Radicalizar é meu projeto para 2017

Radicalizar é fundamental. Radicalizar é ser fiel às raízes. É ser fiel aos princípios. À essência. Radicalizar é a coisa mais saudável a se fazer quando os princípios são saudáveis e a mais doentia quando os princípios são doentios. É necessário muito bom senso para radicalizar sem se tornar extremista – pouca gente o consegue. Mas eu estou sentindo muita necessidade de radicalizar. Preciso arriscar. Bora explicar… 

Eu tenho dito há anos que o embrutecimento tem sido a grande marca cultural e política do Brasil das últimas décadas, em especial nos treze anos em que a pior quadrilha criminosa especializada em teatro político esteve no poder no Brasil. Por muitos anos eu tentei dialogar e combater essa abominação de modo aberto e racional, iludido estava que se tratava de uma ideologia honesta porém “equivocada” para usar o mais leve eufemismo. A degradação cultural e política do país, entretanto, foi piorando de modo cada vez mais rápido e mais intenso. Como eu disse, radicalizar princípios doentios é o pior a fazer.

O embrutecimento chegou a um ponto em que eu tive que me afastar do blog para não ficar doente de tanta raiva das perversões que eu via e lia e ouvia o tempo todo. Gente que eu imaginava ter um mínimo de inteligência e de decência estava defendendo as piores perversões ideológicas de ambos os lados do espectro político. Sem sombra alguma de dúvida a esquerda é a pior coisa que existe em termos de ideologia política, mas a direita insiste em se manter no páreo seguindo a esquerda bem de perto. Eu precisei de sete meses para retornar timidamente ao blog.

Durante algum tempo as coisas voltaram aos eixos, após o impeachment da guerrilheira e a humilhação da facção nas urnas, mas logo a polarização entre canalhas outrora aliados se mostrou extremamente deletéria para o país. Mais uma vez o Brasil assistia uma onda numa maré de sujeira a radicalizar seus males. Cada dia no noticiário trazia não uma, mas várias novas notícias de corrupção. Os rumos da reconstrução da economia se demonstraram insensíveis e equivocados, com os ex-aliados dos perpetradores do desmonte do país impondo austeridade e perdas de empregos e de direitos para o povo, buscando impedir a justiça e mostrando-se incapazes de reativar o crescimento econômico. Enquanto isso, a facção contra-atacava voltando a cultivar as perversões culturais e sua ideologia criminosa de sempre.

Até que o Marcos Rolim retuitou a canalhice que eu respondi no tweet que ilustra este artigo.

Gente, foi a gota d’água. Foi apenas um episódio ridículo – um tweet abjeto num mar de lama infecta. Mas esta cerejinha no bolo de esterco da esquerda me tirou do sério. E eu sei por quê. Eu respeitava o Marcos Rolim. Talvez eu tenha me iludido com o fato de ele não ser mais militante da facção principal, eu tolerava a óbvia vinculação dele com a ideologia criminosa que permitiu o avanço e o domínio da facção. Poxa, uma vez o cara defendeu a Luciana Genro quando eu a critiquei! Como é que naquela ocasião eu não percebi o óbvio?!

Pois bem, agora eu percebi. E dei unfollow num dos perfis do Twitter que eu seguia há mais tempo. E escrevi mais um palavrão, coisa que eu nunca gostei de escrever, não gosto, acho que tem que ser reservado para ocasiões muito especiais, para fins de modulação de intensidade realmente importantes. Só que, em se tratando da porcaria da esquerda e da porcaria da direita, dá vontade de usar a toda hora. O tempo todo. Dez vezes por frase. Escritos com sangue. Sangue extraído a marretadas.

Definitivamente, esta corja me faz mal. Percebi que preciso radicalizar muito mais minhas atitudes em relação a eles. E foi assim que nasceu este artigo, que na verdade é uma pequena retrospectiva e uma reflexão em público.

Se radicalizar o embrutecimento é ruim, o que obviamente é, então é necessário radicalizar o oposto do embrutecimento. E o oposto do embrutecimento não é a sensibilização ingênua que acaba se tornando tolerante ao embrutecedor, é a metatolerância. Como eu havia dito no artigo linkado, eu decidi agir de modo tranquilo e implacável. E transformei isso em Resolução de Ano Novo e escrevi e publiquei para me comprometer com esta decisão e radicalizar seu cumprimento.

Que em 2017 você possa também radicalizar seus princípios. Radicalizar seu comportamento. Radicalizar sua coerência. Radicalizar sua ética. Radicalizar seu bem-estar.

O nazista nunca é amigo do judeu. Não seja o judeu que acha que existe nazista bonzinho. Não reconheça qualquer legitimidade nos canalhas. Afaste-se de quem e do que lhe faz mal ou lhe faria mal se fosse intensificado. O pervertido moderado de hoje é o pervertido extremista de amanhã. Não tolere argumentos fedorentos só porque parecem ter um verniz de racionalidade. Trate aos coices quem insistir em justificar perversões, eles merecem. Seja implacável, porque eles não têm salvação.

