A solução para o problema dos presídios brasileiros

Acho que você sabe qual é a solução para o problema dos presídios brasileiros. Pelo menos para mim, a solução é tão óbvia, mas tão óbvia, mas tão óbvia, que eu fiquei em dúvida se deveria escrever este artigo. Afinal, só vou poder dizer o óbvio. Mas vamos lá, que neste país o óbvio precisa ser dito e mesmo assim dificilmente é entendido… 

Em primeiro lugar, um presídio planejado para receber no máximo 250 presos tem que receber no máximo 250 presos, não pode receber 600. Não é óbvio? Quem na face da Terra não sabe que a superlotação é a mãe de todos os problemas de qualquer presídio?

Em segundo lugar, não tem que haver presídios com capacidade para mais do que uns 250 presos. Não é um número absoluto, é um número razoável. Quanto maior a unidade prisional, mais difícil é de gerenciar seus sistemas de segurança e mais grave é qualquer problema que aconteça.

Em terceiro lugar, o Código Penal brasileiro prevê detenção para alguns crimes e reclusão para outros crimes. Os critérios para esta diferenciação são técnicos: dizem respeito à gravidade dos crimes cometidos e de certo modo à periculosidade do preso. Portanto, os presos precisam ser divididos em detentos e reclusos e precisam ser fisicamente separados segundo esta classificação e segundo outras sub-classificações que já vou explicar. E “separados” significa “em presídios separados”, não podem ficar na mesma unidade.

Em quarto lugar, novatos e reincidentes não devem ser colocados no mesmo presídio. Os presídios precisam ser locais não somente de cumprimento de pena mas de redução da probabilidade de que o preso volte a cometer crimes quando sair de lá. Uma sociedade que não se importa com a qualidade de vida dos presidiários, dos serviços prisionais e das estratégias de ressocialização e preparação para o reingresso do preso no mercado de trabalho está literalmente promovendo uma escola do crime em cada um de seus presídios. 

Em quinto lugar, membros de facções rivais não podem ser colocados nos mesmos presídios. Só um alienígena não sabe que a principal causa de massacres nos presídios hoje em dia é guerra entre facções rivais. Não se pode confiar em uns poucos muros ou grades para evitar estas carnificinas, é necessário uma distância que inviabilize o conflito completamente.

Em sexto lugar, as celas devem ser individuais. Cada preso tem que ter a tranquilidade de poder dormir sem medo de ser esfaqueado durante a noite por não ter se unido a uma das facções que permanentemente tentam assumir o controle dos presídios e crescer cooptando novos presos – muitos dos quais se unem às facções pelo simples medo de morrer de um modo bem ruim.Além disso, celas individuais deixam o sujeito que não quer estudar nem trabalhar sozinho o dia inteiro, o que é um forte estímulo para que o preso se engaje nestas atividades.

Em sétimo lugar, todo preso deve ter a oportunidade de estudar e de trabalhar dentro dos presídios. Não somente a oportunidade, mas um estímulo bem razoável. Por exemplo, certas regalias no que diz respeito ao conforto da cela, ao tempo de banho de sol, à prática de esportes, à diversidade na alimentação, ao acesso a oportunidades de lazer e outros podem ser condicionados ao bom comportamento, estudo e trabalho nos presídios. Obviamente, isso não significa que os presos que se negarem a estudar e a trabalhar devam ser maltratados. Nada disso. Simplesmente devem ter um “kit básico” decente de prisão, mas sem as regalias reservadas a quem se esforçar por ter bom comportamento, estudar e trabalhar.

Em oitavo lugar, e aqui eu finalmente começo a dizer coisas que não são tão óbvias, os presos não devem confraternizar entre si sem supervisão. Cada detento ou recluso deve ter privacidade nos presídios para dormir e para usar o banheiro sozinho e em paz, mas nunca conviver com os demais presos de sua unidade sem supervisão. Essa supervisão pode ser pessoal ou eletrônica, mas tem que ser permanente e muito eficaz. Por exemplo, pode ser feita com câmeras ambientais e colares com gravadores que só precisariam ser vestidos nos momentos de interação com os outros presos. Não quer se submeter ao uso do colar durante o banho de sol ou o futebol? Tudo bem, camarada, fica na tua cela. Sozinho.

Em nono lugar, o preso tem que receber um bom exemplo por parte do corpo funcional dos presídios. Não é qualquer pessoa que pode ser agente prisional. É necessário que sejam pessoas comprometidas de fato com a ressocialização dos presos, que os tratem com educação e formalidade sem ser artificiais, que saibam ser disciplinadas antes de tentar disciplinar os presos, que tenham o tempo todo em mente que sua função não é punir os presos – isso é feito pela privação de liberdade – e sim reduzir as chances de que eles voltem a cometer crimes quando não estiverem mais presos.

Em décimo e último lugar, os presídios precisam ser comparados com outros presídios do mesmo país e de outros países para avaliar suas condições físicas, suas características de funcionamento, seus graus de reincidência, suas taxas de incidentes e outros parâmetros importantes para o sucesso da missão dos presídios – afastar o preso da sociedade por um tempo e prepará-lo para retornar à sociedade de modo que não cometa novos delitos e se torne um cidadão respeitável e produtivo.

Acho que falei somente o óbvio nos sete primeiros itens e o quase óbvio nos últimos três itens. Gerenciar presídios não é um assunto complicado. Não é nem sequer um assunto difícil. Basta ter os objetivos corretos e pensar com bom senso. Não se reduz a criminalidade com truculência, violência, humilhações ou maus tratos. Pelo contrário, isso estimula o agravamento da criminalidade, vitimando não somente os presos, mas a toda a sociedade.

Os presídios pioram com a superlotação. Os presos precisam ser adequadamente separados. Os novatos pioram em contato com os reincidentes. Os independentes pioram em contato com as facções. Os inofensivos pioram em contato com os violentos. As facções pioram em contato umas com as outras. O sistema todo piora se gerenciado por pessoas que não se importam em oferecer um bom exemplo para os presos, dos diretores dos presídios aos agentes penitenciários da linha-de-frente. Os presídios precisam ser bons centros educacionais, porque deles depende nossa segurança depois que os presos cumprem suas penas e retornam à sociedade. São princípios bem simples e fáceis de implementar se os gestores públicos quiserem e decidirem fazer a coisa certa do jeito certo. E aí entra a sua parte neste assunto.

O que você está dizendo nas redes sociais ou nos almoços em família sobre os massacres ocorridos nos presídios do norte do país? Você está ajudando a reduzir a histeria e a trazer esclarecimento e entendimento sobre a questão dos presídios? Em que tipo de candidato você está votando? Você já escreveu alguma coisa sobre a questão dos presídios para algum político em que você tenha votado? Sua contribuição pode ser pequena, mas que seja positiva.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 23/01/2017

Conjuntura

O esporte nacional não é o futebol, é reclamar e achar que “alguém” tem que fazer alguma coisa. O povo ou vai aceitar passivamente que os caras que os roubaram tomem seus direitos e seu dinheiro para tapar o rombo que criaram, ou em algum momento vai explodir em violência uns contra os outros, sem focar em quem deveria ser o verdadeiro alvo.

