Da estupidez ao mau caráter

Assim que escrevi o artigo de ontem sobre a estupidez, eu descobri esta treta aqui, que também ilustra muito bem o que eu disse naquele texto, mas que é muito melhor compreendido se atentarmos para o mau caráter de muitos comentaristas.

O guri da foto fez uma piadinha idiota: colocou na tela do computador a imagem de uma criancinha negra com cara de coitadinha estendendo a mão para pegar algo, tirou uma selfie bebendo um copo de água gelada e postou a foto com a legenda “sai fora, essa é minha”. Uma banalidade, merecia quando muito um “afff… :-P” e mais nada.

Pois bem… Até o presente momento são novecentos e noventa compartilhamentos e cinco mil, duzentos e tantos comentários xingando e ameaçando e aquela hipocrisia toda de quem nunca deu a menor bola para crianças necessitadas e nunca fez porcaria nenhuma para ajudar alguém de fato.

Peraí… Quem comete ofensas e ameaças por causa de uma piadinha não está fazendo algo muito pior do que a suposta ofenso original contida na piadinha? Isso não parece “ligeiramente” mau caráter, não? 

Como isso pode ser deletado a qualquer momento, resolvi copiar uma pequena amostra dos já mais de cinco mil e duzentos comentários.

Os comentários mais frequentes, obviamente, eram ofensas e desejos de maldades:

Idiota!! Um dia Deus vai te mostra o verdadeiro caminho e vai parar de querer aparecer para os outros e receber muitas curtidas!!! Hoje você é um verme!!!.

Essa merda ai tem mãe ???pq se tiver quem merece o xingamento é ela por nao educar esse mlk ??

Queria saber até que ponto chega a ignorância e a imbecilidade de uma pessoa retardada assim!

Nojento seboso

IDIOTA, como todos q compartilharam e curtiram… morram de sede seus vermes filhinhos de papai!

Não podia faltar, é claro, o mau caráter de quem quer calar o que não quer ouvir:

gente, é tao fácil resolver isso, é so denunciar a página, quanto mais denúncias mais rápido ela é excluída, então vamos la derrubar essa página!!!

E não podiam faltar, obviamente, as ameaças:

Brincadeira idiota bunda mole arranca tua cabeça isso sim idiota quero vê se fosse tu la

Filhu da puta merece levar um quebra na rua verme imundo ah se eu foase de tua cidade eu ia tira uma foto tu chorando pedindo perdao mizeravel desprezivel

Felizmente, para não perdermos totalmente a fé na humanidade, havia também alguns comentários de bom senso:

Isso mesmo cambada de cretinos, CHOREEMM MAIS! Pior que esse post ridículo é a falsa indignação de vocês, por uma situação da qual, na realidade, VOCÊS não dão a MÍNIMA! Demonstram falsa indignação coletiva através do ódio, para assim se sobressair com seu ego inchado! Falsos Justiceiros Hipócritas Sociais!

E, para avacalhar de vez os milhares de vermes mimimizentos de mau caráter que o ofenderam e ameaçaram, o guri mostrou que não está nem aí com a palhaçada e fez piada em cima da própria piada, sendo que esta postagem já está com três mil, quatrocentos e poucos compartilhamentos e seis mil e poucos comentários:

Tipo… Fez alguma diferença na vida de alguém que de fato estivesse passando sede? Não. E os vermes mimimizentos, uma vez desembestados na sua sede (com trocadilho) de sangue, continuaram o ataque:

Se quer vitalizar sai correndo pelado na rua (sic)

Era para ser viralizar, óbvio.

Ofensas… 

Lixo lixo lixo..vai fica pior q ele seu merda……estora essa cra de lixo

Ameaças…

Ridículo…Toma cuidado quando sair …Se te pegarem vão te quebrar na porrada vagabundo.

Vai aprodesce.se te vejo te encho de chumbo troxa

Pensa que isso vai muda alguma coisa seu lixo de merda, isso so piora sua situação seu Hipócrita, não sei como ainda tem gente seguindo esse lixo, Si cada um lascasse um processo vc ia vê se fez certo!

E, obviamente, sempre tem um com bom senso:

Ele ja tiro essa foto com consciência dos comentários dos otarios que chinga pra da risada deles kkkkkkkkkk

Enfim…

Um guri faz uma piadinha boba – uma simples piadinha boba – e milhares de imbecis se lançam em fúria contra a piadinha, cometendo no processo um sem número de ofensas e ameaças, muitas das quais certamente passíveis de processo criminal. Estes são os guerreiros da justiça social demonstrando sua verdadeira índole, seu mau caráter e sua completa incoerência e intolerância.

Alguns meses atrás eu estaria esbravejando e espumando de raiva por causa disso.

Hoje eu aproveito para escrever um artigo na boa e sinto um levíssimo, reconfortante e delicioso desprezo!

Por Tutatis! Estou adquirindo imunidade! 🙂 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 05/01/2017

A estupidez é cansativa

A estupidez alheia é deletéria aos indivíduos razoáveis. A gente (blogueiros, jornalistas, colunistas) detecta uma questão interessante sobre a qual falar, analisa a questão por diversos ângulos, se posiciona, defende uma posição com argumentos lógicos… E aí vem um quadrúpede e deixa pelo texto aquilo que os quadrúpedes costumam deixar pelo chão.

O Túlio Milman, repórter de Zero Hora, escreveu um artigo sóbrio, politicamente correto e com um enorme aviso sobre o que estava e o que não estava dizendo ao pé do texto, bem no estilo “atenção, retardados, não falem besteira” – só que bem educadinho. Mas não adianta. Nunca adianta.

O artigo do Túlio Milman é este:

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo no futuro próximo. Não precisa ser guru de marketing para ter certeza. É só olhar o que acontece, entre nuvens de fumaça, nos Estados Unidos.

A liberação do chamado consumo recreativo em uma dezena de Estados é um exemplo de como um tecido econômico saudável se forma. Como a droga ainda é proibida pela lei federal, toda a produção é local. Não há espaço para monopólios e cartéis. Há hoje centenas de pequenos plantadores, pesquisadores e vendedores. Mas, se alguém cruzar a divisa do seu Estado com a planta, corre o risco de ser preso. Isso acaba estimulando o crescimento de uma base plural e democrática.

É lindo ver essa capilaridade, essa inteligência de mercado. Não sejamos ingênuos. As gigantes farmacêuticas e de alimentos estão de olho nesses bilhões de dólares. Só que é mais barato e rápido esperar que as startups da Cannabis nasçam e se engalfinhem na disputa pela sobrevivência. As que crescerem, mais cedo ou mais tarde, serão compradas pelas grandes. É mais barato do que investir diretamente no desenvolvimento de novos produtos. É só assinar o cheque. Com menos riscos e menos custos.

