Diferença entre liberalismo e ultraliberalismo

O liberalismo é centrista e tem por objetivo um Estado de Bem Estar. Os autores liberais falam de modo equilibrado sobre liberdade econômica, liberdade política, liberdade de costumes e responsabilidade social. Não abominam o Estado, nem são minarquistas, querem um Estado forte, limitado e eficiente.

Os ultraliberais são direitistas e acham que Estado de Bem Estar é coisa de esquerdista. Falam principalmente sobre liberdade econômica e muito pouco ou nada sobre responsabilidade social, quando não dizem que isso não existe. Acham que o Estado é um bicho-papão e o querem o menor possível, para fazer somente aquilo que não lhes dá lucro.

OBS: Ancaps não são nem liberais nem ultraliberais, são distopistas insanos. Não devem ser levados a sério. Rothbard é um psicopata.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 30/08/2017

Conjuntura

O esporte nacional não é o futebol, é reclamar e achar que “alguém” tem que fazer alguma coisa. O povo ou vai aceitar passivamente que os caras que os roubaram tomem seus direitos e seu dinheiro para tapar o rombo que criaram, ou em algum momento vai explodir em violência uns contra os outros, sem focar em quem deveria ser o verdadeiro alvo.

O tragicômico nessa história é que isso estava evidente desde a época do Mensalão. Se tivessem metido o Lula na cadeia em 2005, junto com toda a corja de bandidos que se vendeu, e anulado todos os atos legislativos da época, como era o certo a fazer, o Brasil teria tomado outro rumo de desenvolvimento. Porém, temos aqui a cultura de que “a justiça tem que ser sóbria, não pode ser exagerada”…

Quanto ao rumo econômico do Brasil, só poderia ser pior se continuasse na mão do PT. A receita de recuperação escolhida é tão desastrosa que até o FMI não a defende mais. Ela faz a recuperação demorar mais e torna mais difícil e sofrida a vida do povo neste período. Sendo que existe um método *muito* melhor, muito bem testado, muito rápido e eficaz para promover o desenvolvimento econômico: bastaria imitar o que a Alemanha fez logo após a Segunda Guerra Mundial. Pesquise “ordoliberalismo” e “economia social de mercado”.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 07/01/2017

A esquerda, a direita e o centro

Muita gente discute política usando definições as mais esdrúxulas de esquerda, direita e centro, normalmente com base em características não essenciais de grupos específicos que se identificam com este ou aquele ponto do espectro ideológico, como as posições sobre temas como legislação trabalhista, tributária ou certos direitos, mas isso tudo é confete e serpentina. O que define a posição de uma ideologia no espectro ideológico é sua disposição e sua justificativa para dar certo tratamento aos indivíduos

Esquerda - Direita - Centro

Esquerda é coletivismo. Coletivismo é poder sacrificar o indivíduo em benefício do grupo. Poder sacrificar o indivíduo em benefício do grupo só é adequado para organismos não reprodutores como abelhas operárias, cupins e formigas. Esquerda é ideologia de insetos. Não é adequada a seres humanos. 

Direita é egoísmo. Egoísmo é poder sacrificar o outro indivíduo por desinteresse ou negligência. Poder sacrificar o outro indivíduo por desinteresse ou negligência só é adequado para organismos cuja estratégia de sobrevivência é violenta e excludente, vivam eles isolados ou em grupos, como leopardos e leões. Direita é ideologia de feras. Não é adequada a seres humanos. 

Centro é individualismo. Individualismo é a valorização do indivíduo, ou seja, é não poder sacrificar o indivíduo. Não poder sacrificar o indivíduo só é adequado para organismos com capacidade de desenvolver empatia, como golfinhos, elefantes e os grandes primatas. É, portanto, adequada aos macacos falantes, os seres humanos.

Não há dúvida de que o coletivismo – “pensar antes na comunidade” – é desumano. Se você pode sacrificar o indivíduo em prol da comunidade, então cada indivíduo pode a qualquer momento ser sacrificado em prol da comunidade, e o resultado é que absolutamente ninguém tem valor algum. Todos são descartáveis, todos são sacrificáveis. Quem fala em “bem comum” não sabe o que está dizendo. Não existe bem comum. Só o que existe é o meu bem, o seu bem, o bem de cada um e de todos os indivíduos, sem exceção.

Um erro comum é considerar individualismo e egoísmo sinônimos. Não são. No egoísmo o indivíduo que importa sou eu, no individualismo os indivíduos que importam sou eu e também o outro, pois o outro também é um indivíduo. Se você não é solidário, você defende somente a si mesmo, então você é egoísta. Se você é solidário, você defende todo e qualquer indivíduo, então você é individualista. Ou solidarista. O verdadeiro sinônimo de individualismo é solidarismo. 