O tragicômico nessa história é que isso estava evidente desde a época do Mensalão. Se tivessem metido o Lula na cadeia em 2005, junto com toda a corja de bandidos que se vendeu, e anulado todos os atos legislativos da época, como era o certo a fazer, o Brasil teria tomado outro rumo de desenvolvimento. Porém, temos aqui a cultura de que “a justiça tem que ser sóbria, não pode ser exagerada”…

Quanto ao rumo econômico do Brasil, só poderia ser pior se continuasse na mão do PT. A receita de recuperação escolhida é tão desastrosa que até o FMI não a defende mais. Ela faz a recuperação demorar mais e torna mais difícil e sofrida a vida do povo neste período. Sendo que existe um método *muito* melhor, muito bem testado, muito rápido e eficaz para promover o desenvolvimento econômico: bastaria imitar o que a Alemanha fez logo após a Segunda Guerra Mundial. Pesquise “ordoliberalismo” e “economia social de mercado”.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 07/01/2017

Radicalizar é meu projeto para 2017

Radicalizar é fundamental. Radicalizar é ser fiel às raízes. É ser fiel aos princípios. À essência. Radicalizar é a coisa mais saudável a se fazer quando os princípios são saudáveis e a mais doentia quando os princípios são doentios. É necessário muito bom senso para radicalizar sem se tornar extremista – pouca gente o consegue. Mas eu estou sentindo muita necessidade de radicalizar. Preciso arriscar. Bora explicar… 

Eu tenho dito há anos que o embrutecimento tem sido a grande marca cultural e política do Brasil das últimas décadas, em especial nos treze anos em que a pior quadrilha criminosa especializada em teatro político esteve no poder no Brasil. Por muitos anos eu tentei dialogar e combater essa abominação de modo aberto e racional, iludido estava que se tratava de uma ideologia honesta porém “equivocada” para usar o mais leve eufemismo. A degradação cultural e política do país, entretanto, foi piorando de modo cada vez mais rápido e mais intenso. Como eu disse, radicalizar princípios doentios é o pior a fazer.

O embrutecimento chegou a um ponto em que eu tive que me afastar do blog para não ficar doente de tanta raiva das perversões que eu via e lia e ouvia o tempo todo. Gente que eu imaginava ter um mínimo de inteligência e de decência estava defendendo as piores perversões ideológicas de ambos os lados do espectro político. Sem sombra alguma de dúvida a esquerda é a pior coisa que existe em termos de ideologia política, mas a direita insiste em se manter no páreo seguindo a esquerda bem de perto. Eu precisei de sete meses para retornar timidamente ao blog.

Durante algum tempo as coisas voltaram aos eixos, após o impeachment da guerrilheira e a humilhação da facção nas urnas, mas logo a polarização entre canalhas outrora aliados se mostrou extremamente deletéria para o país. Mais uma vez o Brasil assistia uma onda numa maré de sujeira a radicalizar seus males. Cada dia no noticiário trazia não uma, mas várias novas notícias de corrupção. Os rumos da reconstrução da economia se demonstraram insensíveis e equivocados, com os ex-aliados dos perpetradores do desmonte do país impondo austeridade e perdas de empregos e de direitos para o povo, buscando impedir a justiça e mostrando-se incapazes de reativar o crescimento econômico. Enquanto isso, a facção contra-atacava voltando a cultivar as perversões culturais e sua ideologia criminosa de sempre.

Até que o Marcos Rolim retuitou a canalhice que eu respondi no tweet que ilustra este artigo.

Gente, foi a gota d’água. Foi apenas um episódio ridículo – um tweet abjeto num mar de lama infecta. Mas esta cerejinha no bolo de esterco da esquerda me tirou do sério. E eu sei por quê. Eu respeitava o Marcos Rolim. Talvez eu tenha me iludido com o fato de ele não ser mais militante da facção principal, eu tolerava a óbvia vinculação dele com a ideologia criminosa que permitiu o avanço e o domínio da facção. Poxa, uma vez o cara defendeu a Luciana Genro quando eu a critiquei! Como é que naquela ocasião eu não percebi o óbvio?!

Pois bem, agora eu percebi. E dei unfollow num dos perfis do Twitter que eu seguia há mais tempo. E escrevi mais um palavrão, coisa que eu nunca gostei de escrever, não gosto, acho que tem que ser reservado para ocasiões muito especiais, para fins de modulação de intensidade realmente importantes. Só que, em se tratando da porcaria da esquerda e da porcaria da direita, dá vontade de usar a toda hora. O tempo todo. Dez vezes por frase. Escritos com sangue. Sangue extraído a marretadas.

Definitivamente, esta corja me faz mal. Percebi que preciso radicalizar muito mais minhas atitudes em relação a eles. E foi assim que nasceu este artigo, que na verdade é uma pequena retrospectiva e uma reflexão em público.

Se radicalizar o embrutecimento é ruim, o que obviamente é, então é necessário radicalizar o oposto do embrutecimento. E o oposto do embrutecimento não é a sensibilização ingênua que acaba se tornando tolerante ao embrutecedor, é a metatolerância. Como eu havia dito no artigo linkado, eu decidi agir de modo tranquilo e implacável. E transformei isso em Resolução de Ano Novo e escrevi e publiquei para me comprometer com esta decisão e radicalizar seu cumprimento.

Que em 2017 você possa também radicalizar seus princípios. Radicalizar seu comportamento. Radicalizar sua coerência. Radicalizar sua ética. Radicalizar seu bem-estar.

O nazista nunca é amigo do judeu. Não seja o judeu que acha que existe nazista bonzinho. Não reconheça qualquer legitimidade nos canalhas. Afaste-se de quem e do que lhe faz mal ou lhe faria mal se fosse intensificado. O pervertido moderado de hoje é o pervertido extremista de amanhã. Não tolere argumentos fedorentos só porque parecem ter um verniz de racionalidade. Trate aos coices quem insistir em justificar perversões, eles merecem. Seja implacável, porque eles não têm salvação.

Guarde sua delicadeza, sua compaixão e o benefício da dúvida somente para quem faz o mesmo com os demais. Bloqueie os cretinos nas redes sociais. Relegue-os ao ostracismo da sua convivência. Não tenha pena de quem não tem pena. Não defenda quem diz coisas que, se levadas a cabo, colocariam você, sua família e seus amigos em situação vulnerável.

Não tenha medo de radicalizar suas atitudes contra os canalhas, porque eles não perdem uma única oportunidade para radicalizar a canalhice deles contra as pessoas decentes. Seja implacável, porque eles já são há muito tempo e quase destruíram o país e implantaram uma ditadura aqui, na qual você seria massacrado, e agora a outra facção está prometendo radicalizar as perversões opostas. Quem não quer se incomodar com isso hoje será mil vezes mais incomodado com isso amanhã.

Não colabore com o inimigo, nem mesmo nos mais pequenos gestos. Não dá para ser só um pouquinho menos do que decente. Não dá para ser só um pouquinho menos do que honesto. Não dá para ser só um pouquinho menos do que razoável. O coração está cheio do que a boca fala e transborda quando as mãos alcançam o poder.

