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Metatolerância: teoria e prática

Metatolerância é o exercício coerente e consequente da tolerância para com a tolerância e da intolerância para com a intolerância, em busca de um mundo mais tolerante, saudável e harmônico. Sua prática requer discernimento, coragem e honestidade intelectual, mas sobretudo firmeza e implacabilidade, porque os intolerantes as possuem de sobra e os tolerantes não as possuem em suficiência.

METATOLERÂNCIA

Desde quando formulei o conceito de metatolerância, eu sabia que ele era simples, mas não era fácil. Custei para perceber o motivo, porém. Foram necessários cerca de 28 meses para que eu me desse conta de que para um intolerante é fácil fingir tolerância para com os tolerantes até o momento em que estrategicamente lhe seja benéfico abandonar o fingimento, mas para um tolerante é muito difícil exercer a intolerância contra os intolerantes a qualquer momento. Nos dois últimos dias, entretanto, caiu a ficha. Contarei o que houve. 

Anteontem um amigo (agora ex-amigo) teve um surto de estupidez fascista no Facebook. Estava lá vociferando que manifestações pacíficas eram inúteis para modificar o status quo, que era necessário apelar para a desestabilização e até para a violência, etc. Quando eu vi aquilo, dito de maneira histérica e ridícula, eu caí na risada e entrei na discussão para zoar com o sujeito. Não me incomodei em nada, porque não tinha o menor respeito pelas bobagens que ele estava dizendo.

Ontem, depois de ele me ofender, me ameaçar de espancamento, empalamento em praça pública e sei lá mais o que, eu percebi que tudo aquilo era realmente a sério – ou, se não era, a brincadeira estava longe demais. A discussão desde sempre foi uma baixaria, com troca de ofensas de ambos os lados, mas até então eu estava levando na brincadeira e achando graça. Afinal, tudo o que ele dizia era tão estapafúrdio, tão cheio de clichês esquerdistas abjetos e absurdos, que eu não tinha como levar a sério. Para mim era só uma guerra de torta. Naquele momento, entretanto, eu percebi que tinha tomado a intolerância dele por deboche, caiu a ficha do quanto ele estava perturbado e avisei o sujeito: “cara, tu estás doente”. Obviamente, foi inútil.

Hoje a coisa continuou e o cara continuou a lançar ataques pessoais. Eu respondi mantendo o foco na situação do Brasil, que foi roubado e falido pelo partido dele. Citei as condenações por corrupção e as imensas cifras já recuperadas, coisa que seria impossível caso não tivesse havido a corrupção e o roubo. A resposta dele invariavelmente foi me chamar de coxinha, idiota, palhaço, dizer que amigos meus falam de mim pelas costas (defeito meu ou deles?), que eu não entendo nada de antropologia, sociologia e história (leitores antigos rindo neste momento) e que Stalin matou foi pouco.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

O interessante é que também na tarde de hoje já havia acontecido outro episódio em que eu bloqueei alguém com quem estava discutindo sobre política na página de um amigo em comum. Sabem aquele sujeito que, desde o primeiro momento em que a gente lê, a gente percebe que vai ter que aturar um chato de galochas com blá-blá-blá pernóstico, pedante, citando pensadores como se fossem autoridade científica e nos acusando de falácia ao mesmo tempo? Pois bem, eu respirei fundo e encarei. O problema é que a cada postagem ele lançava uma farpa pessoal. E, lá pelas tantas, o cara me chamou de comunista.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

Foi a partir deste duplo bloqueio de hoje que eu percebi qual é a maior dificuldade do exercício da metatolerância: para uma pessoa tolerante e com convicções éticas, é muito difícil ser devidamente intolerante com os intolerantes porque guardamos respeito por todo ser humano até um limite que ultrapassa muito o razoável. O sujeito mostra uma vez que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra duas vezes que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra dez vezes que é intolerante, a gente releva. Na centésima vez que o sujeito mostra que é intolerante, finalmente a ficha cai, a gente não releva, reage… E o intolerante nos acusa de intolerância! E nós nos sentimos mal por isso!

A chave do exercício da metatolerância é perder o respeito por quem mostra que não merece respeito.

Uma vez que eu perdi o respeito por ambos estes interlocutores, um intolerante de esquerda e um intolerante de direita, eu simplesmente não senti qualquer constrangimento por bloquear os dois sem avisar ou sem dar qualquer explicação. No caso do que eu não conhecia, eu não tive paciência para explicar nada. No caso do que era meu amigo, eu até pensei em escrever algo, eu até esperei alguns segundos porque ele estava escrevendo alguma coisa, mas logo me dei conta de que seria bobagem. Seria fraqueza. Eu estaria me preocupando com os sentimentos de alguém que já havia ameaçado me agredir e que dizia que eu tinha que ser empalado em praça pública. Ridículo. Gente como estes dois caras não merece nem minha compaixão, nem minha raiva, só merece meu desprezo. E foi isso que eu dei a eles, deletando-os do meu universo sem remorso.

O engraçado ou tragicômico nisso tudo é que eu vivo aconselhando que “quando uma pessoa te mostrar aquilo que ela realmente é, acredita logo na primeira vez”, mas tenho uma certa dificuldade para fazer isso de primeira, muito por medo de haver algum mal entendido. Isso e um certo sentimentalismo têm feito com que eu seja tolerante demais com os intolerantes, o que não é bom. Tolerar os intolerantes os fortalece, permite por mais tempo que eles espalhem seu veneno, gerem mal estar e promovam o embrutecimento de que gostam e no qual prosperam.