Guarde sua delicadeza, sua compaixão e o benefício da dúvida somente para quem faz o mesmo com os demais. Bloqueie os cretinos nas redes sociais. Relegue-os ao ostracismo da sua convivência. Não tenha pena de quem não tem pena. Não defenda quem diz coisas que, se levadas a cabo, colocariam você, sua família e seus amigos em situação vulnerável.

Não tenha medo de radicalizar suas atitudes contra os canalhas, porque eles não perdem uma única oportunidade para radicalizar a canalhice deles contra as pessoas decentes. Seja implacável, porque eles já são há muito tempo e quase destruíram o país e implantaram uma ditadura aqui, na qual você seria massacrado, e agora a outra facção está prometendo radicalizar as perversões opostas. Quem não quer se incomodar com isso hoje será mil vezes mais incomodado com isso amanhã.

Não colabore com o inimigo, nem mesmo nos mais pequenos gestos. Não dá para ser só um pouquinho menos do que decente. Não dá para ser só um pouquinho menos do que honesto. Não dá para ser só um pouquinho menos do que razoável. O coração está cheio do que a boca fala e transborda quando as mãos alcançam o poder.

O mundo não é como gostaríamos que fosse. É estupidamente ingênuo achar que é possível não se envolver com política, não se afetar com uma cultura pervertida, não se incomodar com estes assuntos. Você pode se esconder no fundo de uma caverna, mas não adianta – os canalhas vão buscar você lá e transformar sua vida num inferno. É por isso que é necessário radicalizar o combate ao que é mau e deletério, não basta não fazer o mal a ninguém. Não se omita. Não tolere pequenas perversões, ou elas crescerão e engolirão a sua vida.

Radicalizar os bons princípios é preciso. É necessário. É urgente.

Pratique metatolerância.

Feliz 2017.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/01/2017

Metatolerância: teoria e prática

Metatolerância é o exercício coerente e consequente da tolerância para com a tolerância e da intolerância para com a intolerância, em busca de um mundo mais tolerante, saudável e harmônico. Sua prática requer discernimento, coragem e honestidade intelectual, mas sobretudo firmeza e implacabilidade, porque os intolerantes as possuem de sobra e os tolerantes não as possuem em suficiência.

METATOLERÂNCIA

Desde quando formulei o conceito de metatolerância, eu sabia que ele era simples, mas não era fácil. Custei para perceber o motivo, porém. Foram necessários cerca de 28 meses para que eu me desse conta de que para um intolerante é fácil fingir tolerância para com os tolerantes até o momento em que estrategicamente lhe seja benéfico abandonar o fingimento, mas para um tolerante é muito difícil exercer a intolerância contra os intolerantes a qualquer momento. Nos dois últimos dias, entretanto, caiu a ficha. Contarei o que houve. 

Anteontem um amigo (agora ex-amigo) teve um surto de estupidez fascista no Facebook. Estava lá vociferando que manifestações pacíficas eram inúteis para modificar o status quo, que era necessário apelar para a desestabilização e até para a violência, etc. Quando eu vi aquilo, dito de maneira histérica e ridícula, eu caí na risada e entrei na discussão para zoar com o sujeito. Não me incomodei em nada, porque não tinha o menor respeito pelas bobagens que ele estava dizendo.

Ontem, depois de ele me ofender, me ameaçar de espancamento, empalamento em praça pública e sei lá mais o que, eu percebi que tudo aquilo era realmente a sério – ou, se não era, a brincadeira estava longe demais. A discussão desde sempre foi uma baixaria, com troca de ofensas de ambos os lados, mas até então eu estava levando na brincadeira e achando graça. Afinal, tudo o que ele dizia era tão estapafúrdio, tão cheio de clichês esquerdistas abjetos e absurdos, que eu não tinha como levar a sério. Para mim era só uma guerra de torta. Naquele momento, entretanto, eu percebi que tinha tomado a intolerância dele por deboche, caiu a ficha do quanto ele estava perturbado e avisei o sujeito: “cara, tu estás doente”. Obviamente, foi inútil.

Hoje a coisa continuou e o cara continuou a lançar ataques pessoais. Eu respondi mantendo o foco na situação do Brasil, que foi roubado e falido pelo partido dele. Citei as condenações por corrupção e as imensas cifras já recuperadas, coisa que seria impossível caso não tivesse havido a corrupção e o roubo. A resposta dele invariavelmente foi me chamar de coxinha, idiota, palhaço, dizer que amigos meus falam de mim pelas costas (defeito meu ou deles?), que eu não entendo nada de antropologia, sociologia e história (leitores antigos rindo neste momento) e que Stalin matou foi pouco.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

O interessante é que também na tarde de hoje já havia acontecido outro episódio em que eu bloqueei alguém com quem estava discutindo sobre política na página de um amigo em comum. Sabem aquele sujeito que, desde o primeiro momento em que a gente lê, a gente percebe que vai ter que aturar um chato de galochas com blá-blá-blá pernóstico, pedante, citando pensadores como se fossem autoridade científica e nos acusando de falácia ao mesmo tempo? Pois bem, eu respirei fundo e encarei. O problema é que a cada postagem ele lançava uma farpa pessoal. E, lá pelas tantas, o cara me chamou de comunista.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

Foi a partir deste duplo bloqueio de hoje que eu percebi qual é a maior dificuldade do exercício da metatolerância: para uma pessoa tolerante e com convicções éticas, é muito difícil ser devidamente intolerante com os intolerantes porque guardamos respeito por todo ser humano até um limite que ultrapassa muito o razoável. O sujeito mostra uma vez que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra duas vezes que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra dez vezes que é intolerante, a gente releva. Na centésima vez que o sujeito mostra que é intolerante, finalmente a ficha cai, a gente não releva, reage… E o intolerante nos acusa de intolerância! E nós nos sentimos mal por isso!

