Adicione

Pensar Não Dói no Facebook Pensar Não Dói no Twitter Pensar Não Dói no Orkut

Leia os artigos no e-mail:

Siga o blog

Antitérmicos para a febre planetária

Se você tem febre, a primeira medicação que usa normalmente é um antitérmico. Se a febre sumir e não voltar, é porque foi só “uma coisinha passageira”. Mas e se a febre não sumir? Ou se ela sumir e voltar? Você vai usar mais antitérmico? 

Torneira pingando no balde

Se você insistir em usar mais antitérmico para combater uma febre que não sumiu, ou que sumiu e voltou, você até pode se sentir melhor por algum tempo… Mas a causa da febre não terá sido combatida.

Se for uma infecção, ela vai continuar crescendo mesmo durante o período em que você estiver se sentindo melhor porque o antitérmico ainda estará fazendo efeito.

O problema é que, com uma infecção piorando sem tratamento adequado, dirigido às causas da infecção, logo vai chegar uma hora em que o antitérmico não ajudará mais.

Isso é exatamente o que está sendo feito em relação às alterações climáticas que o ser humano está provocando.

As presentes alterações climáticas são causadas principalmente pelo consumo de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, que por sua vez são constantemente ampliados pela expansão de uma economia insustentável baseada em combustíveis não renováveis e pelo aumento da população humana. 

Ao invés de fazer o que tem que ser feito – atacar as causas ao invés de apenas combater os sintomas – a humanidade está se comportando em relação ao aquecimento global do mesmo modo que alguém que, estando com febre, insiste em tomar antitérmicos, sem combater a infecção subjacente.

E os resultados serão os mesmos.

Eu assisti em um telejornal uma razoável explicação sobre os motivos da seca em São Paulo e outras regiões do Brasil. Muito adequadamente foram citados o aquecimento global – que eu prefiro chamar de desestabilização climática, porque é disso que realmente se trata – e o desmatamento na amazônia. Além, é claro, no caso específico das cidades, do efeito dramático da substituição de vegetação por concreto. 

Ao final da edição do tal telejornal, todavia, a apresentadora disse que na edição do dia seguinte seriam apresentadas as obras que estão sendo planejadas para lidar com o problema, que afeta principalmente os setores da energia, que no Brasil depende principalmente de hidrelétricas, e da agricultura, que obviamente sempre depende de água. E na mesma edição já mostraram plantas derivadas de engenharia genética com maior resistência à seca. 

Mas peraí. 

Eles não tinham acabado de dizer que as causas do problema eram o aquecimento global, o desmatamento da amazônia e a substituição da vegetação por concreto? 

Como então as soluções poderiam ser mais obras e engenharia genética? 

Isso é antitérmico planetário, só adia e piora o problema. Para acabar com a infecção é necessário combater suas causas: parar de produzir e de consumir combustíveis fósseis, parar com o desmatamento e recuperar áreas já desmatadas na amazônia e desconverter uma boa parte do concreto urbano transformando-as em áreas vegetadas, inclusive com – mas não se limitando à – tecnologia de telhados verdes. 

Se a torneira que enche um balde começa a fechar, depositando cada vez menos água, não adianta aumentar o tamanho do balde para reter mais água, nem colocar o balde na sombra para evaporar menos água, nem as duas coisas juntas. Estas medidas são paliativas e no máximo podem ajudar por um curto intervalo de tempo até que a torneira volte a depositar a mesma quantidade de água de sempre. Se o problema que afeta a torneira não for corrigido, em breve o balde vai secar, pouco importa o quanto sua eficácia e eficiência em guardar água sejam aprimoradas. 

Sim, devem ser construídas novas barragens para estocar mais alguns bilhões de litros de água. É bom ter um balde maior para o caso de a torneira entupir de vez em quando. Mas não há tamanho de balde que resolva o problema se a torneira secar. E as alternativas para buscar água para o abastecimento urbano, para a produção de energia e para a produção agrícola são sempre cada vez mais caras, mais difíceis, mais poluentes e mais perigosas. 

Prevenir é melhor do que remediar. 

E remediar do jeito certo é melhor do que se iludir com paliativos. 

A menos, é claro, que não nos importemos de fato com o paciente. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/11/2014 

As enchentes e a estupidez

Devido às últimas enchentes, milhares de pessoas ficaram desabrigadas e perderam e tudo que tinham em casa e algumas dezenas de municípios decretaram estado de emergência ou de calamidade pública. Eu olho tudo isso e só consigo pensar “que imensa estupidez”. 

Clique na foto para abri-la maior em outra janela.

Clique na foto para abri-la maior em outra janela.

Eu sei que eu já tratei disso antes, mas… 

Para mim é sempre impressionante o quão imenso pode ser o grau de estupidez das pessoas, individual ou coletivamente. Toda vez que acontece uma enchente eu já saio de perto da TV e dos jornais porque eu sei que vou querer escrever outro artigo sobre a incomensurabilidade da estupidez. Isso significa que provavelmente uma vez por ano, pelo resto da minha vida, eu vou escrever uma nova versão deste mesmo artigo. 

