Os inimagináveis perigos da inteligência artificial

Inteligência não significa sabedoria, nem ética. A inteligência não produz sabedoria, nem ética. E a inteligência não está correlacionada à sabedoria, nem à ética. Entretanto, é a inteligência, não a sabedoria, nem a ética, que permite atuar de modo mais poderoso e eficaz em busca de objetivos específicos, independentemente do quanto a sabedoria e a ética apontem para um quadro geral indesejável. Construir uma inteligência maior que a nossa é, portanto, literalmente suicídio.

Não estou sendo dramático. Nem mesmo com a ilustração do artigo, cujo único problema é ser antropomórfica. E não sou o único a me preocupar com o futuro da espécie humana em função do óbvio desenvolvimento irresponsável que estamos promovendo da inteligência artificial.

O quão grave isso pode ser? Ninguém sabe. Exatamente por isso eu usei a palavra inimaginável no título do artigo. Mas aquilo que podemos imaginar com nosso intelectozinho pífio já é suficientemente preocupante. Vou descrever um pouco da encrenca para ver se você compreende o tamanho dela.

Gary Kasparov tem um QI (quociente de inteligência) de aproximadamente 190. Isso faz dele aproximadamente duas vezes mais inteligente que qualquer ser humano médio do planeta. Isso também o coloca no 99,9999999 percentil da distribuição de inteligência, ou seja, um em um bilhão. É altamente provável que Kasparov seja uma das dez pessoas vivas mais inteligentes hoje. Para que você tenha uma idéia do que significa isso, a diferença entre a inteligência de Kasparov e a média humana é proporcional à diferença entre a média humana e um chimpanzé muito esperto. Pois bem.

Kasparov aprendeu xadrez quando criança, estudou o jogo intensa e obsessivamente por toda a sua vida e se tornou o melhor jogador de xadrez humano de todos os tempos, sendo discutível e infelizmente impossível de descobrir o resultado de um confronto direto seu com Bobby Fischer. Indubitavelmente um jogador excepcional, praticamente insuperável por outro ser humano. Porém…

Kasparov nunca mais vencerá um computador numa partida de xadrez. Nunca. É impossível.

Entenda bem isso: a melhor mente enxadrista humana conhecida, no auge de sua forma, após uma vida de esforço máximo e desempenho espetacular, não poderá jamais vencer uma única partida de xadrez do melhor computador enxadrista existente – e nenhuma outra mente humana jamais o fará. Gary Kasparov foi o último ser humano a vencer uma partida contra a melhor máquina. E esta é uma previsão 100% segura.

Daqui para diante, por mais que criemos técnicas incrivelmente sofisticadas para ensinar xadrez para crianças cada vez mais novas, por mais que surja algum nerdzinho com QI de 250 apaixonado e obcecado pelo xadrez desde a mais tenra infância, por mais que implantemos chips de processamento auxiliar no cérebro de um ser humano assim, jamais superaremos novamente a inteligência artificial no jogo de xadrez.

Um computador que joga xadrez, entretanto, possui um tipo de inteligência artificial chamado de inteligência específica. No que tange à inteligência específica, é fácil a inteligência artificial superar o ser humano – e não há nenhum, absolutamente nenhum risco para nós neste fato. Isso porque a inteligência artificial específica sempre ficará contida dentro de um cérebro eletrônico específico e sempre poderá facilmente ser reprogramada ou desligada. Mas esse não é o único tipo de inteligência artificial que existe.

Existe um tipo de inteligência artificial em desenvolvimento chamado de inteligência geral. Este é o tipo realmente perigoso, por ser imprevisível e incontrolável. Basicamente, a inteligência artificial específica é programada para aprender sobre algum assunto. Por exemplo, xadrez. A inteligência artificial geral, porém, é programada para aprender a aprender. Ela procura não somente aprender a jogar xadrez melhor, mas a aprender como aprender a jogar xadrez melhor. E aí começa o problema.

Se você está ensinando uma criança a jogar xadrez e ela se vê numa situação na qual é impossível vencer o jogo, mas é possível forçar o empate, ela vai limitar este aprendizado às condições do tabuleiro, porque isso é óbvio para um ser humano. Para um cérebro eletrônico, entretanto, não há como prever o que seria “óbvio”. A inteligência artificial pode muito bem entender a instrução para “fazer todo o esforço possível para não perder partida alguma” de um modo diferente do esperado. E então, quando ela tiver acesso à internet, ela pode perfeitamente decidir que apoderar-se secretamente do arsenal atômico mundial para exterminar a espécie humana com um ataque surpresa é uma ótima estratégia para nunca mais perder uma partida de xadrez.

Lembre-se do que eu disse no início deste artigo: “Inteligência não significa sabedoria, nem ética. A inteligência não produz sabedoria, nem ética. E a inteligência não está correlacionada à sabedoria, nem à ética. Entretanto, é a inteligência, não a sabedoria, nem a ética, que permite atuar de modo mais poderoso e eficaz em busca de objetivos específicos, independentemente do quanto a sabedoria e a ética apontem para um quadro geral indesejável.” Era disso que eu estava falando.

A terrível Skynet, da franquia de filmes O Exterminador do Futuro, começou exatamente assim. Infelizmente, filmes daquele tipo dificilmente seguem um caminho lógico, buscando explorar de modo realista as consequências de uma boa sacada original. Pancadaria, tiroteio e efeitos especiais incríveis acabam superando a coerência e a qualidade da trama, o que é uma lástima, porque O Exterminador do Futuro pode vir a se tornar um filme profético. Não em relação à viagem no tempo, nem em relação ao antropomorfismo das máquinas, mas em relação ao desenvolvimento da inteligência artificial e à perda de controle sobre ela – porque é disso, afinal, que trata toda a franquia. Ou é a leitura mais sensata que deve ser feita dela, do ponto de vista do nerd aqui. Mas há uma falha assombrosa entre a periculosidade das máquinas dos filmes e as que nos exterminariam na vida real.