A chave do exercício da metatolerância é perder o respeito por quem mostra que não merece respeito.

Uma vez que eu perdi o respeito por ambos estes interlocutores, um intolerante de esquerda e um intolerante de direita, eu simplesmente não senti qualquer constrangimento por bloquear os dois sem avisar ou sem dar qualquer explicação. No caso do que eu não conhecia, eu não tive paciência para explicar nada. No caso do que era meu amigo, eu até pensei em escrever algo, eu até esperei alguns segundos porque ele estava escrevendo alguma coisa, mas logo me dei conta de que seria bobagem. Seria fraqueza. Eu estaria me preocupando com os sentimentos de alguém que já havia ameaçado me agredir e que dizia que eu tinha que ser empalado em praça pública. Ridículo. Gente como estes dois caras não merece nem minha compaixão, nem minha raiva, só merece meu desprezo. E foi isso que eu dei a eles, deletando-os do meu universo sem remorso.

O engraçado ou tragicômico nisso tudo é que eu vivo aconselhando que “quando uma pessoa te mostrar aquilo que ela realmente é, acredita logo na primeira vez”, mas tenho uma certa dificuldade para fazer isso de primeira, muito por medo de haver algum mal entendido. Isso e um certo sentimentalismo têm feito com que eu seja tolerante demais com os intolerantes, o que não é bom. Tolerar os intolerantes os fortalece, permite por mais tempo que eles espalhem seu veneno, gerem mal estar e promovam o embrutecimento de que gostam e no qual prosperam.

Pelo bem tanto de nossa saúde emocional como de nossa segurança social, precisamos ser mais metatolerantes: tolerar os tolerantes e não tolerar os intolerantes. Mesmo. E isso fica muito mais fácil quando entendemos que perder o respeito por alguém não significa que temos que desrespeitar este alguém e sim que não temos que respeitar este alguém. Por exemplo, deletando a pessoa de nosso universo, para que não tenhamos que lidar com sua toxicidade, ou seu vampirismo emocional. Por exemplo, não nos preocupando com o que ela pode dizer de nós após a deletarmos de nossa vida. Por exemplo, sendo mais saudável e mais feliz na total ausência dela, ou mesmo de sua lembrança.

A partir de hoje, estarei bem mais tranquilo e à vontade para ser implacável no exercício da metatolerância.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/12/2016

A liberdade impossível

Sempre que você quiser saber se alguém que diz defender a liberdade realmente defende a liberdade, você só precisa verificar se essa pessoa defende a dissociação entre liberdade e responsabilidade. Sempre que isso acontecer, você estará diante de um fascista travestido de libertário.

fascismo

A dissociação entre liberdade e responsabilidade é o fato de alguém não ser responsabilizado por suas decisões ou por seus atos ou de alguém ser responsabilizado pelas decisões ou pelos atos de terceiros. 

Se alguém defende a liberdade de usar drogas recreativas, mas considera justo que o estado de intoxicação seja uma atenuante no caso de cometer algum crime ou mesmo algum acidente com vítimas, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de se proteger dos riscos trazidos pelo uso de drogas recreativas por terceiros, mas considera justo não proteger nem regulamentar a liberdade destes terceiros de usar drogas sem prejudicar ninguém, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de fazer sexo quando, como e com quem bem entender, mas considera justo assassinar o inocente gerado em uma de suas relações sexuais, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de acesso universal a universidades, empresas ou cargos públicos, mas considera justo que pessoas que se capacitaram mais sejam alijadas das vagas em benefício de pessoas que se capacitaram menos, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de fazer greve, mas considera justo que o patrão seja obrigado a garantir os empregos e pagar os salários dos grevistas, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de cobrar o preço que quiser por seu produto ou serviço, mas considera justo recorrer à proteção do Estado para impedir que um concorrente que ofereça um produto melhor ou mais barato domine o seu mercado, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

A lista é imensa. Há muita gente por aí que diz que defende a liberdade, mas que só defende a liberdade que lhe interessa, ou de quem lhe interessa, seja por motivos políticos, econômicos, religiosos ou outros. Fique atento: estas pessoas (ou grupos) são fascistas travestidos de libertários. Eles podem parecer defender uma liberdade que lhe é cara hoje, mas vão tomar a sua liberdade amanhã.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/07/2015 

A polêmica pela polêmica

Não, eu não escrevo coisa alguma só para ser polêmico. Nas poucas vezes em que cedi a esta tentação, em geral não gostei dos resultados. A polêmica pela polêmica não tem valor algum, é uma iniciativa vazia e só gera desgaste. Exceto para quem tem interesse diversionista ou mercadológico, para que fazer essa bobagem? 

