Fórmula Humpf

Existe coisa mais chata que assistir um campeonato de Fórmula 1 que antes mesmo de começar já tinha o campeão (Hamilton), o vice-campeão (Rosberg) e o terceiro colocado (Vettel) definidos? Se a F-1 não mudar logo, vai perder muito público e ainda mais dinheiro. 

Emerson-Fittipaldi-Lotus-1972
Este é o Emerson Fittipaldi em sua very old fashioned Lotus de 1972. Coloquei essa foto aqui só porque ela fica bonita na chamada do artigo no Facebook. 🙂

Eu não sou um grande fã da Fórmula 1, mas sou um nerd de personalidade competitiva, então sempre curti o desenvolvimento tecnológico e gosto de assistir disputas francas e emocionantes. Nenhuma destas coisas está presente na F-1 de hoje. Os sites e blogs especializados em F-1 apontam as mais variadas causas para isso, mas a minha explicação predileta diz respeito à origem de Jean Todd, o chefão da FIA: o cara é um ex-co-piloto de rally

Se você não sacou qual a importância de o chefão da FIA ser um ex-co-piloto de rally, vou explicar isso com dois exemplos simples: as regras sobre o fluxo de combustíveis e a qualidade dos pneus. 

A regra do fluxo de combustíveis é a seguinte: em um determinado sensor cuja instalação foi tornada obrigatória, não pode passar mais de uma determinada quantidade de combustível em um determinado período de tempo, a qualquer momento da corrida. Os valores em si são irrelevantes. 

A regra da qualidade dos pneus é a seguinte: há tipos de pneus diferentes, cada equipe é obrigada a usar pelo menos dois tipos diferentes em cada corrida e a qualidade de todos os tipos é previamente determinada, fazendo com que as equipes tenham que lidar com diversos pneus que se esfarelam facilmente. 

Aí eu pergunto: o que o fã de Fórmula 1 quer? 

Quer gritar ASSSULÉÉÉRA AÍÍÍRTONNN?

Ou quer gritar ECONOMIZA SETE VÍRGULA QUATRO MILILITROS DE GASOLINA, ROSBEEERG? 

Quer assistir uma disputa acirrada, com ultrapassagens ousadas e muita perícia?

Ou quer assistir seu piloto predileto ganhar ou perder posições porque os carros estão com os pneus se desmanchando e uma equipe ou outra fez um “emocionante” cálculo para determinar o melhor momento para trocar o pneu médio pelo macio? 

Pois é. 

Para quem teve sua formação no automobilismo como co-piloto de rally, modular o estilo de pilotagem para respeitar o limite da taxa de consumo de combustível provavelmente seja emocionante. Ou talvez calcular a melhor estratégia de troca de pneus seja emocionante. Sério, eu sou um nerd, eu reconheço que isso deve ser muito emocionante para algumas pessoas – mas não para o público da Fórmula 1.

Se o Jean Todd não sabe, eu conto a real para ele: o público da Fórmula 1 quer ver velocidade, ultrapassagens ousadas e perícia nas manobras. Se quisesse ver economia de recursos e cálculos, assistiria rally, não F-1. 

Dito isso, creio que é fácil dar umas sugestõezinhas para evitar que a Fórmula 1 acabe com menos audiência que o campeonato de carrinho de rolimã do meu bairro. Eis aqui três delas: 

1) Desregulamentar quase tudo. Nada de determinar qual será a potência do motor, o número de cilindros, os detalhes aerodinâmicos, os tipos de pneus, o limite de fluxo de combustível e a estrutura da rebimboca da parafuseta. Determinem a volumetria do tanque em cerca de dois terços do necessário para completar a corrida e equalizem o peso dos pilotos. Ponto. 

OBS: “Equalizar o peso dos pilotos” é o seguinte: todos os pilotos devem pesar, digamos, 100 kg. Como nenhum deles pesa tudo isso, deve-se acrescentar peso complementar sob o assento de cada piloto de modo a completar 100 kg. Afinal, queremos ver disputa de habilidade, não de magreza ou de nanismo. 

No início haveria uma grande confusão, o que seria divertido, mas em duas ou três temporadas provavelmente todas as equipes convergiriam para um motor V-10 com uma cilindrada de cerca de 3.0 e um carro com excelente aerodinâmica, que é o que já se demonstrou ser o melhor e mais emocionante. A partir daí, teríamos novamente uma disputa franca, em alto nível, sem o atual fedor de bode na sala. 

2) Proibir a recuperação de potência. Não porque não seja uma boa idéia desenvolver mecanismos de recuperação de potência, mas porque a Fórmula 1 não é o ambiente adequado para fazer isso. Palavra de nerd que manja um pouco de Teoria do Caos

A relação entre os inúmeros componentes responsáveis pela produção de potência, pela recuperação de potência e pelo reaproveitamento de potência é tão complexa, mas tão complexa, mas tão complexa, que obter o melhor ajuste deixa de ser uma questão de capacitação técnica e passa a ser uma questão de sorte. Eu não consigo imaginar um fator mais frustrante e desestimulante do que esse. Isso é péssimo para qualquer esporte e ainda pior para um esporte tão caro. 

3) Parar de mudar o regulamento toda hora e de introduzir gambiarras desastrosas como controle de fluxo de combustível, redução da qualidade dos pneus e limitações aerodinâmicas para “evitar hegemonias”.