O mundo não é como gostaríamos que fosse. É estupidamente ingênuo achar que é possível não se envolver com política, não se afetar com uma cultura pervertida, não se incomodar com estes assuntos. Você pode se esconder no fundo de uma caverna, mas não adianta – os canalhas vão buscar você lá e transformar sua vida num inferno. É por isso que é necessário radicalizar o combate ao que é mau e deletério, não basta não fazer o mal a ninguém. Não se omita. Não tolere pequenas perversões, ou elas crescerão e engolirão a sua vida.

Radicalizar os bons princípios é preciso. É necessário. É urgente.

Pratique metatolerância.

Feliz 2017.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/01/2017

Metatolerância: teoria e prática

Metatolerância é o exercício coerente e consequente da tolerância para com a tolerância e da intolerância para com a intolerância, em busca de um mundo mais tolerante, saudável e harmônico. Sua prática requer discernimento, coragem e honestidade intelectual, mas sobretudo firmeza e implacabilidade, porque os intolerantes as possuem de sobra e os tolerantes não as possuem em suficiência.

METATOLERÂNCIA

Desde quando formulei o conceito de metatolerância, eu sabia que ele era simples, mas não era fácil. Custei para perceber o motivo, porém. Foram necessários cerca de 28 meses para que eu me desse conta de que para um intolerante é fácil fingir tolerância para com os tolerantes até o momento em que estrategicamente lhe seja benéfico abandonar o fingimento, mas para um tolerante é muito difícil exercer a intolerância contra os intolerantes a qualquer momento. Nos dois últimos dias, entretanto, caiu a ficha. Contarei o que houve. 

Anteontem um amigo (agora ex-amigo) teve um surto de estupidez fascista no Facebook. Estava lá vociferando que manifestações pacíficas eram inúteis para modificar o status quo, que era necessário apelar para a desestabilização e até para a violência, etc. Quando eu vi aquilo, dito de maneira histérica e ridícula, eu caí na risada e entrei na discussão para zoar com o sujeito. Não me incomodei em nada, porque não tinha o menor respeito pelas bobagens que ele estava dizendo.

Ontem, depois de ele me ofender, me ameaçar de espancamento, empalamento em praça pública e sei lá mais o que, eu percebi que tudo aquilo era realmente a sério – ou, se não era, a brincadeira estava longe demais. A discussão desde sempre foi uma baixaria, com troca de ofensas de ambos os lados, mas até então eu estava levando na brincadeira e achando graça. Afinal, tudo o que ele dizia era tão estapafúrdio, tão cheio de clichês esquerdistas abjetos e absurdos, que eu não tinha como levar a sério. Para mim era só uma guerra de torta. Naquele momento, entretanto, eu percebi que tinha tomado a intolerância dele por deboche, caiu a ficha do quanto ele estava perturbado e avisei o sujeito: “cara, tu estás doente”. Obviamente, foi inútil.

Hoje a coisa continuou e o cara continuou a lançar ataques pessoais. Eu respondi mantendo o foco na situação do Brasil, que foi roubado e falido pelo partido dele. Citei as condenações por corrupção e as imensas cifras já recuperadas, coisa que seria impossível caso não tivesse havido a corrupção e o roubo. A resposta dele invariavelmente foi me chamar de coxinha, idiota, palhaço, dizer que amigos meus falam de mim pelas costas (defeito meu ou deles?), que eu não entendo nada de antropologia, sociologia e história (leitores antigos rindo neste momento) e que Stalin matou foi pouco.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

O interessante é que também na tarde de hoje já havia acontecido outro episódio em que eu bloqueei alguém com quem estava discutindo sobre política na página de um amigo em comum. Sabem aquele sujeito que, desde o primeiro momento em que a gente lê, a gente percebe que vai ter que aturar um chato de galochas com blá-blá-blá pernóstico, pedante, citando pensadores como se fossem autoridade científica e nos acusando de falácia ao mesmo tempo? Pois bem, eu respirei fundo e encarei. O problema é que a cada postagem ele lançava uma farpa pessoal. E, lá pelas tantas, o cara me chamou de comunista.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

Foi a partir deste duplo bloqueio de hoje que eu percebi qual é a maior dificuldade do exercício da metatolerância: para uma pessoa tolerante e com convicções éticas, é muito difícil ser devidamente intolerante com os intolerantes porque guardamos respeito por todo ser humano até um limite que ultrapassa muito o razoável. O sujeito mostra uma vez que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra duas vezes que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra dez vezes que é intolerante, a gente releva. Na centésima vez que o sujeito mostra que é intolerante, finalmente a ficha cai, a gente não releva, reage… E o intolerante nos acusa de intolerância! E nós nos sentimos mal por isso!

A chave do exercício da metatolerância é perder o respeito por quem mostra que não merece respeito.

Uma vez que eu perdi o respeito por ambos estes interlocutores, um intolerante de esquerda e um intolerante de direita, eu simplesmente não senti qualquer constrangimento por bloquear os dois sem avisar ou sem dar qualquer explicação. No caso do que eu não conhecia, eu não tive paciência para explicar nada. No caso do que era meu amigo, eu até pensei em escrever algo, eu até esperei alguns segundos porque ele estava escrevendo alguma coisa, mas logo me dei conta de que seria bobagem. Seria fraqueza. Eu estaria me preocupando com os sentimentos de alguém que já havia ameaçado me agredir e que dizia que eu tinha que ser empalado em praça pública. Ridículo. Gente como estes dois caras não merece nem minha compaixão, nem minha raiva, só merece meu desprezo. E foi isso que eu dei a eles, deletando-os do meu universo sem remorso.

O engraçado ou tragicômico nisso tudo é que eu vivo aconselhando que “quando uma pessoa te mostrar aquilo que ela realmente é, acredita logo na primeira vez”, mas tenho uma certa dificuldade para fazer isso de primeira, muito por medo de haver algum mal entendido. Isso e um certo sentimentalismo têm feito com que eu seja tolerante demais com os intolerantes, o que não é bom. Tolerar os intolerantes os fortalece, permite por mais tempo que eles espalhem seu veneno, gerem mal estar e promovam o embrutecimento de que gostam e no qual prosperam.

Pelo bem tanto de nossa saúde emocional como de nossa segurança social, precisamos ser mais metatolerantes: tolerar os tolerantes e não tolerar os intolerantes. Mesmo. E isso fica muito mais fácil quando entendemos que perder o respeito por alguém não significa que temos que desrespeitar este alguém e sim que não temos que respeitar este alguém. Por exemplo, deletando a pessoa de nosso universo, para que não tenhamos que lidar com sua toxicidade, ou seu vampirismo emocional. Por exemplo, não nos preocupando com o que ela pode dizer de nós após a deletarmos de nossa vida. Por exemplo, sendo mais saudável e mais feliz na total ausência dela, ou mesmo de sua lembrança.

A partir de hoje, estarei bem mais tranquilo e à vontade para ser implacável no exercício da metatolerância.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/12/2016

Não foi acidente, foi homicídio. Houve negligência

Errei: não foram nem o piloto, nem as regras estúpidas. Foi a negligência dos países da América Latina quem matou a equipe da Chapecoense. O piloto tinha histórico conhecido e registrado de voos em completo desrespeito às normas de segurança da aviação quanto ao combustível reserva. Mesmo assim, nenhuma autoridade da Bolívia, da Colômbia, da Argentina ou do Brasil tomou qualquer providência.