DoNotFeedTroll
Não alimente o Troll

Um amigo me espinafrou por causa do texto “A herança maldita de Mahatma Gandhi“. Ele acha que eu escrevi aquele texto “só para gerar polêmica”. Não. Eu escrevi aquele texto porque eu tenho absoluta convicção de que a estratégia de Gandhi para lidar com o Império Inglês seria completamente fracassada contra adversários com um nível inferior de moralidade – a absoluta maioria da humanidade, inclusive a maior parte das atuais correntes ideológicas que dividem a cena política ocidental. 

Do mesmo modo, quando eu espinafro os movimentos feminista, negro e gay, eu não estou interessado na polêmica. Eu digo o que penso porque hoje em dia pouca gente tem tido coragem de denunciar a perversão ideológica e os objetivos depravados e perigosos de quem encabeça estes movimentos. Não dá para deixar somente os Bolsonaros, Reinaldos e Olavos da vida falarem a verdade sobre estes movimentos sociais, porque estes caras falam isso por motivos completamente errados e não representam uma alternativa razoável. 

Do mesmo modo, quando eu espinafro os Mídia Sem Máscara da vida, eu não estou interessado na polêmica. Meu motivo é o mesmo citado no parágrafo anterior: não dá para deixar somente os Sakamotos, Lolas e Tijolaços da vida falarem a verdade sobre estes alucinados, porque estes caras falam isso por motivos completamente errados e não representam uma alternativa razoável. 

Meu interesse é na legitimação da crítica e na exploração de alternativas ao pensamento de rebanho dos extremistas e dos farsantes, que costumam ser as mesmas pessoas, em qualquer dos extremos do espectro ideológico. O papel do intelectual não é gerar polêmica, é gerar idéias que façam sentido – e quem quiser que as analise, que as debata, que as transforme em ação ou que as ignore. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 14/05/2015 

Liberdade com Responsabilidade

Eu estudei em uma escola cujo lema era LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE. Eu fiz alguma grande porcaria na vida? Nada. Por quê? Porque eu levei aquilo a sério. Se eu não posso arcar com a responsabilidade, eu não abuso da liberdade. Hoje em dia, entretanto, é “careta” exigir responsabilidade, honra, compromisso, na verdade é “abusivo” exigir qualquer coisa. 

excalibur

Todo mundo quer a liberdade de não responder pelos próprios atos (daí o aborto, daí as cotas, daí o Bolsa-Família, daí o coitadismo institucional). E ao mesmo tempo quase todos querem um Big Brother orwelliano dizendo o que podem e o que não podem fazer para não terem que pensar por si mesmos, para não terem que arcar com a responsabilidade e as conseqüências de suas decisões. Quem pensa assim está mais para verme do que para ser humano.

E quem – mesmo com as melhores intenções – resolve atender essas demandas invariavelmente desanda para o fascismo, consciente ou inconscientemente, e assim coloca toda a civilização no rumo do obscurantismo. 

É por causa disso que eu não posso dirigir com bom senso, eu tenho que me arrastar a uma velocidade estúpida arbitrada por um burocrata sem-noção (e muitas vezes mal intencionado, com o puro objetivo de arrecadar dinheiro).

É por causa disso que eu não posso comprar álcool líquido, como se eu fosse um retardado que não pode comer com garfo sem furar o olho ou acender uma chama sem incendiar a casa. 

É por causa disso que eu tenho que pagar para alguém me autorizar a comprar um antibiótico (ou a substância recreativa de minha livre escolha) para mim mesmo com meu próprio dinheiro, mesmo que eu saiba o que comprar, a quantidade e o esquema de tomada.

O mundo está se tornando cada vez mais fascista porque espertalhões de uma lado e estúpidos ou ingênuos bem intencionados de outro lado não confiam na capacidade do ser humano. Não compreendem ou não adotam com a devida radicalidade o lema iluminista – Sapere aude! – e com isso vão induzindo o ser humano a se tornar cada vez mais incapaz e a cada vez mais precisar do mesmo veneno (tutela de consciência) para não furar o olho enquanto come com garfo. 

“O iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem.

É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem.

Sapere aude! – Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do iluminismo.”

Não se desenvolve maturidade sem o exercício da liberdade. Não se ensina uma criança a andar com aulas teóricas, nem com vídeo explicativos, nem com bons exemplos. Ela tem que tentar caminhar com suas próprias pernas, tem que cair, levantar e tentar de novo, ou nunca caminhará. 

Do mesmo modo, não se pode “esperar a sociedade atingir uma certa maturidade para ter determinados direitos e liberdades”. Não é assim que funciona. A maturidade vem com o exercício da liberdade. 

Eu sou um iluminista. Eu não aceito a tutela de minha consciência. Eu não confiro a ninguém o direito de dizer o que eu posso ou o que eu não posso fazer, e com quem, e quando, e onde, e como, a não ser que se trate de uma norma sensata que me ajude a não prejudicar ninguém no processo.

