Por que tanto medo de dizer a verdade como ela é?

Eu tenho ganas de esganar estes frescos que se apresentam como jornalistas mas não conseguem dar uma única notícia como ela realmente é.

Tenha santa paciência, quem a estas alturas do campeonato – a não ser os criminosos e criminófilos que o apoiam – ainda pode chamar Nicolás Maduro de “presidente” ao invés do que ele realmente é, ou seja, ditador, tirano e criminoso?

Que palhaçada é essa de “respeitar o cargo” de alguém que obviamente não respeita o cargo? Que inversão de valores cretina é essa de evitar chamar um óbvio criminoso de criminoso? Precisam todos de mil fru-frus e trique-triques para dizer obliquamente aquilo que está escancarado para qualquer um ver? De onde vem tanta covardia? Estão todos com receio de ofender quem não tem receio de mentir, violar a lei, matar o povo de fome, armar milícias para cometer assassinatos e dominar um país através do terror?

Será que não tem mais um único Homem no jornalismo? Que o “politicamente correto” dos pervertidos transformou a todos em vermes incapazes de opinar com firmeza e efetividade? Que estão tão confusos ou se tornaram tão depravados que não sabem mais distinguir “neutralidade entre o partido A e o partido B” de “neutralidade perante a lei e o crime”? Que maldita porcaria está se passando na cabeça desta gente que não são mais capazes de diferenciar entre “ter opinião diferente” e “cometer crimes”?

Nicolás Maduro não é “o presidente da Venezuela”, é um golpista, um canalha, um criminoso, um assassino, um ditador, um tirano. Não é difícil ver o óbvio, não é difícil dizer aquilo que todos que estão minimamente informados sabem, não é difícil saber que a verdade precisa ser dita claramente e não mascarada.

A imprensa brasileira presta um desserviço imenso à democracia e ao entendimento do mundo por parte de nosso povo ao sonegar a informação clara e objetiva sobre a quadrilha criminosa que domina a Venezuela através da mentira, da usurpação institucional, da violência e do terror. E este é apenas um exemplo grave entre muitos outros que demonstram a existência de um padrão de péssimo jornalismo que precisa ser modificado.

Parem de maquiar a realidade usando um vocabulário que não representa a verdade, jornalistas! Abandonem a novilíngua. Rasguem essa cartilha pervertida. Parem de ser frescos e de colaborar com o mal através dessa omissão abjeta de qualquer posicionamento moral. Não sejam poltrões. Informem a verdade como ela de fato é, com honestidade intelectual, com coragem e com clareza!

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 31/07/2017

Acabar com a corrupção é fácil

Uma associação de pessoas que se dedica a práticas ilegais é uma organização criminosa. Organizações criminosas não devem ter autorização do Estado para funcionar. Portanto, que se casse todos os mandatos e se suspenda o registro naquela unidade administrativa de qualquer partido que tiver eleito pelo menos um candidato que venha a ser condenado por qualquer crime de corrupção, desvio de verba, recebimento de propina, tráfico de influência, caixa 2, etc…

Não, não é uma “punição excessiva”. Não me venha com esse papo de defensor de bandido e da corrupção. Quem defende penas que não servem para coibir os ilícitos na prática está defendendo a prática dos ilícitos. E não estou falando de “penas maiores para bandidos cruéis”, não. Estou falando de quaisquer penas em quaisquer situações. Como a falta no futebol, por exemplo.

A falta no futebol praticamente não é um ilícito a evitar, virou uma estratégia de jogo. Se o time adversário está em uma boa situação para dar início a um ataque perigoso em que não é clara a chance de gol, pode valer a pena fazer uma falta e dar tempo para seu time recuar. Não precisa nem tentar partir a perna do centroavante, basta um empurrãozinho que desequilibra. É suficiente para o ilícito valer a pena.

Em outras situações, a falta não é uma boa opção. Dentro da grande área, por exemplo. Neste caso, a falta recebe um nome diferente, “pênalti”, e um pênalti é uma punição bem mais eficaz para coibir o comportamento ilícito. Adivinhe o que aconteceria se toda falta fosse pênalti, independentemente de ser feita dentro ou fora da grande área? Quase não haveria faltas.

A corrupção hoje é punida como a falta, se é que é punida. A punição não é eficaz para coibir o ilícito. O candidato pode até perder os direitos políticos por oito anos, mas todo partido tem muitos outros corruptos para substituir o condenado e continua tendo muitos incentivos para praticar os mais variados ilícitos. É como se o sujeito que cometeu a falta dentro da grande área simplesmente tivesse que ser substituído, sem que o pênalti fosse marcado. Pode até ser benéfico para a equipe dele.

Para que a punição à corrupção seja eficaz e coíba de fato os ilícitos, o partido não pode ficar impune. E tem que sofrer uma punição pesada, que o prejudique muito no “campeonato”, para que nem sequer pense na possibilidade de praticar ou ser tolerante com a corrupção. É o partido que tem que fiscalizar furiosamente a licitude de todas as suas atividades, não o Estado.

Quando o time cai para a segunda divisão ou o partido fica suspenso e impedido de concorrer por uma única eleição que seja, perdendo todas as vagas na unidade administrativa em questão (município, estado ou união), cada vereador, cada deputado, cada senador, cada prefeito, cada governador, cada assessor parlamentar, cada secretário ou presidente de autarquia ou fundação, cada funcionário, cada cri-cri de diretório e cada filiado realmente interessado se torna um fiscal em potencial. Com uma fiscalização assim não dá para arriscar.