Entenda as regras de segurança

Imagine que você vai decolar do aeroporto A e aterrissar no aeroporto B. As regras da aviação exigem que a aeronave tenha sempre combustível de sobra no mínimo para mais meia hora de voo além do percurso planejado, não de A até B, mas de A, passando por B, até um aeroporto C, mais meia hora de voo.

Você tem que poder decolar de A, chegar em B, encontrar B fora de condições de aterrissagem por um motivo qualquer (por exemplo, um acidente), dirigir-se para C e ainda poder aguardar meia hora em sobrevoo até poder pousar.

Negligência latina

O avião Avro RJ 85 tem autonomia de voo de 4 h 22 min, ou 2985 km. Isso significa que qualquer plano de voo com esta aeronave acima de 3 h 52 min é ilegal. Pois bem. Eu selecionei seis voos da Lamia em uma tabela publicada pelo Diário Catarinense:

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Todos os tempos de voo mostrados na tabela acima são tempos de voo real, realizados com tripulantes e passageiros à bordo, entre um aeroporto A e um aeroporto B, por uma aeronave com 3 h 52 min de autonomia legal máxima não entre A e B, mas entre A, B e C. Quatro destes voos tiveram duração superior à autonomia máxima da aeronave, o que por si só já deveria ter provocado uma investigação. Segundo a reportagem da VEJA, o último contato antes da queda do avião foi após 4 h 37 min de voo. Isso indica que em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 4 ou 5 minutos de cair, talvez menos, dependendo das condições específicas do voo. Em duas outras ocasiões o avião esteve a apenas 9 ou 10 minutos de cair.

Não somente estes voos jamais poderiam ter sido autorizados, como certamente muitos outros voos desta aeronave certamente e de muitas outras provavelmente foram e estão sendo autorizados em total desacordo com as normas de segurança da aviação em toda a América Latina.

Não foi acidente, foi homicídio

A diferença entre homicídio doloso e homicídio culposo é que no homicídio doloso o agente quer produzir o resultado do crime, ou assume a possibilidade de produzi-lo (o que se chama “dolo eventual”), enquanto no homicídio culposo o agente não quer produzir o resultado do crime, mas o produz por negligência, incompetência ou imperícia. Vou deixar ao pessoal da área do direito o debate técnico se o que aconteceu foi dolo eventual ou negligência, porém, deixando barato que seja apenas negligência, o fato é que foi homicídio.

Enquanto não pararmos de pensar “coitadinha da funcionária do aeroporto que autorizou o voo, como é que ela ia saber que uma coisa dessas podia acontecer?” ou “coitadinho do despachante da Lamia, ele só estava obedecendo o que mandaram ele fazer”, essas coisas vão continuar acontecendo. A função daquela funcionária era evitar as mortes que ocorreram. A função daquele despachante era certificar-se de que todos os aspectos legais pertinentes ao voo estavam corretos. Os dois precisam ir para a cadeia por homicídio. E provavelmente não somente eles.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/12/2016

Leia também: A Tragédia do Jeitinho.

Regras estúpidas derrubaram o avião

Não foi a falta de gasolina. Regras estúpidas derrubaram o avião que transportava o time da Chapecoense. 

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Antes de prosseguir a leitura, clique aqui e leia este artigo.

Leu? Pois bem: assim como regras estúpidas mataram o repórter da Band, regras estúpidas mataram o piloto, o time da Chapecoense e os repórteres que os acompanhavam. E não é difícil entender o motivo.

Imagine que você fez uma grande besteira. Por exemplo, resolveu voar somente com o combustível necessário para o trajeto, com pouquíssimo ou quase nenhum combustível de reserva. Você não tem a intenção de se ferrar, você não é suicida, você fez uma besteira. Não vou discutir se foi por ganância, por prepotência, por aperto financeiro, por estupidez, por erro de cálculo, por falha de protocolo ou por qualquer outra causa. Não importa o motivo, importa que a besteira está feita e que você acabou de perceber que está numa encrenca.

O que é a coisa mais razoável a fazer a partir do momento em que você percebe o problema?

A coisa mais razoável a fazer é resolver o problema com tranquilidade, pensar de maneira objetiva, sem conflitos de interesse e sem distrações, de modo que o problema possa ser resolvido da melhor maneira possível, certo?

Pois bem… O piloto do avião era o dono da companhia aérea. Ele sabia que, se declarasse emergência por não ter combustível suficiente, receberia uma multa imensa, que poderia inviabilizar financeiramente sua empresa. Ele tinha todo o interesse do mundo em aterrissar em segurança, mas as regras estúpidas que multam quem declara emergência por ter cometido uma besteira prévia cria um conflito de interesses importante. Se cair com o avião acabaria com a vida do piloto, como de fato acabou, ser multado em um valor alto também acabaria com a vida dele, ou ao menos ele se sentia assim a ponto de achar que valia a pena arriscar mais um minuto antes de declarar emergência.

Entenda isso: se não houvesse a multa, o piloto não teria hesitado. Não teria dúvidas quanto ao que seria mais adequado fazer, porque não teria conflito de interesse algum. Não teria decidido arriscar mais uns minutos de voo antes de declarar emergência. Não teria matado ninguém. Regra estúpidas matam.

A maneira certa de coibir o que aquelas regras estúpidas tentam coibir de modo inepto é outra. A maneira certa de coibir o voo com combustível insuficiente é vistoriar a quantidade de combustível de cada aeronave imediatamente após o pouso. Não interessa se tudo deu certo ou não. Não interessa se o piloto declarou emergência ou não. Só o que interessa é se as regras de segurança foram cumpridas. É assim que as coisas deveriam ser feitas.

E perceba: também não interessa a minha opinião, a sua ou de quem quer que seja a respeito do “absurdo” de voar com pouco combustível ou do “absurdo” de ter conflito de interesses nesta ou em outra situação. Valores morais não podem ter relevância para o estabelecimento de protocolos de segurança exatamente porque as pessoas possuem diferentes valores morais e portanto diferentes percepções de prioridades, como atesta o fato de ter havido uma tragédia por causa disso.

O fato incontestável é que o conflito de interesses gerado pelas regras estúpidas que multam quem declarar emergência por infração das normas de segurança levou o piloto a postergar uma decisão gravíssima por tempo suficiente para ocasionar a tragédia e que isso não teria ocorrido se não fizesse a menor diferença declarar emergência ou não para o fim de multar a empresa.

Se a regra fosse como eu digo que deveria ser, devendo ser feita uma vistoria imediatamente após o pouso para verificar se a aeronave cumpriu as normas de reserva de combustível, aquele piloto nem sequer teria arriscado voar com pouca gasolina, porque a multa seria certa mesmo que o avião aterrissasse em perfeita segurança.