Eu sou um iluminista. Eu não tutelo a consciência alheia. Eu não aceito a responsabilidade sobre a estupidez alheia, sobre as decisões alheias, nem sobre os atos alheios, a não ser que eu tenha contribuído materialmente ou induzido alguém a erro.

Eu sou um iluminista. Eu vivo por e para os valores iluministas. Coragem para fazer uso da própria razão, liberdade e responsabilidade são valores inegociáveis. Estes valores não têm preço. Estes valores não podem ser tocados por segurança, nem por conveniência. Estes valores são a essência da dignidade e o alicerce da civilização. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 22/01/2014 

Je suis Charlie

Não há uma guerra entre civilizações. Por definição, duas civilizações nunca entram em guerra. Simplesmente não se pode usar a palavra “civilização” para fazer referência à ideologia de fanáticos intolerantes que consideram censura ou ataques terroristas caminhos legítimos para fazer valer seus pontos de vista. 

Je suis Charlie

Em uma sociedade civilizada, ninguém tem o direito de não ser ofendido, nem jamais pode ter. Aqueles que buscam tal direito, para si ou para outrem, seja qual for a justificativa, religiosa ou laica, na verdade buscam o direito à tirania, porque quem busca tal direito – e principalmente seus auto-proclamados representantes – nunca exige que este seja um direito universal e igualitário. 

Muito antes pelo contrário, quem busca tal direito sempre alega que os supostos oprimidos devem obtê-lo, mas os supostos opressores não. Uma vez que tal aberração é produzida, invariavelmente aqueles que são apontados como opressores são ofendidos e demonizados e seus protestos quanto à violação de seus direitos são ridicularizados. A busca do direito de não ser ofendido não é, portanto, uma luta por dignidade, é uma luta por dominação. 

Eu considero o periódico “cômico” Charlie Hebdo um completo lixo. Não me agrada seu estilo de humor, não me agrada sua visão política, não me agrada o tipo de sociedade que eles gostariam de implantar, não me agrada a falta de respeito contumaz que ele estampa em suas páginas e não me agrada seu tom ofensivo. Mas eu defendo radicalmente a liberdade de expressão. Então, eu defendo que aquela porcaria de mau gosto tenha todo o direito de existir e de se expressar como bem entender. Sempre. 

Quando alguém censura ou de qualquer modo ataca a liberdade de expressão de quem quer que seja, incluindo um lixo como o Charlie Hebdo, com o qual eu não concordo e que eu gostaria de ver falir por falta de leitores, é a liberdade de expressão no mundo em que eu vivo que está sendo atacada, são os valores que eu defendo que estão sendo atacados, é o estilo de vida que eu defendo que está sendo atacado, sou eu quem está sendo atacado. 

Em defesa da civilização, em defesa dos Direitos Humanos iguais e inalienáveis de todo membro da família humana, em defesa da liberdade de expressão e contra qualquer forma de tutela de consciência, EU SOU CHARLIE. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 13/01/2014 

Nossa visão política é biologicamente determinada?

A BBC Brasil publicou em 20/05/2014 a reportagem “A estrutura do cérebro determina nossa visão política?”, cujo texto reproduzo e analiso abaixo. Mas adianto a resposta: sim, é claro que sim. E muito. Mas vou além: nossa biologia também determina quais são os sistemas políticos, econômicos e sociais adequados e inadequados para nossa espécie. 

Cérebro - biologia e política

Vejamos primeiro o texto da BBC, depois eu volto. 

A estrutura do cérebro determina nossa visão política?

Timandra Harkness

Neurocientistas e psicólogos dos Estados Unidos e Grã-Bretanha estão pesquisando como atitudes políticas podem estar ligadas ao cérebro.

“Ao analisar como o cérebro processa os fenômenos políticos, podemos entender um pouco melhor porque tomamos certas decisões sobre este assunto”, disse Darren Schreiber, da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha.

O cientista analisou padrões de atividade no cérebro por meio de exames de ressonância magnética funcional enquanto era feita a tomada de decisões, especialmente aquelas que envolvem riscos.

Schreiber observou variações nas partes do cérebro que ficaram mais ativas entre aqueles que se declaravam conservadores e aqueles que se descreviam como liberais, apesar das decisões tomadas por eles nem sempre serem diferentes.

Segundo o cientista, o estudo sugere que perspectivas políticas refletem divergências profundas na forma como compreendemos o mundo.

Ceticismo

O neurocientista Read Montague, do University College de Londres e da Virginia Tech, dos Estados Unidos, recebeu com ceticismo um pedido para ajudar cientistas políticos em suas pesquisas.

Mas, quando John Hibbing e sua equipe da Universidade de Nebraska mostraram a Montague os dados que já tinham levantado, ele mudou de opinião.

Estudos realizados por Hibbing entre gêmeos sugere que a opinião política pode ser, em parte, genética.

Este pode não ser um traço tão forte como a altura, por exemplo, mas é o bastante para sugerir que algumas pessoas realmente podem ser conservadoras graças ao DNA.

A questão é como exatamente as diferenças genéticas podem ser expressas como diferenças políticas no mundo real.