Digamos que o PQP tenha eleito o prefeito e cinco dos nove vereadores do município de Pindoramópolis. Seis meses depois, o vereador Zé da Pinga espinafra sua secretária e é denunciado por um esquema de venda subfaturada de cachaça para financiamento do caixa 2 de sua campanha eleitoral. As acusações são corroboradas pelos bêbados da cidade, o Ministério Público investiga, denuncia, o vereador Zé da Pinga é condenado por corrupção. Recorre, é condenado de novo em segunda instância. Tudo isso em menos de um ano, claro, afinal o Judiciário tem que ser ágil, porque a justiça falha porque tarda. E agora?

Agora o Zé da Pinga, o prefeito e os outros quatro vereadores têm seus mandatos cassados, o Zé da Pinga tem seus direitos políticos suspensos por oito anos a contar do final de seu mandato e devido à condenação do Zé da Pinga por corrupção o PQP tem seu registro suspenso em Pindoramópolis do momento da condenação até dois anos e meio após a próxima eleição municipal, o que significa que não elegerá ninguém nem poderá se reorganizar legalmente naquele município neste prazo. Isso e multa, claro.

Não proponho a extensão penal da condenação por corrupção aos demais filiados, apenas a eleitoral. Perceba que não proponho a suspensão dos direitos políticos dos outros eleitos. O jogador de futebol que comete uma falta maldosa dentro da grande área é expulso, seu time é punido com o pênalti, mas ninguém propõe dar cartão vermelho para os demais jogadores. Depois que eles levarem o gol, perderem o jogo e caírem para a segunda divisão, podem até voltar se jogarem bem.

No caso dos partidos políticos, “jogar bem” tem que ser definido tanto pela habilidade política quanto pela licitude de suas atividades. A reincidência no mesmo ilícito ou em qualquer outra forma de corrupção deve punir o partido com maior intensidade do que a primeira infração. Por exemplo, a multa pode dobrar a cada reincidência e o registro pode ser suspenso na instância imediatamente superior (no estado, se a condenação foi de um vereador ou prefeito; na união, se a condenação foi de um deputado estadual ou governador) caso a multa não seja paga até as próximas eleições.

Agora escreva para seu deputado federal ou senador sugerindo isso e observe pela reação dele se ele quer ou não combater a corrupção, moralizar a política, punir os criminosos e abrir caminho para que os honestos dominem a política daqui em diante. Só não se decepcione se ele não responder, ou se disser que sua proposta constitui uma “punição excessiva”… 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 18/12/2016

Metatolerância: teoria e prática

Metatolerância é o exercício coerente e consequente da tolerância para com a tolerância e da intolerância para com a intolerância, em busca de um mundo mais tolerante, saudável e harmônico. Sua prática requer discernimento, coragem e honestidade intelectual, mas sobretudo firmeza e implacabilidade, porque os intolerantes as possuem de sobra e os tolerantes não as possuem em suficiência.

METATOLERÂNCIA

Desde quando formulei o conceito de metatolerância, eu sabia que ele era simples, mas não era fácil. Custei para perceber o motivo, porém. Foram necessários cerca de 28 meses para que eu me desse conta de que para um intolerante é fácil fingir tolerância para com os tolerantes até o momento em que estrategicamente lhe seja benéfico abandonar o fingimento, mas para um tolerante é muito difícil exercer a intolerância contra os intolerantes a qualquer momento. Nos dois últimos dias, entretanto, caiu a ficha. Contarei o que houve. 

Anteontem um amigo (agora ex-amigo) teve um surto de estupidez fascista no Facebook. Estava lá vociferando que manifestações pacíficas eram inúteis para modificar o status quo, que era necessário apelar para a desestabilização e até para a violência, etc. Quando eu vi aquilo, dito de maneira histérica e ridícula, eu caí na risada e entrei na discussão para zoar com o sujeito. Não me incomodei em nada, porque não tinha o menor respeito pelas bobagens que ele estava dizendo.

Ontem, depois de ele me ofender, me ameaçar de espancamento, empalamento em praça pública e sei lá mais o que, eu percebi que tudo aquilo era realmente a sério – ou, se não era, a brincadeira estava longe demais. A discussão desde sempre foi uma baixaria, com troca de ofensas de ambos os lados, mas até então eu estava levando na brincadeira e achando graça. Afinal, tudo o que ele dizia era tão estapafúrdio, tão cheio de clichês esquerdistas abjetos e absurdos, que eu não tinha como levar a sério. Para mim era só uma guerra de torta. Naquele momento, entretanto, eu percebi que tinha tomado a intolerância dele por deboche, caiu a ficha do quanto ele estava perturbado e avisei o sujeito: “cara, tu estás doente”. Obviamente, foi inútil.

Hoje a coisa continuou e o cara continuou a lançar ataques pessoais. Eu respondi mantendo o foco na situação do Brasil, que foi roubado e falido pelo partido dele. Citei as condenações por corrupção e as imensas cifras já recuperadas, coisa que seria impossível caso não tivesse havido a corrupção e o roubo. A resposta dele invariavelmente foi me chamar de coxinha, idiota, palhaço, dizer que amigos meus falam de mim pelas costas (defeito meu ou deles?), que eu não entendo nada de antropologia, sociologia e história (leitores antigos rindo neste momento) e que Stalin matou foi pouco.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

O interessante é que também na tarde de hoje já havia acontecido outro episódio em que eu bloqueei alguém com quem estava discutindo sobre política na página de um amigo em comum. Sabem aquele sujeito que, desde o primeiro momento em que a gente lê, a gente percebe que vai ter que aturar um chato de galochas com blá-blá-blá pernóstico, pedante, citando pensadores como se fossem autoridade científica e nos acusando de falácia ao mesmo tempo? Pois bem, eu respirei fundo e encarei. O problema é que a cada postagem ele lançava uma farpa pessoal. E, lá pelas tantas, o cara me chamou de comunista.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

Foi a partir deste duplo bloqueio de hoje que eu percebi qual é a maior dificuldade do exercício da metatolerância: para uma pessoa tolerante e com convicções éticas, é muito difícil ser devidamente intolerante com os intolerantes porque guardamos respeito por todo ser humano até um limite que ultrapassa muito o razoável. O sujeito mostra uma vez que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra duas vezes que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra dez vezes que é intolerante, a gente releva. Na centésima vez que o sujeito mostra que é intolerante, finalmente a ficha cai, a gente não releva, reage… E o intolerante nos acusa de intolerância! E nós nos sentimos mal por isso!