O espectro ideológico, portanto, é simples assim: quanto mais à esquerda, mais perto você está dos insetos; quanto mais à direita, mais perto você está das feras; quanto mais ao centro, mais perto você está dos seres humanos, suas necessidades, suas limitações, seus sonhos, seus medos, suas sensibilidades e suas verdadeiras e adequadas possibilidades de organização politica, econômica e social com harmonia e sustentabilidade a longo prazo. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 06/06/2016 

Aos servidores públicos estaduais do Rio Grande do Sul

Eu sou servidor público estadual do poder executivo no Rio Grande do Sul. Assim como todos os demais colegas, fiquei muito preocupado com a notícia de que nosso salário será novamente pago de modo parcelado, desta vez trazendo incertezas ainda maiores que as do mês passado. Isso me trará imensas dificuldades. Mesmo assim, eu não vou fazer greve. Parar de trabalhar neste momento só vai piorar a nossa situação.

Greve a vista

Eu acabo de sair de um período de dois anos de “licença para tratamento de interesses particulares”, que, como todos os colegas sabem, é uma licença não remunerada. Tirei esta licença por motivo de saúde – eu estava tão doente e tão estressado que não tinha mais condições emocionais nem sequer para enfrentar um processo administrativo para tirar uma licença-saúde.

Voltei ao trabalho ainda doente e atolado em dívidas. Passei por uma mudança para outro município. Precisei gastar muito com a saúde e com a mudança e não consegui me reequilibrar financeiramente ainda, embora esteja vivendo de modo espartano.

Para piorar a situação, a pessoa que ia me alugar uma casa não cumpriu sua palavra, eu estou morando provisoriamente em uma pousada cujos preços vão disparar no verão e não disponho de reservas para a caução de um aluguel. Se eu não receber meu salário integral, dentro de dois meses eu estarei em um município onde não conheço ninguém e não terei nem onde morar, nem onde colocar meus pertences. Portanto, eu sei muito bem o que representa contar com um dinheiro que deveria ser certo e não recebê-lo.

Apesar de todas as dificuldades por que vou passar se meu salário atrasar, eu não vou parar de trabalhar nem para protestar contra a lambança financeira que está me prejudicando, nem para pressionar por sua solução. E o motivo é muito simples: parar de trabalhar neste momento só vai piorar a nossa situação.

Pense um pouco.

Você acha que o governador Ivo Sartori não está a par da situação dos funcionários do executivo gaúcho? Ele está muito bem informado, você sabe. Ele não precisa ser informado novamente. Uma greve não servirá para este propósito.

Você acha que o governador não está tentando resolver esta situação? Ele está tentando, você sabe. Ele não precisa ser pressionado novamente. A cada dia que passa, a popularidade do governador desce e o descontentamento dos gaúchos sobe. Ele é um político, alguém que sabe que seu maior capital é sua popularidade. Ele já está lutando com todas as forças para tirar a corda do pescoço. Uma greve não fará com que ele se empenhe ainda mais em resolver o problema.

Você acha que o governador não tem consciência de que a última alternativa de que ele deveria lançar mão seria o parcelamento dos salários dos servidores? Ele tem consciência disso, você sabe. O funcionalismo representa um poder político-eleitoral de grande importância. O governador e o funcionalismo sabem que o governador e o funcionalismo sabem disso. Uma greve não fará com que surjam novas alternativas.

Então, para que serviria uma greve neste momento?

Só para duas coisas: prejudicar a população, reduzindo o acesso a serviços de que ela necessita tanto mais quanto maior a crise econômica, e piorar ainda mais a situação financeira do estado, tornando cada vem menos provável que nossos salários voltem a ser pagos em dia.

Protestemos. Vamos às ruas. Mostremos nosso descontentamento e nossa indignação com a situação do estado e do país. Cobremos do governo estadual o máximo empenho para manter nossos salários em dia. Cobremos do governo federal o não bloqueio de recursos do Rio Grande do Sul neste momento de crise. Mas sejamos conscientes e não prejudiquemos a população com paralisações e com a consequente imposição de dificuldades ainda maiores do que as que já teremos que enfrentar devido à crise política e econômica.

