Política meritocrática e democracia negativa

Entre todas as propostas de reforma política possíveis para o Brasil, há uma que eu considero que seria a mais produtiva, eficaz e indolor para a nossa realidade. Não vai acontecer, porque mudaria completamente o perfil dos políticos eleitos e portanto os atuais políticos jamais aprovariam esta proposta, mas vou descrevê-la para nos divertirmos com o debate.

urna-eletronica-mao

A coisa toda é extremamente simples. Seriam necessárias apenas duas pequenas mudanças na legislação e toda a dinâmica política do país seria alterada profundamente em um intenso efeito borboleta.

Filtros meritocráticos

Haveria dois filtros distintos, um filtro fraco para o Poder Legislativo e um filtro forte para o poder Executivo.

O filtro do Poder Legislativo seria meramente um filtro de experiência: todo interessado em construir uma carreira política teria que começar como vereador. Para poder disputar um mandato de deputado estadual, teria que ter concluído no mínimo um mandato de vereador primeiro. Para poder disputar um mandato de deputado federal, teria que ter concluído no mínimo um mandato de deputado estadual primeiro. E, para poder disputar um mandato de senador, teria que ter concluído no mínimo um mandato como deputado federal E um mandato como prefeito de uma cidade com segundo turno ou dois mandatos quaisquer no poder executivo.

O filtro do Poder Executivo seria um filtro mais meritocrático: todo interessado em concorrer a um mandato de prefeito teria que ter concluído no mínimo um mandato como vereador. Para poder concorrer a um mandato de governador, teria que se destacar como um dos 10% melhores prefeitos de seu estado no último mandato de prefeitos (sendo garantida a participação dos três melhores prefeitos de cada estado no caso dos estados com menos de trinta municípios). E, para concorrer a um mandato de presidente da República, teria que se destacar como um dos cinco melhores governadores no último mandato de governadores.

Como definiríamos quem são os 10% melhores prefeitos e os 5 melhores governadores? Com critérios objetivos implacáveis. Teria que ser construído um índice numérico, como por exemplo o crescimento relativo da média harmônica dos índices normalizados dos indicadores de saúde, educação, moradia, saneamento, transporte e segurança dos municípios de duas categorias, com e sem segundo turno, sendo garantidos 5% das vagas para cada categoria. Ou algum outro critério igualmente mensurável e auditável, segundo os interesses do país. O índice também poderia ser aprimorado ao longo do tempo, conforme as necessidades do país mudem. O fundamental é que o índice seja igual para todos os prefeitos e governadores do país.

Pareceu complicado? Não é: concorreria a um cargo mais alto no Poder Legislativo só quem já tivesse experiência e no Poder Executivo só quem já tivesse demonstrado ter a mais alta competência administrativa comparada com seus pares. Entre os qualificados, o povo continuaria a ter ampla liberdade de escolha. O método apenas reduziria o ímpeto dos aventureiros puxadores de voto nas eleições proporcionais e tiraria do caminho os populistas mais convincentes porém menos capazes nas eleições majoritárias.

Democracia negativa

Esta parte é ainda mais simples: todo membro do Poder Executivo pode ser deposto a qualquer momento pela maioria absoluta (50% + 1) de qualquer casa parlamentar da mesma esfera, ou por recall obrigatório realizado de dois em dois anos juntamente com as eleições ordinárias, pelo simples motivo de “insatisfação”, obviamente sem perda de direitos políticos neste caso. Se o Brasil tivesse esta regra, o estelionato eleitoral praticado nas eleições de 2014 teria feito com que a candidata reeleita nem sequer assumisse o segundo mandato, tendo sido deposta duas semanas após as eleições. O Brasil teria sido poupado do sangramento de muitos bilhões de dólares e já estaria em franca recuperação.

Uma alternativa extra de democracia negativa seria a possibilidade de a população civil exigir um recall com um número razoável de assinaturas, nem tão baixo que tivéssemos um recall a cada seis meses, nem tão alto que fosse necessário a coordenação de um movimento político de escala nacional e um ano de coleta de assinaturas para conseguir chamar o recall.

Obviamente, os parlamentos não precisariam e não deveriam ter limites de tempo para chamar votações para depor o chefe do Poder Executivo: uma votação destas poderia ocorrer até mesmo diariamente e demoraria só um minuto, não seria nada que atrapalhasse a rotina dos parlamentos. Para não haver surpresas a la Brexit, tudo o que seria necessário seria exigir a validação da deposição numa segunda votação após uma semana de debates.