A chave do exercício da metatolerância é perder o respeito por quem mostra que não merece respeito.

Uma vez que eu perdi o respeito por ambos estes interlocutores, um intolerante de esquerda e um intolerante de direita, eu simplesmente não senti qualquer constrangimento por bloquear os dois sem avisar ou sem dar qualquer explicação. No caso do que eu não conhecia, eu não tive paciência para explicar nada. No caso do que era meu amigo, eu até pensei em escrever algo, eu até esperei alguns segundos porque ele estava escrevendo alguma coisa, mas logo me dei conta de que seria bobagem. Seria fraqueza. Eu estaria me preocupando com os sentimentos de alguém que já havia ameaçado me agredir e que dizia que eu tinha que ser empalado em praça pública. Ridículo. Gente como estes dois caras não merece nem minha compaixão, nem minha raiva, só merece meu desprezo. E foi isso que eu dei a eles, deletando-os do meu universo sem remorso.

O engraçado ou tragicômico nisso tudo é que eu vivo aconselhando que “quando uma pessoa te mostrar aquilo que ela realmente é, acredita logo na primeira vez”, mas tenho uma certa dificuldade para fazer isso de primeira, muito por medo de haver algum mal entendido. Isso e um certo sentimentalismo têm feito com que eu seja tolerante demais com os intolerantes, o que não é bom. Tolerar os intolerantes os fortalece, permite por mais tempo que eles espalhem seu veneno, gerem mal estar e promovam o embrutecimento de que gostam e no qual prosperam.

Pelo bem tanto de nossa saúde emocional como de nossa segurança social, precisamos ser mais metatolerantes: tolerar os tolerantes e não tolerar os intolerantes. Mesmo. E isso fica muito mais fácil quando entendemos que perder o respeito por alguém não significa que temos que desrespeitar este alguém e sim que não temos que respeitar este alguém. Por exemplo, deletando a pessoa de nosso universo, para que não tenhamos que lidar com sua toxicidade, ou seu vampirismo emocional. Por exemplo, não nos preocupando com o que ela pode dizer de nós após a deletarmos de nossa vida. Por exemplo, sendo mais saudável e mais feliz na total ausência dela, ou mesmo de sua lembrança.

A partir de hoje, estarei bem mais tranquilo e à vontade para ser implacável no exercício da metatolerância.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/12/2016

Como conciliar o serviço público com uma posição política forte?

Pois houve quem me perguntasse: “Arthur, todo mundo conhece a tua posição política e a intensidade com que a expressas. Tu és um técnico do estado que atende diversos municípios na tua atividade profissional. Como é isso de atender um município que é administrado por um partido sobre o qual tu tens uma opinião muito negativa?” Uma ótima pergunta.

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A resposta é muito mais simples e objetiva do que você pode imaginar: eu não estou nem aí para qual é o partido do gestor com quem eu tenho que lidar. Não me faz a menor diferença se eu estou lidando com o partido que eu mais critico ou com o que eu menos critico, com o partido que está mais distante da minha ideologia pessoal ou com o que está mais próximo. E isso vale tanto para o partido do gestor do estado do qual sou funcionário quanto para o partido do gestor do município que eu devo atender.

Eu não sou funcionário desta administração ou daquela administração. Eu sou funcionário da administração. O gestor do estado não é o meu patrão, é o gerente escolhido pelo meu patrão para administrar temporariamente o estado. E o gestor do município que eu atendo não é o dono do município, é o gerente escolhido pelos donos do município. Nosso objetivo é trabalhar para promover o melhor interesse dos nossos patrões, não importa nossa opinião um sobre o outro. Quem não sabe agir assim não deveria ser nem gestor, nem funcionário público.

Se o meu relacionamento com o gestor municipal puder ser amigável, ótimo! É melhor para mim, é melhor para ele, é melhor para o desenvolvimento de nossas atividades e é melhor para os nossos patrões, o povo do estado e o povo do município. Se o gestor não pensar assim, então ele terá de mim apenas o melhor atendimento profissional possível, que é o mínimo exigível de um funcionário público, e minha boa vontade, que é um brinde que eu ofereço até mesmo para o gestor que eu mais critico no mundo. Por que isso? Porque eu sou um cara legal, ora! 🙂

Como profissional, não me cabe fazer um serviço mal feito, não me cabe ser negligente, não me cabe ser irresponsável, não me cabe fazer corpo mole, não me cabe questionar a escolha soberana do meu patrão, o povo, que escolheu este ou aquele gestor para executar esta ou aquela política. O que me cabe é atuar dentro da lei, da ética e da melhor técnica disponível.

Como cidadão é claro que eu posso criticar as escolhas dos demais cidadãos e botar a boca no trombone – mas não em horário de expediente, nem fazendo uso de qualquer recurso oficial. Isso eu faço no meu blog, no meu Facebook, no meu Twitter pessoal, no meu e-mail pessoal, no meu tempo livre. E em relação a isso não cabe reclamação alguma de quem eu atendo profissionalmente.