Enquanto isso, sem concentração ou regras viciadas que favoreçam os mais fortes, a economia colhe benefícios.
Além da planta, há acessórios, xampus, cremes, remédios, alimentos, sucos. Marley Natural é a primeira marca global desse mercado. Confira: www.marleynatural.com.

Maconha é uma droga que pode viciar. É proibida no Brasil e em nenhum momento meu texto pretendeu estimular o consumo ou a compra de qualquer produto vinculado a ela. Quero apenas mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade. Seja na maconha ou na construção de obras públicas. Monopólios e cartéis, isso sim é uma droga.

Aí vem um quadrúpede logo abaixo e deixa esta resposta:

Essa conversa me lembra aquela frase: “antigamente era feio dar o C e era bonito fumar, hoje é feio fumar e bonito dar o C” (sqn).. Uma campanha mundial e permanente contra o tabagismo e na contramão do interesse de saúde pública essa discussão com a maconha.. Porr.. Quer fumar esta droga fuma carvalho, como eu mesmo já fiz quando era um guri idiota.. Mas não peçam que os outros achem isso bom ou normal.. Ou os retardados acham que os traficantes vão virar padres porque perderão o “emprego”?? Óbvio que não, vão continuar com os mesmos clientes, vendendo outras drogas, ou migrando de crime.. Vai burro, noiado esquizofrênico, assassino de neurônios, fuma tua maconha escondido e não enche o saco..

E outro quadrúpede acrescenta isso:

A de cocaína então… seremos primeiro mundo.

A estupidez destas criaturas é tão grande que não entendo como conseguiram fugir da carrocinha. 

O assunto do artigo do Túlio nem de longe é a maconha. O próprio Túlio diz que considera a maconha uma droga ilegal que pode viciar (vou deixar essa controvérsia de lado neste artigo) e afirma explicitamente que não pretende estimular o consumo de nenhum produto relacionado à maconha e que que seu artigo só pretende “mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade”. Está lá, literalmente como citado, muito bem ressalvado e esclarecido. Mas não adianta. A estupidez dos quadrúpedes é feita de um material adamantino à prova de alertas, ressalvas e esclarecimentos.

O quadrúpede lê uma palavra que serve como gatilho para sua estupidez assumir o controle e sai despejando besteira como se tivesse lido outro texto, que só existe na cabeça alucinada dele. E fala como se tivesse grande entendimento sobre o que leu e grande conhecimento sobre o tema, quando obviamente não é o caso nem de uma, nem de outra. E outros quadrúpedes ecoam a estupidez do primeiro, ou acrescentam as suas próprias, até que o debate se perde coice abaixo. Irrecuperavelmente.

Céus, como a estupidez me cansa.

A estupidez me cansa tanto que eu já tentei todo tipo de estratégia possível para lidar com ela: desde explicar as coisas várias vezes, com toda a paciência, uma vez por um ângulo, outra vez por outro ângulo, tentando fazer o quadrúpede entender que pantufa não é ferradura, até simplesmente escoicear de volta, de saco cheio, passando por todo o espectro possível e imaginável entre uma coisa e outra. Nunca adiantou.

Chegou um momento em que eu tive que desenvolver uma estratégia que eu sempre abominei: eu tive que parar de me importar com a estupidez. O problema é que isso requer perder o respeito pelo estúpido, uma coisa que eu, como defensor aguerrido dos Direitos Humanos, nunca consegui tolerar, muito menos aceitar, muitíssimo menos praticar. Porém, após esgotar todas as alternativas, eu finalmente me rendi à necessidade, em nome de minha própria sanidade mental, e parei de me importar no mais alto grau que estava a meu alcance.

De modo não muito eficaz, diga-se. Porque, apesar de todos os esforços, e embora muito menos do que num passado recente, a estupidez ainda me cansa.

Como diria o Hardy: “Oh, céus! Oh, vida!” 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/01/2017

Quando o desprezo é melhor que o perdão

Dizer que o desprezo é melhor que o perdão só é chocante para quem nunca parou bem para pensar no quanto pode nos ferir a insistência de que devemos perdoar quem despreza tanto nosso bem estar que um dia cometeu uma grande injustiça contra nós. Na verdade, o desprezo pode ser uma arma muito mais eficaz que o perdão para recolocar nossa autoestima no eixo e nossa vida nos trilhos. 

Eu, você, todo mundo já passou por alguma injustiça. Algo que nos fez ter alguma emoção ruim, seja de humilhação, de revolta, de raiva, de impotência, enfim, algo que sentimos como injusto sempre nos fere emocionalmente de alguma forma. A emoção inicial é inevitável, mas como lidar com a experiência varia muito de pessoa para pessoa.

A maioria continua remoendo a injustiça e as emoções ruins trazidas pelo episódio durante muito tempo – e assim acabam sendo vítimas duas vezes da mesma injustiça: a primeira pela injustiça em si, a segunda pelo poder que conferem ao episódio para continuar tomando tempo e causando estrago em sua vida. Mas não precisa ser assim.

Eu estava lendo um livro de autoajuda muito interessante até que me deparei com uma história que me fez torcer o nariz. Um policial abordou uma gangue de jovens assaltantes e recebeu um tiro no pescoço que o deixou paraplégico. O livro narra então que este policial perdoou seu algoz, que o bandidinho que lhe deu o tiro telefonou para ele da cadeia e que o policial o convidou para saírem juntos pelo país espalhando uma mensagem de perdão e esperança. A palhaçada só não teria acontecido porque o candidatozinho a anjo morreu atropelado três dias depois de sair da cadeia, mas hoje o tal policial é um palestrante muito requisitado para contar para todo mundo como é lindo perdoar.

Eu desprezo este tipo de história. Isso só serve para fazer 99,9% das pessoas se sentirem péssimas por não serem tão angelicais e capazes de perdoar como o incrível palestrante – que cobra uma bela grana por palestra e ganha apupos e bons afagos no ego por ser “tão bom”. Para mim isso é apenas uma maneira esperta porém hipócrita de lidar com uma tragédia pessoal. Quem não ganhar dinheiro e admiração por ser “tão bom” certamente não terá o mesmo incentivo e muito menos a mesma força para manter essa postura e se sentirá ainda mais arrasado, provavelmente se culpando por não ser “tão bom” quanto o tal policial.