Hibbing e Montague queriam descobrir se estas predisposições inatas poderiam ser observadas no cérebro.

Então, eles testaram as respostas instintivas a imagens que visavam provocar nojo (como, por exemplo, alguém comendo vermes ou larvas) e medo e descobriram uma ligação entre a força da resposta a estas imagens e o quanto as opiniões de uma pessoa podem ser conservadoras em termos sociais.

“Precisamos deixar clara a distinção entre conservadorismo econônomico e conservadorismo social”, disse Hibbing.

“Pessoas que têm atitudes mais protetoras em relação a assuntos como imigração, que estão mais dispostas a punir criminosos, pessoas que são contra o aborto… estes são indivíduos que parecem ter uma reação muito mais forte a imagens repugnantes.”

Estas reações são medidas em termos biológicos, então, os estudos ligam as opiniões explícitas e conscientes a respostas subconscientes.

Na pesquisa realizada até o momento, as atitudes em relação ao risco, nojo e medo mostram ter ligações mais fortes com as opiniões políticas.

Mudança de região para região

As dificuldades começam quando os cientistas tentam aplicar estas percepções em uma situação ou local específico.
Nenhum dos pesquisadores envolvidos nesta pesquisa alega que nossas opiniões políticas são completamente inatas.

Americanos socialmente conservadores são a favor de um Estado menos abrangente e um mercado mais livre.

Em países que faziam parte do antigo bloco comunista, na Europa Oriental, o conservadorismo social pode levar ao desejo pelos velhos tempos do comunismo.

O economista comportamental Liam Delaney está estudando a psicologia envolvida na campanha do referendo pela independência da Escócia e alerta que não é possível dizer que nossos instintos subconscientes podem servir de guia para o debate.

“Determinismo biológico é um pouco complicado nestas situações, pois há muita variação nos diferentes sistemas políticos. Então, acho que você pode simplificar as coisas ao falar que existe algo fixo que determina o resultado”, disse.

Schreiber afirma que a política humana é “extraordinariamente complexa”. “Não está reduzida apenas ao cérebro, e quero deixar muito claro que não sou um determinista biológico”, acrescentou Schreiber.

Experiência e implicações

O cérebro humano muda durante a vida, então, os neurocientistas tomam muito cuidado ao afirmar que nossas experiências, assim como nossos genes, moldaram o cérebro que eles estão examinando.

John Hibbing acredita que nossos ímpetos subconscientes, que evoluíram em resposta a riscos físicos urgentes, comandam nossas mentes políticas mais do que pensamos.

“As pessoas acreditam que suas crenças políticas são racionais, uma resposta sensata ao mundo que as cerca. Então, não gostam quando dizemos que talvez existam predisposições que são não totalmente conscientes”, disse.

O cientista compara nossas tendências ideológicas inatas com a mão que preferimos usar. Pensava-se que isto era um hábito que poderia ser mudado, mas hoje sabe-se que é algo “profundamente incorporado à biologia”.

Isto pode ter implicações profundas na vida política.

Se alguém ser de esquerda é algo tão inato quanto ser canhoto, não poderíamos apenas fazer um exame no cérebro de todos e deduzir o que as pessoas pensarão sempre e simplesmente parar de tentar mudar sua opinião?

Hibbing não concorda.

“Não acho que as pessoas deveriam aceitar que alguns são simplesmente diferentes, mas deveríamos entender que é muito difícil mudar a opinião de algumas pessoas e que gritar com não contribui para nada”, disse.

AGL

Voltei.

Ando com a impressão que há grandes problemas de vocabulário envolvidos nesta questão. Vejamos:

Em primeiro lugar, o que significa ser “conservador”?

Se o significado for “ter aversão a riscos”, então o estudo faz sentido e toda e qualquer posição política e econômica de baixo risco será preferida às de alto risco (sendo que o sujeito tem que ter capacidade de discernir o que representa risco – o mesmo conservadorismo pode levar à proteção ambiental porque alguém bem informado sabe que ameaçar o equilíbrio climático é um risco enorme e pode levar à destruição ambiental porque alguém mal informado acha que ameaçar o que ele chama de desenvolvimento econômico é que é um risco enorme).

Se o significado for “ser partidário da ideologia tal”, então podemos parar por aqui, porque isso é bobagem. O máximo que pode acontecer é que a genética leve os indivíduos a terem ou mais ou menos empatia (ou aversão a risco, ou combatividade, ou outra característica biológica) e que os indivíduos – levando em consideração aqui também a capacidade cognitiva e a educação recebida – considerem esta ou aquela ideologia mais atraente por lhe parecer mais empática ou menos empática (ou arriscada, ou combativa, ou alguma outra característica biológica).

Essa provavelmente é a razão pela qual muitos jovens ingênuos são atraídos por ideologias esquerdistas, que se apresentam como protetoras dos pobres e oprimidos, mas quando atingem mais maturidade e discernimento percebem que o diagnóstico da injustiça estava correto, mas a solução proposta é radicalmente errada – e ao assumir uma posição mais razoável passam a ser chamados de traidores da causa, retrógrados, coxinhas ou neoconservadores. 