Que cada um de nós seja uma parte da solução, não do problema. Isso é cidadania.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 29/08/2015

A liberdade impossível

Sempre que você quiser saber se alguém que diz defender a liberdade realmente defende a liberdade, você só precisa verificar se essa pessoa defende a dissociação entre liberdade e responsabilidade. Sempre que isso acontecer, você estará diante de um fascista travestido de libertário.

fascismo

A dissociação entre liberdade e responsabilidade é o fato de alguém não ser responsabilizado por suas decisões ou por seus atos ou de alguém ser responsabilizado pelas decisões ou pelos atos de terceiros. 

Se alguém defende a liberdade de usar drogas recreativas, mas considera justo que o estado de intoxicação seja uma atenuante no caso de cometer algum crime ou mesmo algum acidente com vítimas, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de se proteger dos riscos trazidos pelo uso de drogas recreativas por terceiros, mas considera justo não proteger nem regulamentar a liberdade destes terceiros de usar drogas sem prejudicar ninguém, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de fazer sexo quando, como e com quem bem entender, mas considera justo assassinar o inocente gerado em uma de suas relações sexuais, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de acesso universal a universidades, empresas ou cargos públicos, mas considera justo que pessoas que se capacitaram mais sejam alijadas das vagas em benefício de pessoas que se capacitaram menos, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de fazer greve, mas considera justo que o patrão seja obrigado a garantir os empregos e pagar os salários dos grevistas, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de cobrar o preço que quiser por seu produto ou serviço, mas considera justo recorrer à proteção do Estado para impedir que um concorrente que ofereça um produto melhor ou mais barato domine o seu mercado, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

A lista é imensa. Há muita gente por aí que diz que defende a liberdade, mas que só defende a liberdade que lhe interessa, ou de quem lhe interessa, seja por motivos políticos, econômicos, religiosos ou outros. Fique atento: estas pessoas (ou grupos) são fascistas travestidos de libertários. Eles podem parecer defender uma liberdade que lhe é cara hoje, mas vão tomar a sua liberdade amanhã.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/07/2015 

Automóveis versus bicicletas

Eu moro a 15 km do local de trabalho, pelo Google Maps. Demoro cerca de quarenta e cinco minutos para chegar lá, porque o trânsito é pesado. Aí um espertinho pode fazer os cálculos e dizer: “você anda a 20 km/h, um maratonista corre a 18 km/h, uma bicicleta faz tranquilo entre 20 km/h e 25 km/h – você chegaria antes de bicicleta”.

Bicicleta em aclive

Esta é a hora em que eu começaria a rir ou chamaria o sujeito de imbecil, conforme o meu humor no dia.

Eu vou para o trabalho seguro e dentro de um veículo climatizado. Se chover, ligo o limpador de pára-brisa e o ar-condicionado e chego sequinho. Se fizer um calor dos infernos, ligo o ar-condicionado e chego sequinho e confortável. Em qualquer dos casos, chego descansado e sequinho.

Se eu fosse de bicicleta, eu estaria exposto à chuva e ao sol. Se chovesse, eu chegaria encharcado de chuva. Se fizesse sol, eu chegaria encharcado de suor. Em qualquer dos casos, eu chegaria molhado, fedorento e cansado.

No caminho de casa para o trabalho eu enfrento diversas subidas e descidas bastante íngremes. Com o carro eu apenas troco de marcha e aperto um pouco mais o pedal. Com a bicicleta, além de trocar de marcha, eu teria que fazer muito mais força e pedalar muito mais. Além disso, os aclives e declives são praticamente irrelevantes para o tempo do trajeto com o automóvel. Com a bicicleta, qualquer aclive ou declive muda muito não apenas o esforço, como o tempo e a segurança do percurso.

Com o automóvel, eu carrego um estepe, um galão de água, uma muda de roupa e uma bolsinha com meus documentos, alguns medicamentos de emergência (não saio de casa sem ter um anti-alérgico na mão) e os cacarecos que eu bem entender. E volta e meia dou uma carona para algum amigo.

Com uma bicicleta, eu não tenho como carregar um estepe, nem o galão de água, e teria que andar com uma mochila pesada nas costas para carregar metade das coisas que carrego no carro, o que aumentaria o peso a carregar, a dificuldade de enfrentar os trajetos, o esforço necessário e a agilidade necessária para tentar escapar de algum imprevisto. Além disso, não poderia dar carona para ninguém.

E ainda há o fato de que o automóvel tem pára-choques e uma boa quantidade de metal entre eu e qualquer coisa lá fora. O pára-choque da bicicleta é a cara do ciclista e qualquer cachorro vadio pode representar um risco ou ferimento grave.