Bem, vamos lá. 

Só para citar uma referência que pode ser facilmente conferida na internet, a agricultura surgiu há mais de dez mil anos. E todo povo agricultor sempre observou com atenção e interesse os ciclos anuais de insolação, temperatura e precipitação pluviométrica de sua região. Ano após ano, geração após geração, o conhecimento sobre os ciclos da natureza foi transmitido e mantido vivo pelos agricultores, pecuaristas, pescadores, marinheiros e outras profissões que dependem diretamente de uma razoável previsão do tempo. 

Modernamente, qualquer estudante de primeiro ano de meteorologia, climatologia, geologia, geografia, biologia, ecologia, engenharia civil, engenharia ambiental ou qualquer outro curso da área das ciências ambientais conhece o básico sobre os ciclos biogeológicos. 

Saber qual é o período das chuvas, qual a quantidade média de precipitação que ocorre em cada mês e conhecer as amplitudes que as cheias e as secas costumam atingir a cada ano, a cada década e a cada século é o be-a-bá de todas as atividades e áreas do conhecimento citadas. É conhecimento registrado, acumulado e transmitido há milênios. 

E no entanto há gente estúpida que já perdeu a geladeira, o fogão e todos os móveis de casa quatro ou cinco vezes na última década. 

E no entanto há gestores públicos com décadas de atuação e nunca nenhum deles modifica nada na gestão pública para evitar tragédias durantes os períodos de enchentes ou de secas. 

Santa Catarina está embaixo d’água, São Paulo está enfrentando racionamento d’água. Isso quarenta e cinco anos depois de sabermos que, querendo, conseguimos até mesmo colocar um homem a caminhar na lua e voltar são e salvo. Isso é uma vergonha. Isso é uma ridícula vergonha. 

Sabemos onde vai acontecer uma enchente ou uma seca dez vezes piores que as atuais nos próximos cem ou duzentos anos com certeza mais do que suficiente para nos prevenirmos de modo eficaz. 

Temos tecnologia para remover uma cidade e reconstruí-la com muito melhor planejamento urbano em lugares muito mais seguros. 

Temos mão-de-obra e material de construção para garantir uma casa segura, ampla e confortável para cada habitante do planeta. 

Como então temos milhares de desabrigados e dezenas de municípios em estado de emergência ou de calamidade pública?

Simples: ESTUPIDEZ. 

Eu gostaria de acreditar que a resposta estivesse em alguma teoria social mais complexa, claro. Mas a mesma estupidez já foi encenada pelos babilônios, pelos rapa nui, pelos incas, pelos maias, pelos astecas e por dezenas de outras civilizações cujos nomes não vou me dar o trabalho de pesquisar porque você já entendeu a idéia e sabe que são muitas mais. 

Todas estas civilizações cometeram a mesma estupidez que as civilizações atuais estão cometendo. Igualzinho, do mesmíssimo jeito. Fico imaginando se, entre elas, também havia indivíduos que tinham consciência das conseqüências sistêmicas do modelo de desenvolvimento de suas civilizações, se eles também tentavam alertar os outros e se também eram chamados de nerds, alarmistas e arautos do apocalipse, do ragnarok ou de como quer que se chamasse a versão maluca de fim de mundo dominante em sua cultura. Acho que sim. E prevejo a repetição desta história, desta vez em escala planetária, sem que praticamente nenhum povo aprenda nada com as desgraças acontecendo por todo o planeta bem na sua frente. 

Os babilonerds, rapanerds, incanerds e quejandos devem ter repetido à exaustão: “meu avô contava que no tempo do avô dele houve uma seca que durou três anos e que matou mais de metade das pessoas do povoado dele, então nós deveríamos ter um grande sistema de reservatórios de água que nos prevenisse de uma seca tão prolongada”. 

E os cidadãos da época respondiam: “ô meu, pára com essas maluquices, toma aí uma ceva e vem ver o sacrifício anual da virgem ao deus da chuva, tá o maior barato, muita faca, muito sangue, showzaço!”. Ou algo assim. 

E a civilização ia crescendo, e os ecologinerds e meteorologinerds avisando, e os sacerdotes do deus da chuva recolhendo oferendas e dizendo que esse papo de reservatórios era coisa do demônio, que o deus da chuva não aprovava, e os monarcas e detentores de riquezas e escravos enchendo os bolsos das túnicas de moedas de ouro, e os cidadãos comuns mandando os nerds irem pegar uma virgem antes que o deus da chuva ou algum de seus sagrados representantes o fizesse. 

Até que um dia o deus da chuva pegava um El Niño, tinha que fugir do processo e se esconder até a prescrição, e lá se ia uma civilização por água abaixo – ou torrada na seca.