Conhecer bem a biologia do cérebro da idade da pedra do macaco falante é fator crucial para regulamentar adequadamente seu comportamento.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 1º/12/2016

Caixa 2: um bom acordo é um acordo possível

A possibilidade de os parlamentares de nosso Congresso Nacional fazerem um grande acordo e votarem uma anistia para os crimes associados à prática de Caixa 2 nas eleições dos últimos anos está fazendo surgir análises muito interessantes sobre as possíveis linhas de ação que se abrem para tentarmos corrigir os rumos políticos e econômicos de nosso país. Uma delas é esta aqui, que recebi há alguns dias:

Tem uma regra, quando a gente aprende sobre negociação e teoria dos jogos, que diz o seguinte: numa negociação, por mais forte que seja sua posição, você precisa dar ao outro lado a alternativa de uma saída honrosa. Na prática significa que, se você pressionar demais, existe o risco iminente do outro lado simplesmente tomar uma atitude desesperada que, no final, pode não ser do seu interesse.

Tenho pensado sobre isso quando leio sobre a anistia do Caixa 2. Se a gente se distanciar um pouco e tirar a paixão da mesa, o problema não tem solução simples.

Pense: a maioria absoluta dos políticos se elegeu com Caixa 2. Outros tempos, onde essa contravenção recebia vista grossa de todos. Inclusive de nós, cidadãos. Naqueles tempos, ninguém esperava uma Lava Jato da vida. Então, se não houver anistia, não é um ou outro que cairá. Vai ser um desmanche do Congresso.

Veja, não estou dizendo que não é correta a punição. Óbvio que é. Mas do nosso lado, do lado de quem espera um país melhor, vale a pena pensar o que vai representar esse rapa. Interessa para a nação que o país mergulhe num caos institucional onde a esmagadora maioria dos políticos será acusada de uma prática criminosa? Acho que não.

Só que também não acho que a solução seja uma anistia.

Então, acho que é a hora de surgirem propostas alternativas.

Uma ideia poderia ser um programa de admissão de culpa.

Funciona assim:

Os políticos que admitirem a prática de Caixa 2 no passado, poderão terminar seus mandatos e a única punição que receberão é a inelegibilidade por oito anos.

Imagine o quanto isso economizaria em tempo e dinheiro na coleta de provas, por exemplo. Com isso, seria estabelecida uma nova ética. O próximo Congresso não teria eleitos com Caixa 2 e, em troca, não pararíamos o país numa caça às bruxas. Apenas os políticos que não aderissem ao programa estariam expostos à Lava Jato. Tenho certeza que uma meia dúzia de punições exemplares convenceriam os outros a admitirem a culpa para fugir das consequências. Porque, convenhamos, além de canalhas, são covardes.

Minha resposta inicial a esta possibilidade foi a seguinte:

É uma idéia bem interessante. Não vai rolar, porque por um lado os bandidos têm a faca e o queijo na mão e pretendem continuar livres e roubando e por outro lado os “moralizadores” estão envenenados e babando de ódio. Mas seria bem interessante analisar um compromisso desse tipo, que nos livrasse da camarilha de ladrões no Congresso e permitisse que os esforços da Polícia Federal e do Judiciário se concentrassem nos restantes. Só acho que os caras tinham que nem terminar os mandatos. Deviam cair fora imediatamente e permanecer inelegíveis até as eleições de 2026 (inclusive). Aí eu toparia totalmente.

Vamos analisar tudo isso com mais cuidado.

Caixa 2: qual o tamanho do problema?

Em primeiro lugar, vamos retomar a razoabilidade: o Congresso Nacional não vai promulgar leis que coloquem os próprios deputados e senadores na cadeia. Pelo contrário, apesar de toda a pantomima que assistimos na declaração conjunta de Michel Temer, Renan Calheiros e Rodrigo Maia de que não haveria a menor possibilidade de promulgar uma lei que concedesse uma anistia, o óbvio continua sendo que nenhum parlamentar que tenha cometido crimes associados a Caixa 2 de campanha vai votar qualquer coisa que possa colocá-lo na cadeia. Combinar o contrário é um acordo impossível.

Em segundo lugar, vamos relembrar que não é necessário promulgar lei alguma para que os crimes associados sejam punidos, porque lavagem de dinheiro, corrupção passiva e outros ilícitos comumente associados à prática de Caixa 2 já são crimes.

O problema que temos em mãos é justamente um Congresso Nacional com uma grande quantidade de parlamentares que praticaram Caixa 2 e outros ilícitos associados em uma época em que ninguém dava muita bola para isso. Estes parlamentares obviamente estão se sentindo ameaçados, pressionados muito além do que podem tolerar, e farão tudo o que estiver a seu alcance para evitar passar alguns anos na cadeia. Este interesse comum é muito maior do que qualquer fidelidade ideológica ou partidária. Não é algo sobre o que eles possam dizer “ah, paciência, desta vez me dei mal”. Nada disso. É algo em relação ao que eles farão todos os esforços possíveis, o que certamente não será bom para o país.

Punir alguns é mais importante que salvar milhões?

Eu acho que seria melhor para todo mundo – para nós e para eles – se concedêssemos, sim, uma anistia condicional a quem tiver praticado algum destes crimes. A minha proposta seria alguma coisa mais ou menos assim:

  1. Qualquer parlamentar ou governante ou filiado em partido político do país, de qualquer esfera, tem um prazo de noventa dias para, voluntariamente, abdicar imediatamente de seu mandato e de qualquer ligação com partido político, confessando ter praticado crimes associados à prática de Caixa 2 e dando detalhes de todas as operações.
  2. O parlamentar ou governante ou filiado em partido político que fizer esta confissão ficará inelegível e proibido de participar de quaisquer atividades ou eventos político-partidários até as eleições de 2026, inclusive.
  3. Nenhum parlamentar ou governante ou filiado em partido político que fizer esta confissão será julgado por qualquer dos crimes associados à prática de Caixa 2 que confessar, mesmo que já esteja sendo investigado.
  4. A contagem do prazo prescricional dos ilícitos confessados ficará suspensa até o dia das eleições de 2026, quando serão considerados prescritos todos os ilícitos, de modo condicional ao não cometimento de novos ilícitos no período.
  5. O cometimento de qualquer irregularidade de natureza penal, associada ou não à atividade política, desde a assinatura da confissão até o dia das eleições de 2026, revogará esta anistia, inclusive retroativamente.
  6. Não haverá reedição desta lei até pelo menos o ano de 2050.

Traduzindo: quem pisou na bola sai de cena e não incomoda mais até 2026. Quem se emendar se deu bem. Quem pisar na bola de novo vai em cana tanto pelo novo crime cometido quanto pelo antigo já confessado.

Isso nos daria um pouco mais de uma década para consertar o país sem a influência de qualquer infrator, geraria um volume de dados considerável sobre os meandros da corrupção nacional, bem maior do que a Operação Lava-Jato será capaz de produzir, com muito menos esforço, e nos pouparia de muitas manobras políticas e muitas pizzas.

Após mais de uma década fora da política, muito poucos destes infratores retornariam. O país já teria uma nova safra de políticos que teria preenchido o vácuo da atual geração. E aqueles que arriscassem, permanecessem na ativa e fossem condenados pegariam uma cana braba e serviriam de exemplo para que a nova geração não se ariscasse a cometer ilícitos.