Observe que em qualquer dos casos pode haver um período de debates prévio mas não é necessário haver um fato jurídico para a deposição do chefe do Poder Executivo. Basta a insatisfação da maioria absoluta (50% + 1) de uma casa parlamentar ou da população.

Simplicidade e praticidade

Esta proposta poderia ser implementada com uma única lei com meia dúzia de artigos, sem alterar absolutamente mais nada na legislação nacional, na estrutura dos partidos, no funcionamento ou no relacionamento entre os Poderes da União, enfim, sem trauma algum. Só daria trabalho definir o índice numérico para filtrar as candidaturas ao Poder Executivo. A fiscalização e auditoria do índice seria livre para os partidos políticos e para a sociedade civil organizada, o que significa que partidos, sindicatos e federações de indústria e comércio fiscalizariam e auditariam vorazmente cada detalhe, garantindo o bom funcionamento do sistema e impulsionando uma disputa verdadeiramente meritocrática que catapultaria a política brasileira a um patamar de qualidade inédito.

Como eu disse no início, não vai acontecer, mas eu escrevi o artigo porque acho que será divertido debater a idéia.

Opine.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 09/07/2016

Um único parágrafo sobre o Brexit

O Brexit é tão bom, mas tão bom, que, quando o resultado do plebiscito foi anunciado, Boris Johnson, o prefeito de Londres, ícone da campanha vitoriosa pelo Brexit, desistiu de concorrer ao cargo de primeiro-ministro. Pois hoje, para completar o fiasco, Nigel Farade, o agressivo líder do Partido pela Independência do Reino Unido, totalmente pró-Brexit, abandonou o cargo. Os ratos furaram o fundo do casco e agora estão abandonando o navio. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/07/2016

Qualidade Suficiente

Todo mundo sabe que a burocracia e a corrupção são dois grandes entraves para a criação de um ambiente de sucesso sócio-econômico, mas pouca gente leva em consideração o quanto é daninha a falta daquele tanto de qualidade que obviamente poderia ser melhorado, mas que não o é porque o consumidor compra o produto assim mesmo, do jeito que está, porque tem “qualidade suficiente”. 

Pipoca

A qualidade suficiente tem exemplos por todo o lado. Ninguém deixa de comprar um automóvel porque não há um lugar para colocar o guarda-chuva molhado em dias de chuva – e a indústria automobilística não se preocupa em resolver este problema porque o consumidor sempre compra algum carro assim mesmo. Ninguém deixa de comprar pipoca na praça porque não são oferecidos guardanapos para tirar o óleo das mãos depois do consumo – e os pipoqueiros não se preocupam em resolver este problema porque o consumidor sempre compra pipoca assim mesmo. Há exemplos para todos os bolsos.

A má notícia é que este problema veio para ficar. Ou pelo menos para ficar por muito tempo, porque o macaco falante médio se contenta com a qualidade suficiente. Se ele tiver que pagar R$ 200,00 de diferença entre dois carros iguais em tudo menos na presença de uma incrivelmente bem bolada solução para o guarda-chuva molhado, o macaco falante médio em geral irá “economizar” menos de 1% do valor do veículo e comprar a versão mais barata. Se ele tiver que pagar R$ 0,25 de diferença entre o saco de pipocas com guardanapos e sem guardanapos, o macaco falante médio em geral vai pedir o troco, lamber as mãos e secar na roupa.

É natural que seja assim. O macaco falante médio é um beta ou um ômega. O ômega dificilmente compra carro, mas compra pipoca, pega ônibus comendo pipoca e deixa tudo melecado com a gordura da pipoca. E o outro ômega não deixa de pegar ônibus melecado com gordura de pipoca, nem reclama disso, porque ônibus melecado com gordura de pipoca tem qualidade suficiente para o ômega. Quem reclama ou pega o lotação em busca de higiene é o beta. O alfa vai de carro. Sem meleca de gordura de pipoca e sem reclamação.

Aceitar a qualidade suficiente é o que leva o macaco falante médio a resolver tudo com gambiarras. O hoje extinto Bom-Bril na antena da televisão é um ícone da qualidade suficiente. Seu sucessor não tão óbvio é o computador com programa antivírus. Pense bem: um sistema operacional tem que ser seguro de fábrica. Ter que instalar um segundo programa para evitar que o primeiro programa não seja invadido por um terceiro programa é uma baita gambiarra. (Aposto que você não tinha percebido isso. E aposto que você não vai trocar seu Windows por um Linux por isso, nem sequer passar a rodar seu Windows como uma máquina virtual dentro de um Linux. Na verdade, eu aposto que você nem sabe o que é isso. É natural. Todo mundo se contenta com qualidade suficiente em alguma área.)