Pelo bem tanto de nossa saúde emocional como de nossa segurança social, precisamos ser mais metatolerantes: tolerar os tolerantes e não tolerar os intolerantes. Mesmo. E isso fica muito mais fácil quando entendemos que perder o respeito por alguém não significa que temos que desrespeitar este alguém e sim que não temos que respeitar este alguém. Por exemplo, deletando a pessoa de nosso universo, para que não tenhamos que lidar com sua toxicidade, ou seu vampirismo emocional. Por exemplo, não nos preocupando com o que ela pode dizer de nós após a deletarmos de nossa vida. Por exemplo, sendo mais saudável e mais feliz na total ausência dela, ou mesmo de sua lembrança.

A partir de hoje, estarei bem mais tranquilo e à vontade para ser implacável no exercício da metatolerância.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/12/2016

Entenda a decisão do STF sobre Renan

A decisão do STF sobre Renan era previsível, matou quatro coelhos com uma paulada só e foi a melhor possível para o Brasil. O STF não podia nem cacifar Marco Aurélio, nem enfraquecer o instrumento jurídico da decisão liminar, nem deixar Renan sair fortalecido, nem deixar um petralha assumir a presidência do Senado. Todos estes objetivos foram atingidos.

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A Constituição e as leis são como a Bíblia: você pode justificar qualquer decisão citando o trecho que mais interessar para fundamentar aquilo que já tinha decidido previamente. O juiz e o pastor São arqueólogos de incisos e versículos. Foi isso o que permitiu a gambiara de manter Renan na presidência do Senado e impedir que ele assuma a presidência da República ao mesmo tempo. Mas esta foi uma das gambiarras melhor elaboradas que eu já vi o STF fazer.

A decisão do STF tinha quatro propósitos imediatos:

  1. Dar um tabefe no Marco Aurélio para refrear o ímpeto de ministros do STF meterem o bedelho nos assuntos internos dos outros Poderes da União, reduzindo. Obviamente, de modo circunspecto.
  2. Preservar o instrumento da decisão em caráter liminar dentro dos objetivos para os quais ele existe, especificamente como instrumento para tomada de decisões judiciais quando há periculum in mora, para que não se torne um instrumento político.
  3. Manter o presidente do Senado sob a responsabilidade e a alçada do Senado, evitando um conflito com a casa legislativa que poderia resultar em retaliações graves neste momento delicado para as instituições da República.
  4. Manter na presidência do Senado um aliado do presidente da República, evitando que um petralha fiel ao partido destituído da presidência da República pudesse impor uma agenda desestabilizadora para o país.

Nesta ordem.

Para dar um tabefe circunspecto no Marco Aurélio, a decisão do STF não podia acompanhar a decisão dele, mas também não podia simplesmente negá-la, ou estariam desmoralizando publicamente um ministro do STF. Como fizeram isso? “Concordando parcialmente” com a parte menos importante da decisão dele, começando por elogiar sua fundamentação, mas cassando seu efeito de fato.

Entenda uma coisa sobre como falam os juízes: se ele começar elogiando você, é porque você está ferrado. Se ele começar desancando você, é porque você está salvo. Os juízes sempre fazem isso para parecer que estão votando contra aquilo que gostariam de votar, para não serem acusados de estar votando de acordo com seus interesses ou simpatias. A decisão do STF sobre Renan Calheiros seguiu direitinho esta liturgia: dos nove ministros que votaram, seis começaram elogiando o ministro Marco Aurélio – exatamente aqueles que cassaram o principal efeito da liminar dele.

Para preservar o uso da liminar para os casos de periculum in mora, a decisão do STF foi fundamentada no fato de que o afastamento de Renan da presidência do Senado não servia para afastar um perigo imediato, pois, antes que Renan pudesse assumir interinamente a presidência da República, quem assumiria seria o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Além disso, há um julgamento em andamento sobre a matéria, que formalmente não está decidida, mesmo que seis ministros já tenham decidido do mesmo modo. Isso porque em tese os ministros do STF podem mudar seu voto enquanto o último ministro não votar.

Entenda que a decisão do SFT sobre Renan Calheiros não teve a intenção de beneficiá-lo e sim deixar claro que o instrumento jurídico utilizado – uma decisão monocrática em caráter liminar – não deve ser utilizada tanto para esta finalidade quanto para outras situações semelhantes. Em uma época de protagonismo jurídico sem precedentes na política, milhares de prefeitos e dezenas de milhares de vereadores agradecem penhorados.

Para manter o presidente do Senado sob a jurisdição do Senado, a decisão do STF só precisava não mexer na posição de Renan. Quanto a isso não havia qualquer dificuldade ou complicação.

Entenda que o legislativo faz as leis, incluindo a Constituição Federal, e que poderia “legitimamente” aprovar uma PEC que limitasse prerrogativas do STF ou mexesse em privilégios dos ministros do STF.

Para manter na presidência do Senado um aliado do presidente da República, era fundamental que Renan continuasse ocupando a posição que ocupa, porque o vice-presidente do Senado é Jorge Viana, um petralha radical que já mostrou a que veio e que já adiantou que atuará para inviabilizar o país. Aliás, sério que a direita retardada está revoltada porque o STF não derrubou um aliado de Temer para um petralha assumir a presidência do Senado?

Entenda que desta vez o STF atuou de maneira a preservar a governabilidade e evitar que o PT tacasse fogo no país para tentar culpar o governo Temer pelo caos. Muito embora seja verdade que Jorge Viana já pensou em não agarrar esta batata quente, o fato é que um petralha na presidência do Senado seria garantia de obstrução irresponsável.

A decisão do STF não revelou um propósito mediato:

Está muito enganado quem acha que Renan ganhou esta. Renan está ferrado.