Eu acho que isso seria um preço razoável a pagar para nos livrarmos da velha guarda corrupta e acelerar a volta do país para os trilhos do desenvolvimento econômico. O que você acha? 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 28/11/2016

Eu quero igualdade de direitos para valer

Se um grupo ideológico divide a sociedade em termos de sexo, cor e orientação sexual, criando uma situação que me coloca em risco por ser homem, branco e heterossexual, e eu não vejo a maioria das mulheres, não-brancos e homossexuais rejeitando as posições intolerantes sexistas, racistas e heterofóbicas da esquerda, o mais razoável é que eu me deprima e aceite as teses supremacistas que me violentam ou que eu me defenda em busca de sobrevivência com todos os recursos que estiverem a meu alcance, sem me importar nem com quem está me prejudicando, nem com quem está me negligenciando?

macacos-falantes

Este tipo de raciocínio, de modo ou mais ou menos refinado, ou mais ou menos agressivo e ou mais ou menos consciente está se tornando rapidamente cada vez mais forte entre a população masculina branca heterossexual, tanto mais intensamente quanto mais a esquerda insiste em afirmar que “os homens brancos heterossexuais estão com medo de perder seus privilégios” e as mulheres, não-brancos e homossexuais se omitem em rejeitar as teses intolerantes sexistas, racistas e heterofóbicas da esquerda.

Se não houver uma ampla e imediata tomada de consciência de que a esquerda plantou – vou repetir – teses sexistas, racistas e heterofóbicas entre nós, com o objetivo de cindir a sociedade para dominá-la, a esquerda terá conseguido criar exatamente o conflito que ela afirmava querer eliminar, atingindo com êxito o objetivo de criar uma antes inexistente luta de classes para poder se vender como solução esmagando todo um grupo de pessoas acusadas de nascer do sexo errado, da cor errada e da orientação sexual errada.

Quem me acompanha no blog e nas redes sociais já deve estar de saco cheio de tanto me ver falar em embrutecimento, mas este é precisamente o ponto novamente. Estamos assistindo uma guinada à direita que tem uma grande chance de sair do controle e provocar a mera reversão do tipo de apreciação injusta que o homem branco heterossexual não pertencente à esquerda sofreu nas últimas décadas. Isso seria uma catástrofe e nos lançaria num deplorável conflito fratricida.

Este é um fenômeno que atinge não somente o Brasil, mas todo o continente americano e todo o continente europeu. Uma geração injustiçada está irrompendo em revolta contra acusações abomináveis que lhe rendeu perda de direitos e humilhações quando reclamou por igualdade de fato. A situação é tão grave que eu mesmo, que sou o sujeito que denuncia isso com maior frequência que eu conheço, tenho encontrado dificuldade em escrever sobre isso em termos mais amenos. Ou o mundo ocidental procura um equilíbrio neste momento, ou poderão ser cometidos excessos que acabarão por trazer de volta daqui a alguns anos o monstro que acabamos de derrotar. É um momento que exige profunda reflexão e muito discernimento. É um momento em que temos que retomar o discurso de igualdade das mãos sujas da esquerda e impedir que a direita busque vingança promovendo retaliações ao invés de reequiparações.

Eu gostaria que a reação do homem branco heterossexual que foi tão duramente vilipendiado pelos pervertidos da esquerda nas últimas décadas fosse magnânima e provasse de maneira cabal o quanto a esquerda sempre esteve não apenas errada como profundamente mal intencionada. E gostaria de ver todas as mulheres, não-brancos e homossexuais compreenderem que a situação do homem branco heterossexual de hoje é a de quem sofreu injustiças inomináveis, tendo sua honra e seus direitos como cidadãos atacados no decorrer das últimas décadas, pois é necessário trabalharmos em conjunto para reverter os abusos e promover igualdade de fato entre todos os cidadãos, independentemente de sexo, cor ou orientação sexual.

O primeiro e mais importante passo a ser tomado é remover de toda e qualquer legislação qualquer referência a sexo, raça ou orientação sexual. Toda e qualquer legislação deve simplesmente garantir direitos iguais para todos os cidadãos, não importa se são homens ou mulheres, se são brancos, pardos, negros, indígenas ou amarelos, se são heterossexuais, homossexuais, transexuais, bissexuais, pansexuais ou assexuais. Estas coisas todas deveriam ser irrelevantes. Não poderiam jamais ter sido usadas para estabelecer direitos diferentes entre os cidadãos.

Este é um momento perfeito para promover uma grande união entre as pessoas de todos os sexos, raças e orientações sexuais para restabelecer a igualdade perante a lei em temas onde foi destruída pela esquerda e estabelecer a igualdade perante a lei em temas onde historicamente nunca houve igualdade, como o serviço militar obrigatório, a licença maternidade ou paternidade, o casamento ou união estável, a eliminação de cotas sexistas e racistas, o nível de investimento em campanhas de saúde, entre outros.

Eu sou homem, branco e heterossexual e não quero assistir uma revanche mesmo tendo sido permanentemente atacado e ofendido nas últimas duas décadas pela perversão esquerdista. Não quero que sejam restabelecidos privilégios, nem quero que conquistas sociais sejam perdidas, mas quero que os novos privilégios de “sinal invertido” sejam eliminados e quero que todas as conquistas sociais sejam universalizadas de modo absolutamente equânime entre todos os cidadãos, independentemente de sexo, raça ou orientação sexual.

Quero que a Lei Maria da Penha seja revogada e substituída por uma lei de proteção universal contra a violência doméstica que proteja igualmente qualquer pessoa de qualquer agressão cometida por qualquer pessoa, porque um menininho ou adolescente ou adulto ou idoso agredido pela mãe ou pela namorada ou pela esposa ou pela filha é tão vítima quanto uma menininha agredida pela mãe ou pelo pai ou pelo irmão ou pelo namorado ou pelo marido. Não há diferença entre as vítimas e não há diferença entre os agressores. Não há razão para que uns sejam condenados de modo diferente que outros em função do sexo com que nasceram ou que adotaram nem para que uns sejam desprotegidos pela lei em função do sexo com que nasceram ou que adotaram.

Quero que a licença maternidade e a licença paternidade sejam tornadas e idênticas e que qualquer pessoa que tenha um filho tenha exatamente as mesmas garantias pelo mesmo período, isso para quem é mãe, para quem é pai e para quem adota uma criança, simplesmente porque isso é o que é justo e não se pode mais manter a barbárie de considerar a maternidade mais valiosa do que paternidade, ou a adoção por uma mulher mais valiosa do que a adoção por um homem.

Quero que o Estatuto da Igualdade Racial e as cotas racistas sejam completamente revogados e jamais restabelecidos para quem quer que seja, porque não é aceitável que pessoas sejam discriminadas pela cor da pele, muito menos que a discriminação seja apresentada como uma coisa boa pelo argumento falacioso e pervertido da “discriminação positiva”, como se fosse possível discriminar alguém positivamente sem ao mesmo tempo necessariamente discriminar alguém negativamente. Basta desta hipocrisia racista.