É claro que não há uma separação entre o profissional e o cidadão, eu sou ambos o tempo todo, mas deve haver ética, bom senso, coerência e cuidado com a qualidade na realização de qualquer atividade profissional, neste ou naquele momento, neste ou naquele contexto. E eu posso garantir a vocês: não é difícil. Eu, pelo menos, não tenho o menor problema com isso, nem nunca tive, mesmo quando estive sob as ordens de um gestor francamente hostil. O gestor passa, minha consciência fica.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 21/10/2016

Política meritocrática e democracia negativa

Entre todas as propostas de reforma política possíveis para o Brasil, há uma que eu considero que seria a mais produtiva, eficaz e indolor para a nossa realidade. Não vai acontecer, porque mudaria completamente o perfil dos políticos eleitos e portanto os atuais políticos jamais aprovariam esta proposta, mas vou descrevê-la para nos divertirmos com o debate.

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A coisa toda é extremamente simples. Seriam necessárias apenas duas pequenas mudanças na legislação e toda a dinâmica política do país seria alterada profundamente em um intenso efeito borboleta.

Filtros meritocráticos

Haveria dois filtros distintos, um filtro fraco para o Poder Legislativo e um filtro forte para o poder Executivo.

O filtro do Poder Legislativo seria meramente um filtro de experiência: todo interessado em construir uma carreira política teria que começar como vereador. Para poder disputar um mandato de deputado estadual, teria que ter concluído no mínimo um mandato de vereador primeiro. Para poder disputar um mandato de deputado federal, teria que ter concluído no mínimo um mandato de deputado estadual primeiro. E, para poder disputar um mandato de senador, teria que ter concluído no mínimo um mandato como deputado federal E um mandato como prefeito de uma cidade com segundo turno ou dois mandatos quaisquer no poder executivo.

O filtro do Poder Executivo seria um filtro mais meritocrático: todo interessado em concorrer a um mandato de prefeito teria que ter concluído no mínimo um mandato como vereador. Para poder concorrer a um mandato de governador, teria que se destacar como um dos 10% melhores prefeitos de seu estado no último mandato de prefeitos (sendo garantida a participação dos três melhores prefeitos de cada estado no caso dos estados com menos de trinta municípios). E, para concorrer a um mandato de presidente da República, teria que se destacar como um dos cinco melhores governadores no último mandato de governadores.

Como definiríamos quem são os 10% melhores prefeitos e os 5 melhores governadores? Com critérios objetivos implacáveis. Teria que ser construído um índice numérico, como por exemplo o crescimento relativo da média harmônica dos índices normalizados dos indicadores de saúde, educação, moradia, saneamento, transporte e segurança dos municípios de duas categorias, com e sem segundo turno, sendo garantidos 5% das vagas para cada categoria. Ou algum outro critério igualmente mensurável e auditável, segundo os interesses do país. O índice também poderia ser aprimorado ao longo do tempo, conforme as necessidades do país mudem. O fundamental é que o índice seja igual para todos os prefeitos e governadores do país.

Pareceu complicado? Não é: concorreria a um cargo mais alto no Poder Legislativo só quem já tivesse experiência e no Poder Executivo só quem já tivesse demonstrado ter a mais alta competência administrativa comparada com seus pares. Entre os qualificados, o povo continuaria a ter ampla liberdade de escolha. O método apenas reduziria o ímpeto dos aventureiros puxadores de voto nas eleições proporcionais e tiraria do caminho os populistas mais convincentes porém menos capazes nas eleições majoritárias.

Democracia negativa

Esta parte é ainda mais simples: todo membro do Poder Executivo pode ser deposto a qualquer momento pela maioria absoluta (50% + 1) de qualquer casa parlamentar da mesma esfera, ou por recall obrigatório realizado de dois em dois anos juntamente com as eleições ordinárias, pelo simples motivo de “insatisfação”, obviamente sem perda de direitos políticos neste caso. Se o Brasil tivesse esta regra, o estelionato eleitoral praticado nas eleições de 2014 teria feito com que a candidata reeleita nem sequer assumisse o segundo mandato, tendo sido deposta duas semanas após as eleições. O Brasil teria sido poupado do sangramento de muitos bilhões de dólares e já estaria em franca recuperação.

Uma alternativa extra de democracia negativa seria a possibilidade de a população civil exigir um recall com um número razoável de assinaturas, nem tão baixo que tivéssemos um recall a cada seis meses, nem tão alto que fosse necessário a coordenação de um movimento político de escala nacional e um ano de coleta de assinaturas para conseguir chamar o recall.

Obviamente, os parlamentos não precisariam e não deveriam ter limites de tempo para chamar votações para depor o chefe do Poder Executivo: uma votação destas poderia ocorrer até mesmo diariamente e demoraria só um minuto, não seria nada que atrapalhasse a rotina dos parlamentos. Para não haver surpresas a la Brexit, tudo o que seria necessário seria exigir a validação da deposição numa segunda votação após uma semana de debates.

Observe que em qualquer dos casos pode haver um período de debates prévio mas não é necessário haver um fato jurídico para a deposição do chefe do Poder Executivo. Basta a insatisfação da maioria absoluta (50% + 1) de uma casa parlamentar ou da população.

Simplicidade e praticidade

Esta proposta poderia ser implementada com uma única lei com meia dúzia de artigos, sem alterar absolutamente mais nada na legislação nacional, na estrutura dos partidos, no funcionamento ou no relacionamento entre os Poderes da União, enfim, sem trauma algum. Só daria trabalho definir o índice numérico para filtrar as candidaturas ao Poder Executivo. A fiscalização e auditoria do índice seria livre para os partidos políticos e para a sociedade civil organizada, o que significa que partidos, sindicatos e federações de indústria e comércio fiscalizariam e auditariam vorazmente cada detalhe, garantindo o bom funcionamento do sistema e impulsionando uma disputa verdadeiramente meritocrática que catapultaria a política brasileira a um patamar de qualidade inédito.