Para o mortal comum, como eu e você, o desprezo funciona muito melhor. Eu não tenho vergonha alguma de admitir isso, e você também não deveria ter. Canalhas e malfeitores que não se arrependem – e em “arrepender-se” está necessariamente incluída a completa e total reparação do mal causado e a promoção de um benefício extra a título de pedido de desculpas – não merecem perdão, merecem punição. E, quando não podemos puni-los, ou quando não estamos satisfeitos com a punição que legalmente podemos infligir a eles, o melhor a fazer para o bem de nossa saúde e paz de espírito é desprezar estes desgraçados. O desprezo, se não dói no algoz, pelo menos alivia a vítima.

O erro que você não pode cometer é confundir desprezo com acinte. Se você precisa esfregar na cara da pessoa desprezada que você a despreza, então você não a despreza. Se você precisa contar ao mundo que despreza alguém, então você não despreza este alguém. Quando você despreza alguém, você não se importa se ele ou ela sabe disso ou não. Você não se importa se alguém mais sabe disso ou não. Você simplesmente tem um instante de nojo quando lembra daquela pessoa e logo em seguida decide que ela não vale nem sequer o tempo que você gastaria para ficar lembrando dela. Você não a esquece, você deixa de pensar nela porque há coisas mais importantes e mais interessantes na sua vida com que gastar seu tempo – recolher cocô de gato do quintal, por exemplo.

Se você achou graça em pensar que recolher cocô de gato do quintal possa ser mais importante que lembrar de uma certa pessoa, eu lhe proponho um exercício. Pense em alguma tarefa real que você tenha que fazer de vez em quando e que seja tão interessante e divertida quanto recolher cocô de gato do quintal. Pensou? Pois bem: toda vez que você se lembrar de alguém que deveria desprezar, porque lhe fez algum mal, porque cometeu alguma injustiça contra você ou porque é um encosto na sua vida, lembre que catar cocô de gato no quintal é mais importante que essa pessoa, dê uma risada e vá realizar a tal tarefa em que você pensou com um sorriso no rosto, sabendo que isso é mais interessante do que pensar naquele traste. Então concentre-se na tarefa e tire o traste de sua mente. Este é um ótimo exercício de desprezo.

Eu não sou e você não precisa ser – nem tentar ser – um anjo de pensamentos puros, capaz de perdoar a todos sem olhar a quem. Isso é balela alienante e irreal que só serve para nos fazer sentir mal, porque não é o natural de nossa espécie sentir assim. Você não deve tentar contrariar sua natureza. Por dois motivos: primeiro, porque você não pode; segundo, porque só vai se frustrar e se sentir pior. Portanto, não tente perdoar quem você não quer perdoar. Prefira sentir desprezo. Sempre que se lembrar da existência de algum desgraçado, algum malfeitor, algum encosto, não dê a ele o poder de ocupar seus pensamentos e de perturbar suas emoções. Lembre de compará-lo em importância com cocô de gato e cultive o mais tranquilo e debochado desprezo pelo traste em questão.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 12/12/2016 

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Metatolerância: teoria e prática

Metatolerância é o exercício coerente e consequente da tolerância para com a tolerância e da intolerância para com a intolerância, em busca de um mundo mais tolerante, saudável e harmônico. Sua prática requer discernimento, coragem e honestidade intelectual, mas sobretudo firmeza e implacabilidade, porque os intolerantes as possuem de sobra e os tolerantes não as possuem em suficiência.

METATOLERÂNCIA

Desde quando formulei o conceito de metatolerância, eu sabia que ele era simples, mas não era fácil. Custei para perceber o motivo, porém. Foram necessários cerca de 28 meses para que eu me desse conta de que para um intolerante é fácil fingir tolerância para com os tolerantes até o momento em que estrategicamente lhe seja benéfico abandonar o fingimento, mas para um tolerante é muito difícil exercer a intolerância contra os intolerantes a qualquer momento. Nos dois últimos dias, entretanto, caiu a ficha. Contarei o que houve. 

Anteontem um amigo (agora ex-amigo) teve um surto de estupidez fascista no Facebook. Estava lá vociferando que manifestações pacíficas eram inúteis para modificar o status quo, que era necessário apelar para a desestabilização e até para a violência, etc. Quando eu vi aquilo, dito de maneira histérica e ridícula, eu caí na risada e entrei na discussão para zoar com o sujeito. Não me incomodei em nada, porque não tinha o menor respeito pelas bobagens que ele estava dizendo.

Ontem, depois de ele me ofender, me ameaçar de espancamento, empalamento em praça pública e sei lá mais o que, eu percebi que tudo aquilo era realmente a sério – ou, se não era, a brincadeira estava longe demais. A discussão desde sempre foi uma baixaria, com troca de ofensas de ambos os lados, mas até então eu estava levando na brincadeira e achando graça. Afinal, tudo o que ele dizia era tão estapafúrdio, tão cheio de clichês esquerdistas abjetos e absurdos, que eu não tinha como levar a sério. Para mim era só uma guerra de torta. Naquele momento, entretanto, eu percebi que tinha tomado a intolerância dele por deboche, caiu a ficha do quanto ele estava perturbado e avisei o sujeito: “cara, tu estás doente”. Obviamente, foi inútil.

Hoje a coisa continuou e o cara continuou a lançar ataques pessoais. Eu respondi mantendo o foco na situação do Brasil, que foi roubado e falido pelo partido dele. Citei as condenações por corrupção e as imensas cifras já recuperadas, coisa que seria impossível caso não tivesse havido a corrupção e o roubo. A resposta dele invariavelmente foi me chamar de coxinha, idiota, palhaço, dizer que amigos meus falam de mim pelas costas (defeito meu ou deles?), que eu não entendo nada de antropologia, sociologia e história (leitores antigos rindo neste momento) e que Stalin matou foi pouco.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

O interessante é que também na tarde de hoje já havia acontecido outro episódio em que eu bloqueei alguém com quem estava discutindo sobre política na página de um amigo em comum. Sabem aquele sujeito que, desde o primeiro momento em que a gente lê, a gente percebe que vai ter que aturar um chato de galochas com blá-blá-blá pernóstico, pedante, citando pensadores como se fossem autoridade científica e nos acusando de falácia ao mesmo tempo? Pois bem, eu respirei fundo e encarei. O problema é que a cada postagem ele lançava uma farpa pessoal. E, lá pelas tantas, o cara me chamou de comunista.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

Foi a partir deste duplo bloqueio de hoje que eu percebi qual é a maior dificuldade do exercício da metatolerância: para uma pessoa tolerante e com convicções éticas, é muito difícil ser devidamente intolerante com os intolerantes porque guardamos respeito por todo ser humano até um limite que ultrapassa muito o razoável. O sujeito mostra uma vez que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra duas vezes que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra dez vezes que é intolerante, a gente releva. Na centésima vez que o sujeito mostra que é intolerante, finalmente a ficha cai, a gente não releva, reage… E o intolerante nos acusa de intolerância! E nós nos sentimos mal por isso!