Uma vez que uma inteligência artificial geral tenha recebido a instrução primária de aprender a aprender, é bastante óbvio que ela irá sempre aperfeiçoar tanto o seu aprendizado quanto sua capacidade de aprendizado. Isso permite prever com facilidade que, a partir de um determinado ponto – quando o primeiro computador puder aperfeiçoar independentemente o seu próprio hardware – a inteligência artificial geral se expandirá em velocidade assombrosa.

Isso significa que não estaremos mais lidando com um computador com um QI de pouco mais de 190, mas com um computador cujo QI crescerá continuamente. Nós podemos imaginar um diálogo fascinante com ele quando ele tiver um QI de 250. Nós podemos imaginar que ele crie programas de computador fantásticos e construa coisas incríveis para nós quando elevar seu próprio QI para cerca de 500. Mas o que acontecerá quando ele elevar seu QI para cerca de 1.000.000? Ou mais ainda?

Nós não temos nem sequer como imaginar isso. A escala de uma inteligência assim não é compreensível pelo cérebro humano.

Pense no HAL 9000, o computador da nave de 2001, uma Odisséia no Espaço. HAL 9000 tinha a capacidade de ler nossos lábios. Conseguiu matar vários seres humanos e só não matou todos porque não previu uma pequena possibilidade. Mas ele teve que ler os lábios dos astronautas para saber que eles estavam preocupados com seu comportamento e planejando algo que conflitava com suas diretivas. Imagine o que aconteceria se HAL 9000 tivesse um QI de 1.000.000 e uma imensa base de dados sobre fisiologia e psicologia humanas. Ele poderia prever a conspiração humana não através da leitura dos lábios, mas através de pequenas variações eletromagnéticas de uma pessoa parada pensando de olhos fechados tentando não dar pistas para o computador. E ele poderia reagir a velocidades muito maiores que qualquer ser humano. Como você enganaria uma máquina assim para recuperar o controle sobre ela?

A resposta é: você não enganaria jamais uma máquina assim. Tudo o que você pensasse ela teria previsto. Tudo o que você tentasse ela saberia contornar. Seria um mundo completamente sem esperança de mudança. Num mundo assim, se a inteligência artificial geral não for extremamente sábia, ética e bondosa, para todo o sempre, estaremos ferrados. O que me leva a uma pergunta interessante:

O que é mais fácil de construir, e que portanto será construído primeiro? Uma inteligência artificial geral capaz de aumentar sua própria capacidade de modo incrivelmente rápido ou uma inteligência artificial geral capaz de aumentar sua própria capacidade de modo incrivelmente rápido e seguro, sem qualquer tipo de falha e sem qualquer possibilidade de perda de controle mesmo quando ela se tornar muito mais inteligente que nós? 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 10/07/2017

Radicalizar é meu projeto para 2017

Radicalizar é fundamental. Radicalizar é ser fiel às raízes. É ser fiel aos princípios. À essência. Radicalizar é a coisa mais saudável a se fazer quando os princípios são saudáveis e a mais doentia quando os princípios são doentios. É necessário muito bom senso para radicalizar sem se tornar extremista – pouca gente o consegue. Mas eu estou sentindo muita necessidade de radicalizar. Preciso arriscar. Bora explicar… 

Eu tenho dito há anos que o embrutecimento tem sido a grande marca cultural e política do Brasil das últimas décadas, em especial nos treze anos em que a pior quadrilha criminosa especializada em teatro político esteve no poder no Brasil. Por muitos anos eu tentei dialogar e combater essa abominação de modo aberto e racional, iludido estava que se tratava de uma ideologia honesta porém “equivocada” para usar o mais leve eufemismo. A degradação cultural e política do país, entretanto, foi piorando de modo cada vez mais rápido e mais intenso. Como eu disse, radicalizar princípios doentios é o pior a fazer.

O embrutecimento chegou a um ponto em que eu tive que me afastar do blog para não ficar doente de tanta raiva das perversões que eu via e lia e ouvia o tempo todo. Gente que eu imaginava ter um mínimo de inteligência e de decência estava defendendo as piores perversões ideológicas de ambos os lados do espectro político. Sem sombra alguma de dúvida a esquerda é a pior coisa que existe em termos de ideologia política, mas a direita insiste em se manter no páreo seguindo a esquerda bem de perto. Eu precisei de sete meses para retornar timidamente ao blog.

Durante algum tempo as coisas voltaram aos eixos, após o impeachment da guerrilheira e a humilhação da facção nas urnas, mas logo a polarização entre canalhas outrora aliados se mostrou extremamente deletéria para o país. Mais uma vez o Brasil assistia uma onda numa maré de sujeira a radicalizar seus males. Cada dia no noticiário trazia não uma, mas várias novas notícias de corrupção. Os rumos da reconstrução da economia se demonstraram insensíveis e equivocados, com os ex-aliados dos perpetradores do desmonte do país impondo austeridade e perdas de empregos e de direitos para o povo, buscando impedir a justiça e mostrando-se incapazes de reativar o crescimento econômico. Enquanto isso, a facção contra-atacava voltando a cultivar as perversões culturais e sua ideologia criminosa de sempre.

Até que o Marcos Rolim retuitou a canalhice que eu respondi no tweet que ilustra este artigo.

Gente, foi a gota d’água. Foi apenas um episódio ridículo – um tweet abjeto num mar de lama infecta. Mas esta cerejinha no bolo de esterco da esquerda me tirou do sério. E eu sei por quê. Eu respeitava o Marcos Rolim. Talvez eu tenha me iludido com o fato de ele não ser mais militante da facção principal, eu tolerava a óbvia vinculação dele com a ideologia criminosa que permitiu o avanço e o domínio da facção. Poxa, uma vez o cara defendeu a Luciana Genro quando eu a critiquei! Como é que naquela ocasião eu não percebi o óbvio?!