No mínimo alguns milhares ficavam desabrigados, perdiam tudo o que tinham ou mesmo morriam em anos em que os ciclos da natureza apresentassem flutuações atípicas, distantes das médias anuais, mas perfeitamente previsíveis (ou relembráveis) no longo prazo. 

Eventos previsíveis geravam tragédias imensas. É muita estupidez. 

E sabem o que é mais estúpido? NADA MUDOU. Isso está se repetindo HOJE e vai se repetir muitas e muitas vezes ainda, num absurdo ciclo de estupidez e sofrimento evitável. 

Nos próximos anos veremos na TV novas notícias de tragédias com milhares de desabrigados e dezenas ou centenas de mortos em deslizamentos de terras em morros, veremos na TV histórias pungentes de casas, carros e pertences pessoais perdidos, veremos na TV pedidos de doações urgentes para pessoas alojadas emergencialmente em estádios de futebol, ginásios desportivos, escolas e igrejas, veremos na TV discursos de políticos dizendo que todas as medidas possíveis estão sendo tomadas… 

Tudo do mesmo jeito que vimos acontecer na primeira década do século XXI, na década de 1990, na década de 1980, na década de 1970, na década de 1960, na década de 1950… 

E isso se repetirá na década de 2020, na de 2030, na de 2040 e em muitas outras, e alguém sempre dirá que algo tem que ser feito, e os pajéconomistas vão declarar que os hereges devem ser sacrificados e que mais liberdade para arrebentar o mundo e mais acumulação de capital na mão de alguns são medidas que resolverão sem dúvida o problema, e os perdedores do jogo de acumulação vão dizer que programa-bolsa-enchente, cotas para os desabrigados pluviométricos morarem nas casas dos privilegiados orográficos e o fim do preconceito contra os portadores de história de sofrimento meteorológico é que solucionarão o problema, e como nada disso é solução pra nada eu terei um artigo previsível para publicar todos os anos até o fim da minha vida. 

Antes eu me preocupava e me estressava muito mais do que os próprios atingidos. Agora eu voltei a escrever um blog

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 30/06/2014 

O paradoxo antártico

Saiu no Washington Post: “O gelo no mar antártico cresceu até uma extensão recorde pelo segundo ano consecutivo, desconcertando os cientistas que estão tentando entender por que o gelo está se expandindo ao invés de encolher em um mundo que está se aquecendo.”

Ei! Peraí! Acho que existe uma explicação simples para isso! 

Gelo na Antártida

[Ler texto completo]

CNPND: NASA diz que estudo não é dela

Depois que o mundo inteiro noticiou que um relatório da NASA alerta sobre o risco de colapso da civilização, vem a NASA e diz que o relatório não é dela, foi “apenas” realizado com ferramentas desenvolvidas por ela. 

[Ler texto completo]

CNPND: Brazilian energy: rain-checked

O Brasil corre o risco de uma grave crise no setor elétrico. A matéria abaixo, em inglês, é do site do jornal THE ECONOMIST. Enjoy. 

Seca

[Ler texto completo]

CNPND: Novo relatório deixa claro: estamos em perigo e precisamos parar o aquecimento global

Relatório de equipe de cientistas liderada por Prêmio Nobel alerta para a gravidade das mudanças climáticas e o preocupante desconhecimento do público sobre o problema. Redução urgente das emissões de carbono é a principal medida necessária para evitar catástrofe climática. 

[Ler texto completo]

NASA prevê colapso da civilização – ou: Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse!

Poucas coisas podem ser mais frustrantes do que ver aquilo que se sabe com certeza há mais de 30 anos ser finalmente divulgado como “possibilidade preocupante” e mesmo assim ninguém dar a menor atenção. 

Avestruzes

[Ler texto completo]

Saúde ou árvores?

Fico pasmo ao constatar quão pouco progresso houve na consciência ambiental mesmo depois de mais de meio século de movimento ambientalista, mesmo tendo a Grande Porto Alegre abrigado a vanguarda deste movimento no Brasil, com José Lutzemberger, Augusto Carneiro, Henrique Roessler, Carlos Aveline, Magda Renner, Hilda Zimmerman e outros. 

Hospital de Clínicas 500

[Ler texto completo]

Arnold Schwarzenegger fala sobre o sucesso

Eu sou um radical de centro na política. Foi muito interessante descobrir que, embora um pouco menos radical que eu, Arnold Schwarzenegger também é um político centrista. Eu e ele partilhamos muitas posições políticas. Recomendo a leitura destes trechos selecionados da autobiografia dele. 
Arnold

[Ler texto completo]

31°C às 03:00

Um único evento climático não significa nada em termos de mudança climática, faço questão de sublinhar desde o primeiro momento. Mas, se o calor dos últimos dias é uma amostra do que está por vir, então de repente a Sibéria começou a me parecer muito convidativa. 

Calor demais para dormir

[Ler texto completo]