A chave do exercício da metatolerância é perder o respeito por quem mostra que não merece respeito.

Uma vez que eu perdi o respeito por ambos estes interlocutores, um intolerante de esquerda e um intolerante de direita, eu simplesmente não senti qualquer constrangimento por bloquear os dois sem avisar ou sem dar qualquer explicação. No caso do que eu não conhecia, eu não tive paciência para explicar nada. No caso do que era meu amigo, eu até pensei em escrever algo, eu até esperei alguns segundos porque ele estava escrevendo alguma coisa, mas logo me dei conta de que seria bobagem. Seria fraqueza. Eu estaria me preocupando com os sentimentos de alguém que já havia ameaçado me agredir e que dizia que eu tinha que ser empalado em praça pública. Ridículo. Gente como estes dois caras não merece nem minha compaixão, nem minha raiva, só merece meu desprezo. E foi isso que eu dei a eles, deletando-os do meu universo sem remorso.

O engraçado ou tragicômico nisso tudo é que eu vivo aconselhando que “quando uma pessoa te mostrar aquilo que ela realmente é, acredita logo na primeira vez”, mas tenho uma certa dificuldade para fazer isso de primeira, muito por medo de haver algum mal entendido. Isso e um certo sentimentalismo têm feito com que eu seja tolerante demais com os intolerantes, o que não é bom. Tolerar os intolerantes os fortalece, permite por mais tempo que eles espalhem seu veneno, gerem mal estar e promovam o embrutecimento de que gostam e no qual prosperam.

Pelo bem tanto de nossa saúde emocional como de nossa segurança social, precisamos ser mais metatolerantes: tolerar os tolerantes e não tolerar os intolerantes. Mesmo. E isso fica muito mais fácil quando entendemos que perder o respeito por alguém não significa que temos que desrespeitar este alguém e sim que não temos que respeitar este alguém. Por exemplo, deletando a pessoa de nosso universo, para que não tenhamos que lidar com sua toxicidade, ou seu vampirismo emocional. Por exemplo, não nos preocupando com o que ela pode dizer de nós após a deletarmos de nossa vida. Por exemplo, sendo mais saudável e mais feliz na total ausência dela, ou mesmo de sua lembrança.

A partir de hoje, estarei bem mais tranquilo e à vontade para ser implacável no exercício da metatolerância.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/12/2016

SOMOS TODOS MACACOS!

Acho patético esse mimimi de quem acha que tem o direito de não ser ofendido e tem a pretensão totalitária de calar o outro. Quem tenta calar quem o considera inferior dá razão a quem pensa assim, porque só um verme derrete perante um comentário ácido. Que me xinguem à vontade. Alguém acha que eu vou ficar com dodói na autoestima? Que vou me importar com a opinião do imbecil que tentar me ofender e conferir a algum otário o poder de fazê-lo?

macacos-falantes

Chamaram a primeira-dama dos EUA de “macaca de salto alto”. O que deu nela para se ofender? Ela não sabe que somos todos macacos? O que ela pensa que é, um réptil? Alguém acha que uma pessoa que passou oito anos sendo alvo de todo tipo de boato venenoso e insinuação pervertida, de críticas virulentas e de comentários muito mais ofensivos está realmente com dodói porque foi chamada de macaca? Ah, tenham santa paciência, é ridículo demais para meu pobre fígado!

Eu sou um macaco. Você é um macaco. Cada ser humano que já houve, há ou haverá neste mundo é um macaco. Não faz o menor sentido ofender-se com a simples enunciação de nossa óbvia, evidente, explícita, inegável natureza! Quem tem vergonha de ser um macaco ou é um coitado com graves problemas de autoaceitação, ou está fazendo um jogo político absolutamente hipócrita para se empoderar manipulando o sentimento de pena e coitadismo dos politicamente corretos e dos bocós que caem nessa esparrela.

E vamos que me chamassem de outra coisa ofensiva. O que seria? Veado, tentando me ofender me atribuindo uma suposta homossexualidade? Como poderiam fazer isso, se eu considero lícita e respeitável qualquer sexualidade exercida sem violação de direitos de terceiros? Gordo, tentando me ofender porque eu já estive obeso e ainda estou um pouco acima do peso? Como poderiam fazer isso, se eu era gordo mesmo e sou o primeiro a reconhecer? Feio, tentando me ofender atacando minha aparência? Como poderiam fazer isso, se eu tenho espelho em casa? Mau caráter, tentando me ofender com o enxovalhamento da mais sagrada estrutura do meu ser, que eu cultivo com retidão e convicção desde sempre? Como poderiam fazer isso, se eu sei que sou um ser humano íntegro e honrado?

Não consigo imaginar como alguém possa me ofender. Deixando de confiar em mim, sabendo o valor que dou a minha palavra? Quem fizer isso é que é um idiota. Lançando acusações falsas? Por que eu me afetaria moralmente por acusações falsas? Lançando acusações verdadeiras? Por que eu me afetaria moralmente pela verdade? Simplesmente não há como ofender, humilhar ou fazer dodói moral em quem tem uma autoestima sólida e não abre espaço para se sentir atingido pela estupidez ou para a perversão de caráter de terceiros. Eu simplesmente não bebo o veneno alheio!

Se você pensa horrores de mim, o problema é seu. Se você diz horrores de mim, o direito é seu. Talvez eu meta um soco na sua cara se você fizer isso de modo particularmente indignante e ao alcance da minha mão. Talvez eu faça até mesmo algo muito pior, no momento em que me ferver o sangue. Afinal, eu sou um macaco, e não é seguro fazer palhaçada perto demais de um macaco que pode reagir com fúria. Você, que é outro macaco, deveria saber disso. Mas processar alguém por dizer besteira pela internet? Aí não é a reação de um macaco, é a reação de um verme mimimizento que precisa que os outros protejam sua “dignidade” de açúcar que derrete com qualquer cuspida, inclusive uma virtual. Ou de um canalha hipócrita tentando tirar vantagem de uma legislação intolerante e degradante.