Se Renan tivesse respeitado o STF, acolhido a suspensão de Marco Aurélio e entrado com um recurso, ele teria ficado apenas um dia afastado de suas prerrogativas. Talvez por arrogância, prepotência e absoluta estupidez, que lhe impediram de perceber que o plenário do STF jamais manteria uma decisão monocrática de afastar o presidente de uma casa legislativa através de uma decisão em caráter liminar, talvez por arrogância, prepotência e estupidez, que lhe impediram de avaliar corretamente o tamanho da espinha de peixe que deixou atravessada na garganta do STF por cometer crime de desobediência baseado no conhecimento de que o plenário do STF jamais manteria uma decisão monocrática de afastar o presidente de uma casa legislativa através de uma decisão em caráter liminar, Renan Calheiros afrontou o STF de um modo tal que não poderá ser deixado impune.

Não tenha dúvida, em breve o STF vai degolar Renan de maneira acachapante. Se você acha que não, então favorite este artigo e volte aqui ou quando o STF julgar o mérito da ação sobre a qual Toffoli está sentado em cima, ou quando o STF começar a julgar as outras 12 ações contra Renan que estão na gaveta, assim que for eleita a nova mesa diretora do Senado.

Resumo da ópera

A decisão do STF sobre Renan desautorizou Marco Aurélio e desestimulou novos ímpetos de intervenção monocrática, preservou o instrumento da decisão em caráter liminar, garantiu a harmonia entre os poderes e garantiu a governabilidade. Quanto à “vitória” de Renan, observe os comentários dos ministros do STF, de inúmeros juristas e da grande mídia sobre a desobediência que ele protagonizou: “ordem judicial pode ser discutida, mas tem que ser cumprida” é a frase mais ouvida em todos os telejornais de hoje.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 07/12/2016

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Os “coxinhas” não piraram

O comentário ridículo abaixo sobre os “coxinhas” mostra, para quem tiver o trabalho de pensar um pouco a respeito, o esgotamento completo de uma visão de mundo anacrônica, equivocada e sobretudo maldosa. Nem mesmo um completo débil mental é capaz de acreditar a sério que alguém vai protestar contra si mesmo. Para dizer ou concordar com uma coisa assim, há que ter uma grande dose de corrupção moral.

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A esquerda há três décadas e meia vem dizendo que o Brasil passou 500 anos sendo explorado pela “direita”, atualmente identificada com os “coxinhas”. Obviamente, “direita” ou “coxinhas” para a esquerda é “tudo que não sou eu”, mas tanto faz. Vamos dar de barbada que fosse. Pois bem, em 500 anos o Brasil nunca teve três anos seguidos de recessão, exceto quando a esquerda assumiu o poder. Nunca perdemos tantas empresas, tantos postos de trabalho, tanto dinheiro e tanto prestígio internacional quanto nos 13 anos do PT na presidência da República.

A calamidade das contas públicas chegou a tal ponto que até mesmo o PMDB, parceiro do PT nas duas últimas eleições, percebeu que o país estava indo para um buraco tão grande, tão rápido, que não seria possível esperar até 2018 para chutar a bunda da esquerda e começar a recuperar o país. O parasita precisa que o hospedeiro sobreviva para poder continuar sugando seu sangue, mas a esquerda chafurdou no sangue do hospedeiro como um vampiro sedento que não se alimentava há séculos. E os “coxinhas” foram para a rua exigir o impeachment e o fim da corrupção.

Veio o impeachment, abençoado impeachment. Veio o episódio vergonhoso do conchavo do presidente do Senado com o presidente do STF para evitar a perda dos direitos políticos da presidente da República deposta. Vieram as eleições e o povo virou “coxinhas” e deixou claro que não quer saber de nada que venha do PT, impondo-lhe uma derrota acachapante e um encolhimento de cerca de 60% nas urnas. E vieram então à tona muitas das falcatruas do período de corrupção do país pelo PT – ou talvez eu deva inventar o neologismo “corruptização” para deixar mais claro que corrupção é uma atuação transformadora.

A esquerda não se limitou a roubar como fizeram todos os outros que o precederam. Não. Todos os partidos de esquerda possuem um fetichismo pelo autoritarismo absoluto, travestido de alguma ideologia porca que é usada para enganar os incautos de que a esquerda necessita para chegar ao poder. Uma vez atingido o poder, entretanto, o que vemos é o que aconteceu em Cuba, com mais de meio século de ditadura e milhares de fuzilamentos por divergência de opinião, ou na Venezuela, com a população morrendo de fome, comendo lixo, sem itens básicos de higiene, sem medicamentos, elegendo um Congresso de oposição e tendo sua vontade negada por um ditador que se aliou a um tribunal farsesco que anula todos os atos do Poder Legislativo, ou na Coréia do Norte, com uma quadrilha sanguinária de comando hereditário que perpetra os mais abomináveis crimes contra a humanidade sem que ninguém interfira. Graças a Deus, portanto, pelos corruptos de hoje, que nos livraram de destino muito pior.

Só que eles demoraram demais.

Se a cacarecada partidária toda que virou casaca tivesse peitado a esquerda quando perceberam que ela estava indo com sede demais ao pote, se os ladrões mais experientes tivessem avisado que “não é assim que se rouba”, o país não teria sido desmanchado ao ponto que foi, não teria sido necessário cortar tão fundo para o parasita evitar a morte do hospedeiro, não teria havido tanta revolta e tanta mobilização. Por isso a mobilização continua. Por isso o povo está indo às ruas hoje.

Não se trata, portanto, de “coxinhas” protestando contra si mesmos, afirmação ridícula e despropositada que nem mesmo um quadrúpede levaria a sério. Trata-se de uma revolta legítima contra a traição a que o povo foi submetido pela esquerda e por seus aliados, que gostaram tanto do novo nível de roubalheira inaugurado pela esquerda que se lançaram a ele e se lambuzaram como nunca antes na história deste país. Trata-se do mesmíssimo sentimento que levou os “coxinhas” a realizarem a maior manifestação da história do Brasil contra o PT, da mesmíssima revolta e da mesmíssima impaciência perante o escárnio com que a classe política tem tratado a honestidade, a decência, a competência administrativa e a qualidade de vida do povo brasileiro. E contra os mesmíssimos atores.