Isso quer dizer que eu jamais teria uma bicicleta? Claro que não! Ando pensando em comprar uma, inclusive. Mas não sou louco para usar uma bicicleta em um trânsito maluco, poluído, perigoso, sob as intempéries, com grande esforço físico e perda de tempo, além de diversos outros problemas, para bancar o salvador do mundo, achando que daqui a vinte anos não haverá carros nas ruas e todos serão ciclistas saudáveis e contentes.

Um pouquinho de bom senso não faz mal a ninguém. Bicicleta é bom para passear no parque, para fazer exercício, para pequenos deslocamentos próximos à residência ou para aventuras com os amigos (tipo ir de uma cidade a outra de bicicleta) nas férias. Para as necessidades do cotidiano em uma região urbana, é o automóvel que melhor satisfaz as minhas necessidades – e as da maioria das pessoas, como muito bem vemos pela proporção entre automóveis e bicicletas transitando nas ruas desde sempre.

Quem quiser que eu deixe o meu carro na garagem que implemente um excelente sistema de transporte coletivo, onde eu viaje sentado, com ar condicionado, a qualquer momento do dia ou da noite, com segurança, que me pegue e me deixe a não mais de 400 m de casa. E que custe menos do que andar de carro.

Espinafrar o automóvel particular virou modinha de eco-chato. Mas resolver o problema do transporte de modo razoável, confortável, prático e barato, isso ninguém faz. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 31/03/2015 

Um RRR-2015 para você!

Um Resoluto, Realizador e Realista ano novo! Seu 2015 será feliz e próspero se – e somente se – você assumir as rédeas de seu destino com convicção (resoluto) e fizer o que tiver que ser feito (realizador) do jeito certo (realista) para construir a sua felicidade e a sua prosperidade. 

The-Real-R2D2
Este é o R2D2. O que tem ele a ver com o título desta postagem? Nada. É um papel de parede legal para o seu computador. 😉 (Clique na foto para abri-la em tamanho real em outra janela e fazer o download.)

Minhas resoluções de ano novo: 

Nunca mais me preocupar com as pessoas mais do que elas se preocupam consigo mesmas. 

Nunca mais tentar convencer quem quer que seja de coisa alguma. Não confia em mim? Problema seu. 

Nunca mais sacrificar minha saúde ou bem estar para não ser chato ou parecer radical. 

Ano novo, Arthur novo. A vida continua a mesma. Eu estou mudando. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 01/01/2015 

Eu sei como resolver. Mas não conto!

Crianças que morrem esquecidas dentro de automóveis poderiam ser salvas por um dispositivo que custa menos de R$ 50,00. Agências bancárias podem ser protegidas de ataques armados ou com dinamite por um dispositivo muito barato capaz impedir a concretização do furto. O CUB de uma construção pode ser reduzido com facilidade aumentando o valor do imóvel. Eu sei como fazer tudo isso, mas não vou contar como. 

Criança esquecida no carro morre

Eu pretendia escrever um artigo sobre cada um destes assuntos (e mais alguns outros). Depois de muito pensar, decidi não contar no blog como resolver estes e diversos outros problemas para os quais eu tenho soluções. Por quê? Por dois motivos. 

Primeiro, porque eu já ofereci muitas soluções para quem não quer soluções e isso é muito frustrante. 

Segundo, porque alguém vai usar minhas idéias para ganhar dinheiro e não vai me dar um centavo. 

Então a coisa fica assim: se eu divulgar as soluções e ninguém se interessar por elas, eu ficarei frustrado; mas se eu divulgar as soluções e alguém se interessar por elas, eu não ganharei nada. 

Como eu não sou um ricaço como o Alberto Santos Dumont, que podia se dar ao luxo de trabalhar pelo bem da humanidade sem se preocupar com o próprio sustento, por que eu deveria publicar estas idéias? 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/08/2014 

Faca livre: uma loucura libertária com efeitos desastrosos

Leia. Ria. Reflita. 

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Faca livre: uma loucura libertária com efeitos desastrosos 

(Joel Pinheiro da Fonseca) 

Quinta-feira próxima completaremos um ano do fim da política de restrição à posse e ao uso de facas, política que, lembremos, recebera menção da ONU por sua eficácia no combate à violência. Desde então, estamos submetidos a um experimento social radical em que todo mundo pode ter, comprar, vender e portar uma faca afiada com potencialidade letal. E o resultado, como qualquer observador razoável e não movido por ideologias sectárias já percebeu, tem sido um desastre absoluto.