Não é a hegemonia que estraga o esporte, mas a ausência de disputa. O melhor piloto e a melhor equipe devem vencer tantas vezes quantas conseguirem vencer. Mas a disputa pode ser aumentada sem a indecente introdução de obstáculos planejados para frustrar especificamente a equipe que melhor fez exatamente aquilo que deveria fazer.

Ao invés de inventar gambiarras para quebrar artificialmente a hegemonia de um piloto ou de uma equipe específica, basta e é muito mais ético introduzir uma regra de achatamento de vantagens que seja sempre igual para todos. Você vai entender isso direitinho com o exemplo a seguir. 

Imagine que, a cada ponto conquistado no campeonato, seja acrescentado um peso de 150 g no carro. 

Tabela de pontos e pesos acrescidos

Perceba que essa regra é igual para todos, não altera nenhum componente ou vantagem específica de qualquer piloto, carro ou equipe, mas achata as vantagens obtidas ao longo do campeonato, dificultando que uma equipe dispare de modo inalcançável na tabela. Tão logo outra equipe se aproxime na tabela, entretanto, ela também vê seu avanço dificultado pela mesma regra, restabelecendo a diferença. Isso aumenta a disputa sem interferir no resultado final. 

Eu não digo que a Fórmula 1 deva adotar essa regra específica, que pode ou não cair no agrado dos fãs, mas que a linha de pensamento deveria ser a seguinte: primeiro, competir pelos critérios corretos, respeitando a vocação do esporte; segundo, ao invés de intervir de modo casuísta e oportunista, mudando as regras com o objetivo de alterar artificialmente os resultados, violando a meritocracia e a própria razão de ser do investimento no esporte, deveria ser procurado um modo negociado e ético de valorizar o espetáculo e aumentar a disputa – para que nenhum fã fique decepcionado, nenhum piloto frustrado, nenhuma equipe desmotivada e nenhum investidor ressabiado.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 14/06/2015

Anderson Silva e a mulher de César

Quem canta vantagem tem que garantir desempenho, caso contrário seu mundo desaba. Incrível a virulência dos comentários sobre a derrota de Anderson Silva para Chris Weidman porque o “Spider” teria “brincado” no ringue. E isso em todas as mídias: no Facebook, no Twitter, na grande mídia e na blogosfera. Sem dúvida o velho ditado sobre a mulher de César continua sendo um ótimo conselho.  Continue reading “Anderson Silva e a mulher de César”

Teoria dos Jogos aplicada à alegria no futebol: uma proposta de aperfeiçoamento na contagem dos pontos

Antigamente era assim: dois pontos pela vitória, um ponto pelo empate, zero pontos pela derrota. Um jogo de soma zero. Lá pelas tantas a FIFA resolveu valorizar o jogo ofensivo, atribuiu três pontos à vitória e transformou o futebol em um jogo de soma negativa. Isso fez bem ao futebol. O que eu proponho agora é usar a mesma estratégia para acabar com os jogos-marmelada em que o empate em zero a zero favorece os dois times. Isso faria muito bem ao futebol.  Continue reading “Teoria dos Jogos aplicada à alegria no futebol: uma proposta de aperfeiçoamento na contagem dos pontos”

Campanha por um novo Logotipo Oficial para a Copa do Mundo de 2014

A garatuja pavorível (pavorosa + horrível) recentemente anunciada como Logotipo Oficial da Copa do Mundo de 2014 não merecia sequer ser levada a sério como proposta de logotipo. É uma mistura mal feita de tosquice com feiúra. Parece um suporte de perucas pichado. Os dedos são aleijados, uma das mãos verdes tem quatro dedos e a outra tem cinco dedos iguais, sem um polegar opositor. E o conjunto é feio demais. Eu proponho a realização de um concurso para substituir essa porcaria por um logotipo decente.

Logotipo Oficial da Copa do Mundo de 2014
Logotipo Oficial da Copa do Mundo de 2014

Continue reading “Campanha por um novo Logotipo Oficial para a Copa do Mundo de 2014”

Como trazer de volta o futebol da década de 1970

Eu tenho uma teoria sobre como tornar os jogos de futebol em geral mais animados, como eram antigamente: basta aumentar a punição da falta. Esse simples detalhe é capaz de alterar completamente a dinâmica dos jogos de futebol, tornando-os muito mais interessantes para os torcedores e mais seguros para os atletas. Continue reading “Como trazer de volta o futebol da década de 1970”

Como reduzir drasticamente os erros de arbitragem no futebol

Alô, amigos da Rede Pensar Não Dói de blogs inteligentes… 🙂

Quem é que gosta de perder por 1 X 0 a partida decisiva do campeonato por causa de um erro de arbitragem causado por uma simulação de falta de um jogador adversário? Quem é que gosta de ter um jogador de seu time expulso por uma justa reclamação de que o jogador adversário induziu o árbitro a erro? Se você não gosta de sofrer estas injustiças, então vai gostar da idéia que exponho neste artigo. Continue reading “Como reduzir drasticamente os erros de arbitragem no futebol”

Atletas são estimulados, intelectuais são reprimidos

Vivemos em uma sociedade que idolatra os músculos e abomina os neurônios. Enquanto do atleta se espera que se esforce para ser o melhor, que lute para atingir resultados superiores aos dos outros e que busque reconhecimento e fama, do intelectual se cobra que não exagere, que não fique se comparando e que seja humilde e discreto. Enquanto o atleta merece ser festejado pelas multidões, o intelectual deve se fechar no gueto da academia. Honra e glória aos malhados, descaso e rejeição aos intelectualizados. Continue reading “Atletas são estimulados, intelectuais são reprimidos”