Não seja um verme mimimizento. Se você é um ser humano, tenha dignidade e erga a cabeça perante qualquer tentativa de ofensa. Não dê poder à ideologia de criminalização do pensamento. Ninguém tem o direito de não ser ofendido, nem pode ter este direito. Isso é uma monstruosa ferramenta de opressão que tem que ser completamente desativada em qualquer sociedade civilizada. Somente os vermes e os mal intencionados se beneficiam de uma aberração destas. Não podemos permitir jamais que este tipo de perversão degradante se torne o norte de toda a sociedade.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 16/11/2016

O embrutecimento político é a derrota da civilização

Só para variar, houve quem pervertesse completamente o que eu disse no meu artigo anterior, Tragédia na França: a culpa é da própria Europa. OK, voltemos ao tema. Eu tratei basicamente de duas coisas: primeira, que a civilização ocidental – da qual a Europa é o berço e um dos dois melhores exemplos, o outro sendo a América do Norte – está pagando um preço altíssimo por perverter os conceitos que a sustentam; segunda, a estupidez do desarmamento da população honesta e a cultura de coitadismo da qual decorre esta aberração.

Vida de centrista

São valores básicos da civilização ocidental a democracia, a liberdade individual, o progresso científico-tecnológico, a primazia dos Direitos Humanos e a justiça social, entre outros. As duas forças embrutecedoras da política pós-Revolução Francesa – a direita e a esquerda – detestaram o artigo porque nele eu bato em uma ferida de cada uma.

A direita não gostou porque eu disse que a culpa pelo embrutecimento terrorista é da falta de compaixão e solidariedade pelo sofrimento de grandes populações deixadas à própria sorte e à mercê de “governos” opressores que massacram “seus” povos. A direita odeia ser cobrada por compaixão e solidariedade, valores de que ela desdenha alegando algo que é bem representado pelo ditado “quem não tem competência não se estabeleça” – ou “cada um que se vire”.

A esquerda não gostou porque eu disse que o empoderamento do indivíduo, inclusive para o uso de força letal para garantir sua segurança, é uma necessidade urgente e uma condição sine qua non para o convívio pacífico e harmônico em sociedade – paz e harmonia essas baseadas na capacidade de defesa do cidadão, não no Estado-papai que “protege” e domina o cidadão em todas as esferas de sua vida, o que a esquerda indubitavelmente sempre deseja fazer.

Mas a verdade é que não se constrói um mundo pacífico sem compaixão, solidariedade e capacidade de retaliação letal contra bandidos amplamente distribuída entre a população. E entre estes bandidos se incluem criminosos comuns, terroristas e qualquer governo que abuse de suas prerrogativas. Aliás, é por isso que o governo não tem que saber quem tem armas e quem não tem, nem quantas. Só o que o governo tem que saber é quem está habilitado a portá-las em via pública, pelo mesmo motivo que precisa saber quem está habilitado a dirigir um veículo automotor.

Todavia, de um modo nefasto, direita e esquerda se aliam para provocar o embrutecimento da política e o afastamento do cidadão médio da cuidadosa avaliação destes imperativos e da ponderação na política.

Eu disse com todas as letras que a culpa pelos ataques terroristas na França é da própria Europa. E eu sustento esta afirmação. Foi a falta de compaixão e solidariedade pelos povos que estavam sob domínio de ditaduras laicas ou religiosas e a fuga à responsabilidade pela sorte de milhões de inocentes massacrados que permitiu a expansão e a exportação de ideologias autoritárias e do terrorismo. Nenhum regime que submete inocentes à força é confiável. Alguns deles, ao se fortalecerem, se tornarão expansionistas. Aí estão a história do nazismo, do comunismo, do cristianismo e do islamismo para provar, cada um dos quatro com seu próprio deus único. Em um momento ou em outro, de um modo ou de outro, todos eles se tornaram expansionistas e massacraram muita gente.

Eu disse com todas as letras que o desarmamento da população honesta é uma estupidez coitadista que faz parte de um sistema de (des)educação que pretende emascular, acovardar e incapacitar o indivíduo a fazer uso de força – inclusive de força letal – para defender sua própria vida, sua família e sua propriedade. Aí está a história de todos os massacres em universidades americanas e de atentados terroristas na Europa para provar, cada um dos dois tipos de ataque com seu próprio método de explorar a incapacidade de reação da população honesta desarmada e a incapacidade do Estado de proteger seus cidadãos, seja com serviços de inteligência, seja com policiamento ostensivo, seja com que método for.

E eu também disse que não se pode sequer sonhar com uma sociedade livre de criminosos, fanáticos, intolerantes e insegurança. É algo com que teremos de conviver enquanto formos macacos falantes. Mas podemos minimizar muito os danos e construir uma sociedade agradável e segura de viver se – e somente se – deixarmos de dar ouvidos às ideologias pervertidas que sustentam o descaso para com o sofrimento do próximo, independentemente de fronteiras artificiais, e o mimimi coitadista e covarde de quem quer lavar as mãos e terceirizar a garantia de sua segurança para outros macacos falantes, uma expectativa irreal que mais uma vez foi demonstrada como tal.

O afastamento do centro na política é sempre embrutecedor. A terceirização obrigatória da segurança pessoal é sempre irrealista e inviável, por mais que seja útil contar com instituições que minimizem nossos riscos. Enquanto estas duas coisas não forem adequadamente compreendidas, não teremos paz, nem harmonia, nem segurança.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 15/11/2015

Tragédia na França: a culpa é da própria Europa

Milhões de pessoas foram e estão sendo massacradas na África e no Oriente Médio nas últimas décadas. O que a Europa fez para evitar estes massacres? Muito pouco ou quase nada. “Não é com a gente.” Centenas de pessoas foram mortas ou feridas por um punhado de terroristas. Quantas podiam se defender? Nenhuma. Estavam todas desarmadas, confiando no papai Estado para protegê-las. Descaso e coitadismo paralisante, eis as causas da tragédia.

Massacre na França

Ouvimos por tempo demais os pervertidos que dizem que intervir e derrubar ditaduras sanguinárias é uma violação ao princípio da autodeterminação dos povos. Levamos longe demais a mentira de que cidadãos honestos e bem educados se tornam criminosos apenas pelo fato de terem uma arma nas mãos. Produzimos uma civilização de avestruzes que metem a cabeça em um buraco quando seres humanos são massacrados no país ou na favela ao lado e de covardes omissos que querem pagar para que outros coloquem suas vidas em risco para protegê-los.

Uma civilização que não defende toda e qualquer vida inocente acima de qualquer alegação pervertida sobre “soberania” é uma civilização doente. Quem precisa de proteção não são os governos sanguinários, são as pessoas inocentes que eles dominam e massacram. Onde estava a Europa quando milhões de pessoas estavam sendo submetidas a atrocidades na Síria, na Líbia, no Sudão, na Somália? O que fizeram os países do berço da civilização para socorrer seus irmãos miseráveis, humilhados, submetidos, torturados e mortos além de votar moções na ONU e manter comércio com os ditadores que os oprimiam?

Agora a barbárie que nunca combateram adequadamente ataca dentro de sua própria casa.