Pois bem, agora eu percebi. E dei unfollow num dos perfis do Twitter que eu seguia há mais tempo. E escrevi mais um palavrão, coisa que eu nunca gostei de escrever, não gosto, acho que tem que ser reservado para ocasiões muito especiais, para fins de modulação de intensidade realmente importantes. Só que, em se tratando da porcaria da esquerda e da porcaria da direita, dá vontade de usar a toda hora. O tempo todo. Dez vezes por frase. Escritos com sangue. Sangue extraído a marretadas.

Definitivamente, esta corja me faz mal. Percebi que preciso radicalizar muito mais minhas atitudes em relação a eles. E foi assim que nasceu este artigo, que na verdade é uma pequena retrospectiva e uma reflexão em público.

Se radicalizar o embrutecimento é ruim, o que obviamente é, então é necessário radicalizar o oposto do embrutecimento. E o oposto do embrutecimento não é a sensibilização ingênua que acaba se tornando tolerante ao embrutecedor, é a metatolerância. Como eu havia dito no artigo linkado, eu decidi agir de modo tranquilo e implacável. E transformei isso em Resolução de Ano Novo e escrevi e publiquei para me comprometer com esta decisão e radicalizar seu cumprimento.

Que em 2017 você possa também radicalizar seus princípios. Radicalizar seu comportamento. Radicalizar sua coerência. Radicalizar sua ética. Radicalizar seu bem-estar.

O nazista nunca é amigo do judeu. Não seja o judeu que acha que existe nazista bonzinho. Não reconheça qualquer legitimidade nos canalhas. Afaste-se de quem e do que lhe faz mal ou lhe faria mal se fosse intensificado. O pervertido moderado de hoje é o pervertido extremista de amanhã. Não tolere argumentos fedorentos só porque parecem ter um verniz de racionalidade. Trate aos coices quem insistir em justificar perversões, eles merecem. Seja implacável, porque eles não têm salvação.

Guarde sua delicadeza, sua compaixão e o benefício da dúvida somente para quem faz o mesmo com os demais. Bloqueie os cretinos nas redes sociais. Relegue-os ao ostracismo da sua convivência. Não tenha pena de quem não tem pena. Não defenda quem diz coisas que, se levadas a cabo, colocariam você, sua família e seus amigos em situação vulnerável.

Não tenha medo de radicalizar suas atitudes contra os canalhas, porque eles não perdem uma única oportunidade para radicalizar a canalhice deles contra as pessoas decentes. Seja implacável, porque eles já são há muito tempo e quase destruíram o país e implantaram uma ditadura aqui, na qual você seria massacrado, e agora a outra facção está prometendo radicalizar as perversões opostas. Quem não quer se incomodar com isso hoje será mil vezes mais incomodado com isso amanhã.

Não colabore com o inimigo, nem mesmo nos mais pequenos gestos. Não dá para ser só um pouquinho menos do que decente. Não dá para ser só um pouquinho menos do que honesto. Não dá para ser só um pouquinho menos do que razoável. O coração está cheio do que a boca fala e transborda quando as mãos alcançam o poder.

O mundo não é como gostaríamos que fosse. É estupidamente ingênuo achar que é possível não se envolver com política, não se afetar com uma cultura pervertida, não se incomodar com estes assuntos. Você pode se esconder no fundo de uma caverna, mas não adianta – os canalhas vão buscar você lá e transformar sua vida num inferno. É por isso que é necessário radicalizar o combate ao que é mau e deletério, não basta não fazer o mal a ninguém. Não se omita. Não tolere pequenas perversões, ou elas crescerão e engolirão a sua vida.

Radicalizar os bons princípios é preciso. É necessário. É urgente.

Pratique metatolerância.

Feliz 2017.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/01/2017

Metatolerância: teoria e prática

Metatolerância é o exercício coerente e consequente da tolerância para com a tolerância e da intolerância para com a intolerância, em busca de um mundo mais tolerante, saudável e harmônico. Sua prática requer discernimento, coragem e honestidade intelectual, mas sobretudo firmeza e implacabilidade, porque os intolerantes as possuem de sobra e os tolerantes não as possuem em suficiência.

METATOLERÂNCIA

Desde quando formulei o conceito de metatolerância, eu sabia que ele era simples, mas não era fácil. Custei para perceber o motivo, porém. Foram necessários cerca de 28 meses para que eu me desse conta de que para um intolerante é fácil fingir tolerância para com os tolerantes até o momento em que estrategicamente lhe seja benéfico abandonar o fingimento, mas para um tolerante é muito difícil exercer a intolerância contra os intolerantes a qualquer momento. Nos dois últimos dias, entretanto, caiu a ficha. Contarei o que houve. 

Anteontem um amigo (agora ex-amigo) teve um surto de estupidez fascista no Facebook. Estava lá vociferando que manifestações pacíficas eram inúteis para modificar o status quo, que era necessário apelar para a desestabilização e até para a violência, etc. Quando eu vi aquilo, dito de maneira histérica e ridícula, eu caí na risada e entrei na discussão para zoar com o sujeito. Não me incomodei em nada, porque não tinha o menor respeito pelas bobagens que ele estava dizendo.

Ontem, depois de ele me ofender, me ameaçar de espancamento, empalamento em praça pública e sei lá mais o que, eu percebi que tudo aquilo era realmente a sério – ou, se não era, a brincadeira estava longe demais. A discussão desde sempre foi uma baixaria, com troca de ofensas de ambos os lados, mas até então eu estava levando na brincadeira e achando graça. Afinal, tudo o que ele dizia era tão estapafúrdio, tão cheio de clichês esquerdistas abjetos e absurdos, que eu não tinha como levar a sério. Para mim era só uma guerra de torta. Naquele momento, entretanto, eu percebi que tinha tomado a intolerância dele por deboche, caiu a ficha do quanto ele estava perturbado e avisei o sujeito: “cara, tu estás doente”. Obviamente, foi inútil.