Eu tenho cá minhas ressalvas quanto aos objetivos das manifestações de hoje, penso que é uma armadilha perigosa confiar no mesmo Judiciário que não fez nada contra a corrupção nas últimas décadas, mas compreendo sua lógica e os sentimentos por trás dela. Os “coxinhas” não piraram, o povo está simplesmente exausto de viver mal e ainda ser feito de palhaço.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/12/2016

Não foi acidente, foi homicídio. Houve negligência

Errei: não foram nem o piloto, nem as regras estúpidas. Foi a negligência dos países da América Latina quem matou a equipe da Chapecoense. O piloto tinha histórico conhecido e registrado de voos em completo desrespeito às normas de segurança da aviação quanto ao combustível reserva. Mesmo assim, nenhuma autoridade da Bolívia, da Colômbia, da Argentina ou do Brasil tomou qualquer providência.

Entenda as regras de segurança

Imagine que você vai decolar do aeroporto A e aterrissar no aeroporto B. As regras da aviação exigem que a aeronave tenha sempre combustível de sobra no mínimo para mais meia hora de voo além do percurso planejado, não de A até B, mas de A, passando por B, até um aeroporto C, mais meia hora de voo.

Você tem que poder decolar de A, chegar em B, encontrar B fora de condições de aterrissagem por um motivo qualquer (por exemplo, um acidente), dirigir-se para C e ainda poder aguardar meia hora em sobrevoo até poder pousar.

Negligência latina

O avião Avro RJ 85 tem autonomia de voo de 4 h 22 min, ou 2985 km. Isso significa que qualquer plano de voo com esta aeronave acima de 3 h 52 min é ilegal. Pois bem. Eu selecionei seis voos da Lamia em uma tabela publicada pelo Diário Catarinense:

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Todos os tempos de voo mostrados na tabela acima são tempos de voo real, realizados com tripulantes e passageiros à bordo, entre um aeroporto A e um aeroporto B, por uma aeronave com 3 h 52 min de autonomia legal máxima não entre A e B, mas entre A, B e C. Quatro destes voos tiveram duração superior à autonomia máxima da aeronave, o que por si só já deveria ter provocado uma investigação. Segundo a reportagem da VEJA, o último contato antes da queda do avião foi após 4 h 37 min de voo. Isso indica que em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 4 ou 5 minutos de cair, talvez menos, dependendo das condições específicas do voo. Em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 9 ou 10 minutos de cair.

Não somente estes voos jamais poderiam ter sido autorizados, como certamente muitos outros voos desta aeronave certamente e de muitas outras provavelmente foram e estão sendo autorizados em total desacordo com as normas de segurança da aviação em toda a América Latina.

Não foi acidente, foi homicídio

A diferença entre homicídio doloso e homicídio culposo é que no homicídio doloso o agente quer produzir o resultado do crime, ou assume a possibilidade de produzi-lo (o que se chama “dolo eventual”), enquanto no homicídio culposo o agente não quer produzir o resultado do crime, mas o produz por negligência, incompetência ou imperícia. Vou deixar ao pessoal da área do direito o debate técnico se o que aconteceu foi dolo eventual ou negligência, porém, deixando barato que seja apenas negligência, o fato é que foi homicídio.

Enquanto não pararmos de pensar “coitadinha da funcionária do aeroporto que autorizou o voo, como é que ela ia saber que uma coisa dessas podia acontecer?” ou “coitadinho do despachante da Lamia, ele só estava obedecendo o que mandaram ele fazer”, essas coisas vão continuar acontecendo. A função daquela funcionária era evitar as mortes que ocorreram. A função daquele despachante era certificar-se de que todos os aspectos legais pertinentes ao voo estavam corretos. Os dois precisam ir para a cadeia por homicídio. E provavelmente não somente eles.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/12/2016

Leia também: A Tragédia do Jeitinho.

Regras estúpidas derrubaram o avião

Não foi a falta de gasolina. Regras estúpidas derrubaram o avião que transportava o time da Chapecoense. 

aviao-chapecoense

Antes de prosseguir a leitura, clique aqui e leia este artigo.

Leu? Pois bem: assim como regras estúpidas mataram o repórter da Band, regras estúpidas mataram o piloto, o time da Chapecoense e os repórteres que os acompanhavam. E não é difícil entender o motivo.

Imagine que você fez uma grande besteira. Por exemplo, resolveu voar somente com o combustível necessário para o trajeto, com pouquíssimo ou quase nenhum combustível de reserva. Você não tem a intenção de se ferrar, você não é suicida, você fez uma besteira. Não vou discutir se foi por ganância, por prepotência, por aperto financeiro, por estupidez, por erro de cálculo, por falha de protocolo ou por qualquer outra causa. Não importa o motivo, importa que a besteira está feita e que você acabou de perceber que está numa encrenca.

O que é a coisa mais razoável a fazer a partir do momento em que você percebe o problema?

A coisa mais razoável a fazer é resolver o problema com tranquilidade, pensar de maneira objetiva, sem conflitos de interesse e sem distrações, de modo que o problema possa ser resolvido da melhor maneira possível, certo?

Pois bem… O piloto do avião era o dono da companhia aérea. Ele sabia que, se declarasse emergência por não ter combustível suficiente, receberia uma multa imensa, que poderia inviabilizar financeiramente sua empresa. Ele tinha todo o interesse do mundo em aterrissar em segurança, mas as regras estúpidas que multam quem declara emergência por ter cometido uma besteira prévia cria um conflito de interesses importante. Se cair com o avião acabaria com a vida do piloto, como de fato acabou, ser multado em um valor alto também acabaria com a vida dele, ou ao menos ele se sentia assim a ponto de achar que valia a pena arriscar mais um minuto antes de declarar emergência.