Em segundo lugar, É ÓBVIO que a estrutura do cérebro determina nossa visão política, social e econômica.

Um destes exemplos expus logo acima, quando falei de empatia. E, como a estrutura do cérebro é determinada em parte pela genética, sim, é claro que uma parte da posição de cada um em qualquer um destes temas é parcialmente determinada pela genética. Mas não do jeito que a reportagem faz parecer, ou não haveria as diferenças de região para região que eles mesmos citam.

Em terceiro lugar, quem “não gosta da idéia de que existam predisposições inatas” ignora completamente o que é a biologia e se torna um iludido em psicologia, antropologia, sociologia, economia e política em geral.

Só pensamos como pensamos porque pertencemos à espécie que pertencemos. 

Fôssemos insetos sociais, como os cupins, pensaríamos de modo completamente diferente, teríamos valores completamente diferentes. Insetos sociais são regidos pela máxima de que o bem estar da colônia é prioridade em relação ao bem estar de qualquer indivíduo e que os indivíduos podem ser sacrificados pelo bem da colônia – exatamente a visão dos esquerdistas.

Fôssemos predadores solitários, como os leopardos, também pensaríamos de modo completamente diferente, teríamos valores completamente diferentes. Predadores solitários são regidos pela máxima de que o bem estar próprio e de sua prole é a única coisa que importa e não possuem responsabilidade alguma com mais ninguém – exatamente a visão dos direitistas.

Mas somos primatas caçadores-coletores, não cupins, nem leopardos. Por isso o tipo de política, de economia e de sociedade adequado para nós é, sim, biologicamente determinado – e não corresponde nem ao que prega a esquerda, nem ao que prega a direita.

Os iluministas originais não tinham este conhecimento a seu dispor, por isso não puderam depurar suas idéias da contaminação esquerdista ou direitista. Mas nós temos, e não devemos cometer os mesmos erros. Precisamos de uma política e de uma economia adequadas à realidade biológica do primata caçador-coletor tribal que o ser humano é. Ou melhor: precisamos da política e da economia mais adequadas à realidade biológica do primata caçador-coletor tribal que o ser humano é. Isso é a visão iluminista moderna. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 31/10/2014 

METATOLERÂNCIA

Não seja tolerante, seja metatolerante. Ser indiscriminadamente tolerante é contraproducente, pois aumenta a intolerância. Ser indiscriminadamente tolerante não é sabedoria, é comodismo e fuga de responsabilidade. 

METATOLERÂNCIA

Se você deseja ser coerente em sua ação no mundo, tem que agir de modo lógico. Guiar-se por wishful thinking e fórmulas prontas que não exigem discernimento e entendimento das conseqüências imediatas e mediatas de seus atos é um método perfeito para produzir o oposto do que você quer. 

Se você deseja que o mundo se torne mais tolerante, é necessário ser intolerante com a intolerância. Isso tem que ser compreendido em profundidade. Para buscar esta compreensão, vamos fazer um exercício intelectual. 

Vamos imaginar quatro cenários hipotéticos, correspondentes às quatro linhas da tabela-verdade da metatolerância, em cada um dos quais a Skynet envia alguns milhares de Exterminadores do Futuro programados para derrubar o governo e instalar a oposição no governo. 

Cenário 1

Os Teletubbies são o governo mundial. Os Predadores são oposição. 

O governo promove cidadania, planta flores e cria coelhinhos. 

A Skynet é tolerante. Olha em volta, está tudo bem, não se mete. 

Cenário 2

Os Predadores são o governo mundial. Os Teletubbies são oposição. 

O governo usa os humanos como alimento para criar Aliens. 

A Skynet é tolerante. Olha em volta, está tudo mal, dialoga… 

Cenário 3

Os Teletubbies são o governo mundial. Os Predadores são oposição. 

O governo promove cidadania, planta flores e cria coelhinhos. 

A Skynet é intolerante. Extermina os Teletubbies, empossa os Predadores. 

Cenário 4

Os Predadores são o governo mundial. Os Teletubbies são oposição. 

O governo usa os humanos como alimento para criar Aliens. 

A Skynet é intolerante. Extermina os Predadores, empossa os Teletubbies. 

Análise

No cenário 1, os humanos estão bem e continuam bem. 

No cenário 2, os humanos estão mal e continuam mal. 

No cenário 3, os humanos estão bem e ficam mal. 

No cenário 4, os humanos estão mal e ficam bem. 

Isso acontece porque, em relação à tolerância e à intolerância, ser tolerante mantém a tendência, enquanto ser intolerante inverte a tendência. 

Adotar uma postura indiscriminadamente tolerante, portanto, não leva a um aumento da tolerância, mas a simples manutenção do status quo

Adotar uma postura indiscriminadamente intolerante, por outro lado, leva à desestruturação do sistema, porque nega constantemente o status quo e produz intensa permanente instabilidade. 

