartamento.

Santo remédio.

Abrigado e com companhia, o totó reduziu seus latidos para menos de um décimo da freqüência habitual, com a vantagem extra de que agora ele não latia entre dois prédios, mas dentro de um deles, o que reduzia consideravelmente o volume percebido e o alcance dos latidos.

Algumas semanas mais tarde, o vizinho da andar de cima me confesso que tomou o maior cuidado para não acertar o pobre do bichinho, que afinal de contas não tinha culpa alguma pela estupidez humana de selecionar uma raça desgraçadamente irritante como aquela, nem de ter a dona sem-noção que tinha.

E eu que já estava quase decorando meu apartamento com folhagens… 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 18/08/2014 

Parábola do Bom Travesti

Este é o ensinamento original. Busque o entendimento. 

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Parábola do Bom Travesti

Jesus Cristo / Rubem Alves

E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?” E ele lhes contou a seguinte parábola:

Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: “Vá passando a carteira”. O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.

Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: “Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.” Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo…” Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: “Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!” O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!” e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.

Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: “Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.” Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.

O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.

Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?”

 

A goleada para a Alemanha

Este não é um artigo sobre futebol. É um artigo sobre educação e ciência. Os alemães solicitaram 20 vezes mais patentes do que os brasileiros e o placar de prêmios Nobel desde 1901 é Alemanha 103 x 0 Brasil. Esta é a verdadeira goleada com a qual o Brasil deveria se preocupar. 

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Autor do texto: ANDRÉ LUÍS PARREIRA, 38 anos, físico pela Universidade Federal de São João del-Rei e mestre em tecnologia pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, diretor para o Brasil da Hiperlab, fabricante americana de planetários digitais. 

A goleada para a Alemanha

Sua respeitada ciência, sua história de reconstrução, a economia robusta, os automóveis e, mais recentemente, a energia renovável fazem a Alemanha estar sempre presente em nossas rodas de conversa. Lá, um povo apaixonado por futebol e cerveja consegue grandes placares também fora do campo.  

Por aqui, em 26 de junho e em ritmo de Copa do Mundo, foi sancionado pela Presidência da República o Plano Nacional de Educação (PNE). A meta mais comentada, embora não a mais relevante, tem sido a de se destinar 10% do PIB (Produto Interno Bruto) à educação em dez anos. Hoje, são investidos 6,4%.  

Felizmente, há outras metas previstas no PNE, pois somente esse aumento do investimento, ainda que significativo, não será suficiente para alcançarmos placares de patamar alemão ou de qualquer outro país que seja destaque educacional. Podemos concluir isso com a projeção de alguns números recentes do relatório “Education at a Glance”, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).  

Proporcionalmente, destinar 10% do PIB à educação faria o investimento médio por estudante saltar de aproximadamente US$ 2.900/ano para cerca de US$ 4.500, o que ainda fica muito aquém dos US$ 10 mil/ano investidos pela Alemanha.  

O salário inicial médio de um professor de educação básica no Brasil passaria dos atuais US$ 5.000/ano para US$ 7.500 contra US$ 30 mil/ano na Alemanha. Como exigir cada vez mais anos de estudo e qualificação dos professores quando se oferece tão pouco?  

Mas o investimento ainda terá que dar conta de outra triste realidade: a precária estrutura para o desenvolvimento de uma educação de qualidade para a ciência. Já tive a oportunidade de visitar escolas na Alemanha e constatei que o laboratório de ciências, aliado a projeto pedagógico, é parte do dia a dia desde o ensino fundamental.  

Por aqui, segundo o portal QEdu.org.br, somente 2% das escolas públicas municipais possuem laboratório de ciências. Se esticarmos a amostra para escolas públicas, o que engloba as estaduais e as federais, o número cresce para 8%. E a pesquisa fala somente em possuir, nada sobre sua utilização efetiva.  

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2012, com participação de 65 países, o placar em ciências ficou assim: Brasil com 405 pontos (59º lugar!) x Alemanha com 524 pontos (12º lugar!).  

No quesito inovação tecnológica, os alemães solicitaram 20 vezes mais registros de patentes do que nós. E, se colocarmos no placar o número de prêmios Nobel desde 1901, teremos Alemanha 103 x 0 Brasil!  

Ou seja, precisamos de muito mais que o investimento do PNE para melhorarmos nosso desempenho. Vamos ter que aprender com os alemães e trabalhar por muitos anos para reduzir as diferenças. Na educação, já estamos na prorrogação. 