Entenda isso: se não houvesse a multa, o piloto não teria hesitado. Não teria dúvidas quanto ao que seria mais adequado fazer, porque não teria conflito de interesse algum. Não teria decidido arriscar mais uns minutos de voo antes de declarar emergência. Não teria matado ninguém. Regra estúpidas matam.

A maneira certa de coibir o que aquelas regras estúpidas tentam coibir de modo inepto é outra. A maneira certa de coibir o voo com combustível insuficiente é vistoriar a quantidade de combustível de cada aeronave imediatamente após o pouso. Não interessa se tudo deu certo ou não. Não interessa se o piloto declarou emergência ou não. Só o que interessa é se as regras de segurança foram cumpridas. É assim que as coisas deveriam ser feitas.

E perceba: também não interessa a minha opinião, a sua ou de quem quer que seja a respeito do “absurdo” de voar com pouco combustível ou do “absurdo” de ter conflito de interesses nesta ou em outra situação. Valores morais não podem ter relevância para o estabelecimento de protocolos de segurança exatamente porque as pessoas possuem diferentes valores morais e portanto diferentes percepções de prioridades, como atesta o fato de ter havido uma tragédia por causa disso.

O fato incontestável é que o conflito de interesses gerado pelas regras estúpidas que multam quem declarar emergência por infração das normas de segurança levou o piloto a postergar uma decisão gravíssima por tempo suficiente para ocasionar a tragédia e que isso não teria ocorrido se não fizesse a menor diferença declarar emergência ou não para o fim de multar a empresa.

Se a regra fosse como eu digo que deveria ser, devendo ser feita uma vistoria imediatamente após o pouso para verificar se a aeronave cumpriu as normas de reserva de combustível, aquele piloto nem sequer teria arriscado voar com pouca gasolina, porque a multa seria certa mesmo que o avião aterrissasse em perfeita segurança.

Conhecer bem a biologia do cérebro da idade da pedra do macaco falante é fator crucial para regulamentar adequadamente seu comportamento.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 1º/12/2016

Caixa 2: um bom acordo é um acordo possível

A possibilidade de os parlamentares de nosso Congresso Nacional fazerem um grande acordo e votarem uma anistia para os crimes associados à prática de Caixa 2 nas eleições dos últimos anos está fazendo surgir análises muito interessantes sobre as possíveis linhas de ação que se abrem para tentarmos corrigir os rumos políticos e econômicos de nosso país. Uma delas é esta aqui, que recebi há alguns dias:

Tem uma regra, quando a gente aprende sobre negociação e teoria dos jogos, que diz o seguinte: numa negociação, por mais forte que seja sua posição, você precisa dar ao outro lado a alternativa de uma saída honrosa. Na prática significa que, se você pressionar demais, existe o risco iminente do outro lado simplesmente tomar uma atitude desesperada que, no final, pode não ser do seu interesse.

Tenho pensado sobre isso quando leio sobre a anistia do Caixa 2. Se a gente se distanciar um pouco e tirar a paixão da mesa, o problema não tem solução simples.

Pense: a maioria absoluta dos políticos se elegeu com Caixa 2. Outros tempos, onde essa contravenção recebia vista grossa de todos. Inclusive de nós, cidadãos. Naqueles tempos, ninguém esperava uma Lava Jato da vida. Então, se não houver anistia, não é um ou outro que cairá. Vai ser um desmanche do Congresso.

Veja, não estou dizendo que não é correta a punição. Óbvio que é. Mas do nosso lado, do lado de quem espera um país melhor, vale a pena pensar o que vai representar esse rapa. Interessa para a nação que o país mergulhe num caos institucional onde a esmagadora maioria dos políticos será acusada de uma prática criminosa? Acho que não.

Só que também não acho que a solução seja uma anistia.

Então, acho que é a hora de surgirem propostas alternativas.

Uma ideia poderia ser um programa de admissão de culpa.

Funciona assim:

Os políticos que admitirem a prática de Caixa 2 no passado, poderão terminar seus mandatos e a única punição que receberão é a inelegibilidade por oito anos.

Imagine o quanto isso economizaria em tempo e dinheiro na coleta de provas, por exemplo. Com isso, seria estabelecida uma nova ética. O próximo Congresso não teria eleitos com Caixa 2 e, em troca, não pararíamos o país numa caça às bruxas. Apenas os políticos que não aderissem ao programa estariam expostos à Lava Jato. Tenho certeza que uma meia dúzia de punições exemplares convenceriam os outros a admitirem a culpa para fugir das consequências. Porque, convenhamos, além de canalhas, são covardes.

Minha resposta inicial a esta possibilidade foi a seguinte:

É uma idéia bem interessante. Não vai rolar, porque por um lado os bandidos têm a faca e o queijo na mão e pretendem continuar livres e roubando e por outro lado os “moralizadores” estão envenenados e babando de ódio. Mas seria bem interessante analisar um compromisso desse tipo, que nos livrasse da camarilha de ladrões no Congresso e permitisse que os esforços da Polícia Federal e do Judiciário se concentrassem nos restantes. Só acho que os caras tinham que nem terminar os mandatos. Deviam cair fora imediatamente e permanecer inelegíveis até as eleições de 2026 (inclusive). Aí eu toparia totalmente.

Vamos analisar tudo isso com mais cuidado.

Caixa 2: qual o tamanho do problema?