Quero que o serviço militar seja transformado numa prestação de serviço cidadã obrigatória para todo mundo ou opcional para todo mundo, sem discriminação por sexo e também sem uma cota mínima ou máxima para preencher as vagas com gente deste ou daquele sexo. Direitos iguais não significa interesses iguais e é óbvio, muito óbvio, que sempre haverá mais interesse pelo serviço militar entre os homens do que entre as mulheres. Qual é o problema com isso? Nenhum. Os sexos devem ter direitos iguais, não devem ser forçados a ter interesses iguais.

Quero que a política reflita o real interesse dos candidatos e dos eleitores, para o que é necessário eliminar as cotas na política. Se as mulheres quiserem participar da política, elas têm todo o direito, não é necessário nem razoável que haja uma cota mínima a ser preenchida com candidatos deste ou daquele sexo. Mais uma vez, ter direitos iguais não significa ter interesses iguais, e é notório que em todas as sociedades humanas do planeta, em todas as épocas, o interesse de homens e de mulheres pela política nunca foi, não é e nunca será exatamente igual.

Quero que a lei proteja qualquer pessoa de uma violação de direitos em função de sexo, raça ou orientação sexual, não interessa se em função de homfobia, heterofobia, transfobia ou qualquer outra “fobia” (péssimo sufixo), sem que no entanto isso redunde em criminalização de opinião ou de liberdade de expressão, por mais preconceituosa e ofensiva que seja, porque o direito de pensar como se bem entende é sagrado, assim como o direito de expressar o próprio pensamento, não importa o quanto alguém não goste ou odeie isso. Esta é o fundamento mais importante de uma sociedade livre.

Quero que a lei estabeleça com todas as letras que ninguém tem o direito de não ser ofendido, sob pena de todos termos que viver calados – ou de termos que escolher “vítimas certas” e “vítimas erradas” para o exercício da ofensa e da humilhação, como a esquerda adorava fazer, chamado de “coxinha” e outras expressões ofensivas e depreciativas quem lhe interessava enfraquecer e humilhar.

Quero que a injúria deixe de ser crime, não importa qual seja a qualificadora, porque já passou da hora de deixar de cultivar a frescura. Ninguém é feito de açúcar e xingamento algum tira pedaço ou nega direitos. As pessoas precisam ser ensinadas a ter amor-próprio ao invés de se derreter em manifestações patéticas de coitadismo e retaliação judicial quando ouvem algo que não gostam ou que as ofende. Somente um verme moral derrete perante uma observação excessivamente ácida. Precisamos que as pessoas cultivem a auto-estima de modo positivo, de modo que ofensas sejam inúteis e inócuas, pouco importa se tiverem conteúdo racista, sexista, de intolerância religiosa ou o que for. A ofensa só atinge quem se importa com a opinião do ofensor. Temos que eliminar o poder de quem ofende ignorando completamente qualquer provocação ou ataque injurioso.

Quero uma sociedade de cidadãos sem privilégios de qualquer tipo, nem sociais, nem políticos, nem econômicos, nem de qualquer natureza possível ou imaginável com exceção exclusivamente da perda de direitos advinda de condenação penal. Uma sociedade de pessoas iguais perante a lei, perante umas às outras e perante o espelho, onde ninguém seja favorecido injustamente ou penalizado injustamente, sob qualquer tipo de alegação, porque a dignidade humana é igual para todos, devendo cada um arcar apenas tão somente com as consequências de suas escolhas pessoais.

Igualdade não admite discriminação perante a lei. Esta é uma obviedade que foi obscurecida nas últimas décadas, mas que precisa ser resgatada com urgência em nome tanto da justiça quanto da decência. E é uma necessidade absoluta se quisermos construir um país livre da abjeta exploração política das diferenças entre os sexos, as raças e as orientações sexuais.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 19/11/2016

SOMOS TODOS MACACOS!

Acho patético esse mimimi de quem acha que tem o direito de não ser ofendido e tem a pretensão totalitária de calar o outro. Quem tenta calar quem o considera inferior dá razão a quem pensa assim, porque só um verme derrete perante um comentário ácido. Que me xinguem à vontade. Alguém acha que eu vou ficar com dodói na autoestima? Que vou me importar com a opinião do imbecil que tentar me ofender e conferir a algum otário o poder de fazê-lo?

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Chamaram a primeira-dama dos EUA de “macaca de salto alto”. O que deu nela para se ofender? Ela não sabe que somos todos macacos? O que ela pensa que é, um réptil? Alguém acha que uma pessoa que passou oito anos sendo alvo de todo tipo de boato venenoso e insinuação pervertida, de críticas virulentas e de comentários muito mais ofensivos está realmente com dodói porque foi chamada de macaca? Ah, tenham santa paciência, é ridículo demais para meu pobre fígado!

Eu sou um macaco. Você é um macaco. Cada ser humano que já houve, há ou haverá neste mundo é um macaco. Não faz o menor sentido ofender-se com a simples enunciação de nossa óbvia, evidente, explícita, inegável natureza! Quem tem vergonha de ser um macaco ou é um coitado com graves problemas de autoaceitação, ou está fazendo um jogo político absolutamente hipócrita para se empoderar manipulando o sentimento de pena e coitadismo dos politicamente corretos e dos bocós que caem nessa esparrela.

E vamos que me chamassem de outra coisa ofensiva. O que seria? Veado, tentando me ofender me atribuindo uma suposta homossexualidade? Como poderiam fazer isso, se eu considero lícita e respeitável qualquer sexualidade exercida sem violação de direitos de terceiros? Gordo, tentando me ofender porque eu já estive obeso e ainda estou um pouco acima do peso? Como poderiam fazer isso, se eu era gordo mesmo e sou o primeiro a reconhecer? Feio, tentando me ofender atacando minha aparência? Como poderiam fazer isso, se eu tenho espelho em casa? Mau caráter, tentando me ofender com o enxovalhamento da mais sagrada estrutura do meu ser, que eu cultivo com retidão e convicção desde sempre? Como poderiam fazer isso, se eu sei que sou um ser humano íntegro e honrado?

Não consigo imaginar como alguém possa me ofender. Deixando de confiar em mim, sabendo o valor que dou a minha palavra? Quem fizer isso é que é um idiota. Lançando acusações falsas? Por que eu me afetaria moralmente por acusações falsas? Lançando acusações verdadeiras? Por que eu me afetaria moralmente pela verdade? Simplesmente não há como ofender, humilhar ou fazer dodói moral em quem tem uma autoestima sólida e não abre espaço para se sentir atingido pela estupidez ou para a perversão de caráter de terceiros. Eu simplesmente não bebo o veneno alheio!

Se você pensa horrores de mim, o problema é seu. Se você diz horrores de mim, o direito é seu. Talvez eu meta um soco na sua cara se você fizer isso de modo particularmente indignante e ao alcance da minha mão. Talvez eu faça até mesmo algo muito pior, no momento em que me ferver o sangue. Afinal, eu sou um macaco, e não é seguro fazer palhaçada perto demais de um macaco que pode reagir com fúria. Você, que é outro macaco, deveria saber disso. Mas processar alguém por dizer besteira pela internet? Aí não é a reação de um macaco, é a reação de um verme mimimizento que precisa que os outros protejam sua “dignidade” de açúcar que derrete com qualquer cuspida, inclusive uma virtual. Ou de um canalha hipócrita tentando tirar vantagem de uma legislação intolerante e degradante.