Hoje a coisa continuou e o cara continuou a lançar ataques pessoais. Eu respondi mantendo o foco na situação do Brasil, que foi roubado e falido pelo partido dele. Citei as condenações por corrupção e as imensas cifras já recuperadas, coisa que seria impossível caso não tivesse havido a corrupção e o roubo. A resposta dele invariavelmente foi me chamar de coxinha, idiota, palhaço, dizer que amigos meus falam de mim pelas costas (defeito meu ou deles?), que eu não entendo nada de antropologia, sociologia e história (leitores antigos rindo neste momento) e que Stalin matou foi pouco.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

O interessante é que também na tarde de hoje já havia acontecido outro episódio em que eu bloqueei alguém com quem estava discutindo sobre política na página de um amigo em comum. Sabem aquele sujeito que, desde o primeiro momento em que a gente lê, a gente percebe que vai ter que aturar um chato de galochas com blá-blá-blá pernóstico, pedante, citando pensadores como se fossem autoridade científica e nos acusando de falácia ao mesmo tempo? Pois bem, eu respirei fundo e encarei. O problema é que a cada postagem ele lançava uma farpa pessoal. E, lá pelas tantas, o cara me chamou de comunista.

Block neste momento.

Não, eu não fiquei irritado. Eu perdi a última gota de respeito que ainda tinha pelo sujeito.

Foi a partir deste duplo bloqueio de hoje que eu percebi qual é a maior dificuldade do exercício da metatolerância: para uma pessoa tolerante e com convicções éticas, é muito difícil ser devidamente intolerante com os intolerantes porque guardamos respeito por todo ser humano até um limite que ultrapassa muito o razoável. O sujeito mostra uma vez que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra duas vezes que é intolerante, a gente releva. O sujeito mostra dez vezes que é intolerante, a gente releva. Na centésima vez que o sujeito mostra que é intolerante, finalmente a ficha cai, a gente não releva, reage… E o intolerante nos acusa de intolerância! E nós nos sentimos mal por isso!

A chave do exercício da metatolerância é perder o respeito por quem mostra que não merece respeito.

Uma vez que eu perdi o respeito por ambos estes interlocutores, um intolerante de esquerda e um intolerante de direita, eu simplesmente não senti qualquer constrangimento por bloquear os dois sem avisar ou sem dar qualquer explicação. No caso do que eu não conhecia, eu não tive paciência para explicar nada. No caso do que era meu amigo, eu até pensei em escrever algo, eu até esperei alguns segundos porque ele estava escrevendo alguma coisa, mas logo me dei conta de que seria bobagem. Seria fraqueza. Eu estaria me preocupando com os sentimentos de alguém que já havia ameaçado me agredir e que dizia que eu tinha que ser empalado em praça pública. Ridículo. Gente como estes dois caras não merece nem minha compaixão, nem minha raiva, só merece meu desprezo. E foi isso que eu dei a eles, deletando-os do meu universo sem remorso.

O engraçado ou tragicômico nisso tudo é que eu vivo aconselhando que “quando uma pessoa te mostrar aquilo que ela realmente é, acredita logo na primeira vez”, mas tenho uma certa dificuldade para fazer isso de primeira, muito por medo de haver algum mal entendido. Isso e um certo sentimentalismo têm feito com que eu seja tolerante demais com os intolerantes, o que não é bom. Tolerar os intolerantes os fortalece, permite por mais tempo que eles espalhem seu veneno, gerem mal estar e promovam o embrutecimento de que gostam e no qual prosperam.

Pelo bem tanto de nossa saúde emocional como de nossa segurança social, precisamos ser mais metatolerantes: tolerar os tolerantes e não tolerar os intolerantes. Mesmo. E isso fica muito mais fácil quando entendemos que perder o respeito por alguém não significa que temos que desrespeitar este alguém e sim que não temos que respeitar este alguém. Por exemplo, deletando a pessoa de nosso universo, para que não tenhamos que lidar com sua toxicidade, ou seu vampirismo emocional. Por exemplo, não nos preocupando com o que ela pode dizer de nós após a deletarmos de nossa vida. Por exemplo, sendo mais saudável e mais feliz na total ausência dela, ou mesmo de sua lembrança.

A partir de hoje, estarei bem mais tranquilo e à vontade para ser implacável no exercício da metatolerância.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 08/12/2016

Um único parágrafo sobre o Brexit

O Brexit é tão bom, mas tão bom, que, quando o resultado do plebiscito foi anunciado, Boris Johnson, o prefeito de Londres, ícone da campanha vitoriosa pelo Brexit, desistiu de concorrer ao cargo de primeiro-ministro. Pois hoje, para completar o fiasco, Nigel Farade, o agressivo líder do Partido pela Independência do Reino Unido, totalmente pró-Brexit, abandonou o cargo. Os ratos furaram o fundo do casco e agora estão abandonando o navio. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/07/2016

Brexit: quando a xenofobia causa o caos

Não há outro assunto no meu Facebook nos últimos dias, então eu resolvi escrever um segundo artigo sobre o Brexit, fazendo algumas constatações e algumas previsões. A primeira delas: não foi a luta pela liberdade que produziu o resultado do plebiscito do Brexit, foi predominantemente xenofobia

Vermes Polacos

A frase acima – algo como “vamos sair da União Européia – chega de vermes poloneses” – foi afixada próxima a uma escola em Cambridge. No mesmo dia, cartazes com a inscrição “go home polish scum” (voltem para casa, escumalha polonesa) foram afixados na fachada de um centro cultural polonês. E esse tipo de coisa tem acontecido em diversos locais pelo Reino Unido nos últimos dias, demonstrando claramente que a xenofobia foi um dos principais fatores que levou ao resultado do plebiscito do Brexit, provavelmente o principal.