Em primeiro lugar, vamos retomar a razoabilidade: o Congresso Nacional não vai promulgar leis que coloquem os próprios deputados e senadores na cadeia. Pelo contrário, apesar de toda a pantomima que assistimos na declaração conjunta de Michel Temer, Renan Calheiros e Rodrigo Maia de que não haveria a menor possibilidade de promulgar uma lei que concedesse uma anistia, o óbvio continua sendo que nenhum parlamentar que tenha cometido crimes associados a Caixa 2 de campanha vai votar qualquer coisa que possa colocá-lo na cadeia. Combinar o contrário é um acordo impossível.

Em segundo lugar, vamos relembrar que não é necessário promulgar lei alguma para que os crimes associados sejam punidos, porque lavagem de dinheiro, corrupção passiva e outros ilícitos comumente associados à prática de Caixa 2 já são crimes.

O problema que temos em mãos é justamente um Congresso Nacional com uma grande quantidade de parlamentares que praticaram Caixa 2 e outros ilícitos associados em uma época em que ninguém dava muita bola para isso. Estes parlamentares obviamente estão se sentindo ameaçados, pressionados muito além do que podem tolerar, e farão tudo o que estiver a seu alcance para evitar passar alguns anos na cadeia. Este interesse comum é muito maior do que qualquer fidelidade ideológica ou partidária. Não é algo sobre o que eles possam dizer “ah, paciência, desta vez me dei mal”. Nada disso. É algo em relação ao que eles farão todos os esforços possíveis, o que certamente não será bom para o país.

Punir alguns é mais importante que salvar milhões?

Eu acho que seria melhor para todo mundo – para nós e para eles – se concedêssemos, sim, uma anistia condicional a quem tiver praticado algum destes crimes. A minha proposta seria alguma coisa mais ou menos assim:

  1. Qualquer parlamentar ou governante ou filiado em partido político do país, de qualquer esfera, tem um prazo de noventa dias para, voluntariamente, abdicar imediatamente de seu mandato e de qualquer ligação com partido político, confessando ter praticado crimes associados à prática de Caixa 2 e dando detalhes de todas as operações.
  2. O parlamentar ou governante ou filiado em partido político que fizer esta confissão ficará inelegível e proibido de participar de quaisquer atividades ou eventos político-partidários até as eleições de 2026, inclusive.
  3. Nenhum parlamentar ou governante ou filiado em partido político que fizer esta confissão será julgado por qualquer dos crimes associados à prática de Caixa 2 que confessar, mesmo que já esteja sendo investigado.
  4. A contagem do prazo prescricional dos ilícitos confessados ficará suspensa até o dia das eleições de 2026, quando serão considerados prescritos todos os ilícitos, de modo condicional ao não cometimento de novos ilícitos no período.
  5. O cometimento de qualquer irregularidade de natureza penal, associada ou não à atividade política, desde a assinatura da confissão até o dia das eleições de 2026, revogará esta anistia, inclusive retroativamente.
  6. Não haverá reedição desta lei até pelo menos o ano de 2050.

Traduzindo: quem pisou na bola sai de cena e não incomoda mais até 2026. Quem se emendar se deu bem. Quem pisar na bola de novo vai em cana tanto pelo novo crime cometido quanto pelo antigo já confessado.

Isso nos daria um pouco mais de uma década para consertar o país sem a influência de qualquer infrator, geraria um volume de dados considerável sobre os meandros da corrupção nacional, bem maior do que a Operação Lava-Jato será capaz de produzir, com muito menos esforço, e nos pouparia de muitas manobras políticas e muitas pizzas.

Após mais de uma década fora da política, muito poucos destes infratores retornariam. O país já teria uma nova safra de políticos que teria preenchido o vácuo da atual geração. E aqueles que arriscassem, permanecessem na ativa e fossem condenados pegariam uma cana braba e serviriam de exemplo para que a nova geração não se ariscasse a cometer ilícitos.

Eu acho que isso seria um preço razoável a pagar para nos livrarmos da velha guarda corrupta e acelerar a volta do país para os trilhos do desenvolvimento econômico. O que você acha? 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 28/11/2016

Eu não gosto de macacas de salto alto

Eu sou um macaco. Você é um macaco. Somos todos macacos. Nossa espécie é um macaco falante que há cerca de três milhões e setecentos mil anos atrás realizou uma interessante transição do quadrumanismo arborícola para o bipedismo terrestre. Sim, nós éramos quadrúmanos, como nosso primo mais próximo, o chimpanzé. Mas precisamos transformar duas de nossas mãos em pés para podermos manter o equilíbrio, percorrer grandes distâncias e carregar pesos consideráveis.

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Caminhar apoiado em mãos é algo muito instável, como podemos observar em nossos primos chimpanzés quando se deslocam eretos sobre as duas mãos traseiras. As necessidades de manter o equilíbrio e percorrer um grande território em busca de caça foram selecionando aqueles dentre nós com uma conformação corporal cada vez mais adequada para percorrer grandes distâncias e carregar o produto da caça e da coleta de volta para o local de acampamento do grupo tribal.

Ao longo da evolução, os corpos com maior eficiência para se manterem equilibrados na posição bípede foram sendo selecionados, nossas ossaturas e musculaturas se tornaram cada vez mais adaptadas para caminharmos eretos sobre os membros posteriores e podemos dizer que nossos braços posteriores se tornaram pernas e nossas mãos posteriores se tornaram pés. Pés que precisavam ter cada vez mais área de contato com o solo, tanto para manter o equilíbrio quanto para proporcionar tração.

Ora, se há duas coisas que são absolutamente prejudicadas com o uso de saltos altos são o equilíbrio e a tração. O salto alto  posiciona as articulações de modo antinatural, exige esforços também antinaturais da musculatura de todo o membro inferior e  modifica nosso centro de gravidade, o que prejudica nosso equilíbrio, e reduz a área de contato da planta do pé com o solo, o que reduz a tração. Trata-se de um aparato de propósito estético questionável que prejudica inquestionavelmente a função.