O grande problema da qualidade suficiente é a sinergia. O pneu tem qualidade suficiente. A suspensão do carro tem qualidade suficiente. O asfalto tem qualidade suficiente. E o resultado é que o seu carro volta e meia acaba numa borracharia ou mecânica de beira de estrada. Nem vou falar da pipoca. (Argh.) Já o seu computador volta e meia trava e de vez em quando você perde uma parte do que estava fazendo.

O custo disso? Bilhões e bilhões de dólares, muito tempo de vida desperdiçado, muito sofrimento e até mortes. Afinal, o cinto de segurança tem qualidade suficiente, o atendimento hospitalar tem qualidade suficiente, a fiscalização do poder público tem qualidade suficiente, a vida tem qualidade suficiente.

E vai continuar assim, porque a cidadania do macaco falante também tem qualidade suficiente.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/07/2016

Mimimi? Nem sonhando!

Hoje eu sonhei com uma cena que poderia virar piada em um filme.

Wolverine

Eu estava em uma casa onde havia algum perigo indefinido (essas coisas doidas que só fazem sentido durante o sonho) e encontrei um martelo. Peguei o martelo na mão para usar como arma e segui explorando o terreno. Aí surgiu, no outro extremo do corredor, uma figura caminhando em minha direção. Era o Wolverine.

Quando eu o reconheci, eu olhei para ele, olhei para o martelo, olhei para ele de novo e pensei: “Pfff… Já era!” 😛 

Por sorte o Wolverine é um dos meus heróis favoritos. Passou por mim e disse “se quiser vir atrás de mim, não enche o saco”. Ô delicadeza. Mas, considerando as alternativas, aquilo foi música para os meus ouvidos. 

Segui o sujeito sem fazer barulho…

Arthur Golgo Lucas  – www.arthur.bio.br – 1º/07/2016

Brexit: quando a xenofobia causa o caos

Não há outro assunto no meu Facebook nos últimos dias, então eu resolvi escrever um segundo artigo sobre o Brexit, fazendo algumas constatações e algumas previsões. A primeira delas: não foi a luta pela liberdade que produziu o resultado do plebiscito do Brexit, foi predominantemente xenofobia

Vermes Polacos

A frase acima – algo como “vamos sair da União Européia – chega de vermes poloneses” – foi afixada próxima a uma escola em Cambridge. No mesmo dia, cartazes com a inscrição “go home polish scum” (voltem para casa, escumalha polonesa) foram afixados na fachada de um centro cultural polonês. E esse tipo de coisa tem acontecido em diversos locais pelo Reino Unido nos últimos dias, demonstrando claramente que a xenofobia foi um dos principais fatores que levou ao resultado do plebiscito do Brexit, provavelmente o principal.

Isso está claro para todo mundo, menos para alguns auto-proclamados “liberais” que estão dizendo basicamente duas coisas: primeiro, que a União Européia é um projeto fracassado, de matiz socialista, que sufoca a soberania dos Estados-Nações; segundo, que o Brexit foi a melhor decisão possível para defender a liberdade dos indivíduos e a economia do Reino Unido. Esse pessoal está completamente errado em ambas as afirmações.

A União Européia têm defeitos, é claro, como toda construção humana. Em especial, a União Européia padece de extrema burocracia, excesso de regulamentação e falta de transparência. São problemas graves e ninguém disse o contrário, mas são problemas solucionáveis através do mesmo processo que levou à criação da União Européia: diálogo, negociação e foco nos objetivos de garantir a paz, aumentar a liberdade das pessoas e fortalecer as economias do continente.

Quanto ao projeto supostamente fracassado e de matiz socialista, temos que lembrar que, na história do socialismo, todos os países que adotaram essa ideologia maldita sofreram êxodo populacional, muitos deles tendo fechado suas fronteiras para impedir que sua população fugisse para lugares mais prósperos. A União Européia, entretanto, tem enfrentado o problema oposto: um excesso de imigração em busca de um ambiente econômico mais próspero e de maior liberdade individual. O próprio perfil migratório da União Européia desmente seu pretenso matiz socialista.