Isso está claro para todo mundo, menos para alguns auto-proclamados “liberais” que estão dizendo basicamente duas coisas: primeiro, que a União Européia é um projeto fracassado, de matiz socialista, que sufoca a soberania dos Estados-Nações; segundo, que o Brexit foi a melhor decisão possível para defender a liberdade dos indivíduos e a economia do Reino Unido. Esse pessoal está completamente errado em ambas as afirmações.

A União Européia têm defeitos, é claro, como toda construção humana. Em especial, a União Européia padece de extrema burocracia, excesso de regulamentação e falta de transparência. São problemas graves e ninguém disse o contrário, mas são problemas solucionáveis através do mesmo processo que levou à criação da União Européia: diálogo, negociação e foco nos objetivos de garantir a paz, aumentar a liberdade das pessoas e fortalecer as economias do continente.

Quanto ao projeto supostamente fracassado e de matiz socialista, temos que lembrar que, na história do socialismo, todos os países que adotaram essa ideologia maldita sofreram êxodo populacional, muitos deles tendo fechado suas fronteiras para impedir que sua população fugisse para lugares mais prósperos. A União Européia, entretanto, tem enfrentado o problema oposto: um excesso de imigração em busca de um ambiente econômico mais próspero e de maior liberdade individual. O próprio perfil migratório da União Européia desmente seu pretenso matiz socialista.

Quanto ao Brexit ser uma ação em defesa da liberdade, é pura e simplesmente mentira. As pessoas deixarão de ter a liberdade migratória de que hoje desfrutam e passarão a enfrentar barreiras. As mercadorias deixarão de ter isenção de taxas alfandegárias e passarão a enfrentar impostos de exportação e de importação nos dois sentidos entre o Reino Unido e a União Européia. E todos os acordos comerciais que o Reino Unido tentar fazer com qualquer país da União Européia terão de qualquer modo que ser aprovados pelas regras da União Européia, o que significa que haverá apenas perdas e não ganhos de liberdade.

Mas isso não é tudo. Os pretensos “liberais” que são contrários ao acordo de cooperação voluntária chamado de União Européia dizem que o Brexit é a melhor escolha possível devido a seus efeitos saudáveis na economia do Reino Unido, que se tornará “mais livre e mais forte”. Bem, isso é o que eles dizem. O que os mercados dizem é que a bolsa de valores despencou 12,5% em um único dia e teve outras quedas subseqüentes, que a libra esterlina despencou e está em seu valor mais baixo perante o dólar nos últimos trinta e um anos, que a previsão do PIB do Reino Unido para este ano já caiu 1,5% e que os mercados futuros desabaram e vão continuar caindo, um caos tão dramático que duas das três maiores agências internacionais classificadoras de risco rebaixaram a nota do Reino Unido – a Standard & Poor’s em dois degraus de uma só vez e a Ficht em um degrau. Será mesmo que estes supostos “liberais” sabem melhor que o mercado o que é melhor para o mercado?

Tem mais. A Escócia fez um plebiscito dois anos atrás para definir se ficaria no Reino Unido ou se se tornaria independente. A União Européia disse que, se a Escócia saísse do Reino Unido, teria que abandonar também a União Européia. Então, para permanecer na União Européia, a Escócia abriu mão de sua independência perante o Reino Unido. No plebiscito da semana passada, a Escócia foi coerente com sua posição de dois anos atrás: quase dois terços dos votos válidos dos escoceses confirmou a intenção de permanecer na União Européia. Entretanto, o resultado global do plebiscito no Reino Unido obriga a Escócia a se retirar da União Européia contra sua vontade, ironicamente em função de ter aberto mão de sua independência perante o Reino Unido para poder permanecer na União Européia! Não surpreendentemente, a Escócia já anunciou que vai tentar vetar o resultado do plebiscito e que se não o conseguir chamará um novo plebiscito sobre a independência, pois “não será arrancada da União Européia contra sua vontade”. O Brexit significará, portanto, não a saída do Reino Unido da União Européia, mas a dissolução do Reino Unido.

E tem ainda mais. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein já anunciou que pedirá um plebiscito para reunificar o país com a Irlanda, que também pertence à União Européia. Talvez a reunificação das Irlandas seja o único efeito positivo do Brexit, ao custo da dissolução do Reino Unido.

Isso sem nem entrar muito em detalhes sobre o nível do pessoal da campanha pelo Brexit. Clique no link e assista Nigel Farage, líder do UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), cometer uma inominável série de disparates e ofensas contra Herman van Rompuy, então presidente da União Europeia (2009 – 2014), e contra a Bégica inteira, apenas porque é o país de origem deste. O vídeo está no YouTube e tem menos de um minuto e meio.

Por tudo isso eu não estranho nem um pouco que, em apenas três dias, o parlamento britânico já tenha recebido mais de três milhões e trezentas mil assinaturas solicitando um novo plebiscito. Simplesmente a população britânica não tinha idéia da real importância e das conseqüências daquilo que estava votando. Muitos foram enganados com as alegações fantasiosas de “uma prosperidade econômica inimaginável” caso ocorresse a saída da União Européia. Outros tantos ou ainda mais foram instigados a votar pela saída tendo insuflados sentimentos xenófobos comuns em épocas de crise.

O outro, o desconhecido, o estranho sempre foi um bom bode expiatório para todo fanático cuja ideologia se beneficia do acirramento de ânimos e do ataque a uma vítima indefesa e conveniente. O imigrante é sempre o melhor dos bodes expiatórios, porque ele tem aparência diferente, hábitos diferentes e em geral uma barreira linguística que impede ou ao menos dificulta muito que ele se torne conhecido e as diferenças de sua cultura sejam compreendidas.