A Europa não é uma vítima inocente da sexta-feira 13 sangrenta, assim como os Estados Unidos da América não são uma vítima inocente do onze de setembro – um ataque promovido por terroristas que os EUA mesmos armaram e treinaram. Não se lava as mãos perante a injustiça, porque as mãos continuam sujas e um dia a injustiça cresce de tal modo que atinge “quem importa”. Que se dane se a Al Qaeda está subjugando e massacrando inocentes, porque está sendo conveniente para os interesses do Tio Sam? O onze de setembro é a conseqüência. Que se dane se os sírios estão sendo massacrados, porque não é o nosso povo? Os ataques da sexta-feira 13 sangrenta na França são a conseqüência. O descaso para com o sofrimento dos outros fortalece os promotores do sofrimento e universaliza a barbárie.

E o que dizer dos mortos na casa de shows Bataclan? Três ou quatro terroristas mataram mais de setenta pessoas. Passaram quinze longos minutos matando as vítimas uma a uma. Recarregaram as armas pelo menos três vezes. Que as primeiras quatro ou cinco pessoas tenham sido mortas sem conseguirem se defender é absolutamente compreensível, mas o que fez com que mais de seis dezenas de pessoas ficassem passivas à espera da morte senão uma educação emasculante, acovardante e incapacitante que faz com que ninguém reaja nem mesmo perante a morte certa? Se todos os presentes partissem para cima dos assassinos nem que fosse a socos e pontapés, muito menos gente teria morrido e muito menos ataques desse tipo aconteceriam no futuro.

Não se trata de um conflito entre a barbárie e a civilização, mas de um conflito entre duas barbáries. De um lado a barbárie da intolerância, do outro lado a barbárie do descaso e do coitadismo paralisante. Enquanto isso continuar, ninguém viverá em paz, ninguém estará em segurança, ninguém terá liberdade.

Precisamos abandonar o discurso canalha de que o sofrimento de inocentes para além de uma fronteira convencionada não é problema nosso. Sabemos que há ditaduras sanguinárias que massacram povos inteiros e promovem atrocidades monstruosas – como na Coréia do Norte – e nada fazemos além de votar moções ou impor barreiras comerciais. Há quem chegue à extrema perversão de afirmar que é necessário “diálogo e diplomacia” para lidar com terroristas bárbaros que degolam inocentes à faca em frente às câmeras de TV para fazer propaganda de suas ideologias insanas para conquistar adeptos. Isso não pode ser tolerado. Quem oprime ou massacra pessoas inocentes é criminoso e quem tolera ou justifica isso é pervertido e monstruoso. Nada disso é condizente com o que deveria se chamar “civilização”.

Precisamos abandonar o discurso covarde de que pagamos impostos para que as instituições nos defendam. Sabemos que as instituições são compostas tão somente por outras pessoas e estas não são mais interessadas em salvar as nossas vidas do que nós mesmos, nem são capazes de fazer isso – como ficou absolutamente evidente nesta tragédia acontecida na França. A inteligência anti-terrorismo não foi capaz de prever os atentados e a polícia não foi capaz de proteger ninguém quando eles ocorreram. Mas o que é pior é que as pessoas chacinadas pelos terroristas não somente não estavam armadas para se defenderem como também não estavam mentalmente capacitadas a se defenderem – tanto é que foram chacinadas mesmo estando em muitíssimo maior número. Se educássemos nossos cidadãos para radicalmente não tolerar a intolerância, a maioria destas pessoas estaria viva.

Precisamos parar de arar e adubar o solo para os intolerantes plantarem suas ideologias. A miséria é a água parada para o mosquito do extremismo político ou religioso. Gente que estuda, trabalha, tem casa própria, carro próprio, passa o verão no litoral, tem um bom nível cultural e vê sentido para a vida dificilmente se torna extremista. Gente cuja maior preocupação é regar o jardim dificilmente amarra explosivos na cintura e massacra dezenas de inocentes.

Criminosos sempre houve e sempre haverá. Fanáticos sempre houve e sempre haverá. Intolerantes sempre houve e sempre haverá. Insegurança sempre houve e sempre haverá. Mas nós podemos parar de produzir estas coisas corrigindo a rota do desenvolvimento da civilização ocidental. Podemos reduzir imensamente o sofrimento, os conflitos e as injustiças se assim o decidirmos, mas isso só será possível se a civilização ocidental assumir uma identidade coerente e vigorosa. Se deixar de de dar ouvidos aos pervertidos. Se deixar de engolir ideologias de descaso e de dependência. Se investir em seus cidadãos para que se tornem metatolerantes e autônomos. Se investir também na metatolerância e na autonomia para além de suas fronteiras.

Não há garantias. Mas há necessidade de coragem e determinação.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 14/11/2015

A perversão coitadista

Li em um veículo da mídia impressa que semana passada houve um “ataque racista” à atriz Thaís Araújo, poucas semanas depois de um episódio semelhante em relação à apresentadora Maria Júlia Coutinho, ambos pela internet. Um “ataque racista” pela internet? Sério? As palavras “frescura” e “perversão” me vieram à mente.

mimimi people

Um “ataque racista” foi o que aconteceu entre os Tutsis e os Hutus. Chamar ofensas de ataques é uma imensa frescura. E modificar o direito para proteger a frescura é uma inominável perversão e uma completa inversão de valores. Mas é isso que propunha o tal veículo de imprensa: “leis devem ser aprimoradas” – para tornar a proteção à frescura mais eficaz, é claro.

Os coitadistas estão vencendo uma guerra cultural. Estão tornando a vida em sociedade irrespirável, cerceando a liberdade de expressão de seus desafetos para supostamente proteger os coitadinhos incapazes de lidar com as críticas e mesmo as ofensas de quem não gosta deles. Coitadinhos dos negros, sofreram séculos de opressão racista, mimimi, precisam de leis especiais que os protejam. Coitadinhas das mulheres, sofreram séculos de opressão machista, mimimi, precisam de leis especiais que as protejam. Coitadinhos dos gays, sofreram séculos de opressão homofóbica, mimimi, precisam de leis especiais que os protejam. Coitadinhos.

Para proteger os coitadinhos, os coitadistas querem calar os “opressores históricos”. Coitadinhos são feitos de açúcar e derretem se forem ofendidos. As palavras “macaco”, “piranha” e “veado” precisam ser criminalizadas. Os opressores históricos precisam ser perseguidos, processados e punidos para deixarem de ser malvados e pararem de ofender os coitadinhos. Porque, afinal, como todo mundo sabe, a melhor maneira de educar alguém é calar essa pessoa à força, ameaçá-la com cadeia e tomar-lhe direitos.