Conclusão

A única postura que permite perseguir um objetivo em relação ao nível de tolerância de um sistema é a metatolerância, ou seja, a definição do objetivo de aumentar a tolerância do sistema e a conseqüente adoção da postura adequada segundo a tabela-verdade da metatolerância: ser tolerante com os tolerantes e intolerante com os intolerantes

Todavia, metatolerância requer discernimento para identificar se as posições são tolerantes ou intolerantes e reagir de modo coerente e conseqüente, coragem para combater implacavelmente a intolerância e resistir tanto às acusações ingênuas quanto às mal intencionadas quanto a seus reais propósitos e honestidade intelectual para não justificar a omissão e o imobilismo de conveniência como se fossem tolerância nem agir de modo abusivo alegando falsamente que o interlocutor ou o adversário é que são intolerantes. 

É simples, mas eu nunca disse que era fácil. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 22/08/2014 

Outro texto sobre metatolerância, com exemplos reais: clique aqui.

Revolução Iluminista – aviso importante

A pedidos, recoloquei o link para o Manifesto da Revolução Iluminista no alto da coluna da direita do blog.

Projeto

O objetivo é dar manter aberto o espaço para o debate de estratégias iluministas na política e dar oportunidade para que surjam novos interessados e assim viabilizar o projeto. 

Este projeto não tem sentido se não visar a mais absoluta excelência. Analisem o gráfico acima e deduzam as devidas implicações. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/08/2014

Racionalizando esforços

Os leitores habituais do Pensar Não Dói perceberão a ausência da imagem com o link para o Manifesto da Revolução Iluminista na coluna da direita. Esta pequena mudança no blog reflete uma grande mudança em minha postura política. 

pescaria-high-tech

Naquele artigo eu expressei algumas de minhas mais profundas convicções políticas e chamei todos os leitores e visitantes do blog para discutir um projeto de ação política. De 20/06/2013 a 13/08/2014, exatas 119.119 pessoas visualizaram aquele chamado. Entre estas e algumas outras que foram chamadas pessoalmente, 84 ingressaram no Grupo Revolução Iluminista

0,07% 

Menos de uma em cada mil deu um clique para entrar no grupo. Somente uma a cada cinco dias em todo este período, em média. Como a maioria entrou logo no início, a média verdadeira nos últimos doze meses é muito menor que isso, provavelmente menos que uma a cada dez dias. E a última postagem de outra pessoa fora eu foi há 90 dias. 

Obviamente a iniciativa não atraiu interesse. 

Já uma certa página de humor criada este ano já ultrapassou as 320.000 curtidas no Facebook e recebe por dia mais comentários do que o Grupo Revolução Iluminista recebeu em toda sua existência. 

E uma outra página de humor criada anos depois do Pensar Não Dói já tem quase 7.000.000 de curtidas no Facebook, enquanto que a página deste blog tem menos de 400 curtidas. 

Mas isso não é tudo. 

Eu sondei diversas pessoas que me conhecem pessoalmente há muitos anos sobre o papel que poderiam ter em um movimento iluminista ou em um partido iluminista. Gente rica e gente pobre, gente com nível superior e com ensino fundamental incompleto, gente que vive bem e gente que vive mal. 

Ninguém recebeu a idéia com entusiasmo. Ninguém. Alguns se dispuseram a colaborar “na medida do possível”, ou seja, desde que isso não lhes perturbe muito a rotina e não exija grandes esforços. Não dá para encher duas mãos com o número de pessoas que assumiria um compromisso sério e se dedicaria intensamente a este projeto. 

Isso me fez pensar muito.

Por quem eu estou lutando? Pelos 99,93% que nem sequer tiveram o interesse de dar um clique para participar dos debates do grupo? Pelas pessoas que acham desinteressante, chato ou inoportuno assumir qualquer responsabilidade ou fazer qualquer esforço para gerir o país em que vivem, preferindo deixar tudo nas mãos dos outros? E que ainda por cima torcem o nariz para mim e me chamam de sonhador e de chato e se afastam de mim porque eu quero lutar para construir um país melhor para todos nós? 

Sinto muito, pessoal, mas assim eu não brinco mais. 

Eu não mudei meus ideais, mas eu os estou continuamente questionando, revisando, aperfeiçoando. E cheguei a uma conclusão dolorosa, mas que pretendo colocar em prática daqui por diante: 

Ninguém deve se preocupar com outra pessoa ou se esforçar por outra pessoa mais do que ela se preocupa consigo mesmo e se esforça por si mesmo. 

Não se trata da velha discussão sobre dar o peixe ou ensinar a pescar. Trata-se de não fazer nenhum dos dois para quem não se esforçar por aprender a pescar. Trata-se de poupar esforços para aplicá-los somente com quem faz por merecer. 

Eu ainda gostaria muito de criar um partido iluminista, claro, e de mudar a maneira de fazer política neste país, mas preciso ser realista e me rendo ao desinteresse geral. Espero que num futuro não muito distante haja maior interesse e este projeto se torne viável. 

Por enquanto, volto à prancheta para repensar as conseqüências desta mudança de postura política… Ao blog, que vai ajudar nesta tarefa e não deve sofrer alterações, como prometido aos amigos… E aos projetos com parceiros interessados, comprometidos, proativos, esforçados. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 14/08/2014