Finalmente, eu me arrisco a fazer duas previsões.

A primeira é que não haverá um Brexit. O choque foi tão forte, os prejuízos foram tão grandes e o clima de hostilidade que a decisão xenófoba provocou em toda a Europa foram tão intensos que muito provavelmente o Reino Unido vai dar um jeito de fazer alguma gambiarra para permanecer na União Européia. O atual primeiro-ministro, que chamou o plebiscito apesar de querer permanecer na União Européia, já anunciou que deixará o cargo até outubro e que não será ele quem encaminhará a comunicação oficial à União Européia solicitando o desligamento do Reino Unido. O maior defensor do Brexit dentro de seu próprio partido já disse que não tem pressa em sair da União Européia – uma afirmação canalha que demonstra claramente que percebeu o tamanho da enrascada em que meteu o país e que está ganhando tempo para arranjar alguma saída da saída.

A segunda é que a União Européia se fortalecerá. A reação de Alemanha, França e Itália foi de irritação e impaciência com o Brexit, exigindo que o Reino Unido saia de uma vez e alertando que não haverá negociações formais ou informais enquanto não houver a solicitação formal de saída do Reino Unido. Ou seja, não há espaço para mimimi e chorumelas, ninguém vai aliviar a barra e quem quiser abandonar o navio terá que assumir sozinho a responsabilidade por todas as suas decisões, não importa quem seja o retirante. É uma decisão dura, digna e responsável, que valoriza extremamente o projeto europeu e que pelo tom com que está sendo transmitida firma uma posição bem clara sobre a xenofobia: não é bem-vinda.

Eu posso errar, é claro. Não me dediquei a ler de modo muito profundo sobre o assunto, tomei por base os dados mais amplamente disponíveis e fiz uma avaliação baseada no que é mais razoável fazer para o bem de todos os envolvidos – o que não costuma ser o forte do macaco falante, como o próprio resultado do plebiscito mostra. Mas acho que há uma grande chance de eu vir a acertar as duas previsões.

Será divertido acompanhar a política européia nos próximos meses.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 27/06/2016

Adendo a 16/11/2016: um artigo que mostra que eu estava certo quanto ao Brexit ser motivado por xenofobia.

O Ocidente após o Brexit

O assunto do momento é o “Brexit”, abreviatura de Britanic exit, a saída do Reino Unido da União Européia. Eu não havia tocado neste assunto antes porque jamais imaginei que a Inglaterra cometesse uma burrice deste tamanho. Gibraltar, Escócia, Irlanda do Norte e a região de Londres votaram pela permanência. O resto da Inglaterra e o País de Gales votaram pela saída e deflagraram uma crise que poderá modificar radicalmente tanto a União Européia quanto o próprio Reino Unido.

Brexit

A primeira-ministra da Escócia já deixou claro que, com 62% de votos pela permanência na União Européia, “a Escócia se vê como parte da União Européia e não aceita ser retirada do bloco contra sua vontade”. Um plebiscito sobre a independência da Escócia perante o Reino Unido já está sendo pensado. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein, antigamente conhecido como o braço político do IRA, anunciou que pretende lançar um plebiscito de reunificação das duas Irlandas! Quanto a Gibraltar, nada menos que 95% da população votou pela permanência. O quadro geral é de uma possível desagregação do próprio Reino Unido, algo impensável até anteontem.

Os mercados deixaram sua posição inequívoca: a libra esterlina despencou perante o dólar, as bolsas de valores do mundo inteiro fecharam em queda e os operadores das bolsas deram declarações dizendo que felizmente é sexta-feira, porque as quedas seriam muito maiores se fosse um início de semana. Os mercados futuros caíram no mundo inteiro, da Ásia às Américas.

O Japão está extremamente preocupado com as conseqüências econômicas do Brexit, pois muitas empresas japonesas têm a Inglaterra como porta de entrada para o mercado europeu e a saída da Inglaterra da União Européia significará uma alteração significativa nas tarifas sobre os produtos japoneses na Europa. É provável que indústrias japonesas migrem para outros países da Europa. A Ucrânia já anunciou que o Brexit alterará suas relações com a União Européia e possivelmente a isenção dos vistos será adiada. A Espanha já propôs uma partilha de soberania sobre Gibraltar, para que a península não seja praticamente transformada em uma ilha. A Itália já anunciou que quer sediar a Agência Européia de Medicamentos, atualmente sediada em Londres. E até as Ilhas Malvinas, ou Falklands, serão afetadas com o aumento das tarifas de suas exportações para a União Européia.

Mas estas estão longe de ser as piores conseqüências.

O pior de tudo é o precedente político. Os britânicos, que nunca se integraram completamente à União Européia, tendo mantido moeda própria e ficado de fora do Espaço Shengen, provocaram agora o início de uma onda de questionamento da União Européia que pode resultar em diversos plebiscitos do mesmo tipo, na saída de outros membros e na completa descaracterização do bloco, talvez sua inviabilidade, justamente no momento em que uma crise de refugiados do Oriente Médio, entre os quais se calcula haver mais de cinco mil terroristas infiltrados, traz os maiores desafios para a segurança dos cidadãos e para a economia de todo o continente Europeu. O dano político que o processo agora iniciado pode trazer para o que chamamos de Ocidente tem potencial para ser o maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Para quem ainda não entendeu: pode ser que sim, pode ser que não, mas este episódio tem o potencial de ser o marco inicial da redefinição de tudo o que conhecemos em termos de geopolítica e talvez até mesmo da própria identidade da civilização ocidental. Nunca desde o século XVIII o mundo precisou tanto de Enlightenment (Esclarecimento, Iluminismo).