Como eu disse no início, não vai acontecer, mas eu escrevi o artigo porque acho que será divertido debater a idéia.

Opine.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 09/07/2016

Demitido por questionar ideologia esquerdista no Facebook

Segundo a Zero Hora: “O ilustrador Allan Goldman, que já desenhou histórias do Superman para a DC Comics, foi afastado da Chiaroscuro Studios, estúdio através do qual prestava serviços para editoras norte-americanas, após publicar um comentário sobre a jovem de 16 anos que foi estuprada no Rio de Janeiro em sua página pessoal no Facebook. No post, o ilustrador questionava a possibilidade da aplicação do que chamou “ideologia de gênero” no caso.

2002-2007 Dionisio Codama Sao Paulo, Brasil http://aimore.net http://aimore.org

O que o cara disse foi exatamente o seguinte:

“O que acontece se os 30 estupradores da menina alegaram que são mulheres?

Segundo a ideologia de gênero dos esquerdistas, uma pessoa é o que sente, e sua biologia não importa. A sociedade é obrigada a aceitar essa decisão, senão é fascismo!

Como a justiça irá julgar o caso de uma mulher que foi violentada por 30 outras mulheres?” 

Ou seja: o cara não falou que houve ou que não houve um estupro, não duvidou da palavra da vítima, não disse que a vítima é culpada pelo estupro, na verdade ele nem sequer falou do estupro!

O que ele fez foi, no contexto da discussão deste caso, questionar a ideologia de gênero da esquerda e dizer que seria um absurdo se os trinta estupradores se declarassem mulheres. Foi por isso que ele foi demitido.

Obviamente, a nota que os esquerdistas lançaram no Facebook para justificar a demissão do artista fez parecer que o sujeito estava atacando as mulheres, banalizando a violência, dando suporte à “cultura de estupro” e negando outros blá-blá-blás esquerdistas: 

“Aos nossos fãs e amigos,

O mais recente caso de violência contra a mulher nos encheu de tristeza e indignação.

Cabe a nós defender, valorizar e apoiar as mulheres, a comunidade LGBT e todas as minorias e causas que representam uma luta pela justiça, liberdade e igualdade, que entendemos como questões que são mais profundas que a simples polarização política.

A apologia e banalização da violência e da discriminação não cabem mais na sociedade e tampouco em nossa empresa.

Por esse motivo e à luz dos recentes acontecimentos que acabam de chegar ao nosso conhecimento, decidimos encerrar o relacionamento com artistas não alinhados com valores que, para nós, são absolutamente inegociáveis.

#NãoÀCulturaDoEstupro e que nossa sociedade seja cada vez mais justa, igualitária e inclusiva.

Direção e artistas da Chiaroscuro Studios”

O que tem essa a nota a ver com o que o artista demitido disse? NADA.

Ele questionou a ideologia de gênero.

A editora falou claramente que decidiu demitir os artistas não alinhados com sua ideologia.

O que fica absolutamente evidente pela leitura da declaração do Allan Goldman e da nota da Chiaroscuro Studios é que a verdadeira razão da demissão foi, sim, “a simples polarização política”. 

Este artigo foi escrito para deixar isso bem claro: a esquerda não somente tem o menor problema de demitir uma pessoa e deixá-la sem sustento apenas porque ela discorda das ideologias da esquerda como considera isso uma justificativa tão aceitável que manifesta publicamente esta posição. E, obviamente, centenas de esquerdistas comentaram a nota da editora dando seu apoio.

Eis alguns exemplos de comentários de internautas:

“Ninguém censurou nada, bando de bolsomínion lixo. A empresa é privada e ela contrata quem ela quiser, engulam o choro.”

“Parabéns a Chiaroscuro! liberdade de expressão não é liberdade de ofensa e de racismo, machismo e homofobia. Não confundam. O Brasil foi o último país a acabar com a escravidão, a aprovar o casamento gay, a aprovar o divórcio. E os mesmos que ontem reivindicavam o direito de escravizar homens, de estuprar mulheres e de punir homossexuais hoje reivindicam a liberdade de expressão como se fosse liberdade de fazer o que der na telha. O século XXI chegou! já era hora! Seja muito bem-vindo!”

“Gostaria de dizer que essa decisão foi muito sóbria da parte de vocês. Espero que essa postura sirva como exemplo para pessoas que, como esse rapaz, não se dão conta de que esse tipo de comentário e postura compactua sim com uma cultura que mata muitas pessoas ainda hoje. Sendo assim, fico feliz em ver que se posicionaram a favor da inclusão e igualdade, e contra a toda essa violência. Muito bom!”

“Parabens à empresa. Existem coisas com as quais não da mesmo para ter tolerância. Liberdade de expressão só vai até onde começam a estuprar, matar, humilhar.”

“Parabéns! Importantíssimo lutar contra a cultura do estupro.”

“Parabéns! Vcs arrasaram na decisão!!!!!”

“Parabéns!Ganharam um admirador!”

“Apoio incondicionalmente a decisão de vocês! Nem super herói suporta fascistas. Aliás, eles lutam contra fascistas!”

“Parabéns pela posição contundente e pela decisão corajosa! Machista, facistas, não passarão!!!”

Para os esquerdistas, ideologia é motivo justo e suficiente para demissão. 

Muito obrigado por me ensinarem isso tão claramente, esquerdistas. Eu gostei especialmente daquela que disse “Ninguém censurou nada, bando de bolsomínion lixo. A empresa é privada e ela contrata quem ela quiser, engulam o choro.” Vou me lembrar disso quando abrir minha empresa. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 29/05/2016 

E o zoológico virou zona

Postei hoje no Twitter:”Prezado presidente @MichelTemer: que o sr. não presta eu já sabia, por ter sido vice do PT. Mas que era BURRO eu descobri hoje. Lamentável.” Gente, pelo Amor de Deus, como é que o Brasil ainda está em pé depois de ter sido presidido pela jararaca, pela anta e pelo burro? 