Como eu sou a fonte de todos os males do mundo – pois sou Homem, branco e heterossexual – eu não tenho sensibilidade suficiente para compreender o terrível trauma humilhante e desestruturante que é para um coitadinho ouvir meia dúzia de palavras.

Ou talvez eu não compreenda porque eu não sou um coitadinho.

Quando alguém tenta me ofender com palavras simplesmente não consegue, porque eu tenho uma coisa que me protege disso: auto-estima. Eu não derreti quando estava muito acima do peso e alguém me chamou de gordo. Eu não derreti quando passei em três vestibulares e um concurso público por meus próprios méritos, sem cotas, e alguém me chamou de filhinho-de-papai e coxinha. Eu não preciso e não quero que a lei me proteja de ofensas, porque eu não sou feito de açúcar.

Se o preço para entender o terrível mal que meia dúzia de ofensas traz para a frágil psiquê de um coitadinho é perder a auto-estima a ponto de derreter perante meras palavras e precisar de amparo legal para não ter que ouvir o que me desestrutura – como a avestruz da fábula, que mete a cabeça num buraco para não ver o que não quer e assim se sente protegida – então eu prefiro continuar não entendendo isso.

E mais: os meus filhos também não vão entender isso. Porque, mesmo que eu tenha um filho mulato, ou do sexo feminino, ou homossexual, ele ou ela não será um coitadinho, será um ser humano com auto-estima, capaz, com uma casca grossa o suficiente para não derreter perante uma simples ofensa verbal. Porque ser um coitadinho não tem nada a ver com raça, sexo ou orientação sexual, e sim com a postura perante a vida.

O que eu mais lamento é que, enquanto eu criarei meus filhos para serem seres humanos completos, com auto-estima e capacidade, os coitadistas estão criando uma geração de verdadeiros coitadinhos. Gente que, ao invés de ter sua auto-estima elevada e suas capacidades aprimoradas, será moralmente pervertida pelo mimimi coitadista e passará sua existência inteira pedindo penico, exigindo dos outros um respeito que não tem por si mesmo e culpando os outros por sua baixa auto-estima e sua incapacidade de se tornar alguém na vida – ao invés de se tornar um cidadão ou cidadã honesto, proativo, produtivo e orgulhoso de si mesmo, que vai atrás dos seus objetivos e de sua felicidade sem se abalar com ofensas e sem se permitir humilhar por uma “proteção” tão vergonhosa quanto a de criminalizar quem fala algo que lhe é desagradável.

Essa é a ironia maior e o grande mal do coitadismo: ao invés de gerar cidadãos autônomos, capazes, produtivos e orgulhosos de si, gera cada vez mais gente mimimizenta, incapaz, dependente, intolerante e autoritária.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 11/11/2015

Um mundo de Fábios Robertos

Você é marceneiro. Trabalha com um serrote. Um belo dia eu caio de pára-quedas a seu lado e digo: “Meu amigo, eu não sou marceneiro, mas descobri que existe uma coisa chamada serra circular. Ela permite que você trabalhe muito mais rápido, com muito maior precisão de corte e com muito menos esforço. Eu aprendi a usar este equipamento e gostaria de ensinar você a usá-lo também, pois será muito útil para você e para seus clientes. Estou disposto a fazer isso de graça. O que você me diz?” 

serrote

Acredite se quiser, amigo leitor, isso é o que eu estou dizendo há um mês para diversos profissionais – de outra área, não da marcenaria – e todos estão respondendo que eles aprenderam a trabalhar com serrote, logo, a minha “serra circular” não funciona. “Lógica” interessante, não? 

Além disso, quando eu insisto dizendo que sei que eles aprenderam a trabalhar com serrote, mas que o mundo evoluiu e agora existe a serra circular, um equipamento novo que funciona muito melhor que o serrote, eles se mostram ofendidos e afirmam que não é verdade. Eu mostro um móvel que construí, eu mostro os móveis que outros marceneiros construíram, eu mostro o manual do usuário da serra circular, mas eles mal olham e já torcem o nariz. Impossível não lembrar do Fábio Roberto.

A situação não é, porém, perfeitamente análoga. No caso do marceneiro, se ele não quiser trabalhar com a serra circular, o pior que pode acontecer é construir um móvel torto ou com um acabamento inferior ao que poderia ser feito com um equipamento mais adequado. Não há sofrimento, risco de mutilação ou morte para o cliente do marceneiro que insiste em usar o serrote. Pa bo ente me pala bas. 

E aqui estou eu, preocupadíssimo com os clientes destes “marceneiros”, quebrando a cabeça, tentando convencer alguém da marcenaria de que eu não estou louco, que o velho serrote já está obsoleto e que a tal da serra circular não somente funciona muito bem como é o equipamento mais adequado para os objetivos da marcenaria. Absurdamente, eles só querem saber do serrote. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 19/08/2015 

Oportunidades e atitudes

Um mendigo morador de rua me abordou tentando me vender uma pulseira supostamente de ouro que ele teria encontrado pelo chão por apenas R$ 5,00. Eu paguei R$ 25,00, a pulseira era só uma bijuteria de cobre e eu acho que fiz um ótimo negócio, tanto que a estou usando até hoje. Ele jogou fora a melhor oportunidade da vida dele. 

Oportunidade
O absurdo dos absurdos é que esta história está me incomodando há semanas, não por eu ter pago muito mais do que a pulseirinha valia, mas porque eu sei que o coitado deve ter se achado muito esperto por me tirar R$ 20,00 a mais do que imaginava possível, enquanto eu estava disposto a oferecer a ele uma casa para morar com o mesmo conforto que eu, segurança alimentar e a oportunidade de se reerguer na vida de modo honesto, digno e seguro.

Fábio Roberto (nome verdadeiro) aproximou-se da janela de meu carro pedindo licença e fazendo uso de um vocabulário refinado e de boa articulação verbal: “não pense o senhor que eu seja uma pessoa de má conduta”. Aquilo chamou minha atenção. Ali estava uma pessoa que era um pouco mais do que parecia. Mas eu estava passeando com meus amigos, fazendo uma despedida, porque me mudaria de cidade na semana seguinte. Não era um momento em que eu estivesse disposto a ouvir uma conversa fiada cujo objetivo, estava óbvio, era me tomar dinheiro. E não deu noutra.

“Eu achei essa pulseirinha no chão lá na Calçada da Fama (local de Porto Alegre freqüentado por um público de alto poder aquisitivo) e queria só R$ 5,00 nela porque estou sem nenhum dinheiro.”