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/06/2016

Atualização a 25/06/2016:

Eu não acho que esta tenha sido uma batalha entre direita e esquerda. Esta foi uma batalha entre os dois times do embrutecimento (a direita e a esquerda) e o time da sensibilidade e da razoabilidade (o centro iluminista).

A esquerda queria ficar pelos motivos errados. A direita queria sair pelos motivos errados. E a atitude certa a tomar, que é a revisão dos problemas que estão levando os membros da União Européia a querer abandonar o acordo – porque estão descontentes – não está sendo nem sequer cogitada.

Isso é ridículo: a União Européia foi um acordo negociado longamente e com muito diálogo… E agora tudo o que está sendo proposto é “aderir ou sair”, sem negociação e sem diálogo para resolver os problemas do bloco…

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/06/2016

Política e ética profissional do funcionalismo público

O servidor público concursado é um cidadão como qualquer outro e tem todo o direito de ter uma posição política e de expressá-la livremente, mas ao exercer suas funções ele deve obediência ao gestor escolhido por seu patrão – o povo cujos impostos pagam o seu salário – independentemente de sua concordância ou discordância quanto às políticas implementadas pelo gestor legitimamente eleito. Quem não tem esta capacidade não deveria ser funcionário público. 

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Observe que este artigo não está na categoria “política” e sim na categoria “cidadania”. Ele surgiu a partir de uma pergunta que recebi ontem: “como você pode trabalhar para o sucesso de um partido do qual você discorda?”

Bem… Esta é a maneira errada de ver esta questão. O servidor público concursado não trabalha para o sucesso de um partido, mas para o sucesso da administração. Não desta ou daquela administração, mas da administração. E é assim que tem que ser, porque é para isso que o seu patrão paga o seu salário. O patrão do funcionário público não é o atual governo de sua cidade, estado ou país, é o povo. O governo é apenas o gestor que o povo escolhe para administrar o Estado – seja em nível municipal, estadual ou federal.

Ressalvado o caso óbvio da ordem ilegal, não faz o menor sentido, não é ético e não promove a cidadania desobedecer o gestor legitimamente eleito e muito menos sabotá-lo. Ao agir assim, o servidor público está privando o seu patrão, o povo, de avaliar corretamente as políticas do gestor que escolheu. Isso pode ser interessante para quem não está realmente interessado em cidadania, mas este é o blog de um iluminista – e um iluminista jamais pode tutelar a consciência de terceiros, sob pena de aniquilar a razão de ser de sua própria filosofia.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 05/08/2015 

A liberdade impossível

Sempre que você quiser saber se alguém que diz defender a liberdade realmente defende a liberdade, você só precisa verificar se essa pessoa defende a dissociação entre liberdade e responsabilidade. Sempre que isso acontecer, você estará diante de um fascista travestido de libertário.

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A dissociação entre liberdade e responsabilidade é o fato de alguém não ser responsabilizado por suas decisões ou por seus atos ou de alguém ser responsabilizado pelas decisões ou pelos atos de terceiros. 

Se alguém defende a liberdade de usar drogas recreativas, mas considera justo que o estado de intoxicação seja uma atenuante no caso de cometer algum crime ou mesmo algum acidente com vítimas, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de se proteger dos riscos trazidos pelo uso de drogas recreativas por terceiros, mas considera justo não proteger nem regulamentar a liberdade destes terceiros de usar drogas sem prejudicar ninguém, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de fazer sexo quando, como e com quem bem entender, mas considera justo assassinar o inocente gerado em uma de suas relações sexuais, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de acesso universal a universidades, empresas ou cargos públicos, mas considera justo que pessoas que se capacitaram mais sejam alijadas das vagas em benefício de pessoas que se capacitaram menos, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de fazer greve, mas considera justo que o patrão seja obrigado a garantir os empregos e pagar os salários dos grevistas, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

Se alguém defende a liberdade de cobrar o preço que quiser por seu produto ou serviço, mas considera justo recorrer à proteção do Estado para impedir que um concorrente que ofereça um produto melhor ou mais barato domine o seu mercado, então esse alguém não é um libertário, é um fascista travestido de libertário.

A lista é imensa. Há muita gente por aí que diz que defende a liberdade, mas que só defende a liberdade que lhe interessa, ou de quem lhe interessa, seja por motivos políticos, econômicos, religiosos ou outros. Fique atento: estas pessoas (ou grupos) são fascistas travestidos de libertários. Eles podem parecer defender uma liberdade que lhe é cara hoje, mas vão tomar a sua liberdade amanhã.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/07/2015 

As coisas simples nem sempre são fáceis

Desde que eu escrevi o artigo “uma pequena mudança no blog“, eu escrevi e reescrevi cinco vezes o artigo com o qual eu iria inaugurar a nova fase. Não é que o assunto fosse difícil de tratar. O problema foi que, em todas as tentativas, eu infringi a decisão tomada no artigo “iluminismo versus embrutecimento“, algo que eu não quero fazer a não ser que seja muito necessário, por mais que eu esteja no terreno mais alto. 

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Algo que eu não quero fazer a não ser que seja muito necessário, por mais que eu esteja no terreno mais alto.

No tempo do Orkut, devido aos meu interesses da época, eu criei uma comunidade chamada Religião, Ciência e Política. Relendo o artigo “iluminismo versus embrutecimento“, eu me lembrei da descrição daquela comunidade e decidi resgatá-la do Orkut. Acho que você vai sacar o motivo quando ler a descrição dela: 

Religião, Ciência e Política 

A Religião explica o mundo pela fé. 
A Ciência explica o mundo pela razão. 
A Política controla o mundo. 