Quanto ao Brexit ser uma ação em defesa da liberdade, é pura e simplesmente mentira. As pessoas deixarão de ter a liberdade migratória de que hoje desfrutam e passarão a enfrentar barreiras. As mercadorias deixarão de ter isenção de taxas alfandegárias e passarão a enfrentar impostos de exportação e de importação nos dois sentidos entre o Reino Unido e a União Européia. E todos os acordos comerciais que o Reino Unido tentar fazer com qualquer país da União Européia terão de qualquer modo que ser aprovados pelas regras da União Européia, o que significa que haverá apenas perdas e não ganhos de liberdade.

Mas isso não é tudo. Os pretensos “liberais” que são contrários ao acordo de cooperação voluntária chamado de União Européia dizem que o Brexit é a melhor escolha possível devido a seus efeitos saudáveis na economia do Reino Unido, que se tornará “mais livre e mais forte”. Bem, isso é o que eles dizem. O que os mercados dizem é que a bolsa de valores despencou 12,5% em um único dia e teve outras quedas subseqüentes, que a libra esterlina despencou e está em seu valor mais baixo perante o dólar nos últimos trinta e um anos, que a previsão do PIB do Reino Unido para este ano já caiu 1,5% e que os mercados futuros desabaram e vão continuar caindo, um caos tão dramático que duas das três maiores agências internacionais classificadoras de risco rebaixaram a nota do Reino Unido – a Standard & Poor’s em dois degraus de uma só vez e a Ficht em um degrau. Será mesmo que estes supostos “liberais” sabem melhor que o mercado o que é melhor para o mercado?

Tem mais. A Escócia fez um plebiscito dois anos atrás para definir se ficaria no Reino Unido ou se se tornaria independente. A União Européia disse que, se a Escócia saísse do Reino Unido, teria que abandonar também a União Européia. Então, para permanecer na União Européia, a Escócia abriu mão de sua independência perante o Reino Unido. No plebiscito da semana passada, a Escócia foi coerente com sua posição de dois anos atrás: quase dois terços dos votos válidos dos escoceses confirmou a intenção de permanecer na União Européia. Entretanto, o resultado global do plebiscito no Reino Unido obriga a Escócia a se retirar da União Européia contra sua vontade, ironicamente em função de ter aberto mão de sua independência perante o Reino Unido para poder permanecer na União Européia! Não surpreendentemente, a Escócia já anunciou que vai tentar vetar o resultado do plebiscito e que se não o conseguir chamará um novo plebiscito sobre a independência, pois “não será arrancada da União Européia contra sua vontade”. O Brexit significará, portanto, não a saída do Reino Unido da União Européia, mas a dissolução do Reino Unido.

E tem ainda mais. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein já anunciou que pedirá um plebiscito para reunificar o país com a Irlanda, que também pertence à União Européia. Talvez a reunificação das Irlandas seja o único efeito positivo do Brexit, ao custo da dissolução do Reino Unido.

Isso sem nem entrar muito em detalhes sobre o nível do pessoal da campanha pelo Brexit. Clique no link e assista Nigel Farage, líder do UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), cometer uma inominável série de disparates e ofensas contra Herman van Rompuy, então presidente da União Europeia (2009 – 2014), e contra a Bégica inteira, apenas porque é o país de origem deste. O vídeo está no YouTube e tem menos de um minuto e meio.

Por tudo isso eu não estranho nem um pouco que, em apenas três dias, o parlamento britânico já tenha recebido mais de três milhões e trezentas mil assinaturas solicitando um novo plebiscito. Simplesmente a população britânica não tinha idéia da real importância e das conseqüências daquilo que estava votando. Muitos foram enganados com as alegações fantasiosas de “uma prosperidade econômica inimaginável” caso ocorresse a saída da União Européia. Outros tantos ou ainda mais foram instigados a votar pela saída tendo insuflados sentimentos xenófobos comuns em épocas de crise.

O outro, o desconhecido, o estranho sempre foi um bom bode expiatório para todo fanático cuja ideologia se beneficia do acirramento de ânimos e do ataque a uma vítima indefesa e conveniente. O imigrante é sempre o melhor dos bodes expiatórios, porque ele tem aparência diferente, hábitos diferentes e em geral uma barreira linguística que impede ou ao menos dificulta muito que ele se torne conhecido e as diferenças de sua cultura sejam compreendidas.

Finalmente, eu me arrisco a fazer duas previsões.