As macacas falantes podem achar seus saltos altos lindos e deslumbrantes, podem achar que eles “valorizam” suas pernas, mas a verdade é que este é um mero efeito de alongamento, que é o que é ilusoriamente interpretado por nosso cérebro da idade da pedra como belo. Porém, macacaquinhas queridas, vocês não precisam disso. Nós macacos falantes machos pertencemos à mesma espécie de vocês e apreciamos os corpos de nossas fêmeas como a natureza os fez.

Eu mesmo não gosto nem da periclitância, nem da estética do salto alto. Prefiro que vocês preservem a saúde de suas articulações e fiquem mais seguras e confortáveis usando saltos baixos no dia-a-dia, reservando o salto alto somente para raras ocasiões festivas, se tanto. Até porque, caríssimas símias, vocês ficam lindas até mesmo ou principalmente descalças, assim como a bela macaca da foto que ilustra este artigo. Tenham consciência disso.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/11/2016

Eu quero igualdade de direitos para valer

Se um grupo ideológico divide a sociedade em termos de sexo, cor e orientação sexual, criando uma situação que me coloca em risco por ser homem, branco e heterossexual, e eu não vejo a maioria das mulheres, não-brancos e homossexuais rejeitando as posições intolerantes sexistas, racistas e heterofóbicas da esquerda, o mais razoável é que eu me deprima e aceite as teses supremacistas que me violentam ou que eu me defenda em busca de sobrevivência com todos os recursos que estiverem a meu alcance, sem me importar nem com quem está me prejudicando, nem com quem está me negligenciando?

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Este tipo de raciocínio, de modo ou mais ou menos refinado, ou mais ou menos agressivo e ou mais ou menos consciente está se tornando rapidamente cada vez mais forte entre a população masculina branca heterossexual, tanto mais intensamente quanto mais a esquerda insiste em afirmar que “os homens brancos heterossexuais estão com medo de perder seus privilégios” e as mulheres, não-brancos e homossexuais se omitem em rejeitar as teses intolerantes sexistas, racistas e heterofóbicas da esquerda.

Se não houver uma ampla e imediata tomada de consciência de que a esquerda plantou – vou repetir – teses sexistas, racistas e heterofóbicas entre nós, com o objetivo de cindir a sociedade para dominá-la, a esquerda terá conseguido criar exatamente o conflito que ela afirmava querer eliminar, atingindo com êxito o objetivo de criar uma antes inexistente luta de classes para poder se vender como solução esmagando todo um grupo de pessoas acusadas de nascer do sexo errado, da cor errada e da orientação sexual errada.

Quem me acompanha no blog e nas redes sociais já deve estar de saco cheio de tanto me ver falar em embrutecimento, mas este é precisamente o ponto novamente. Estamos assistindo uma guinada à direita que tem uma grande chance de sair do controle e provocar a mera reversão do tipo de apreciação injusta que o homem branco heterossexual não pertencente à esquerda sofreu nas últimas décadas. Isso seria uma catástrofe e nos lançaria num deplorável conflito fratricida.

Este é um fenômeno que atinge não somente o Brasil, mas todo o continente americano e todo o continente europeu. Uma geração injustiçada está irrompendo em revolta contra acusações abomináveis que lhe rendeu perda de direitos e humilhações quando reclamou por igualdade de fato. A situação é tão grave que eu mesmo, que sou o sujeito que denuncia isso com maior frequência que eu conheço, tenho encontrado dificuldade em escrever sobre isso em termos mais amenos. Ou o mundo ocidental procura um equilíbrio neste momento, ou poderão ser cometidos excessos que acabarão por trazer de volta daqui a alguns anos o monstro que acabamos de derrotar. É um momento que exige profunda reflexão e muito discernimento. É um momento em que temos que retomar o discurso de igualdade das mãos sujas da esquerda e impedir que a direita busque vingança promovendo retaliações ao invés de reequiparações.

Eu gostaria que a reação do homem branco heterossexual que foi tão duramente vilipendiado pelos pervertidos da esquerda nas últimas décadas fosse magnânima e provasse de maneira cabal o quanto a esquerda sempre esteve não apenas errada como profundamente mal intencionada. E gostaria de ver todas as mulheres, não-brancos e homossexuais compreenderem que a situação do homem branco heterossexual de hoje é a de quem sofreu injustiças inomináveis, tendo sua honra e seus direitos como cidadãos atacados no decorrer das últimas décadas, pois é necessário trabalharmos em conjunto para reverter os abusos e promover igualdade de fato entre todos os cidadãos, independentemente de sexo, cor ou orientação sexual.

O primeiro e mais importante passo a ser tomado é remover de toda e qualquer legislação qualquer referência a sexo, raça ou orientação sexual. Toda e qualquer legislação deve simplesmente garantir direitos iguais para todos os cidadãos, não importa se são homens ou mulheres, se são brancos, pardos, negros, indígenas ou amarelos, se são heterossexuais, homossexuais, transexuais, bissexuais, pansexuais ou assexuais. Estas coisas todas deveriam ser irrelevantes. Não poderiam jamais ter sido usadas para estabelecer direitos diferentes entre os cidadãos.

Este é um momento perfeito para promover uma grande união entre as pessoas de todos os sexos, raças e orientações sexuais para restabelecer a igualdade perante a lei em temas onde foi destruída pela esquerda e estabelecer a igualdade perante a lei em temas onde historicamente nunca houve igualdade, como o serviço militar obrigatório, a licença maternidade ou paternidade, o casamento ou união estável, a eliminação de cotas sexistas e racistas, o nível de investimento em campanhas de saúde, entre outros.