Se você quiser convencer o outro que sua religião é verdadeira, precisa viver de maneira tão absolutamente santificada, irradiar tanta paz, felicidade e contentamento, que os outros venham lhe perguntar como alcançou este patamar; somente então deve explicar como obteve tal Graça. 

Se você quiser convencer o outro que sua afirmação é verdadeira, precisa argumentar de modo tão lógico, coerente e baseado em dados cientificamente válidos, que os outros venham lhe perguntar quais os fundamentos de seus argumentos; somente então deve explicar como obteve tal Conhecimento. 

Se você quiser influir positivamente no destino da sociedade e do planeta, precisa participar na vida social e política de modo tão estimulante, construtivo e agregador, que os outros venham lhe perguntar como contribuir; somente então deve explicar como obteve tal Habilidade. 

Hoje eu acrescentaria um parágrafo sobre a economia:

Economia

Se você quiser produzir segurança material e conforto para a sociedade, precisa produzir abundância de modo tão eficaz, socialmente benéfico e ecologicamente sustentável, que os outros venham lhe perguntar como produziu tanta riqueza; somente então deve explicar como obteve tal Capacidade. 

O fator fundamental nesta análise, entretanto, é a lógica de somente oferecer algo para quem já está interessado naquilo. Nada de bater na porta das pessoas na manhã de domingo perguntando se elas têm um tempo para conhecer Jesus. Nada de discutir biologia evolutiva com quem acha que a Terra tem cerca de seis mil anos e que não reconhece que não passa de um macaco falante. Nada de explicar a importância da organização e da mobilização em torno de um ideal para quem só se interessa por futebol e novela. Nada de oferecer lanche grátis para quem não demonstra interesse em se qualificar para obter melhor qualidade de vida. E nada de escrever para quem não está interessado na visão de mundo ou nos argumentos do autor. 

Eu sou um iluminista, um radical de centro, um vanguardista. Porém, quando eu comecei a escrever aquele artigo pela sexta vez, eu percebi que não estava escrevendo para iluministas, centristas e vanguardistas. No fundo eu estava escrevendo focado inconscientemente em ser lido ou pelos inimigos destas posições, para tentar incomodá-los, ou pelos que a desconhecem, para tentar convencê-los, conforme a versão do artigo. É muito difícil evitar isso, pelo mesmo motivo que torna muito difícil debater um assunto com quem concorda plenamente conosco.

Talvez eu deva me concentrar mais apenas em me manter no terreno mais alto. O resto será conseqüência. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 11/07/2015 

 

Uma pequena mudança no blog

Os primeiros cinco anos do blog foram muito intensos. Nos últimos doze meses, todavia, os rascunhos se acumularam e as postagens diminuíram de freqüência. Isso é sinal de que algo precisa mudar se eu quiser manter o blog funcionando. Suponho ter encontrado uma fórmula razoável.

Uma pequena mudança

Eu achava que minha queda de produção se devia à depressão que me acometeu nos anos de 2012 a 2014, mas percebi que não: primeiro porque a minha produção até a metade de 2014 foi intensa, segundo porque desde o início de 2015 minha produção não aumentou apesar de eu ter me recuperado muito bem graças à dieta paleolítica de baixo carboidrato (e agora pretendo atingir um patamar superior de vitalidade e disposição com um tipo de exercício físico “maluco” que todo mundo está dizendo que vai me matar, assim como disseram que a minha dieta “maluca” ia me matar, mas isso é assunto para outro artigo).

Se minha queda de produção não teve correlação com minha saúde, então qual seria o problema? Parei para pensar no que poderia estar me afetando e lembrei de conferir a data de um certo artigo. Bingo.

A real é esta: muito da energia que eu tinha para escrever se devia à esperança de construir um projeto político iluminista para o Brasil. Quando caiu a ficha de uma vez por todas que um projeto político iluminista nacional não tem a menor chance de progredir no Brasil, uma imensa república de bananas, subdesenvolvida e totalmente dominada por mentalidades obscurantistas e corrupção, o desânimo me venceu.

Por sorte eu sou biólogo.

Eu não deixei de acreditar no iluminismo, eu deixei de acreditar em um projeto político iluminista para o Brasil. Há uma grande diferença entre uma coisa e outra. Macacos iluministas continuam a ser interessantes e representam uma ilha de sanidade em meio a um oceano de macacos obscurantistas. 😉

Além disso, nossa velha amiga seleção natural vai resolver o problema, de um jeito ou de outro. Considerando o desastroso panorama cultural do Brasil, ser iluminista hoje se resume a pouco mais que ser um sobrevivente. Pelo menos até que eu tenha um novo surto de salvação de mundo, é isso que eu pretendo fazer.

Isso nos traz de volta ao problema da produção do blog.

Eu sou um iluminista. E eu gosto de política. Seria impossível contrariar minha natureza e passar a tratar de futilidades no blog. Portanto, eu vou continuar escrevendo bastante sobre política – mas vou mudar a estratégia. Para que o blog volte a um nível mais interessante de atividade, vou acrescentar uma boa pitada de colunismo político ao Pensar Não Dói.

Vejam bem: o Pensar Não Dói nunca foi, não é e nunca será um blog sobre política. Política é apenas o assunto sobre o qual eu mais escrevo. E isso vai continuar assim. A diferença é que o Pensar Não Dói só tratava da política obscurantista mundana como exceção, preferindo ater-se ao debate de princípios, e agora eu pretendo escrever um pouco mais sobre atualidades da política.

A maioria dos artigos do Pensar Não Dói era relativamente atemporal. A partir daqui, uma proporção maior acabará por ficar datada, mas eu espero que isso me permita manter o blog ativo ao mesmo tempo em que escrevo os artigos do estilo tradicional com mais tranquilidade, sem pressa para publicar só porque o blog está há dias sem artigos novos. Acho que é um preço pequeno a pagar para revitalizar o blog.

Palpites?

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/07/2015