Fonte: Folha de São Paulo

AGL

Em resumo: o autor propõe elevar o investimento em educação; pagar melhor os professores; melhorar a estrutura das escolas, com pelo menos um laboratório de ciências; buscar conhecimento em países mais avançados; trabalhar pensando no longo prazo. Cinco pontos. 

Eu tenho uma visão diferente, comecei a desenvolver alguns pontos extras, mas logo percebi que seria melhor fazer isso em um artigo separado – e ainda tenho aquele artigo do Feynman sobre a educação no Brasil para comentar antes disso. Gostaria primeiro de saber a opinião dos leitores sobre os pontos apresentados. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/07/2014 

Meus artigos sobre a Copa do Mundo 2014

Eis os meus quatro artigos sobre a Copa do Mundo: 

Fuleco
O motivo pelo qual ninguém nunca viu o Fuleco durante a Copa do Mundo da FIFA

Brasil, mostra a tua cara! (Sobre o que eu gostaria que acontecesse fora de campo durante esta Copa e por que isso seria bom para o Brasil.) 

Respondendo ao Estadão (Sobre o motivo pelo qual a seleção de futebol perder a Copa o quanto antes seria o melhor para o Brasil.) 

Saturação de futebol (Sobre o que estava acontecendo no Brasil real durante a Copa da Alienação.) 

Obrigado, Alemanha! (Sobre as reações de vandalismo e violência à derrota do Brasil na Copa e seu significado.)

Lista organizada a pedido de um internauta anônimo. Boa leitura! 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/07/2014 

A educação no Brasil vista por uma das mais brilhantes mentes do século XX

Richard P. Feynman, nasceu no ano de 1918 no estado de Nova Iorque, nos EUA. Estudou física no M.I.T. e em Princeton, e lecionou em Cornell e no Instituto de Tecnologia da California. Deu importantes contribuições à Física e foi considerado uma das mentes mais criativas de seu tempo. Ganhou o prêmio Nobel em 1965 e faleceu em 1988. Na década de 50 ele viveu e lecionou por quase um ano na cidade do Rio de Janeiro. 

Richard-Feynman

O texto abaixo foi extraído do livro autobiográfico “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman!” (título original: “Surely You’re Joking, Mr. Feynman!”), publicado originalmente em 1985, nos Estados Unidos. 

Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estudantes que se tornariam professores, uma vez que àquela época não havia muitas oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell, e assim por diante.

Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta e os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fizesse a pergunta de novo – o mesmo assunto e a mesma pergunta, até onde eu conseguia –, eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo, uma vez eu estava falando sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaróide.

O polaróide só passa luz cujo vetor elétrico esteja em uma determinada direção; então expliquei como se pode dizer em qual direção a luz está polarizada, baseando-se em se o polaróide é escuro ou claro.

Primeiro pegamos duas filas de polaróide e giramos até que elas deixassem passar a maior parte da luz. A partir disso, podíamos dizer que as duas fitas estavam admitindo a luz polarizada na mesma direção – o que passou por um pedaço de polaróide também poderia passar pelo outro. Mas, então, perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaróide.

Eles não faziam a menor idéia.

Eu sabia que havia um pouco de ingenuidade; então dei uma pista: “Olhe a luz refletida da baía lá fora”.

Ninguém disse nada.

Então eu disse: “Vocês já ouviram falar do Ângulo de Brewster?”

– Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o ângulo no qual a luz refletida de um meio com um índice de refração é completamente polarizada.

– E em que direção a luz é polarizada quando é refletida?

– A luz é polarizada perpendicular ao plano de reflexão, senhor.

Mesmo hoje em dia, eu tenho de pensar; eles sabiam fácil! Eles sabiam até a tangente do ângulo igual ao índice!

Eu disse: “Bem?”

Nada ainda. Eles tinham simplesmente me dito que a luz refletida de um meio com um índice, tal como a baía lá fora, era polarizada: eles tinham me dito até em qual direção ela estava polarizada. 

Eu disse: “Olhem a baía lá fora, pelo polaróide. Agora virem o polaróide”.

– “Ah! Está polarizada”!, eles disseram.

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”, eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando “Observe a água”.

Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos… são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era difícil descobrir isso.

Eu não conseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se coloca muito peso do lado de fora, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!

Depois da palestra, falei com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações – o que vão fazer com elas?”

– Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova.

– E como vai ser a prova?

– Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Quando dois corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado.

Então fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e eu tinha permissão para ouvi-la. Um dos estudantes foi absolutamente fantástico: ele respondeu tudo certinho! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo e ele respondeu perfeitamente.

Depois eles perguntaram: “Quando a luz chega a um ângulo através de uma lâmina de material com uma determinada espessura, e um certo índice N, o que acontece com a luz?

– Ela aparece paralela a si própria, senhor – deslocada.

– E em quanto ela é deslocada?

– Eu não sei, senhor, mas posso calcular. Então, ele calculou. Ele era muito bom. Mas, a essa época, eu tinha minhas suspeitas.

Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que eu queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma, os resultados da prova. A primeira pergunta que fiz foi: “Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?” 

– Não.

Aí eu perguntei: “Se esse livro fosse feito de vidro e eu estivesse olhando através dele alguma coisa sobre a mesa, o que aconteceria com a imagem se eu inclinasse o livro?” 

– Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo que o senhor tivesse virado o livro.

Eu disse: “Você não fez confusão com um espelho, fez?”

– Não senhor!

Ele havia acabado de me dizer na prova que a luz seria deslocada, paralela a si própria e, portanto, a imagem se moveria para um lado, mas não seria alterada por ângulo algum. Ele havia até mesmo calculado em quanto ela seria deslocada, mas não percebeu que um pedaço de vidro é um material com um índice e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta.

Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei demonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não aprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobre realmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles.

Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que acontecia: eles não conseguiam fazer!

Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.

Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros.

Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!

Ao final do ano acadêmico, os estudantes pediram-me para dar uma palestra sobre minhas experiências com o ensino no Brasil. Na palestra, haveria não só estudantes, mas também professores e oficiais do governo. Assim, prometi que diria o que quisesse. Eles disseram: “É claro. Esse é um país livre”.

Aí eu entrei, levando os livros de física elementar que eles usaram no primeiro ano de faculdade. Eles achavam esses livros bastante bons porque tinham diferentes tipos de letra – negrito para as coisas mais importantes para se decorar, mais claro para as coisas menos importantes, e assim por diante.

Imediatamente, alguém disse: “Você não vai falar sobre o livro, vai? O homem que o escreveu está aqui, e todo mundo acha que esse é um bom livro”.

– Você me prometeu que eu poderia dizer o que quisesse.

O auditório estava cheio. Comecei definindo ciência como um entendimento do comportamento da natureza. Então, perguntei: “Qual um bom motivo para lecionar ciência? É claro que país algum pode considerar-se civilizado a menos que… pá, pá, pá”. Eles estavam todos concordando, porque eu sei que é assim que eles pensam.

Aí eu disse: “Isso, é claro, é absurdo, porque qual o motivo pelo qual temos de nos sentir em pé de igualdade com outro país? Nós temos de fazer as coisas por um bom motivo, uma razão sensata; não apenas porque os outros países fazem”. Depois, falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição para a melhoria da condição humana, e toda essa coisa – eu realmente os provoquei um pouco.

Daí eu disse: “O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil!”

Eu os vejo se agitar, pensando: “O quê? Nenhuma ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas aulas”.

Então eu digo que uma das primeiras coisas a me chocar quando cheguei ao Brasil foi ver garotos da escola elementar em livrarias, comprando livros de física. Havia tantas crianças aprendendo física no Brasil, começando muito mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos, que era estranho que não houvesse muitos físicos no Brasil – por que isso acontece? Há tantas crianças dando duro e não há resultado.

Então eu fiz a analogia com um erudito grego que ama a língua grega, que sabe que em seu país não há muitas crianças estudando grego. Mas ele vem a outro país, onde fica feliz em ver todo mundo estudando grego – mesmo as menores crianças nas escolas elementares. Ele vai ao exame de um estudante que está se formando em grego e pergunta a ele: “Quais as idéias de Sócrates sobre a relação entre a Verdade e a Beleza?” – e o estudante não consegue responder. Então ele pergunta ao estudante: “O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?” O estudante fica feliz e prossegue: “Disse isso, aquilo, aquilo outro” – ele conta tudo o que Sócrates disse, palavra por palavra, em um grego muito bom. 

Mas, no Terceiro Simpósio, Sócrates estava falando exatamente sobre a relação entre a Verdade e a Beleza!