A primeira é que não haverá um Brexit. O choque foi tão forte, os prejuízos foram tão grandes e o clima de hostilidade que a decisão xenófoba provocou em toda a Europa foram tão intensos que muito provavelmente o Reino Unido vai dar um jeito de fazer alguma gambiarra para permanecer na União Européia. O atual primeiro-ministro, que chamou o plebiscito apesar de querer permanecer na União Européia, já anunciou que deixará o cargo até outubro e que não será ele quem encaminhará a comunicação oficial à União Européia solicitando o desligamento do Reino Unido. O maior defensor do Brexit dentro de seu próprio partido já disse que não tem pressa em sair da União Européia – uma afirmação canalha que demonstra claramente que percebeu o tamanho da enrascada em que meteu o país e que está ganhando tempo para arranjar alguma saída da saída.

A segunda é que a União Européia se fortalecerá. A reação de Alemanha, França e Itália foi de irritação e impaciência com o Brexit, exigindo que o Reino Unido saia de uma vez e alertando que não haverá negociações formais ou informais enquanto não houver a solicitação formal de saída do Reino Unido. Ou seja, não há espaço para mimimi e chorumelas, ninguém vai aliviar a barra e quem quiser abandonar o navio terá que assumir sozinho a responsabilidade por todas as suas decisões, não importa quem seja o retirante. É uma decisão dura, digna e responsável, que valoriza extremamente o projeto europeu e que pelo tom com que está sendo transmitida firma uma posição bem clara sobre a xenofobia: não é bem-vinda.

Eu posso errar, é claro. Não me dediquei a ler de modo muito profundo sobre o assunto, tomei por base os dados mais amplamente disponíveis e fiz uma avaliação baseada no que é mais razoável fazer para o bem de todos os envolvidos – o que não costuma ser o forte do macaco falante, como o próprio resultado do plebiscito mostra. Mas acho que há uma grande chance de eu vir a acertar as duas previsões.

Será divertido acompanhar a política européia nos próximos meses.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 27/06/2016

O Ocidente após o Brexit

O assunto do momento é o “Brexit”, abreviatura de Britanic exit, a saída do Reino Unido da União Européia. Eu não havia tocado neste assunto antes porque jamais imaginei que a Inglaterra cometesse uma burrice deste tamanho. Gibraltar, Escócia, Irlanda do Norte e a região de Londres votaram pela permanência. O resto da Inglaterra e o País de Gales votaram pela saída e deflagraram uma crise que poderá modificar radicalmente tanto a União Européia quanto o próprio Reino Unido.

Brexit

A primeira-ministra da Escócia já deixou claro que, com 62% de votos pela permanência na União Européia, “a Escócia se vê como parte da União Européia e não aceita ser retirada do bloco contra sua vontade”. Um plebiscito sobre a independência da Escócia perante o Reino Unido já está sendo pensado. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein, antigamente conhecido como o braço político do IRA, anunciou que pretende lançar um plebiscito de reunificação das duas Irlandas! Quanto a Gibraltar, nada menos que 95% da população votou pela permanência. O quadro geral é de uma possível desagregação do próprio Reino Unido, algo impensável até anteontem.

Os mercados deixaram sua posição inequívoca: a libra esterlina despencou perante o dólar, as bolsas de valores do mundo inteiro fecharam em queda e os operadores das bolsas deram declarações dizendo que felizmente é sexta-feira, porque as quedas seriam muito maiores se fosse um início de semana. Os mercados futuros caíram no mundo inteiro, da Ásia às Américas.

O Japão está extremamente preocupado com as conseqüências econômicas do Brexit, pois muitas empresas japonesas têm a Inglaterra como porta de entrada para o mercado europeu e a saída da Inglaterra da União Européia significará uma alteração significativa nas tarifas sobre os produtos japoneses na Europa. É provável que indústrias japonesas migrem para outros países da Europa. A Ucrânia já anunciou que o Brexit alterará suas relações com a União Européia e possivelmente a isenção dos vistos será adiada. A Espanha já propôs uma partilha de soberania sobre Gibraltar, para que a península não seja praticamente transformada em uma ilha. A Itália já anunciou que quer sediar a Agência Européia de Medicamentos, atualmente sediada em Londres. E até as Ilhas Malvinas, ou Falklands, serão afetadas com o aumento das tarifas de suas exportações para a União Européia.

Mas estas estão longe de ser as piores conseqüências.