Lembram-se das promessas dos defensores da liberação? Diziam que o aumento de homicídios era mito, que as pessoas queriam facas para usos pacíficos. Diziam, ademais, que o crime já usava facas conseguidas ilegalmente. Asseguravam que as pessoas saberiam lidar com o risco de uma faca dentro de casa. A realidade, contudo, contou uma história bem diferente: de 2013 para cá, as mortes por faca em conflito residencial subiram de 3 para 56. Isso mesmo, um aumento de 1866,7%. Ainda não há dados para crimes passionais e acidentes domésticos que não terminaram em morte, mas tudo indica que o aumento foi ainda maior.

O que antes circulava apenas nas gangues mais violentas é agora um utensílio na gaveta de muitos lares, ao pleno alcance de um marido ciumento, de um jovem imprudente ou mesmo de crianças. O preço da faca no mercado caiu 60%, sendo vendida em qualquer esquina. Saber que traficantes perderam parte do seu lucro é um consolo pífio quando lembramos que a violência outrora restrita ao tráfico foi universalizada. Ademais, o tráfico continua ativo, vendendo facas de péssima qualidade, inseguras e mais afiadas do que a lei permite.

Outra falácia dos apóstolos da faca é a de que a liberação movimentaria a economia, devido ao aumento de vendas. Só se esqueceram de um detalhe: a nova lei decretou a morte de setores inteiros. A maioria das empresas alimentícias fechou a divisão de fatiamento do produto final, sem falar na categoria dos cortadores autônomos que já está em vias de extinção. O sindicato conseguiu um financiamento público para se “adaptar” à nova realidade, e há alguns pedidos de restrição ao que os usuários domésticos podem fazer com a faca. Cortar alimentos crus, como sushi, por exemplo, demanda providências de higiene que a maioria dos lares não tem. Também não está claro ainda se é lícito usar a mesma faca para alimentos e usos não-alimentares, que traz riscos de contaminação, acidentes, etc. Seja como for, o presidente do SINFaca é bem pessimista: “acabaram com o nosso sustento; jogaram a gente na rua”. Vivas ao livre mercado!

A indústria de facas (real interesse por trás da campanha) aumentou sua folha de pagamentos em 4.000 pessoas nos meses iniciais, bem abaixo do previsto. Como a estrutura produtiva básica já existia, os ganhos de escala fizeram com que poucos novos funcionários tenham sido necessários. No mês passado, dessa mão-de-obra adicional, 1.200 já tinham sido dispensados. Compare isso com os quase 10.000 empregos diretos e indiretos perdidos no setor de fatiamento, seja nas empresas, seja entre os autônomos. A perda econômica foi substancial.

A vida real, pra variar, contrariou as expectativas dos economistas teóricos, e por um motivo muito simples. A demanda por facas é pontual; cada domicílio se abastece de algumas que durarão vários anos sem necessidade de reposição. Já a necessidade de fatiar a comida é diária e recorrente. Ao se trocar essa demanda constante por uma demanda pontual perdemos empregos no longo prazo.

O lucro da indústria de facas trouxe riscos ao lar, custou empregos e renda da população mais carente e ainda explora a falta de informação do consumidor, que também saiu lesado. Fatiar um alimento não é tarefa para leigos. Um especialista percebe a diferença entre um corte bem-feito e um amador. O corte bem-feito é regular, o tamanho de cada pedaço é adequado às necessidades do cliente, de forma a garantir mastigação e deglutição agradáveis e saudáveis. Prontos-socorros têm reportado aumento nos casos de engasgo. Peixe e frango exigem cuidado especial para separar a espinha e ossinhos da carne comestível; técnica que, previsivelmente, a maioria dos leigos não domina. Isso leva à ingestão de detritos danosos ou ao desperdício da carne mais difícil de separar. Sem falar dos danos de longo prazo oriundos da mastigação e de pedaços grandes demais (e com detritos não comestíveis como ossos) e da digestão dificultada, que ainda demorarão a aparecer, mas não são menos reais.

Só uma pequena quantidade de famílias mais instruídas tem a informação necessária para fazer uma escolha consciente; essas continuam a consumir apenas comida fatiada por profissionais devidamente formados e credenciados. Para a imensa maioria, a nova lei significou a lei da selva: exposição elevada a riscos sob o pretexto de que cada um faz o que quer.

Com a nossa vida e a vida dos nossos filhos em risco, é hora de repensar a tirania anárquica a que temos nos submetido. Faca dentro de casa, não! Os dados mostram que os riscos e os custos em muito superam os ganhos de uma liberdade de escolha fictícia e desinformada. 

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Fonte: Instituto Ludwig von Mises Brasil