Eu sou homem, branco e heterossexual e não quero assistir uma revanche mesmo tendo sido permanentemente atacado e ofendido nas últimas duas décadas pela perversão esquerdista. Não quero que sejam restabelecidos privilégios, nem quero que conquistas sociais sejam perdidas, mas quero que os novos privilégios de “sinal invertido” sejam eliminados e quero que todas as conquistas sociais sejam universalizadas de modo absolutamente equânime entre todos os cidadãos, independentemente de sexo, raça ou orientação sexual.

Quero que a Lei Maria da Penha seja revogada e substituída por uma lei de proteção universal contra a violência doméstica que proteja igualmente qualquer pessoa de qualquer agressão cometida por qualquer pessoa, porque um menininho ou adolescente ou adulto ou idoso agredido pela mãe ou pela namorada ou pela esposa ou pela filha é tão vítima quanto uma menininha agredida pela mãe ou pelo pai ou pelo irmão ou pelo namorado ou pelo marido. Não há diferença entre as vítimas e não há diferença entre os agressores. Não há razão para que uns sejam condenados de modo diferente que outros em função do sexo com que nasceram ou que adotaram nem para que uns sejam desprotegidos pela lei em função do sexo com que nasceram ou que adotaram.

Quero que a licença maternidade e a licença paternidade sejam tornadas e idênticas e que qualquer pessoa que tenha um filho tenha exatamente as mesmas garantias pelo mesmo período, isso para quem é mãe, para quem é pai e para quem adota uma criança, simplesmente porque isso é o que é justo e não se pode mais manter a barbárie de considerar a maternidade mais valiosa do que paternidade, ou a adoção por uma mulher mais valiosa do que a adoção por um homem.

Quero que o Estatuto da Igualdade Racial e as cotas racistas sejam completamente revogados e jamais restabelecidos para quem quer que seja, porque não é aceitável que pessoas sejam discriminadas pela cor da pele, muito menos que a discriminação seja apresentada como uma coisa boa pelo argumento falacioso e pervertido da “discriminação positiva”, como se fosse possível discriminar alguém positivamente sem ao mesmo tempo necessariamente discriminar alguém negativamente. Basta desta hipocrisia racista.

Quero que o serviço militar seja transformado numa prestação de serviço cidadã obrigatória para todo mundo ou opcional para todo mundo, sem discriminação por sexo e também sem uma cota mínima ou máxima para preencher as vagas com gente deste ou daquele sexo. Direitos iguais não significa interesses iguais e é óbvio, muito óbvio, que sempre haverá mais interesse pelo serviço militar entre os homens do que entre as mulheres. Qual é o problema com isso? Nenhum. Os sexos devem ter direitos iguais, não devem ser forçados a ter interesses iguais.

Quero que a política reflita o real interesse dos candidatos e dos eleitores, para o que é necessário eliminar as cotas na política. Se as mulheres quiserem participar da política, elas têm todo o direito, não é necessário nem razoável que haja uma cota mínima a ser preenchida com candidatos deste ou daquele sexo. Mais uma vez, ter direitos iguais não significa ter interesses iguais, e é notório que em todas as sociedades humanas do planeta, em todas as épocas, o interesse de homens e de mulheres pela política nunca foi, não é e nunca será exatamente igual.

Quero que a lei proteja qualquer pessoa de uma violação de direitos em função de sexo, raça ou orientação sexual, não interessa se em função de homfobia, heterofobia, transfobia ou qualquer outra “fobia” (péssimo sufixo), sem que no entanto isso redunde em criminalização de opinião ou de liberdade de expressão, por mais preconceituosa e ofensiva que seja, porque o direito de pensar como se bem entende é sagrado, assim como o direito de expressar o próprio pensamento, não importa o quanto alguém não goste ou odeie isso. Esta é o fundamento mais importante de uma sociedade livre.

Quero que a lei estabeleça com todas as letras que ninguém tem o direito de não ser ofendido, sob pena de todos termos que viver calados – ou de termos que escolher “vítimas certas” e “vítimas erradas” para o exercício da ofensa e da humilhação, como a esquerda adorava fazer, chamado de “coxinha” e outras expressões ofensivas e depreciativas quem lhe interessava enfraquecer e humilhar.

Quero que a injúria deixe de ser crime, não importa qual seja a qualificadora, porque já passou da hora de deixar de cultivar a frescura. Ninguém é feito de açúcar e xingamento algum tira pedaço ou nega direitos. As pessoas precisam ser ensinadas a ter amor-próprio ao invés de se derreter em manifestações patéticas de coitadismo e retaliação judicial quando ouvem algo que não gostam ou que as ofende. Somente um verme moral derrete perante uma observação excessivamente ácida. Precisamos que as pessoas cultivem a auto-estima de modo positivo, de modo que ofensas sejam inúteis e inócuas, pouco importa se tiverem conteúdo racista, sexista, de intolerância religiosa ou o que for. A ofensa só atinge quem se importa com a opinião do ofensor. Temos que eliminar o poder de quem ofende ignorando completamente qualquer provocação ou ataque injurioso.

Quero uma sociedade de cidadãos sem privilégios de qualquer tipo, nem sociais, nem políticos, nem econômicos, nem de qualquer natureza possível ou imaginável com exceção exclusivamente da perda de direitos advinda de condenação penal. Uma sociedade de pessoas iguais perante a lei, perante umas às outras e perante o espelho, onde ninguém seja favorecido injustamente ou penalizado injustamente, sob qualquer tipo de alegação, porque a dignidade humana é igual para todos, devendo cada um arcar apenas tão somente com as consequências de suas escolhas pessoais.

Igualdade não admite discriminação perante a lei. Esta é uma obviedade que foi obscurecida nas últimas décadas, mas que precisa ser resgatada com urgência em nome tanto da justiça quanto da decência. E é uma necessidade absoluta se quisermos construir um país livre da abjeta exploração política das diferenças entre os sexos, as raças e as orientações sexuais.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 19/11/2016