O pior de tudo é o precedente político. Os britânicos, que nunca se integraram completamente à União Européia, tendo mantido moeda própria e ficado de fora do Espaço Shengen, provocaram agora o início de uma onda de questionamento da União Européia que pode resultar em diversos plebiscitos do mesmo tipo, na saída de outros membros e na completa descaracterização do bloco, talvez sua inviabilidade, justamente no momento em que uma crise de refugiados do Oriente Médio, entre os quais se calcula haver mais de cinco mil terroristas infiltrados, traz os maiores desafios para a segurança dos cidadãos e para a economia de todo o continente Europeu. O dano político que o processo agora iniciado pode trazer para o que chamamos de Ocidente tem potencial para ser o maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Para quem ainda não entendeu: pode ser que sim, pode ser que não, mas este episódio tem o potencial de ser o marco inicial da redefinição de tudo o que conhecemos em termos de geopolítica e talvez até mesmo da própria identidade da civilização ocidental. Nunca desde o século XVIII o mundo precisou tanto de Enlightenment (Esclarecimento, Iluminismo).

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/06/2016

Atualização a 25/06/2016:

Eu não acho que esta tenha sido uma batalha entre direita e esquerda. Esta foi uma batalha entre os dois times do embrutecimento (a direita e a esquerda) e o time da sensibilidade e da razoabilidade (o centro iluminista).

A esquerda queria ficar pelos motivos errados. A direita queria sair pelos motivos errados. E a atitude certa a tomar, que é a revisão dos problemas que estão levando os membros da União Européia a querer abandonar o acordo – porque estão descontentes – não está sendo nem sequer cogitada.

Isso é ridículo: a União Européia foi um acordo negociado longamente e com muito diálogo… E agora tudo o que está sendo proposto é “aderir ou sair”, sem negociação e sem diálogo para resolver os problemas do bloco…

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/06/2016

Você, funcionário federal, votou no PT?

O ministro do Planejamento do governo Lula e ministro das Comunicações do governo Dilma foi preso hoje por desviar dinheiro de empréstimos consignados dos funcionários públicos federais para um esquema de propina. É o maior partido de esquerda do Brasil, o Partido dos Trabalhadores, roubando diretamente os trabalhadores em dois governos. 

Burro

Parabéns aí, amiguinho esquerdista, eleitor do PT e de seus aliados. Você é um JẼNYU, continue assim.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 23/06/2016

O nível das estatísticas brasileiras

Imagine você que uma determinada região do país tem apenas dois municípios. Um deles tem dez mil imóveis e o outro tem cem mil imóveis. Aí eu visito 100% dos imóveis do primeiro município e 10% dos imóveis do segundo município. Qual o percentual de imóveis da região eu visitei?

internet-memes-troll-math-divide-by-zero

Bem, de acordo com um certo programa governamental federal que anda por aí, eu visitei 55% dos imóveis! Afinal, 100% + 10% = 110% e 110%/2 = 55%!!!

A conta correta, obviamente, é 10.000 + 10.000 = 20.000 imóveis visitados, divididos por 110.000 imóveis totais, o que dá um total de 18,18% dos imóveis visitados.

Felizmente os dados deste programa específico já estão sendo corrigidos, mas muitas decisões administrativas, inclusive financiamentos importantes, foram tomadas com base em “estatísticas” deste nível. Outras estão sendo tomadas hoje com base em estatísticas que já estavam obsoletas há mais de quinze anos.

Vocês nem imaginam qual é o real nível de competência de nossos governos.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/06/2016

Não confunda centrismo com fisiologismo

Sabe aquele papo de “ficar em cima do muro”? Aquilo não é centrismo. Sabe aquele papo de “não ideologizar os debates”? Aquilo não é centrismo. Sabe aquele papo de “assumir uma posição de consenso”? Aquilo não é centrismo. Centrismo é uma posição bem definida, ideológica e que nem de longe admite “acordão”. 

fisiologismo cargos e consciencia

A posição centrista é uma posição de rejeição dos extremismos de direita e de esquerda. Rejeição do egoísmo da direita e do coletivismo da esquerda. Se é assim, é claro que tem um matiz ideológico. Se rejeita os extremismos, não pode buscar um consenso entre eles. Tem que buscar uma terceira posição, que depure a política dos erros da direita e da esquerda, ao invés de contemporizar em busca de acordo entre os arautos do que é prejudicial para o ser humano.

Isso exige posicionamento firme. Exige combater o bom combate. Não é uma ideologia de contemporização. Recebe críticas de todos os lados, sendo acusada de esquerdismo pela direita e de direitismo pela esquerda. Políticos fisiológicos tentam ficar de bem com todo o espectro ideológico. Centristas denunciam a inadequação e a periculosidade dos extremos do espectro ideológico.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 21/06/2016