O que esse erudito grego descobre é que os estudantes em outro país aprendem grego aprendendo primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras gregas realmente significam algo. Para o estudante, elas não passam de sons artificiais. Ninguém jamais as traduziu em palavras que os estudantes possam entender.

Eu disse: “É assim que me parece quando vejo os senhores ensinarem ‘ciência’ para as crianças aqui no Brasil” (Uma pancada, certo?)

Então eu ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. “Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum desse livro, exceto em um lugar onde há uma bola, descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm erros – ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais – muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo de ‘resultados’ experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém jogou tal bola, ou jamais teriam obtido tais resultados!”

“Descobri mais uma coisa”, eu continuei. “Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de uma página, posso mostrar qual é o problema – como não há ciência, mas memorização, em todos os casos. Então, tenho coragem o bastante para folhear as páginas agora em frente a este público, colocar meu dedo em uma página, ler e provar para os senhores.”

Eu fiz isso. Brrrrrrrup – coloquei meu dedo e comecei a ler: “Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados…”

Eu disse: “E aí, você teve alguma ciência? Não! Apenas disseram o que uma palavra significa em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza – quais cristais produzem luz quando você os fricciona, por que eles produzem luz. Alguém viu algum estudante ir para cada e experimentar isso? Ele não pode”. 

“Mas, se em vez disso, estivesse escrito: ‘Quando você pega um torrão de açúcar e o fricciona com um par de alicates no escuro, pode-se ver um clarão azulado. Alguns outros cristais também fazem isso. Ninguém sabe o motivo. O fenômeno é chamado triboluminescência’. Aí alguém vai para casa e tenta. Nesse caso, há uma experiência da natureza.”

Usei aquele exemplo para mostrar a eles, mas não faria qualquer diferença onde eu pusesse meu dedo no livro; era assim em quase toda parte.

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado. Há dois estudantes na minha sala que se deram muito bem, e um dos físicos que eu sei que teve sua educação toda no Brasil. Assim, deve ser possível para algumas pessoas achar seu caminho no sistema, ruim como ele é.”

Bem, depois de eu dar minha palestra, o chefe do departamento de educação em ciências levantou e disse: “O Sr. Feynman nos falou algumas coisas que são difíceis de se ouvir, mas parece que ele realmente ama a ciência e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos prestar atenção a ele. Eu vim aqui sabendo que temos algumas fraquezas em nosso sistema de educação; o que aprendi é que temos um câncer!” – e sentou-se. 

Isso deu liberdade a outras pessoas para falar, e houve uma grande agitação. Todo mundo estava se levantando e fazendo sugestões. Os estudantes reuniram um comitê para mimeografar as palestras, antecipadamente, e organizaram outros comitês para fazer isso e aquilo. 

Então aconteceu algo que eu não esperava de forma alguma. Um dos estudantes levantou-se e disse: “Eu sou um dos dois estudantes aos quais o Sr. Feynman se referiu ao fim de seu discurso. Eu não estudei no Brasil; eu estudei na Alemanha e acabo de chegar ao Brasil”.

O outro estudante que havia se saído bem em sala de aula tinha algo semelhante a dizer. O Professor que eu havia mencionado levantou-se e disse: “Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando, felizmente, todos os professores haviam abandonado a universidade: então aprendi tudo lendo sozinho. Dessa forma, na verdade, não estudei no sistema brasileiro”.

Eu não esperava aquilo. Eu sabia que o sistema era ruim, mas 100 por cento – era terrível!

Uma vez que eu havia ido ao Brasil por um programa patrocinado pelo Governo dos Estados Unidos, o Departamento de Estado pediu-me que escrevesse um relatório sobre minhas experiências no Brasil, e escrevi os principais pontos do discurso que eu havia acabado de fazer.

Mais tarde descobri, por vias secretas, que a reação de alguém no Departamento de Estado foi: “Isso prova como é perigoso mandar alguém tão ingênuo para o Brasil. Pobre rapaz; ele só pode causar problemas. Ele não entendeu os problemas”. Bem pelo contrário! Acho que essa pessoa no Departamento de Estado era ingênua em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de cursos e descrições, era assim que era. 

AGL

Eu escrevi um comentário sobre este texto do Feynman, mas o conjunto ficou longo demais, então vamos primeiro discutir o que ele escreveu e depois postarei o meu comentário na forma de um artigo independente. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/07/2014