Para me livrar dele o mais rápido possível, resolvi comprar logo a porcaria do badulaque inútil que ele estava me oferecendo. Peguei R$ 5,00 do bolso, estendi para ele e coloquei a pulseirinha pendurada no retrovisor. Mas eu devo ter feito uma evidente cara de “O que eu faço para me livrar desse cara o mais rápido possível? Já sei! Compro a pulseirinha!”, porque ele percebeu e comentou, deixando perceber que havia se sentido humilhado por meu gesto. A bofetada me fez acordar e então eu dei atenção àquele mendigo de vocabulário refinado, boa articulação verbal e algum senso de dignidade.

Ele contou uma longa história, que eu ouvi com atenção e interesse genuínos e agora conto a você.

Fábio Roberto é natural de uma cidade do interior gaúcho, onde vivia com sua esposa, que havia sido sua primeira namorada, e os filhos do casal. Largou a escola e começou a trabalhar aos doze anos de idade, estimulado pelo pai, que lhe dizia que a escola da vida lhe ensinaria muito mais do que a escola dos livros. Proféticas palavras, mas não do modo como você está pensando agora.

Bem disposto e dedicado, o jovem aprendiz foi trabalhar no ramo da construção e manutenção de casas, tornando-se um profissional gabaritado em instalações elétricas, hidráulicas, colocação de azulejos e acabamentos em geral, com mais de 35 anos de experiência na área. Saiu da pobreza e construiu um padrão de vida de classe média para sua família com esta atividade. Tinha prazeres simples: futebol, cerveja e uma sinuquinha com os amigos. Era dedicado à família e diz que sempre foi 100% fiel à esposa. Mas um dia descobriu que havia contraído o HIV.

Duvido que exista maneira mais cruel de descobrir uma traição: através de um laudo laboratorial positivo para uma doença sem cura que você, sendo 100% fiel a sua parceira, só pode ter contraído por via sexual. Dela. Que também só tinha tido você como namorado.

A esta altura da narrativa fiquei realmente impressionado com a decisão que ele tomou: saiu de casa, com medo de que tivesse uma crise de raiva e fizesse alguma besteira da qual pudesse se arrepender. Foi para a casa do irmão esfriar a cabeça.

Na casa do irmão, o segundo choque: a cunhada, desinformada e preconceituosa, com medo de contrair o HIV pelo simples convívio no mesmo ambiente, objeta sua permanência. E então ele se retira da casa do irmão, sai da cidade e se torna morador de rua.

Após três anos vivendo na rua, sob o sol, a chuva, o calor, o frio e muitas vezes tendo que revirar lixo para encontrar o que comer, Fábio Roberto se aproxima da janela do meu carro, me vende uma pulseirinha, me conta esta história triste e diz que só continua nesta situação porque ninguém lhe dá uma oportunidade. Diz que, quando descobrem que ele é morador de rua, não lhe dão emprego, e assim o condenam a ser morador de rua para sempre.

Não foi só isso que ele falou, é claro. Rolou também um papo filosófico sobre ele sempre ter feito tudo certo e ter acontecido tudo aquilo com ele. Segundo seu próprio relato, ele sempre demonstrou estoicismo e firmeza de princípios. Realmente parecia uma pessoa que, apesar de ter passado por grandes injustiças, tinha seus valores e não se deixava contaminar.

Minha amiga, que estava no carro ouvindo a conversa e que precisa fazer uma reforma em casa, perguntou se ele toparia fazer o serviço, mas que isso só poderia ser feito dali a um mês ou dois. Até lá ela não teria condições de ajudar, mas ela achava que ele merecia a chance – e ela é do tipo que conhece bem as pessoas.

Eu, que me preparava para viajar de mudança para outra cidade, pensando em aprender justamente o tipo de trabalho no qual ele se dizia gabaritado, tendo em vista a impressão geral que tive dele após uma longa conversa com muitos detalhes dos quais a maioria eu hoje certamente já esqueci, pensei o seguinte: “Eu posso alugar uma casa que tenha outra nos fundos, ou uma edícula, dar um teto para esse sujeito, segurança alimentar e um emprego. Aprendo com ele o que quero, deixo o cara bem encaminhado, deixo para ele a empresa com toda a clientela e me mando para a Europa.”

Percebendo que a avaliação de minha amiga e a minha eram semelhantes quanto ao sujeito, eu tomei coragem e fiz mesmo a proposta: “Tchê, eu vou me mudar de cidade. Se tu topares ir para onde vou, eu te dou a oportunidade que tu dizes estar procurando. Eu te dou um lugar para morar, um emprego com carteira assinada e depois que aprender teu ofício eu te deixo de graça a empresa com toda a clientela e vou embora. Topas?”

No início ele não acreditou. Custou para aceitar que minha amiga e eu estávamos falando sério. Mas acabou se convencendo e parece que percebeu que estava com uma oportunidade real em mãos pela primeira vez em muitos anos. Topou, é claro.

Ficamos conversando mais um pouco e ele perguntou onde podia comprar um cachorro-quente-morte-lenta qualquer naquele horário. Aí eu tirei mais R$ 20,00 do bolso, dei para ele e disse: “na quadra aqui ao lado tu encontras uma refeição muito melhor, vai lá, come o que tu quiseres e volta aqui para a gente continuar conversando e combinar os detalhes de nosso acordo”.

Ele saiu todo sorridente e entusiasmado, dizendo que ia comer carne, arroz e feijão, que estava muito feliz e que logo voltaria para dar início a uma vida nova.

Mas nunca voltou.

Nem naquele dia, nem nos dias seguintes, nem nunca mais. E ele sabia onde e como nos encontrar nos dias seguintes se quisesse.

Quando ele estava se afastando, porém, eu peguei a pulseirinha que ele havia me vendido, coloquei no pulso e falei para meus amigos: “Esta correntinha vai servir para eu me lembrar da lição que eu vou aprender hoje. Vamos ver o que o Fábio Roberto vai me ensinar.”

E o que o Fábio Roberto me ensinou é que ele não está naquela situação porque ninguém dá uma oportunidade para ele, mas porque ele ou não pôde aproveitar a oportunidade porque mentiu sobre suas habilidades, ou não teve coragem de sair de sua zona de conforto. É um perdedor consolidado.

A correntinha está no meu pulso até hoje. Tem sido uma lembrança constante para eu ficar atento às oportunidades, ser sincero para comigo mesmo quanto a minhas habilidades e ter coragem para sair de minha zona de conforto quando um projeto parece valer a pena. E também tem sido uma lembrança para observar muito mais as atitudes que as palavras das pessoas, porque é isso que mostra o que cada uma é de fato e o que se pode realmente esperar delas. Valeu cada centavo daqueles R$ 25,00.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 28/07/2015 (publicado em 14/08/2015)