Do estupro ao linchamento

Toda esta celeuma em função do caso Mariana Ferrer acabou levando, quem diria, à demissão do Rodrigo Constantino da Jovem Pan e da Record e a um verdadeiro linchamento virtual do sujeito. Aproveito a ocasião para trazer uma reflexão a este abandonado blog.

1. Quem está dizendo que ele fez “apologia à violência contra a mulher” está dizendo bobagem. Não foi isso o que ele disse e não passou nem perto disso. O problema foi outro, bem grave, que eu comento no item 3. Mas fique atento, porque o item 5 é o ponto central deste artigo e é muito mais importante.

2. Eu reuni as falas dele de dois sites:

No UOL tem este trecho: “Se minha filha chegar em casa, isola [ele bate na madeira]… Mas se a minha filha chegar em casa –e eu dou boa educação para que isso não aconteça, mas a gente nunca controla tudo–, se ela chegar em casa um dia dizendo: ‘Pai, fui para uma festinha, ah, fui estuprada’. [Eu perguntaria]: ‘Me dá as circunstâncias’. ‘Ah, fui para uma festinha, eu e três amigas, tinha 18 homens, nós bebemos muito e eu estava ficando com dois caras, e eu acabei dormindo lá e eu fui abusada’.” (link)

Na IstoÉ tem este trecho: ““Ela vai ficar de castigo feio, eu não vou denunciar um cara desses para a polícia, eu vou dar esporro na minha filha, que alguma coisa ali ela errou feio e eu devo ter errado… Para ela agir assim!”, declarou o jornalista. Rodrigo continua: “É um comportamento absolutamente condenável, só que a gente não pode falar mais essas coisas hoje em dia. Existe mulher decente também ou piranha. Não existe a ideia de mulher decente? As feministas querem que não [exista a ideia]”, diz.” (link)

Então, claramente não houve “apologia à violência contra a mulher”, porque ele nem sequer estava falando a respeito do ato cometido pelo abusador, ele estava comentando o que ele considera ser o erro de quem se coloca na situação que ele descreve – uma situação de promiscuidade e vulnerabilidade que ele considera que deve ser evitada.

3. O problema maior da declaração do Rodrigo Constantino, e isso deveria ser óbvio, não é o fato de ele reprovar o comportamento promíscuo e a sujeição voluntária a situações de vulnerabilidade facilmente evitáveis. O problema é que, ao dizer que “eu não vou denunciar um cara desses para a polícia, eu vou dar esporro na minha filha, que alguma coisa ali ela errou feio” é que ele retira a responsabilidade do crime da pessoa que cometeu o abuso para colocar na pessoa que sofreu o abuso! E isso, convenhamos, além de injusto e juridicamente incorreto, é patético!

É óbvio que todos temos que tomar cuidado para não nos colocarmos em situações de vulnerabilidade. Você sai sozinho a pé, com dinheiro na mão, abanando aos quatro ventos, em locais ermos onde sabidamente existe alta criminalidade? Não, né? Você nem sequer dirige sem cinto de segurança, porque sabe que precisa se proteger tanto dos acidentes quanto das multas. Você toma medidas de segurança todos os dias, desde amarrar o cadarço dos tênis até usar máscara para se proteger do SARS-CoV-2. Você sabe que não adianta dizer para o vírus que você “tem o direito constitucional à saúde”, porque o vírus não está nem aí para os seus direitos – assim como os agressores, os ladrões, os abusadores sexuais, os homicidas e todo tipo de criminosos não estão nem aí para os seus direitos. Você sabe que precisa tomar cuidado.

Se você sabe tudo isso, você compreende perfeitamente que o problema da fala do Rodrigo Constantino não é a parte em que ele diz que, naquele exemplo hipotético, a filha dele não deveria se expor a tamanho risco. Isso é óbvio: ela não deveria, mesmo, porque ali pode ter alguém com COVID-19, ali pode ter algum ladrão, ali pode ter um abusador sexual e ali pode ter um assassino. O exemplo critica uma mancada – e essa mancada não tem nada a ver com moralidade e sim com falta de senso de segurança, com uma falha grave em sua estratégia de autopreservação. O problema da fala do Rodrigo Constantino foi a aberração de retirar a responsabilidade do crime do perpetrador e colocar a responsabilidade do crime na vítima.

4. Esta não é uma reflexão sobre moralidade, nem pode ser levada para este lado. Além de intolerante, essa postura seria contraproducente, porque desviaria as pessoas dos verdadeiros tópicos sobre os quais deveríamos estar discutindo: autopreservação, correta atribuição de responsabilidade pela própria segurança, correta atribuição de responsabilidade pela perpetração de crimes, racionalidade e razoabilidade das análises e legitimidade da atuação dos agentes públicos, que precisam, sim, ser responsabilizados por suas atitudes no exercício de suas atividades.

Se a pessoa daquele exemplo hipotético tivesse feito tudo o que o Rodrigo Constantino disse, porém com um segurança contratado para ficar sóbrio e garantir a segurança dela e dos bens dela, eu diria: OK, agora podem discutir o aspecto moral, pois ela está segura.

Se o Rodrigo Constantino naquele exemplo hipotético tivesse condenado veementemente o abusador, independentemente da questão da moralidade da vítima, eu diria: OK, agora podem discutir o aspecto moral, pois a responsabilidade quanto ao crime está clara e corretamente atribuída ao perpetrador, não à vítima.

5. Desgraçadamente, porém, quando rola um assunto desse tipo – assuntos que eu chamo de “desligadores de cérebro” – todo mundo para de pensar, para de raciocinar, para de ouvir, para tudo, e desembesta feito manada na direção de algum linchamento. E linchamentos, como a história tristemente mostra, muitas vezes cometem barbáries ainda piores que os crimes originais… Tanto contra culpados quanto contra inocentes.

Não interessa se o linchamento é do perpetrador de um crime bárbaro, de um canalha que se vendeu no exercício da profissão, de um imbecil que disse alguma coisa estúpida numa entrevista ou de um inocente hipotético que estava no lugar errado, na hora errada, ou foi confundido com alguém, ou foi mal compreendido. Tanto faz. O que interessa é que hoje em dia existe uma tendência abjeta de retorno aos linchamentos – factuais, profissionais, sociais ou morais – e essa aberração precisa ter fim o quanto antes. Temos que promover o exercício da razão e da sensatez, porque elas são as únicas coisas que nos protegem da nossa própria barbárie. E, você pode ter absoluta certeza, um ambiente de barbárie uma hora se volta contra cada um de nós, independentemente da atitude original de cada um.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 05/11/2020

P. S.: Só para deixar bem claro, já que teve quem questionasse… A minha opinião sobre o Rodrigo Constantino é muito ruim. O Rodrigo Constantino tem se estragado ano após ano, assumindo posições desumanas e abjetas tanto em relação à economia quanto em relação aos costumes. Minha análise se divide em dois momentos. No primeiro momento, procura separar a parte do discurso dele que é óbvia (quando ele diz que a filha deve ter cuidado consigo mesmo) da parte do discurso dele que é ideologicamente pervertida e voltada para atiçar sua pior plateia (quando ele diz que não denunciaria o abusador). No segundo momento, procura chamar a atenção para a necessidade de usar a razão e a sensatez perante qualquer acontecimento com forte conteúdo emocional, pois estamos em uma época em que gente demais acha que a primeira emoção que sente é suficiente para determinar com precisão tudo o que aconteceu no mundo, julgar com correção e até executar sua própria sentença com suas próprias mãos. Tenha discernimento. Pensar Não Dói.