Não seja um verme mimimizento. Se você é um ser humano, tenha dignidade e erga a cabeça perante qualquer tentativa de ofensa. Não dê poder à ideologia de criminalização do pensamento. Ninguém tem o direito de não ser ofendido, nem pode ter este direito. Isso é uma monstruosa ferramenta de opressão que tem que ser completamente desativada em qualquer sociedade civilizada. Somente os vermes e os mal intencionados se beneficiam de uma aberração destas. Não podemos permitir jamais que este tipo de perversão degradante se torne o norte de toda a sociedade.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 16/11/2016

As eleições nos EUA refletem uma tendência mundial preocupante

Não me importa que tenha vencido o Donald Trump. Não me importa que tenha perdido a Hillary Clinton. Não me importa que quem tenha votado nele ou nela tenha sido esta ou aquela fatia do eleitorado. O que eu percebi nestas eleições estadunidenses foi o embrutecimento dos partidos, dos eleitores, da imprensa, da política em geral, não só no contexto dos EUA mas em todo o mundo.

burro-e-elefante

Em primeiro lugar, a disputa pela candidatura no Partido Democrata foi um sufoco para Hillary. E quem foi que lhe deu aquele sufoco? Bernie Sanders, um socialista declarado. E o mais incrível é que as previsões eram de que Sanders teria mais chance do que Hillary de vencer Trump. Considerando o quanto todos sabemos a respeito do socialismo – um regime que em qualquer de suas versões só produziu degeneração moral, miséria econômica e autoritarismo político onde quer que tenha assumido o controle de um país – é simplesmente aterrador que os EUA tenham corrido o risco de ter um socialista na presidência da República.

Em segundo lugar, a disputa pela candidatura no Partido Republicano foi baseada na desconstrução dos adversários de Trump, numa prévia macabra do que seria a campanha eleitoral, e isso foi bem sucedido dentro do próprio partido, cujos filiados preferiram a política da desconstrução desde a fase da escolha de seu candidato, demonstrando um acirramento da intolerância no coração do partido.

Em terceiro lugar, a disputa pela presidência da República foi um show de horrores, com direito a baixaria explícita, ataques pessoais, desconstrução mútua, propostas impopulares e foco muito mais na promoção da rejeição do adversário do que em um debate que nem de longe se poderia chamar de “político” em um país minimamente civilizado – e se trata do país mais poderoso do mundo, tanto na política quanto na economia e também do ponto de vista bélico.

Em quarto lugar, a imprensa se mostrou parcial, “errou” totalmente em todas as análises e nos deixa sem saber se este erro se trata principalmente de incompetência (por não saber o que estava realmente acontecendo) ou principalmente de corrupção (por saber o que estava realmente acontecendo e dizer o contrário). Qual das duas hipóteses é mais assustadora é difícil de dizer com precisão, mas eu torço muito para que tenha sido predominantemente incompetência, embora sem nenhuma convicção.

Em quinto lugar, a preferência popular foi definida contra alguém muito mais do que a favor de qualquer coisa. Não quero discutir exemplos, porque isso tiraria o foco do que eu estou dizendo, mas sublinho que isso vale tanto no sentido de que muita gente dos dois lados votou muito mais contra um candidato do que a favor do outro e muita gente dos dois lados votou contra determinados grupos sociais ao invés de a favor de propostas justas e construtivas.

Em sexto lugar, estas eleições mostraram mais uma vez que a polarização da sociedade funciona eleitoralmente cada vez melhor. Tudo virou nós contra eles. Trump passou a campanha atacando os imigrantes. A culpa de tudo é dos outros, que tomam nossos empregos e nos trazem criminalidade. Hillary, derrotada, no seu primeiro pronunciamento tratou de atacar um suposto machismo. A culpa de tudo é dos outros, que são preconceituosos e dificultam a ascensão das mulheres. Perceba: qualquer semelhança entre esta dinâmica e a campanha de xenofobia e intolerância que levou ao Brexit não é mera coincidência. É o mesmo fenômeno, trocando os mexicanos pelos poloneses e os cartéis do narcotráfico pelos extremistas islâmicos.

Em sétimo lugar, as consequências internacionais já no primeiro dia são de aprofundamento dos conflitos. A extrema-direita na França adorou a vitória da xenofobia nos EUA. A esquerda em Cuba protagonizou um espetáculo ridículo de mobilização de tropas “para enfrentar ações do inimigo”, repetindo o nome e o método da operação “Bastião” executada quando Ronald Reagan foi eleito. O governo corrupto e violento do russo Vladimir Putin e a ditadura comunista do chinês Xi Jinping acenaram com felicitações e desejo de colaboração. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu responsável por uma política linha-dura e conflitiva no Oriente Médio, declarou-se um verdadeiro amigo dos EUA e ansioso para trabalhar em conjunto para ampliar a segurança na região. Ali Khamenei, aiatolá no Irã, disse que Trump não venceu por ter sido populista, mas por ter dito a verdade. Todos os autoritários do mundo se regozijaram pela vitória de um candidato xenófobo, misógino, boquirroto e fanfarrão nos EUA.

Entre todas as reações que vi, de diversos outros países, somente a chanceler alemã Angela Merkel deixou claro que a cooperação entre seu país e os EUA depende do respeito aos Direitos Humanos sem qualquer discriminação de raça, sexo ou religião. Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, significativamente sublinhou a importância do Estado de Direito nas relações entre os países. As demais reações foram predominantemente protocolares.

Eu poderia continuar longamente citando indícios e exemplos do embrutecimento generalizado refletido por estas eleições nos EUA e suas repercussões mundo afora, mas a própria confecção de uma lista mais extensa do que esta no fundo também seria um exercício de embrutecimento. Os sinais estão claros o suficiente: salvo alguma reviravolta espetacular e imprevisível, estamos trilhando um caminho de acirramento de posições políticas, sociais e econômicas extremistas, de aprofundamento de conflitos e de enfraquecimento do Estado de Direito, tendo como pano de fundo o desencanto com a política devido à insuportável corrupção e aos ultrajantes escárnios da classe política para com o senso de dignidade, a qualidade de vida e as esperanças do cidadão comum, que se embrutece cada vez mais, caindo na armadilha de uma espiral de intolerância crescente que retroalimenta e agrava os problemas que o exasperam.

As eleições presidenciais americanas de 2016 são apenas o reflexo deste conjunto de fenômenos. O que é assustador é que isso tenha chegado ao ponto de contaminar os dois partidos que dominam a política do país mais poderoso e influente do mundo, que podem deixar de representar valores republicanos e democráticos (sem trocadilho com o nome dos partidos) e capitanear o mundo inteiro a uma era obscurantista numa escala sem precedentes.

Se em um passado não muito remoto o século XVIII nos trouxe os incríveis avanços do iluminismo e ficou conhecido como “O Século das Luzes”, hoje precisamos fazer um imenso esforço para que o século XXI não nos traga um panorama político, econômico e social que fique conhecido como “A Segunda Idade das Trevas”.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 10/11/2016