Jararaca Anta Burro

Era para ser um longo artigo, mas eu deletei tudo o que escrevi. Decidi fazer apenas o registro abaixo:

Eu esperava por um milagre, mas não espero mais. Eu esperava que, apesar de ter sido vice da anta parida pela jararaca, o burro pudesse nos surpreender e se revelar um estadista. Entretanto, Temer sabia que seu governo seria alvo do mais intenso escrutínio e das mais intensas sabotagens e traições e mesmo assim montou um ministério com vários tubarões investigados e com o rabo preso. Graças a esta quadrupedice monumental, mais um traíra soltou uma gravação e agora assistimos a porcosfera pogressista (sic) cacarejando crocodilagem aos urros e bramidos e corremos o risco real de ver a anta voltar e nomear a jararaca ministro.

É dose pra mamute.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 23/05/2016

A revolta dos que não estão nem aí

Hoje recebi pelo Facebook o compartilhamento de uma reportagem da Folha de São Paulo tão absurdamente falaciosa e abjeta que conseguiu me tirar do sério. Vamos à reportagem, depois eu volto com a segunda versão do meu artigo, já que a primeira, escrita pelo meu fígado, é impublicável.

Etanolamina

Decisão da Justiça abre precedente para charlatanismo na medicina

CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO

É compreensível que doentes terminais de câncer recorram a promessas milagrosas de cura, mas é temerário quando o órgão máximo do Poder Judiciário brasileiro endosse essa busca insana e obrigue o Estado a fornecer tais “poções mágicas”.

O caso em questão é a decisão do ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), em liberar o fornecimento da fosfoetanolamina sintética, substância produzida experimentalmente na USP, mas que nunca passou por testes clínicos e muito menos tem o aval da agência reguladora (Anvisa).

A decisão foi acatada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que antes havia suspendido liminares que autorizavam a entrega da substância. Uma das justificativas do desembargador José Renato Nalini é a de que “não se pode ignorar os relatos de pacientes que apontam melhora no quadro clínico.”

Vamos então liberar tudo o que as pessoas relatam como substâncias capazes de curar o câncer? O cogumelo do sol? O bicarbonato de sódio? O suco de babosa? A folha de graviola?

Vamos rasgar os manuais de ética em pesquisa, passar por cima de todas etapas que envolvem o desenvolvimento, a aprovação e a comercialização de um novo medicamento? Vamos fechar as agências regulatórias?

Do ponto de vista jurídico, o caso tem uma contraposição de princípios fundamentais, como bem lembrou Nalini: de um lado está o resguardo da legalidade e da segurança dos remédios, do outro a necessidade de proteção do direito à saúde.

Em relação à fosfoetanolamina, prevaleceu o direito de o paciente ter acesso a uma substância sem respaldo algum da medicina baseada em evidência. Abriu-se aí um perigoso precedente para o charlatanismo.

Estima-se que a quantia de dinheiro gasto no mundo só com o charlatanismo oncológico passe de US$ 1 bilhão.

O desejo de cura para o câncer leva muitas pessoas a procurarem tratamentos não convencionais, a retardarem ou até desistirem dos tratamentos convencionais.

Foi o que ocorreu com o empresário Steve Jobs, fundador da Apple, que retardou a cirurgia do câncer de pâncreas para aderir a um tratamento com ervas, o que teria agravado o seu quadro.

Estimativa da ASCO (American Society of Clinical Oncology) mostra que cerca de 80% dos pacientes com câncer recorrem a tratamentos alternativos. A sociedade é enfática: não há nenhum indício de que esses tratamentos contribuam para a regressão ou a cura do câncer.

Além de não contribuir para a melhora, terapias alternativas podem interferir nos resultados das terapias-padrão. Muitas dessas substâncias são metabolizadas no fígado e podem alterar a absorção de quimioterápicos, sua eficácia e a eliminação.

É verdade que há compostos com atividades antitumorais bem demonstradas em laboratório, mas existe um longo caminho para serem usados na prática clínica.

São necessários testes laboratoriais e em humanos, com diferentes tipos de tumores e cenários clínicos controlados. E os resultados comparados aos de drogas existentes. Caso sejam mais eficientes, o laboratório pede o registro às agências reguladoras. Nada disso foi feito no caso da fosfoetanolamina.

O oncologista Drauzio Varella costuma dizer: “Se um dia você ouvir que foi encontrada a cura do câncer, não leve a sério”. O problema é quando a Justiça o leva.

Fonte: Folha de São Paulo.

AGL

Voltei. Com “ASCO”, mas voltei.

A reportagem é uma peça abjeta de hipocrisia e sensacionalismo barato.

Primeiro porque esta decisão da justiça não é uma súmula vinculante. É uma decisão exatamente do tipo que se espera que a justiça profira, atuando em um momento de dúvida e impasse para garantir um bem maior – a saúde dos pacientes, que relatavam em uníssono uma melhora significativa com a utilização da fosfoetanolamina – em detrimento de um bem menor – a burocracia emperrada que não se importa se pessoas que estavam alegando melhoras sensíveis vão voltar a desenvolver uma doença que causa grande sofrimento e em geral péssimos desfechos.

Segundo porque a reportagem desrespeita e procura deslegitimar os depoimentos dos principais interessados na questão, tratando os pacientes como imbecis iludidos por uma pajelança ao invés de tratá-os como pessoas que já experimentaram a substância e relatam efeitos impossíveis de serem obtidos por efeito placebo ou qualquer tipo de wishful thinking. Um dos relatos é de uma senhora desenganada, em estado terminal, incapacitada, totalmente dependente de cuidados, que precisava tomar morfina de três em três horas, e com o uso da fosfoetanolamina voltou a ter autonomia para banhar-se, trocar de roupa e cozinhar sozinha e ficou nove dias sem tomar morfina sem sentir dor. Se este relato for verdadeiro, esta reportagem é criminosa. Se for falso, é apenas péssimo jornalismo, porque um relato assim excepcional jamais poderia deixar de ser verificado.

Terceiro porque o que mais tem por aí é charlatanismo, legal ou ilegal, e eu não vejo os mesmos atores que estão reclamando disso se pronunciarem contra as picaretagens. Homeopatia é água suja sem princípio ativo nenhum, tudo que um homeopata faz é manipular o efeito placebo, e no entanto é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina como especialidade médica e consumida avidamente por milhões de iludidos que a defendem com unhas e dentes porque se sentem bem – mas muita gente deixa de procurar tratamentos solidamente fundamentados em ciência de boa qualidade e tem doenças agravadas porque confia na homeopatia. Diabetes tipo 2 é totalmente curável com uma dieta de baixíssimo carboidrato, e no entanto os endocrinologistas e nutricionistas recomendam uma alimentação com 60% das calorias vindas de carboidratos e até mesmo o uso de insulina, algo que o diabético tipo 2 já tem em excesso no corpo e que causa inúmeros danos metabólicos nas altas concentrações necessárias para reduzir a glicemia se não for adotada uma dieta de baixíssimo carboidrato. Cadê as manifestações de indignação contra estes absurdos que causam milhões de vítimas por parte dos mesmos que estão esbravejando por causa da garantia de fornecimento da etanolamina a um punhado de pacientes desesperados, muitos deles terminais?

Há muito mais gente defendendo os interesses dos laboratórios em ter a propriedade da patente da fosfoetanolamina “para não correr riscos financeiros de investir no desenvolvimento do medicamento e depois não recuperar seu investimento” ou o “correto segimento dos protocolos” do que gente defendendo aguerridamente a saúde dos pacientes.

Eu vejo pedidos de liminares dos pacientes desesperados para obter a substância que os está fazendo recuperar a saúde e pedidos de liminares de quem não quer mais fornecer a substância independentemente do que os pacientes estejam dizendo.

Mas onde estão as propostas de instituições de pesquisa ou de laboratórios comerciais para realizarem estudos adequados o mais rápido possível, seja para que o impasse seja desfeito de uma vez e inúmeras vidas possam ser salvas, seja para que não haja mais falsas esperanças?

E onde estão as propostas de contratos decentes de licenciamento ao dono da patente, assumindo o compromisso de produzir da fosfoetanolamina em larga escala se a substância demonstrar ter de fato propriedades terapêuticas, para acabar logo com o impasse e salvar vidas?

Tudo o que vejo é a defesa de todo o tipo de interesse menos a mitigação do sofrimento e a possível cura dos doentes.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 16/10/2015

Aos servidores públicos estaduais do Rio Grande do Sul

Eu sou servidor público estadual do poder executivo no Rio Grande do Sul. Assim como todos os demais colegas, fiquei muito preocupado com a notícia de que nosso salário será novamente pago de modo parcelado, desta vez trazendo incertezas ainda maiores que as do mês passado. Isso me trará imensas dificuldades. Mesmo assim, eu não vou fazer greve. Parar de trabalhar neste momento só vai piorar a nossa situação.

Greve a vista

Eu acabo de sair de um período de dois anos de “licença para tratamento de interesses particulares”, que, como todos os colegas sabem, é uma licença não remunerada. Tirei esta licença por motivo de saúde – eu estava tão doente e tão estressado que não tinha mais condições emocionais nem sequer para enfrentar um processo administrativo para tirar uma licença-saúde.

Voltei ao trabalho ainda doente e atolado em dívidas. Passei por uma mudança para outro município. Precisei gastar muito com a saúde e com a mudança e não consegui me reequilibrar financeiramente ainda, embora esteja vivendo de modo espartano.

Para piorar a situação, a pessoa que ia me alugar uma casa não cumpriu sua palavra, eu estou morando provisoriamente em uma pousada cujos preços vão disparar no verão e não disponho de reservas para a caução de um aluguel. Se eu não receber meu salário integral, dentro de dois meses eu estarei em um município onde não conheço ninguém e não terei nem onde morar, nem onde colocar meus pertences. Portanto, eu sei muito bem o que representa contar com um dinheiro que deveria ser certo e não recebê-lo.

Apesar de todas as dificuldades por que vou passar se meu salário atrasar, eu não vou parar de trabalhar nem para protestar contra a lambança financeira que está me prejudicando, nem para pressionar por sua solução. E o motivo é muito simples: parar de trabalhar neste momento só vai piorar a nossa situação.

Pense um pouco.

Você acha que o governador Ivo Sartori não está a par da situação dos funcionários do executivo gaúcho? Ele está muito bem informado, você sabe. Ele não precisa ser informado novamente. Uma greve não servirá para este propósito.

Você acha que o governador não está tentando resolver esta situação? Ele está tentando, você sabe. Ele não precisa ser pressionado novamente. A cada dia que passa, a popularidade do governador desce e o descontentamento dos gaúchos sobe. Ele é um político, alguém que sabe que seu maior capital é sua popularidade. Ele já está lutando com todas as forças para tirar a corda do pescoço. Uma greve não fará com que ele se empenhe ainda mais em resolver o problema.

Você acha que o governador não tem consciência de que a última alternativa de que ele deveria lançar mão seria o parcelamento dos salários dos servidores? Ele tem consciência disso, você sabe. O funcionalismo representa um poder político-eleitoral de grande importância. O governador e o funcionalismo sabem que o governador e o funcionalismo sabem disso. Uma greve não fará com que surjam novas alternativas.

Então, para que serviria uma greve neste momento?

Só para duas coisas: prejudicar a população, reduzindo o acesso a serviços de que ela necessita tanto mais quanto maior a crise econômica, e piorar ainda mais a situação financeira do estado, tornando cada vem menos provável que nossos salários voltem a ser pagos em dia.

Protestemos. Vamos às ruas. Mostremos nosso descontentamento e nossa indignação com a situação do estado e do país. Cobremos do governo estadual o máximo empenho para manter nossos salários em dia. Cobremos do governo federal o não bloqueio de recursos do Rio Grande do Sul neste momento de crise. Mas sejamos conscientes e não prejudiquemos a população com paralisações e com a consequente imposição de dificuldades ainda maiores do que as que já teremos que enfrentar devido à crise política e econômica.

Que cada um de nós seja uma parte da solução, não do problema. Isso é cidadania.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 29/08/2015

Chamamento aos profissionais da saúde para um debate

Em O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan, consta a citação de um trecho traduzido de The ethics of belief, de William K. Clifford, que reproduzo (com algumas correções) logo abaixo. Leia com atenção. Depois eu volto. 

carl-sagan-o-mundo-assombrado-pelos-demonios

Um proprietário de navios estava prestes a mandar para o mar um navio de emigrantes. Ele sabia que o navio estava velho, e nem fora muito bem construído; que vira muitos mares e climas, e com frequência necessitara de reparos. Dúvidas de que possivelmente não estivesse em condiıes de navegar lhe haviam sido sugeridas. Essas dúvidas lhe oprimiam a mente e o deixavam infeliz. Ele chegou a pensar que o navio talvez tivesse de ser totalmente examinado e reequipado, ainda que isso lhe custasse grandes despesas.

No entanto, antes que a embarcação partisse, ele conseguiu superar essas reflexões melancólicas. Disse para si mesmo que o navio passara por muitas viagens e resistira a muitas tempestades em segurança, que era infundado supor que não voltaria a salvo também dessa viagem. Ele confiaria na Providência, que não podia deixar de proteger todas essas famílias infelizes que estavam abandonando a sua terra natal em busca de dias melhores em outro lugar. Tiraria de sua cabeça todas as suspeitas mesquinhas sobre a honestidade dos construtores e empreiteiros.

Dessa forma, ele adquiriu uma convicção sincera e confortável de que o seu navio era totalmente seguro e capaz de resistir às intempéries; assistiu sua partida de coração leve e cheio de votos bondosos para o sucesso dos exilados naquele que seria o seu estranho novo lar; e embolsou o dinheiro do seguro, quando o navio afundou no meio do oceano, sem contar histórias a ninguém.

O que devemos dizer desse homem? Sem dúvida, o seguinte: que ele foi de fato culpado da morte desses homens. Admite-se que ele acreditava sinceramente nas boas condições de seu navio; mas a sinceridade de sua convicção não o ajuda de modo algum, porque ele não tinha o direito de não acreditar na evidência que estava diante de si. Não adquirira a sua opinião conquistando-a honestamente pela investigação paciente, mas reprimindo as suas dúvidas…

William K. Clifford, The ethics of belief (1874)

AGL

Voltei.

Pergunto: o que se pode dizer de um profissional da saúde que tem em mãos o mesmo tipo de responsabilidade e poder de decisão que o dono do navio da história acima? Se houver a menor chance de que suas convicções estejam equivocadas – por exemplo, se houver alguém que alegue ter evidências de alto nível que provem que suas convicções estão equivocadas – terá o profissional da saúde o direito de não examinar as novas evidências ou de não acreditar nelas? Ou, agindo assim, ele se tornará de fato culpado por todo o sofrimento e por todo o desfecho negativo que vier a sofrer qualquer um de seus pacientes, por mais que ele confie sinceramente que está fazendo o melhor que pode? 

Respondo: pelos mesmos motivos pelos quais o dono daquele navio não tinha o direito de lançá-lo ao mar sem uma profunda e adequada verificação de seu estado, especialmente no caso de alguém o haver informado de um possível defeito ou mau funcionamento, eu penso que um profissional da saúde não tem o direito de não fazer constantemente uma verificação profunda e adequada na mais recente e qualificada informação publicada sobre seu ramo de atuação e muito menos de ignorar as evidências científicas de mais alto nível disponíveis. 

Dito isso… 

Eu afirmo que há evidências fortes de que as orientações nutricionais tradicionais, baseadas na pirâmide alimentar, estão erradas e causam malefícios à saúde humana. 

Eu afirmo que há evidências fortes de que uma dieta paleolítica de baixíssimo carboidrato é a orientação nutricional mais adequada para o tratamento da síndrome metabólica, da obesidade, da diabetes, da hipertensão, do risco cardíaco e de outras enfermidades como o TDAH, a depressão e o mal de Alzheimer, além de diversas outras condições crônico-degenerativas. 

Eu afirmo que as evidências que citei são de alta qualidade, que muitas delas estão amplamente disponíveis a custo zero e que eu estou disposto a ajudar qualquer profissional da saúde e qualquer leigo interessado em cuidar melhor de sua saúde a localizar, avaliar e debater algumas destas evidências. 

Assim sendo, convido todos os leitores, especialmente os profissionais da saúde, a divulgar este artigo nas redes sociais, a ler e avaliar com atenção e profundidade as evidências científicas sobre a dieta paleolítica e sobre as dietas de baixo carboidrato e a participar deste debate aqui na caixa de comentários do Pensar Não Dói (não nas redes sociais, porque lá os tópicos “afundam” e se tornam inacessíveis muito rapidamente). 

Sugiro em primeiro lugar a leitura do artigo Meta-análise comprova: dieta paleolítica é a mais saudável

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/08/2015